Ultra Carnem
Capítulo 21
Nôa ralou as costas enquanto passava pela abertura estreita e também tropeçou em um pedaço de madeira que havia pelo caminho. Quando conseguiu se reerguer do tombo, notou que a reforma demoraria outro século para terminar. Ao contrário do que esperava, boa parte da igreja estava praticamente intacta. Havia plásticos protegendo as imagens dos santos, mais daquele tecido de náilon sobre o altar, os bancos estavam recuados no lado oposto por onde entrara. Pelo chão e por cima de tudo que via, repousava uma camada de poeira de pelo menos dois milímetros. O ar cheirava mal, estava viciado, mortalmente parado, o que fez seu corpo ansioso começar a transpirar logo. Ele viraria uma sopa de poeira em minutos, mas nada disso o incomodaria mais do que ter permanecido do lado de fora.
Empolgado por essa ideia, avançou em direção ao altar.
O eco dos passos começou a brincar com ele. Os sons se repetiam como se botas invisíveis estivessem camufladas pelo barulho. A sensação de estar sendo observado crescia a cada metro. Nôa começou a lançar os olhos às suas costas e também para as grossas colunas de sustentação do teto, espessas o bastante para esconder duas pessoas. Nos vitrais, os anjos olhavam para ele, perdidos entre azuis e vermelhos nublados pela poeira. Nôa andou mais rápido e cinco passos o levaram até o altar.
No canto esquerdo, encontrou o patrono da igreja. Matias o encarava, a única estátua desprotegida da nave. Continuou estudando o altar. Tudo estava coberto além da estátua do santo. O tecido se emaranhava, formava ondulações, dando a impressão que alguém se escondia entre o náilon. Nôa começou a tocá-lo para ter certeza, também buscando uma abertura por onde pudesse atravessar. Havia um rasgo no tecido pouco depois da metade da extensão do altar. Conseguiria passar com folga. Talvez encontrasse algo de Lester escondido depois da cortina, subestimado e desprezado em algum canto. Energizado por essa ideia, o rapaz tocou o tecido e separou suas partes.
— O que está fazendo aqui dentro? — alguém perguntou às suas costas.
Nôa girou o corpo tão depressa que perdeu o equilíbrio. Conseguiu recuperá-lo se agarrando ao tecido que ainda mantinha enrolado em suas mãos. Um bando de pombos voou sobre ele — Nôa não conseguiu vê-los, mas o farfalhar de suas asas pareceu perigoso. Os pombos arrulharam e se foram enquanto Nôa continuava cego, enroscado em uma parte do tecido que desceu sobre ele. Ouvia passos se aproximando cada vez mais rápido. Seu coração batia no mesmo ritmo. De repente a ideia de um policial vindo prendê-lo parecia quase sedutora. Sim, porque talvez houvesse mais gente interessada nos prodígios de Wladimir Lester: homens com dinheiro, armas e quase nenhuma paciência.
Quando conseguiu desvencilhar o tecido de seu rosto, se deparou com um homem claro, de cabelos espetados e olhos pequenos. Devia ter quarenta anos, apesar da roupa social que o armava com alguns anos extras. O homem usava uma camisa de um azul bem claro, que já tinha machas de suor sob os braços e no peito.
— Quem é você? — ele perguntou.
— Não sou um ladrão! Eu só estava dando uma olhada — Nôa respondeu. Tentava livrar os pés do tecido.
— Não tem muito para ver, estamos em reforma. O senhor pode se machucar feio aqui dentro, o teto não é seguro. Como, em nome de Deus, conseguiu entrar aqui? — O homem estendeu a mão direita para que Nôa pudesse se reerguer. Ele o fez e espanou a camisa e os cabelos cheios de pó. Só quando olhou para o homem pela segunda vez que notou algo em seu colarinho.
— Graças a Deus, padre. Pensei que o senhor fosse um… — Nôa terminou a frase antes que dissesse outra bobagem. — Estou de passagem pela cidade e resolvi dar uma olhada na igreja. Costumava vir aqui quando era criança, com o meu pai.
— Sabe o que dizem por aqui? É um ditado muito antigo na cidade. “Jamais comece uma conversa com uma mentira.” Não estou julgando você, senhor, mas invadir uma igreja condenada apenas para dar uma olhada me parece um risco desnecessário. E se concordar, nós podemos terminar nossa conversa do lado de fora, onde é mais seguro.
Nôa concordou e seguiu o padre até o outro lado da igreja. Entre as fileiras de bancos empilhados, formava-se um corredor. O padre seguiu por esse caminho e saiu por outra porta lateral da construção. Nôa foi logo atrás dele.
— Jesus Cristo, você está imundo!
— Não foi muito fácil entrar na igreja. Se eu soubesse que o senhor estava aqui, teria batido na porta. — Ele se debateu mais um pouco, principalmente nos cabelos que estavam brancos de poeira. — Meu nome é Nôa.
— Justino — disse o padre e estendeu sua mão. — Venha, vamos sentar em um dos bancos e terminar nossa conversa. Eu o chamaria para um café, mas do jeito que o senhor está… O povo daqui teria assunto para uma semana.
