Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 6 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 2

 

Thor estava ansioso por uma briga. Isso em si não era incomum. O Deus do Trovão não era conhecido por sua paciência, especialmente antes do café da manhã, e tinha-se que admitir que ele tivera muito com que lidar nos últimos três anos.

Primeiro foi a chegada de seu filho, Modi – um dos gêmeos que há muito tempo o Oráculo havia profetizado, mas que, devido à insegurança dos oráculos em geral, acabou sendo uma menina, uma filha, Maddy. Depois, ela teve que ser resgatada dos Æsir – com a ajuda de Loki, o Astuto, logo ele – da Fortaleza Negra do Caos. Essa operação havia conduzido, senão ao real Fim dos Mundos, ao menos a uma coisa muito parecida com isso, uma coisa que exterminara o inimigo, arrebatara a vida do General e culminara num evento cataclísmico entre a Ordem e o Caos, e que havia feito o Sonho transbordar de suas margens e despejar seus conteúdos dentro dos Mundos Médios.

Ela não tivera a intenção de fazer isso, naturalmente. Na experiência de Thor, mulheres nunca tinham a intenção de fazer nada, razão pela qual – pelo menos nos Dias Antigos – elas não haviam se envolvido nas relações entre os deuses. Deixe uma mulher entrar em sua vida, pensava amargamente o Deus do Trovão, e antes que você se dê conta, estará numa caverna de gelo em algum lugar, com a barba cheia de nós, sua força magnética de cabeça para baixo e sua esposa o importunando por um novo corpo a cada dez minutos. Como se você já não tivesse o bastante a fazer mantendo os Mundos salvos para a espécie humana.

Malditas mulheres, rosnou Thor. Um filho teria feito as coisas adequadamente…

Naturalmente, isso havia terminado em vitória para os deuses. Quatro deles haviam fugido da Fortaleza Negra. Loki fora ainda mais longe, fugindo do próprio reino da Morte. Mas, embora fosse verdade que a Ordem houvesse sido derrotada, nunca a vitória tivera um sabor menos doce.

O Oráculo, que havia lhes prometido novos mundos, se transformara por fim num inimigo. Odin estava morto, os Æsir divididos, os Vanir ressentidos e hostis; todos enfraquecidos e irresolutos. Sem o General, eles estavam mais uma vez em apuros – os Vanir, sob o comando de Heimdall, restringindo-se principalmente à sua fortaleza sob as montanhas dos Sete Adormecidos (exceto por Skadi, que não havia sido visto desde o Fim do Mundo e em geral se supunha que houvesse voltado para sua casa com o Povo do Gelo).

Os Æsir também estavam divididos. A elevação à condição de deuses não é sempre um assunto fácil de ser resolvido, mesmo a uma condição mendicante de deuses como era a deles, com suas marcas de runas quebradas e Aspectos inacabados. Nas margens do rio Sonho, com a magia flutuando ao redor como neve e os desincorporados Æsir lutando desesperadamente por suas vidas, não houvera chance para discussões ou explicações. Quatro hospedeiros enormemente insuspeitos descobriram-se de repente incorporando vários Aspectos do divino com maiores ou menores graus de conforto.

Ethel e Dorian haviam aceitado a mudança com boa vontade, e, portanto, haviam se adaptado à situação um tanto melhor que Saco de Açúcar, cujo papel como o Corajoso Tyr ainda se constituía uma considerável provação para ele. Ou Sif, cujas queixas contra a sua reencarnação num corpo de uma porca barriguda haviam sido uma provação para todos.

Como resultado, os Æsir estavam divididos entre a Paróquia de Malbry, que ainda pertencia a Ethel; a fazenda de porcos em Farnley Tyas, que era o lar de Thor e Sif; a oficina de ferreiro, que Tyr havia reivindicado como sua (possivelmente porque era mais próxima à taverna); e a casinha do ferreiro, que havia ficado para Maddy depois da morte de seu pai.

Mae, a irmã mais velha de Maddy, que em outras circunstâncias podia-se esperar que tivesse tido interesse, havia se casado fora de Malbry com um parente do Bispado de Torval e agora morava do outro lado do rio numa pequena aldeia de Farnley Tyas, que era quase tão longe de Maddy quanto o desejável, e onde Mae podia às vezes fingir que elas não tinham parentesco.

O povo de Malbry a princípio fora relutante em aceitar os estrangeiros em seu meio. Mas Maddy ainda era uma de suas mulheres, e Dorian Scattergood, embora uma espécie de ovelha negra, era o filho de uma família muito respeitável. Uma pena que sua nova esposa fosse tão cara estranha, diziam as fofocas da aldeia. Dor – ou Thor, como ele se chamava agora – era um homem de boa aparência, e alguns haviam esperado que ele fizesse par com a rica viúva do pároco. Embora, para dizer a verdade, Ethel Parson tenha se tornado muito estranha depois de sua fuga sob a Colina do Cavalo Vermelho.

