Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 7 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 3

 

No topo da Colina do Cavalo Vermelho, Loki estava passando por momentos difíceis. A Colina era uma fortaleza maravilhosa, mas tinha uma única e grande desvantagem. Ela ocultava um dos portais para o Mundo Subterrâneo, e os Faërie – goblins, demônios e às vezes coisas piores – foram atraídos de uma distância de cento e sessenta quilômetros.

Loki em geral podia lidar com isso. Sendo metade demônio, metade ele mesmo, tinha certa simpatia pelos goblins, seus pequenos primos da Colina. Sendo metade deus, podia geralmente lidar com trolls e outros estorvos, mesmo na condição presente, com Aspecto humano, com sua marca de runa ainda invertida. Mas quando uma efêmera abriu seu caminho através dos espaços entre os Mundos e convergiu para o alto da Colina do Cavalo Vermelho, Loki concluiu que era o bastante. Ele já havia salvo os Mundos uma vez. Não era sua tarefa salvá-los novamente.

Naturalmente, o portal por si só era uma fonte de poder. Mas ao menos que tivesse vontade de bancar o Rei da Colina para cada demônio extraviado que surgisse em seu caminho, ele teria que desistir de sua posição mais cedo ou mais tarde. Ao menos foi isso que passou por sua cabeça quando se posicionou no Olho da Colina do Cavalo Vermelho, arremessando runas sobre a monstruosidade que se erguia sobre ele.

Ela havia surgido do nada, como os outros. Os raios mentais de Loki mal haviam conseguido diminuir seus passos. Pairava a um metro e meio acima de sua cabeça, balançando olhos sonolentos sobre ele com suas presas gotejando veneno sobre seu rosto. Ele ergueu um braço para se proteger e pensou no que poderia ter feito algum dia para merecer ser vitimado desse jeito.

Naturalmente, ele havia se confrontado com monstros anteriormente, mas esse era uma coisa que não tinha lugar nos Mundos Médios; uma efêmera, uma coisa de sonhos, nascida do Sonho e obedecendo apenas à lógica do sonho. Não devia estar ali, Loki sabia. E, contudo, estava – e não era a primeira.

Ela se parecia com uma serpente com cabeça de mulher, embora Loki soubesse que ela poderia também ter facilmente surgido para ele como um lobo gigante, ou um palhaço mecânico, ou um enxame de vespas, ou qualquer outra forma dada a ela pelo sonhador de cujo sonho a criatura fora retirada.

Neste caso uma serpente.

Ele odiava serpentes.

Em seu verdadeiro Aspecto, com sua força magnética intacta, Loki poderia ter despachado a coisa facilmente. Tais coisas ainda eram possíveis no Sonho – e, naturalmente, em Asgard. Mas isso não era sonho, Loki sabia. E Asgard tombara havia muitos anos, deixando os deuses enfraquecidos, perdidos e privados da maior parte de seu poder.

Ele recuou da coisa o mais distante que pôde e procurou pela besta no seu cinto. Ao longo dos anos se acostumara a carregar armas comuns, e aquela fora útil em várias ocasiões. Não contra uma efêmera, claro. Mesmo assim, sempre há uma primeira vez, o Astuto pensou, e ergueu a arma pronta para disparar.

– O que é isssso? – perguntou a serpente, parecendo espantada.

Loki esboçou um sorriso confiante.

– Isto é Tyrfingr – disse ele. – A maior besta da Velha Era. O quê? Você não acha que os deuses iriam me deixar aqui sozinho sem proteção alguma, acha? Eles costumavam chamá-la de Tyrfingr, a Aniquiladora. Um presente do próprio Deus da Guerra. Se eu fosse você, sairia correndo para salvar sua pele.

A serpente deu de ombros onduladamente.

– Estou lhe avisando – disse Loki. – Um disparo disso, e você vira polvo frito.

A efêmera cuspiu um montinho de veneno que arrancou a besta das mãos de Loki e abriu com fogo um buraco esfumaçado no chão. Gotículas de veneno banharam Loki, e embora ele estivesse usando peles de inverno, o veneno passou queimando por suas luvas de pele de lobo e chamuscou o couro duro de seu casaco, penetrando em sua pele.

– Ai! Isso foi desnecessário!

– Conheço você, Assstuto – disse a serpente.

