Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 57 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 4

 

O sol estava se pondo em meio à névoa quando Loki e outros deuses chegaram à Ponte de Rhydian, a massa de suas quatro pilastras de pedra pairando escura contra o céu. A névoa estava ficando densa agora, rolando em ondas a partir do rio. As ruas ficavam fantasmagóricas com ela; o ar pesadamente carregado com o cheiro de fumaça.

– Pelos Deuses vivos, isso fede! – disse Jolly.

Por uma única vez, Açúcar concordou com ele. Não era apenas a fumaça, ele pensou, ou mesmo o odor forte e desagradável dos curtumes. Era alguma coisa pior que essas; algo como o fedor da morte.

O povo da cidade parecia não notar. Eles olharam sem qualquer hostilidade, mas sem qualquer interesse aparente, quando o circo se aproximou da Ponte de Rhydian. Enquanto o céu escurecia, Rhydian ia se iluminando; primeiramente, com as lâmpadas das calçadas, suspensas de postes de metal; depois, com as lanternas nas janelas; com tochas, fogos e braseiros, e cordões de multicoloridos globos de vidro, cada um contendo uma luz de pequena vela votiva, que se estendiam de prédio a prédio, dando à cidade uma aparência de carnaval.

Loki sentiu seu ânimo erguer-se novamente. Um carnaval significava dinheiro para gastar, vinho para ser bebido, bolsas gordas para serem saqueadas. E se houvesse outro circo na cidade? Rhydian era grande o bastante para isso. E além do mais, o Astuto não conseguia ver outro carnaval tendo a esperança de competir com o Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo.

O que a mulher idosa tinha dito a ele? Que a cidade ficava viva ao anoitecer? Bem, já era anoitecer, e, de fato, ao longo de todas as margens do rio, Rhydian estava ganhando vida. Restaurantes e tavernas estavam começando a abrir suas portas. De uma delas vinha um cheiro de vinho quente; de outras, pão fresco, peixe grelhado, tortas de fruta com canela. Os deuses flagraram suas bocas ficando cheias de água; os escassos suprimentos de sua última parada consistiam na maior parte de comida seca e feno para os cavalos, e a perspectiva de comida caseira era de repente muito atraente. Loki começou a ficar muito alegre; e até a ideia de competir com o carnaval nativo de Rhydian transformou-se por fim não numa tarefa penosa, mas num prazer.

A névoa havia se adensado ainda mais quando os deuses chegaram ao pé da ponte. Agora eles podiam começar a compreender a colossal, sólida escala da coisa: aquelas pilastras penetrando na névoa; aqueles cabos sustentando a estrutura do lugar como uma cama de gato de metal e pedra. A outra ponta da ponte estava mergulhada em nevoeiro; apenas as luzes nas pilastras permaneciam visíveis, como bolas de fogo na escuridão.

– Deuses, isso é impressionante! – disse Thor, que, no Aspecto de Dorian, apreciava uma bela obra de engenharia.

– Não posso ver o outro lado de modo algum – comentou Heimdall, apertando os olhos através da Bjarkán. – Este nevoeiro deve ser excepcionalmente espesso.

Mas Loki tinha outras coisas em mente.

– Então, onde está o outro circo? – perguntou ele. – E por que não o escutamos?

– Eu escuto alguma coisa, sim – disse Bragi, invocando um feitiço. – Parece alguém tocando uma flauta.

Idun fez que sim.

– Eu ouço também. Vem vindo daquele lado… – E ela apontou para alguns degraus de ferro que pareciam conduzir para baixo da ponte.

Loki deu um passo para frente. Havia definitivamente alguma coisa ali. Agora que ele sabia, conseguia ouvir também. Um som de muitas vozes, abafado pelo peso do nevoeiro; e música, música distante, e o cheiro de uma coisa deliciosa…

Ele deu uma olhada de esguelha para a névoa luminosa.

– Isso deve ser o carnaval – disse ele. – Que tal a gente dar uma olhada?

