Luz das Runas
Capítulo 8
Eles teriam chegado a tempo, ela pensou, se não fosse pelo carrinho do peixeiro. Uma exibição tentadora de lagostas e lagostins, saborosamente disposta sobre algas, numa das muitas barracas no extremo do Passeio dos Inspetores – precisamente o tipo de petisco de fruto do mar de que Jormungand mais gostava. A despeito dos rogos de Maddy, ela parou, retomou seu Aspecto de Cavalo Negro, e languidamente começou a pastar.
– Você não pode fazer isso agora! – gritou Maddy. – Você está nos levando para a Praça da Catedral!
Ela deu uma olhada para o céu. A luz havia mudado de azul solar para verde inquietante. Era bela, mas ameaçadora; uma cortina luminosa que escondia o sol.
– O que é aquilo? A aurora boreal? – perguntou Maddy.
Acima de sua cabeça, Mandy crocitou:
– Rápido! Rápido! Não há tempo!
O Cavalo Negro dos Últimos Dias mastigava pensativamente uma lagosta.
Perth puxou a rédea, mas não conseguiu persuadi-lo a se mover um centímetro.
O peixeiro, um jovem robusto com um boné branco sujo, olhou-os com reprovação. Ele não gostava muito de estrangeiros, nem de seus animais domésticos, principalmente quando estes se serviam das mercadorias sem pedir.
– Eu espero que tenham dinheiro – observou ele. – Porque não vai custar nada a vocês olharem, mas se saborearem alguma coisa, terão que pagar.
O Cavalo cujo Cavaleiro era a Traição terminou as lagostas e começou a comer os lagostins.
– Eu disse, espero que possam pagar por isso – falou o peixeiro numa voz mais alta.
– É claro que podemos, meu bom senhor – disse Perth, enfiando a mão em seu bolso e retirando um punhado de ouro invocado pela runa do dinheiro, Fé.
O peixeiro olhou-o com desconfiança.
– Que tipo de dinheiro é esse? – perguntou ele.
– Ouro. O que importa? – respondeu Perth.
– Vamos lá, vamos lá! – exclamou Maddy, quase gritando de frustração.
O peixeiro apertou os olhos sobre eles, depois voltou o olhar para as peças de ouro. Cavalos comedores de peixe eram uma coisa, ele pensou. Até pássaros falantes dava para aceitar. Mas as moedas que Perth havia acabado de passar para ele não se pareciam com nada que ele houvesse visto alguma vez: quatro grandes rodas de carrinho de ouro com um animal de um lado e alguma espécie de marca de runa no reverso.
O peixeiro não tinha ideia alguma do que elas eram. Nem Maddy – tais moedas estavam fora de circulação há quinhentos anos antes de ela haver nascido. Odin, caso estivesse disponível a consultas, teria dito a eles que este tipo de moeda – era chamada uma Lontra – havia sido parte corrente de Fim de Mundo nos tempos da Velha Era. Ninguém havia usado ou visto tais moedas em quinhentos anos, e quanto a estas em particular…
Enquanto o peixeiro olhava surpreso, as quatro peças de ouro de repente se tornaram oito. Depois, dezesseis. Depois, trinta e duas. Moedas de ouro choveram no chão. O peixeiro, nada intelectual, franziu o cenho diante da pilha crescente. A runa do dinheiro brilhava alegremente toda vez que jorrava cada uma das moedas cintilantes.
Perth deu de ombros pedindo desculpas.
– Eu acho que não estou acostumado a esta marca de runa – disse ele.
– Olhem! – falou o peixeiro. – Eu não vou aceitar ouro falso.
Ninguém prestou atenção nele. Jormungand terminou os lagostins e arrotou, depois começou a comer as algas. Os sinos do Santo Sepulcro começaram a soar. Maddy puxou a rédea do Cavalo.
– Jorgi! Por favor! Vamos lá! – disse ela. – Isso significa que a cerimônia está para começar!
Mas Perth estava olhando para o céu.