Caminharam pela pequena praça aos fundos da igreja. Justino preferiu escolher um banco mais distante, que ficava em frente a uma fonte luminosa desativada. Sentaram-se. Nôa não sabia o que dizer. O padre fez as honras mais uma vez.
— O que pretendia encontrar em uma igreja fechada, Nôa?
— Sou um historiador, padre. Devo estar parecendo um bêbado, mas, dessa vez, digo a verdade. Venho de Três Rios. Minhas pesquisas me trouxeram até essa igreja. É uma pena que esteja nesse estado.
— A fé se encontra em estado parecido. Muitos homens abandonaram nosso Criador, e as igrejas tiveram a mesma sorte. Essa catedral, por exemplo, está fechada há anos. Ainda estamos tentando levantar o dinheiro necessário para terminar a reforma, mas o que vem dos bingos beneficentes mal paga a areia do cimento. O senhor disse que era um historiador? De que área, exatamente?
— É um pouco complicado de explicar. O fato de eu estar em uma igreja católica não tem muita relação com meus estudos. Minha especialidade são ciganos; obras de arte ciganas, sendo mais específico. Há anos pesquiso sobre um menino, seu nome era Wladimir Lester, talvez já tenha ouvido falar dele.
Justino levou as mãos ao ventre e as depositou no colo.
— Acho que todo mundo da região já ouviu falar dele. Era o menino artista, estou certo? Dizem que pintava quadros e que eles tinham algum tipo de poder. Li algo sobre ele durante meu seminário, nada que valha a pena ser comentado. Mas o que o menino tem a ver com a igreja de São Matias? Pelo que sei, a maioria dos ciganos é politeísta, e boa parte deles sequer crê no cristianismo.
— Um dos itens que consegui recuperar da antiga tribo de Lester é um diário de uma mulher chamada Sarah. Ela menciona essa igreja em uma nota de rodapé. — Nôa pigarreou ao dizer isso.
Justino deixou um sorrisinho brotar em seus lábios. Alguém que limpa a garganta durante uma conversa costuma estar mentindo. Qualquer um que tenha se sentado do lado mais seguro de um confessionário sabe disso. Ainda assim, ele não desencorajou Nôa — mentirosos também costumam ter a língua bem solta.
— Não existe nada nessa igreja que faça referência ao menino cigano. Estou aqui desde que me ordenei padre. Ministrei missas, fiz batizados e casamentos e conheço cada ladrilho dessa igreja. A peça mais antiga daqui é a estátua de nosso patrono. E ela veio para igreja em 1958. Pobre São Matias, acredita que eles vão trocar a estátua?
— Notei que ela estava desprotegida. — Nôa deixou os olhos se perderem no céu cinzento. Seus ombros caíram, ele soltou um suspiro de dar pena. Então era só isso? Toda aquela correria, tudo o que fez… A abnegação do relacionamento com Liza, os riscos em roubar comerciantes e padres, tudo em vão.
— Depois do seminário, ouvi falar uma vez só sobre o menino cigano.
— E não vai poder me dizer por se tratar de uma confissão, estou certo?
— Em parte — concordou Justino. — Há três anos, alguém me procurou. Um forasteiro, igualzinho ao senhor. Ele também me perguntou sobre o menino cigano, dei a ele as mesmas respostas que você ouviu. O homem parecia profundamente atormentado. Alguém próximo a ele teria se deparado com um dos quadros do menino. Pelo que compreendi, a pessoa perdeu o juízo. Infelizmente, o mesmo aconteceu com aquele estranho. Dois dias depois, ele foi encontrado bem aqui — o padre apontou para a igreja. — Estava deitado em frente ao altar, com os braços estendidos e salivando muito. Que eu saiba, o pobre homem nunca mais falou uma palavra desde então. Mas se quiser se encontrar com ele mesmo assim, posso passar o endereço.
— Ele está aqui? Em Acácias?
O padre Justino apanhou um bloquinho de anotações e uma caneta no bolso e começou a escrever algo. Quando terminou, destacou a folha e estendeu o papel timbrado com uma cruz a Nôa.
— O endereço é de uma clínica de repouso mantida pela prefeitura. Eu não daria esse papel a você, mas nenhum dos médicos da clínica conseguiu fazer progressos com o pobre homem. Talvez o senhor possa trazê-lo de volta. Se conseguisse que ele se reintegrasse ao mundo real seria maravilhoso. Vocês têm um interesse em comum, afinal, foi a lenda do menino cigano que os trouxe a Acácias.
— Não sei como agradecê-lo — Nôa disse.
— Eu tenho uma ideia. Caso um dia consiga dinheiro com suas pesquisas, pode nos ajudar com a reforma da igreja. E também espero que ajude o homem que vai visitar. Pelo pouco que conversamos, ele me pareceu uma boa pessoa, foi uma pena vê-lo reduzido a um vegetal. Os médicos não sabem muito sobre seu estado, parece que ele simplesmente desistiu de viver em nosso mundo, como um autista voluntário.
— Preciso pedir outro favor, padre. Na verdade, dois.
— Estou ouvindo…
— Preciso de um lugar para me hospedar. E, pelo amor de Deus, onde posso tomar um banho?