Os outros pareceram inclinados a concordar.

– É lá embaixo – indicou Freya, apontando entre os pés da ponte. – Loki, eu vejo as luzes…

Os deuses e seus aliados no Caos deixaram seus vagões para dar uma olhada. De fato, entre as pilastras estava reunida uma multidão de pessoas. A visibilidade era pobre, e a multidão se parecia mais com fantasmas, mas havia homens, mulheres e crianças ali; e vendedores de pastéis, barracas de cerveja, mascates vendendo bugigangas. O cheiro de comida ficou subitamente esmagador.

– Isso parece muito promissor – disse Loki com seu sorriso torto. – Vamos descer, armar o show, conseguir alguma coisa para beliscar e sair antes da meia-noite. Estou morrendo de fome.

Fenris e os Garotos Lobos grunhiram sua aprovação ao plano.

Jolly e Açúcar, que haviam se animado ao cheiro de cerveja, agora pareciam quase alegres.

Angie disse:

– Eles têm animais.

De fato, um som de ronco, como de bestas enjauladas, subiu do lugar.

– E um palco – falou Freya, baixando os olhos sobre os degraus ao seu redor. – E alguma coisa escrita em luzes lá…

Mais uma vez Loki olhou de esguelha para a névoa e se flagrou perguntando-se por que não vira isso anteriormente. Um grande painel quadrado, cercado por luzes de lâmpadas de vidro, que proclamava:

O CARNAVAL DE CATACLISMA E CATÁSTROFE DO CAPITÃO CAOS!

TODOS OS SEUS SONHOS MAIS LOUCOS TRAZIDOS À VIDA!

VEJA O PODEROSO ELEFANTE!

O ESPELHO MÁGICO!

O HOMEM DE AÇO!

O MELHOR DOS NOVE MUNDOS, OU SEU DINHEIRO DE VOLTA!

Loki descobriu-se preso entre a diversão e a indignação. Era óbvio que este Capitão Caos não tinha uma baixa autoestima.

– Podemos fazer uma matança aqui – disse ele aos outros. – Esperem para ver. Deve haver umas mil pessoas ali, isso são mil bolsas maduras para se apanhar. Mil fregueses satisfeitos esperando só para demonstrar sua apreciação com ouro.

Só Ethel olhou com dúvida.

– Eu não acho que seja uma boa ideia – afirmou ela. – Não podemos simplesmente atravessar a ponte e seguir em frente?

– O quê? – perguntou Loki. – E perder a maior atração de todas as Divisões do Norte? Sem contar uma refeição decente…

Heimdall fez que sim.

– Vamos embora – disse ele. – É só uma pena que não possamos levar os vagões.

Ethel balançou a cabeça.

– Eu ficarei. Vocês não precisam de mim para o show, de qualquer modo. E eu não gosto da aparência dessas escadas.

Loki deu de ombros.

– Bem, faça o que lhe agradar. Mas eu ainda penso que você está perdendo.

E assim deuses e demônios (e lobos e pássaros) desceram pelas escadas espirais que levavam para o subterrâneo da Ponte Meridiana. Era um longo caminho de descida, e os degraus eram mais velhos e ainda mais raquíticos do que haviam parecido a princípio. Era visível que as ferragens sob a ponte não eram tão bem mantidas quanto em cima, e a infraestrutura foi fazendo inquietantes sons de tique-taque conforme o grupo foi descendo.

Mas quando chegaram lá embaixo, encontraram uma cena de tal euforia que todos esqueceram suas dúvidas. Loki havia suposto a presença de umas mil pessoas – agora ele calculava o dobro deste número, todas apinhadas no espaço que ficava sob os pilares de pedra –, uma ampla passagem de pedra que dava para o rio e era iluminada por muitas lanternas que ficavam suspensas sob a ponte.

O efeito, especialmente com a névoa, era o de um enorme salão com estandes de comida, mascates, artistas de todo tipo – comedores de fogo, malabaristas –, todos vendendo seus produtos aos latidos com o máximo de suas vozes, enquanto a multidão se movia placidamente de uma atração a outra, fazendo uhs e ahs e jogando moedas.