Loki praguejou e arremessou um punhado de pequenas e rápidas runas sobre a efêmera, girando-as pelo ar como ossos das juntas dos dedos. Entretanto, ele tinha pouca esperança de que elas fizessem o truque. Isa, o gelo, e Naudr, o Amarrador, poderiam deter seu objeto por um momento, mas quanto a afastá-lo…

Com toda a sua força, Loki lançou a Hagall sobre a criatura. Foi um bom lançamento, exigindo muito do magnetismo de Loki. Mas o raio mental atravessou diretamente o corpo da efêmera, iluminando seus órgãos internos num doentio clarão de cores em seu trajeto.

– É minha vez agora? – indagou a serpente.

– Quem a mandou? – perguntou Loki desesperadamente. – Quem sonhou você, e por que veio atrás de mim?

– Eu venho quando sou convocada, Assssstuto.

– Convocada? Por quem?

A efêmera sorriu e se aproximou um pouco mais. Seu rosto pareceu vagamente familiar, embora Loki não pudesse localizá-lo neste exato momento. Os olhos eram de um cinza-dourado turbulento, a boca bem-feita alinhada com uma fila dupla de presas.

– Por você. Você me libertou. Da Fortaleza Negra.

– Ah. Aquilo. – Loki suspirou. Salvar os deuses fora a primeira coisa autenticamente altruísta que ele fizera em cerca de quinhentos anos, e isso não lhe trouxera nada senão problemas. – Foi um erro – disse ele. – Veja bem, tinha uma Serpente…

A efêmera flexionou suas mandíbulas.

Loki deu um passo final para trás e lançou a Yr como um escudo entre ele e a criatura.

– Se eu a libertei do Mundo Inferior – disse ele –, isso não me torna seu mestre, ou algo assim?

A serpente lhe lançou um olhar de piedade e se aproximou mais um pouco.

Loki evitou seu olhar hipnótico. As runas que a tinham mantido a distância já estavam falhando. Loki podia sentir Naudr e Isa flexionando-se contra sua vontade, e quando elas falhassem, Yr as imitaria.

– Só me diga o que você quer de mim.

– Aproxime-sssse, Assstuto, e eu direi.

– Acho que prefiro ficar onde estou, sabe?

Havia uma poderosa força magnética no Olho do Cavalo, uma mistura de runas antigas que datava ainda do Ragnarók. Força magnética suficiente, ainda agora, para manter Yr ativa por mais trinta segundos, ou talvez até mais ou menos um minuto. Depois disso, não havia lugar algum para onde ir. Retirar-se era totalmente impossível. Loki estava encurralado. Mesmo que adotasse seu Aspecto de fogo selvagem, uma criatura que podia se mover entre Mundos não teria dificuldade em persegui-lo na Colina. Sua própria força magnética estava completamente apagada; deixar a proteção do Olho do Cavalo neste estágio seria o equivalente a um suicídio virtual.

Ele não tinha outra escolha senão fazer um sinal pedindo socorro.

Ós, a runa dos Æsir, cruzada com a própria runa de Loki, Kaen, e lançada sobre as nuvens o mais fortemente que pôde, deixaria os deuses com a certeza de que ele estava em perigo. A questão era: será que alguém se importava? E se este alguém se importasse, chegaria a tempo?

Ele se dirigiu à serpente.

– Quem a criou com seus sonhos? E, em nome dos deuses, por que escolheu a mim?

– Não tome isso como pesssoal – disse a serpente. – Tome como reconhecccimento por você ainda atrair a atenção do Caosss.

Agora Isa estava escorregando; Naudr havia se dissolvido. Apenas Yr ainda se mantinha firme, e pelo meio do círculo entre seu indicador e seu polegar Loki podia ver o escudo mental passando de suas cores originais ao brilho desbotado de uma bolha de sabão ao sol.

Ele lançou o sinal novamente. Mais fraco desta vez, mas ele o viu reluzir, lançando as cores de assinatura contra o céu fechado pela neve.

Gotículas do veneno da serpente haviam penetrado no escudo mental agora, deixando pequenas bolsas na neve onde haviam batido.

– Por que eu? – repetiu Loki, juntando os restos de sua força magnética. – Desde quando o Caos tem antipatia por mim?

