Ultra Carnem

César Bravo · Capítulo 33 de 105

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Ultra Carnem

Capítulo 13

 

Não importa o que digam sobre ansiedade e senso de urgência, depois de um dia difícil, o que um homem precisa é de uma cerveja. Foi por esse motivo que, depois de um rápido banho, Nôa desceu as escadas e acabou em uma padaria minúscula, a dois quarteirões do hotel.

Como tudo que cercava o bairro, a padaria era basicamente um retrato da periferia. Um único caixa, uma garota carregada de cansaço esperando os raros clientes, uma dona mal-humorada que lia uma revista ao lado e tentava se lembrar de quando suas pernas pesavam menos que uma criança de 12 anos. Nôa passou por elas e foi até o freezer. Apanhou uma cerveja que tomaria ali mesmo. Sentaria no balcão gasto e assistiria à TV , sem ouvir nada do que o mundo dizia.

— Posso beber aqui? — perguntou, com a educação que ninguém ali costumava ver. A mulher de cabelos na altura dos ombros e com raízes brancas deu de ombros.

Nôa sentou em um banquinho de madeira e retirou o lacre da latinha. Ah, aquele som. Era como ver mágica pela primeira vez.

Do outro lado do balcão, avistou alguns copos disponíveis, mas a boca da latinha devia estar mais limpa. Nôa sorveu o primeiro gole exercendo o prazer máximo de seu dia. Não bebia há algum tempo. Quando ainda produzia algo melhor que frustração em óleo, o álcool costumava limitar sua criatividade. Agora não tinha problema. Não estava nem perto de pintar algo novo, não até que conseguisse descobrir tudo sobre o garoto. Ainda que não encontrasse sua fonte de inspiração, Nôa estudava novas possibilidades. Quanto valeria um único quadro daquele bastardinho? Nos círculos certos, apostava em alguns milhares de reais. Ele riu de si mesmo. Reais? Francamente. Qualquer idiota pensaria em dólares.

— Meio cedo para cervejas, hã? — disse alguém à suas costas.

Nôa puxou a mochila para frente antes de descobrir quem era. Suas melhores opções? Um bando de freis com porretes nas mãos ou alguém a mando de Liza — ela poderia rastreá-lo pelo celular, era bastante esperta para isso.

— Estou com sede — Nôa respondeu.

O sujeito atrás dele caminhou até o freezer. Nôa aproveitou para dar uma olhada.

Era só um rapaz. Não aparentava mais de trinta anos. Usava uma jaqueta de couro quente demais para o dia, botas do mesmo material, um jeans claro e rasgado nos joelhos. A primeira impressão de Nôa é que o homem estava tão perdido naquele bairro quanto ele.

— Posso? — perguntou o sujeito, olhando para um segundo assento de madeira.

Foi a vez de Nôa dar de ombros, fingindo gostar mais da TV .

O aparelho escorado em um suporte velho falava sobre a crise na economia. Também da guerra entre os partidos, da crise implantada por eles mesmos e de todas as previsões catastróficas para os próximos seis meses.

— A televisão me dá tédio. Quando foi que o mundo virou essa merda? — indagou o rapaz. Seu hálito fresco não passou despercebido por Nôa, cheirava a alcaçuz. — Não faz muito tempo que ninguém precisava desse aparelho estúpido para passar o tempo — continuou.

— Estamos perto de conseguir isso outra vez — disse Nôa. — A internet é mais interessante. — Um gole. — E diz menos mentiras.

— Você é novo por aqui. Eu venho nessa padaria às vezes, a cerveja está sempre gelada e a dona é durona. Isso afasta os vagabundos.

— Nem sempre — Nôa comentou cinicamente.

Continuaram com as cervejas, a mulher gorda trouxe um pratinho com amendoins para estimular os dois homens a continuarem bebendo. Nôa consumia sua lata depressa, tentando acabar logo e se livrar daquele cara.

— Você não tem uma arma na mochila, certo? Não é desses malucos que saem por aí matando os outros porque estão fodidos demais com as próprias vidas?

Dessa vez, Nôa não resistiu e deixou um sorriso mais largo escapar pelos dentes. Era a segunda vez que perguntavam isso a ele. Talvez, na terceira, devesse pensar em conseguir realizar as suposições da pessoa. A culpada estava logo ali em cima, vitrificada, enchendo a cabeça do povo de merda.