Ainda assim, ser estranho não era contra a lei, eles diziam, e os estrangeiros eram tolerados, se não apreciados, contanto que se restringissem às suas vidas e não causassem problemas.

Houve um bandido entre eles a princípio – um jovem ruivo com um sotaque das Divisões e modos desrespeitosos –, mas felizmente sua visita fora breve e não se repetira. Loki, que não conseguia parar de causar problemas da mesma forma que não conseguia parar de respirar, permaneceu três semanas inteiras em Malbry antes de voltar para a Colina do Cavalo Vermelho com a dor do desmembramento. Thor não se importou nem mesmo de lhe fazer uma advertência, muito embora, como Maddy salientara, ele houvesse acabado de salvar os Nove Mundos. Ali ele permaneceu, vigiando o vale de sua fortaleza subterrânea e catalogando as coisas bizarras e misteriosas que às vezes emergiam dos flancos da Colina.

Ainda assim, refletia o Deus do Trovão contrariadamente, neste exato momento havia coisas piores para lidar do que Loki. Por pior que ele fosse, e sem dúvida louco até a última gota de seu sangue de demônio, ao menos as coisas aconteciam quando ele estava por perto. E Thor estava entediado, tão terrivelmente entediado que teria acolhido bem até mesmo a companhia do Astuto.

A causa de seu tédio atual estava sentada diante de seu espelho, penteando seu famoso cabelo dourado e se preparando para uma discussão.

Thor olhava e pensava vagamente em como as costas de uma mulher eram capazes de transmitir uma quantidade tão grande de expressões negativas. Não era como se ele fosse de algum modo responsável pelo que ocorrera três anos atrás. Achava-se que ela, de certo modo, deveria ficar grata por parte disso – sua fuga da fortaleza, sua libertação do tormento e a encarnação de seu Aspecto num hospedeiro vivo.

Mas Sif de Cabelos Reluzentes havia ficado furiosa desde o Fim do Mundo e não mostrava sinal de que iria mudar de opinião.

– Você está bem? – perguntou Thor por fim.

– Estou bem – respondeu Sif, numa voz que sugeria que ela estava tudo, exceto bem.

Esse é o problema com as mulheres, pensou Thor. Elas dizem uma coisa e querem dizer outra.

– O que há de errado? – indagou ele.

– Eu disse que estou bem. – O pente roçava as mechas fabulosas, liberando um fino pó de caspa sobre a penteadeira. Todos os deuses haviam feito o que podiam, mas mesmo em pleno Aspecto, ou no que se passava por isso, com aquela marca de runa quebrada, Sif continuava a mostrar algumas das imperfeições do corpo de seu hospedeiro.

Poderia ter sido muito pior. Com exceção de uns poucos quilos excedentes e uma tendência a grunhir quando provocada, Sif poderia ter passado por humana quase completamente. De fato, havia pouco em seu atual Aspecto que sugerisse que ela havia sido um dia uma beldade imortal, mas também não havia qualquer indicação que isso se devia a uma porca barriguda chamada Lizzy Gorda.

Sif, no entanto, estava intensamente consciente, e descontava em todo mundo.

Não ajudava que Thor houvesse se saído melhor. Verdade que ele ainda portava uma impressionante semelhança com Dorian Scattergood, o homem em cujo corpo havia renascido. Mas sua coloração e estatura era aquela de Deus do Trovão, e a mente de Dorian raramente entrava em conflito com a sua. Sif nunca cessara de invejá-lo por isso, e, enquanto puxava um pelo irritante de abaixo de seu queixo, ela o fuzilou com um olhar de puro veneno. Thor, por sua vez, olhava para outro lado.

Por trás dele, um arranjo de flores de repente ficou escuro e morreu, mas já que nem Thor nem Dorian algum dia haviam se incomodado com essas coisas, isso também passou despercebido.

Sif puxou sua barriga com as mãos e olhou de esguelha para si mesma no espelho. Por um momento sua expressão se suavizou.

– Nota alguma coisa diferente? – perguntou ela.

– Diferente? – questionou o Deus do Trovão. Tais perguntas sempre haviam sido complicadas, ele sabia, já que podiam se referir a um novo chapéu, a um vestido diferente, a um penteado da moda ou a qualquer uma das mil coisas com as quais apenas uma mulher se preocuparia.

– Alguma coisa com… vestido? – sugeriu Sif.

– Sim. Ele é novo – disse Thor com alívio. – Notei alguma coisa imediatamente.

– Este é meu vestido mais velho – retrucou Sif, seus olhos começando a se estreitar novamente. – Não o uso há eras. Eu não era capaz de caber nele.

– Bem, talvez você devesse fazer uma dieta, querida.

Sif bufou.