A efêmera abriu suas mandíbulas, liberando um poderoso mau cheiro de veneno e carne em decomposição. Suas presas pingavam como estalactites. Ela estava sorrindo.

– Basssta dizer que ssssua hora ccchegou. Você não tem mais lugar em Asssgard.

– Asgard? Que é que ela tem com isso? Asgard tombou. De uma grande altura, como bem me lembro.

– Asssgard será reconstruída – afirmou a serpente.

– Você parece estar muito segura disso – disse Loki, vislumbrando uma faísca de esperança. Uma faísca de luz de runa, para ser exato, aproximando-se rapidamente na neve que caía em redemoinhos. A efêmera, como muitas de sua espécie nas terras além da Morte, aparentemente tinha poderes oraculares, e Loki sabia por experiência que o que um oráculo mais preza, acima de todas as coisas (até mais do que matar deuses), é a oportunidade de ouvir a si mesmo falando.

– Então… Você diz que Asgard vai ser reconstruída? – questionou ele, mantendo um olho voltado para o escudo mental que falhava.

– Por que voccccê deveria ssse importar com isssso? Não há lugar para voccccê lá.

– Tampouco havia lugar para mim no antigo.

– Bem feito para quem traiu o Caosss!

– Espere um minuto – disse Loki, caindo sobre um joelho quando Yr desfaleceu. – O Caos está por trás disso, ou não está?

A efêmera sorriu. Um sorriso suave – ou teria sido, não fossem aquelas presas.

– A Ordem conssstruiu Asssgard. O Caos vai reconssstruí-la. Novas runasss, velhas ruínasss. Asssim agem os Mundossss, Assstuto.

Loki recuou diante das gotículas de veneno que pousaram em sua cabeça e seus ombros.

– Talvez possamos fazer um trato – sugeriu ele.

– O que exxatamente você ofereccce?

– Ah, eu não sei. A deusa do desejo, o sol e a lua, os pomos da juventude; o de sempre, você sabe.

– Você é essscória, sabe muito bem. Voccê venderia qualquer pesssoa para sssalvar sssua pele.

– Acontece que eu valorizo um tanto a minha pele. Há algo de errado com isso?

– Sssss – disse a efêmera e deu um bote.

Loki estava esperando por isso e, com uma súbita explosão de energia, atirou-se do Olho do Cavalo. Rolando, caiu a quinze metros abaixo da encosta congelada da Colina do Cavalo Vermelho e parou abruptamente sobre uma pedra caída, que fora parte do castelo havia muitos anos.

A queda o deixou retorcido e arfando por falta de fôlego. E agora a efêmera, que descera seguindo-o tão suave e rapidamente como um jato de água de fonte brotando da nascente, erguera sua cabeça quase familiar e arreganhara suas presas vítreas para matá-lo.

– Vejo que não vai dar… – disse Loki.

Mas, então, bem quando a criatura deu o bote, surgiu um clarão ofuscante, seguido pelo duplo mastigar de dois mísseis que vinham numa velocidade de serpente. Um facho de luz de runas fixou o animal na encosta da colina, lançando garfos e torrentes de fogo mágico retorcendo-se e correndo por sobre a neve.

Silvando, a efêmera se retorceu e debateu em protesto quando seu corpo começou a reverter para a substância de sonho da qual havia sido tecido.

Loki, que havia se desviado do bote, fugiu correndo do alcance da criatura, evitando os tentáculos semelhantes a açoites que espancavam desesperadamente para todos os lados. E, erguendo seu olhar para o topo da Colina, viu uma figura alta, esguia, parada, com um raio mental em cada uma das mãos estendidas.

Abaixo dela, a quase um quilômetro e meio de distância, ele acabara de distinguir um rastro familiar – as cores de Thor, como uma nuvem raivosa de pó vermelho, subindo pela estrada sinuosa até a Colina.

– Maddy. Você a deixou um pouquinho morta. – Ele escondeu seu alívio com um sorriso descarado.

– Você por pouco não ficou mais morto do que isso. – Ela começou a se mover em direção a ele, descendo pela encosta da Colina, firmando-se para não escorregar na neve e mantendo um olho cuidadoso sobre a efêmera abatida. – Você está bem?