— Meu nome é Lúcio — disse o rapaz.

— Nôa — respondeu, estendendo a mão direita. O outro a apanhou. Tinha mãos finas, de quem não precisa ralar feito um condenado para usar uma jaqueta daquelas. Também era bonito, o rosto passava alguma tranquilidade, além de uma sensação de “não confie totalmente em mim”.

— Então, Nôa , o que está fazendo nesse glorioso bairro? Negócios ou farra?

— Farra? Com as putas daqui? — perguntou mais baixo. Mesmo assim, a dona do lugar olhou feio para ele. O rapaz esticou os dedos de uma maneira sutil que a fez voltar ao seu trabalho de não fazer nada. Ela se afastou deles e foi conversar algo com a menina do caixa.

— Eu não tenho nada a ver com isso. Foi só uma pergunta — disse o rapaz.

— Vim visitar um parente. Meu avô faleceu e estamos tendo problemas com a herança. Ele não tinha grande coisa, mas sabe como é…

— Dinheiro sempre traz problemas. Com ele ou sem ele, ninguém está satisfeito. Ele morreu de quê?

— Foi um incêndio — Nôa deixou escapar. Aquela foi a coisa mais imbecil que podia falar pela manhã, ainda mais imbecil que discutir com um padre e roubá-lo em seguida, mais imbecil que atender a uma ligação de uma mulher frustrada. Esperava que o tal Lúcio perguntasse detalhes, mas ele não o fez. Talvez porque não se interessasse, mas provavelmente por culpa de uma nova cliente que entrou na padaria. A mulher parecia estar procurando por Nôa, porque, assim que o viu, ela se aproximou. Tomou-o pelo braço e disse: — Deus tem um plano para você.

Nôa não soube como reagir, a mulher era aquela que disse a mesma frase mais cedo, pela manhã. Seus olhos esbugalhados, os cabelos trançados às costas. Dessa vez, no entanto, havia alguém para ajudá-lo. Lúcio se levantou.

— Some daqui, assombração! Leve suas palavras para alguém que se interesse por elas.

Com o grito, Nôa tornou a abraçar a mochila. O rapaz agora estava distante, certificando-se de que a beata tomaria o caminho da rua. Ela fez isso, mas antes se benzeu e pediu que Deus tivesse piedade da alma daquele homem. O bonitão riu, mostrando dentes brancos e rigorosamente alinhados.

— Esse bairro está cheio de crentes — disse a Nôa. — São uma praga. De repente você está se divertindo e uma aberração dessas se aproxima, como se o cara lá de cima detestasse o que ele mesmo colocou na raça humana. Mas diz para mim, o que tem dentro dessa mochila? Um bebê?

— Livros. Tudo o que eu não precisei disputar na justiça para receber do meu avô. Ele era um intelectual e um artista, um pintor.

— Caramba! Nesse bairro? Não sei como não ouvi falar dele.

Nôa se remexeu um pouco sobre o banco. Encheu a mão de amendoins e enfiou tudo na boca para mantê-la calada.

— Sabe, Nôa, eu respeito segredos. O que quer que esteja aí dentro é parte da história. Da sua, da minha, quem sabe de quem mais? Admiro um homem que sabe honrar os mortos e levar sua história adiante.

Nôa checou o relógio, lembrou que não podia ficar o dia todo tomando cerveja. Não ali, na rua, onde qualquer um poderia reconhecê-lo. E, ah, é claro que o estavam procurando.

— Preciso ir andando — levantou-se e deixou a mochila voltar para as costas. — Quanto eu devo? — perguntou à mulher que tomava conta do lugar.

— Eu cuido disso — respondeu o rapaz de jaqueta. — Faz tempo que não encontro boa conversa por aqui.

— Não posso aceitar, eu…

— Que tal um trato? Na próxima, você paga. Eu estou quase sempre por aqui, tomando minha cerveja e procurando alguém que não cheire como um rato de esgoto.

Nôa concordou e tomou o caminho da saída. Antes de ir embora, pediu outras cervejas e dois salgados, feitos no dia anterior, que estavam dentro de um aquecedor de vidro. Pagou por eles antes que o rapaz falante tentasse fazê-lo.