– Pelo amor dos deuses, Thor. Você está cego? Eu perdi catorze quilos!

Mas Thor havia aparentemente descoberto uma coisa lá fora que exigira sua total atenção. O fato de ser seis da manhã, escuro como breu, e já nevando pesadamente, não fez nada para melhorar sua imagem diante de Sif, cujo queixo estava tremendo furiosamente no momento e cujos olhos azuis ardiam como chamas de magnésio.

– O que você está olhando estupidamente lá fora? – perguntou a deusa da graça e da fartura rispidamente.

– Alguma coisa está errada – disse o Deus do Trovão.

Sif estava prestes a fazer uma observação ofensiva quando ela também viu o que ele dizia: um sinal no céu acima da Colina do Cavalo Vermelho, difundindo sua luz contra as nuvens num desenho que ambos reconheceram.

– É Loki – disse Thor. – Ele está em apuros.

– Ignore – falou Sif.

Naturalmente, ela e o Astuto nunca tinham se visto olho no olho. Embora ela aceitasse que Loki não era diretamente responsável pela transferência de seu Aspecto para o corpo de uma porca barriguda, era verdade que ele tinha se divertido muito com a situação. Se ele estava com problemas, que se virasse sozinho, pensou ela. Sif de Cabelos Reluzentes tinha preocupações mais urgentes.

Mas então outro sinal apareceu, esse de um vermelho escuro em vez de violeta. Ambos os sinais eram muito claros, como fogos de artifício no céu turbulento.

Thor franziu o cenho diante deles por um momento, depois rumou para a porta, parando apenas para apanhar o pesado manto de peles que estava pendurado nela.

– Eu tenho que ir, Sif. Ele é meu filho.

Sif rosnou.

– Que filho?

– Tá certo, esfrega na minha cara – resmungou Thor baixinho. – Já não é ruim o bastante que minha esposa seja uma porca e que meu filho seja uma garota? – Ele ergueu a voz. – Eu tenho que ir. Alguma coisa está acontecendo. Eles estão usando a força magnética.

Como Thor bem sabia, isso significava uma luta, e num lugar como aquele, no coração das Terras Altas, não havia realmente muito mais para um Deus do Trovão fazer além de ficar terrivelmente entediado ou entrar numa luta.

Em anos recentes, os deuses faziam ambos a princípio, apenas lutando entre eles mesmos. Mas com o passar do tempo haviam percebido que existia um inimigo mais sério a se levar em conta: seu nome era Caos, e ele significava exatamente isso.

Há três anos, nas margens do Sonho, os portões do Mundo Inferior haviam sido rompidos por um período de trinta segundos. Durante este tempo, quando o Caos se espalhou, um número desconhecido de seus habitantes havia cruzado da Danação para o Sonho. Supunha-se que a maioria devia ter perecido ali – o Sonho é um território hostil muito perto de sua nascente –, mas alguns, os mais fortes, haviam obviamente sobrevivido, emergindo nas mentes do Povo e depois penetrando nos Mundos Médios.

Lutar contra tais criaturas era o único esporte de Thor. Não sendo um pensador por temperamento, ele preferia guerrear, e dado que a Ordem havia sido completamente eliminada, estes seres do Caos eram agora o único inimigo digno deste nome. Mesmo sem uma completa marca de runa e sentindo falta de Mjolnir, o martelo que um dia o tornara quase invencível, o Deus do Trovão era ainda uma força a ser considerada.

Ele tentou esconder sua ansiedade, mas Sif foi rápida em notar o brilho nos seus olhos e o modo como ele desviou o olhar quando ela disse, num tom enganosamente suave:

– Então, você vai, não é, querido?

Ele fingiu suspirar.

– Bem, é meu trabalho.

– Vai me deixar aqui sozinha? – perguntou Sif. – Com todas as espécies de… criaturas à solta por aí?

– Seja razoável – disse o Deus do Trovão. – Tenho certeza de que uma moça grande e corpulenta como você pode cuidar de si mesma.

Mais tarde, Thor teve que admitir que a escolha das palavras fora infeliz. Como o grito que estoura uma avalanche, isso provocou uma reação em sua adorada, caracterizada em princípio por certos sons, depois por uma furiosa mudança em suas cores e finalmente por uma explosão de força magnética que derreteu a neve em torno da casa a uma distância de quase quatrocentos metros, transformando em vapor uma família de ratos que vivia sob o assoalho ao redor.

– Corpulenta? – ecoou a Sif de Cabelos Reluzentes. – Quem em nome dos Infernos você está chamando de corpulenta?

Há momentos em que até mesmo um Deus do Trovão sabe que é hora de bater em estratégica retirada. Thor deu uma olhada sobre os ombros e murmurou:

– Ai, desculpe, amor. Tenho que ir correndo. – E, rapidamente colocando seu manto, fugiu para dentro da neve que caía.