E lá estava o palco, cercado por luzes. Uma cortina vermelha opulenta foi descerrada, e um homem trajando uma capa de lantejoulas e chapéu alto anunciou uma espécie de performance. Freya já estava lá, olhando da parte da frente, seu rosto tão extasiado quanto o de uma criança.

O Carnaval do Capitão Caos, pensou o Astuto, e sorriu para si mesmo; parando apenas para apanhar um Menino Gordo da bandeja de um vendedor que passava, ele foi em frente através da multidão animada para verificar o rival.

A primeira coisa que ele fez foi lançar a Bjarkán. Não estava esperando encrenca, mas informações nunca fazem mal algum. Quais truques o circo tinha em reserva? Haveria alçapões ali? Ilusões? O que estava oculto por trás daquela cortina?

Mas, no clarão das luzes do palco, a Bjarkán não encontrou nada para revelar. Via-se um pequenino rabisco de uma assinatura, alguma coisa que podia ser uma runa quebrada – mas, além disso, tentasse o que tentasse, Loki não conseguia discernir os detalhes. Ainda assim, ele pensou, não era muito. Só um par de feitiços. Nada que pudesse desafiar a ele. Ele se acomodou para desfrutar do show.

O Capitão Caos se revelou um homem de altura mediana, com cabelo ruivo sob chapéu alto e um sorriso sem-vergonha, torto, ao qual Loki tomou imediata aversão. Seus modos eram igualmente descarados, embora ele tivesse um estilo cativante, um matreiro giro de frase e um ar cômico que colocavam a plateia aos gritos.

– E agora, para seu deleite e desfrute – disse ele (que clichê! pensou Loki). – Vindo lá das profundezas do Sonho – uma bateria repicou, uma guitarra golpeou um acorde –, a delirante, totalmente irresistível Diva do Desejo, a Diaconisa do Prazer, a primeira e única Dulcineia, a Mais Bela Mulher dos Nove Mundos!

Freya enrijeceu.

– Como ele ousa?

Por um breve momento Loki pensou em calar sua boca com um feitiço. Mas a deusa do desejo em fúria não era coisa para se brincar, e se Loki sentiu que poderia ser insensato para Freya interferir naquele ponto, sensatamente guardou suas ideias para si mesmo. Algumas forças são incontroláveis – uma mulher ciumenta é uma delas. Então ele preferiu finalizar seu Menino Gordo e se acomodou para ver Freya saltando em pleno Aspecto para o palco e entrando sob as luzes.

O Capitão Caos pareceu indiferente à interrupção. Na verdade, seu sorriso se ampliou um pouquinho.

– Já tive o prazer de conhecê-la? – perguntou ele, estendendo uma mão em sinal de boas vindas.

Freya, cega pelas luzes e descobrindo mil pares de olhos subitamente fixados nela, lançou um olhar feroz.

– Senhoras e senhores – disse ele. – Parece que temos um desafio. Por esta noite, por apenas esta noite, Dulcineia vai dividir o palco com, er…?

Loki, vendo Freya prestes a cair no ridículo, pulou para cima do palco, ficando ao seu lado.

– Deixem-me apresentar-lhes – disse ele. – Esta é a sra. Gylfa, da Groenlândia. Gylfa, a Grande, a Gloriosa Deusa da Magnificência…

O Capitão Caos arreganhou seus dentes.

– Muito bem. Faça seu lance. Nós vamos competir. O vencedor leva tudo – sugeriu ele.

– Lance? – indagou Freya, perplexa.

– Faça uma aposta, senhora. A Melhor dos Nove Mundos, ou seu dinheiro de volta. Não é esta a regra, pessoal?

A plateia rugiu sua aprovação. As moedas começaram a chover sobre as tábuas do pequeno palco.