– Maldição, isso dói. – Ele enrolou suas mangas e, tremendo, esfregou um punhado de neve sobre sua pele chamuscada pelo veneno.

– Você devia deixar Idun cuidar disso.

Loki não disse nada, mas olhou para ela, pensando, não pela primeira vez, no quanto ela havia mudado desde o primeiro dia em que haviam se conhecido. Em três anos, Maddy Smith havia evoluído de uma garota triste e insegura de catorze anos para uma impressionante mulher jovem com olhos dourados como granito e cabelo negro oculto sob seu capuz de pele de lobo. Havia três anos ela era bastante destreinada e insegura de seus poderes e excluída de sua tribo. Agora, com sua juventude e sua força magnética intacta – uma das misteriosas novas runas, Aesk, a Cinza –, era mais forte que qualquer um dos Vanir ou dos Æsir; uma poderosa com todo o direito de sê-lo, uma verdadeira filha da Nova Era.

A efêmera abatida olhou-a também. Mesmo enquanto se apagava e morria, olhara de volta para Maddy sem medo, seus olhos de um dourado cinzento se abrindo no que parecera uma forma de reconhecimento.

Atrás delas, os olhos de Loki se abriram também, indo de Maddy para a serpente, quando finalmente entendeu por que a criatura parecera tão familiar. Ele abriu sua boca para falar, e depois pensou melhor quando Maddy se aproximou da efêmera, com um raio mental na mão, mantendo uma distância segura entre ela mesma e a coisa com rosto de mulher que se enroscava e retorcia sobre o chão diante dela.

– Eu conheço você? – perguntou Maddy.

A coisa com corpo de serpente apenas a olhou fixamente, e Maddy não pôde se livrar da ideia de que vira uma coisa semelhante a esta anteriormente, que ela a conhecera de algum modo, ou que a coisa a conhecera…

Ela se virou para Loki.

– Ela falou alguma coisa?

– Mais do que isso. Profetizou.

Maddy ficou curiosa.

– O que ela disse?

– Disse que Asgard seria reconstruída. Falou de runas e ruínas…

– Asgard? – perguntou Maddy com curiosidade. Naturalmente, era a única dos Æsir que não tinha lembrança alguma da Cidadela do Céu. Maddy sabia dela apenas por histórias. O Berço dos Deuses, eles a chamavam. E havia muitos relatos de como Asgard havia brilhado sobre as nuvens, ligada aos Mundos pela Ponte do Arco-Íris; de como fora construída para eles, usando as runas da Era Antiga; como cada deus tinha lá sua própria sala, exceto Loki, que se irritava como Astuto até agora, já que fora útil para a construção da Cidadela do Céu no princípio, e sem ele não teria havido nem Asgard nem salas, e provavelmente tampouco teria existido o Povo-Deus.

Loki deu de ombros.

– Foi o que ela disse. Não me pergunte o que isso significa.

Ele pensou se devia mencionar o que vira nas feições da mulher-serpente. Não tinha ideia do que significava, naturalmente, mas Maddy obviamente não estava interessada, de modo que ele guardou a informação em algum lugar para ser usada mais tarde.

A efêmera agonizante flexionou suas mandíbulas.

– Vejo vocêssss no Infer… – sibilou. E desapareceu numa nuvem de faíscas, retornando à trama de onde fora fiada, deixando apenas um mau cheiro em seu rastro e uma ampla faixa nua de neve derretida.

– Bem, fosse ela o que fosse, está morta agora.

Atrás dela, Loki não fez um ruído. Ela se virou, esperando vê-lo desmaiado, ou pela exaustão ou por efeito do veneno da serpente. Mas Loki simplesmente não estava ali – nem junto à rocha onde a criatura havia estado, nem deitado sem fôlego sobre a neve, nem mesmo no topo da Colina.

Quando Thor chegou à cena, ela havia vasculhado a Colina de ponta a ponta, mas não encontrara sinal do Astuto. Nada senão sua luva descartada e a marca de neve onde ele havia tentado fugir, além de suas pegadas – apenas três delas –, conduzindo ao longe para lugar nenhum, como se alguém o tivesse puxado do céu, ou arrastado pela encosta da Colina, ou talvez simplesmente engolido por inteiro, não deixando nem mesmo o menor brilho de luz de runas para marcar o lugar onde ele havia ficado.