Por um momento Freya hesitou. Depois ela invocou a runa do dinheiro, Fé, e arremessou um punhado de moedas de prata.

O Capitão Caos ergueu uma sobrancelha, e Loki viu que, por debaixo das luzes ofuscantes, as moedas de Freya haviam revertido para a substância de sonho de onde provinham, deixando apenas um punhado de pó que brilhou sobre as tábuas de madeira.

Ele depressa enfiou uma das mãos no bolso e retirou um punhado de moedas reais. O Capitão Caos sorriu para ele quando elas tilintaram sobre a pilha crescente.

Mais uma vez a plateia uivou. Loki fez uma profunda reverência.

O Capitão Caos o imitou.

– Tudo certo. Agora, pessoal. Deixemos o show começar!

E por de trás da cortina vermelha saiu uma mulher de tal beleza, tal graça, que até os deuses, que estavam habituados a essas coisas, não puderam deixar de parar e olhar fixamente. Uma runa cintilante adornava sua testa.

 

Era o reverso da runa Fé, runa de fogo e destruição – e embora depois ninguém que a tivesse visto pudesse concordar totalmente com a cor exata de seus cabelos, ou do tecido de seu vestido, Thor olhou com tal fixação que Sif esbofeteou seu rosto; Fenny e os Garotos Lobos quase babaram de desejo; o queixo de Bragi caiu; Idun olhou ferozmente; e Loki agradeceu aos céus por Sigyn estar guardada em sua cápsula de bolota de carvalho.

E então Dulcineia começou a dançar ao som lânguido de um violino, e cada nota era um primeiro beijo, e cada passo um coração partido, e a plateia começou a balançar e gemer numa espécie de êxtase mudo…

Por um momento Freya se ergueu. Em Aspecto, ela era deslumbrante. Seus cabelos eram um pôr do sol de inverno, sua boca uma romã cortada. Parecia impossível que qualquer mulher pudesse rivalizar com ela…

Mas Dulcineia era como a seda; como o creme; como as rosas; como a luz das estrelas. Perto dela, os cabelos de Freya pareciam pretensiosos e vulgares; seus lábios cheios demais; seu rosto duro demais; sua cintura apertada demais; seus olhos fendas raivosas; seus punhos fechados, feios nós.

– Temos uma vencedora? – perguntou o Capitão Caos com um sorriso.

A plateia começou a cantar em coro:

– Dul-ci-neia! Dul-ci-neia!

– Vocês têm certeza? – incitou o Capitão Caos.

A cor sumiu do rosto de Freya.

– Dul-ci-neia! DUL-CI-NEIA!

Ainda assim, ela continuou a encará-los. A cantoria ficou mais alta. Alguém gritou:

– Tirem a prostituta do palco! Queremos Dulcineia!

E, ouvindo isso, com um grito de indignação, a deusa do desejo fugiu, estalando de luz de runa e ira, sob risadas e aplausos irônicos da multidão.

Pensativo, Loki ficou olhando-a ir embora. Não que ele tivesse qualquer simpatia pela humilhação de Freya. Na verdade, ele gostava muito dela. Ainda assim, havia alguma coisa nisso que o deixava um pouco inquieto. Talvez fossem aquelas luzes ofuscantes que o haviam impedido de usar a Bjarkán… Ele quase pensou em arrumar as malas e partir. Afinal, eles ainda tinham suprimentos. Os cavalos poderiam durar mais uma noite, com runas de resistência para mantê-los velozes. Depois daquela devia haver um montão de aldeias pela estrada afora que ficariam felizes de assistir ao seu show.

Mas a ideia de deixar um rival vencer era demais para Loki aceitar. O Carnaval do Capitão Caos não podia ser tão bom quanto alardeava ser. O melhor dos Nove Mundos, ou seu dinheiro de volta?

Isso soava como uma provocação. Uma aposta.

E se havia alguma coisa que ele não recusava…

E assim, sem mais resistência, o Astuto surrupiou mais um par de Meninos Gordos e se preparou para encarar o inimigo.