– Temos um problema – avisou ele.
Maddy seguiu seu olhar.
– Ah.
O céu estava mudando de novo. Um banco de nuvem estava se movendo rapidamente, obscurecendo a aurora boreal. Uma nuvem escura, rápida e ameaçadora corria em disparada, com cacos de relâmpagos. E o pior era que a nuvem estava se movendo, não com o vento, mas contra ele.
– Temos que ir – disse Maddy. – Agora.
O peixeiro enganchou uma das mãos no braço dela.
– E quanto ao meu peixe? – indagou ele.
– Dane-se o peixe! – falou Perth. – Vamos embora!
O rosto do peixeiro assumiu uma expressão perigosa.
– O que você acabou de dizer? – perguntou ele, transferindo seu agarro do braço de Maddy para a nuca de Perth.
Motivo pelo qual, um segundo depois, quando Jormungand retomou seu Aspecto, havia adquirido um passageiro extra. Perth se flagrou incapaz de soltar-se da mão do peixeiro a tempo e, desistindo de lutar, havia simplesmente se pendurado para salvar a pele quando Jorgi, tentando recuperar o tempo perdido, rumou para a Praça do Santo Sepulcro numa velocidade vinte vezes maior àquela aplicada no Sonho, chegando apenas alguns minutos atrasado. As grandes portas da catedral estavam fechadas e barradas com aço pelo lado de dentro. Os últimos festeiros haviam se dispersado. Até os sinos estavam silenciosos.
– E agora? – questionou Maddy.
Perth deu de ombros.
– Acho que perdemos a festa.
Ele desmontou de Jormungand e se dirigiu ao ruão vermelho ainda atrelado à carruagem de casamento. O Cavalo Vermelho soltou um relincho e se debateu furiosamente contra os arreios.
– Calma, velho amigo. Está tudo certo. – A voz de Perth pareceu ter um efeito calmante, e ele foi capaz de libertar o Cavalo Vermelho e conduzi-lo por sua rédea até onde Maddy já estava esperando.
Qualquer um podia ficar decepcionado pelo Aspecto humilde de Sleipnir; mas a luz de runa que o circundava foi rápida em revelar sua natureza. Mesmo sem a runa Bjarkán, Maddy sempre conhecera o Cavalo de Odin, e estava espantada com a facilidade com que Perth havia conseguido lidar com ele.
– Tenha cuidado – avisou ela. – Não é um Cavalo comum.
Perth deu de ombros.
– Sou bom com cavalos.
O peixeiro, que havia observado tudo isso com apreensão crescente e perplexidade, abriu a boca como uma truta fora da água quando o Cavalo Vermelho assumiu seu Verdadeiro Aspecto, as patas se tornando aracnídeas, a crina um repuxo de luzes coloridas.
– E quanto ao meu peixe? – perguntou ele, agarrando-se em desespero à única realidade que conhecia.
– Sinto muito. Não há tempo para isso – disse Perth, subindo no lombo de Sleipnir. – Agora eu só posso sugerir que você fuja. Para tão longe e com tanta velocidade que você puder.
– Perth…? – balbuciou Maddy, indecisa.
Perth baixou os olhos sobre ela e sorriu. E talvez fosse esse sorriso, ela pensou – ou a piscadela que o acompanhara, ou o Cavalo –, mas naquele momento ele lembrou-a tanto o Um Olho de sua infância que ela quase se esqueceu de respirar. Ela disse:
– Você é o Cavaleiro da Carnificina?
Perth deu de ombros.
– Quem mais?
– Mas Sleipnir pertence a…
– Grim – afirmou Perth e olhou para o céu além dela.
E então veio um estrondo todo-poderoso quando o céu se repartiu, e apareceu uma coisa contra a massa de nuvens que se aproximava. Um Arco-Íris, mas muito mais brilhante que qualquer Arco-Íris que Maddy tivesse visto. E em seu prisma de cores ela viu a assinatura dos Æsir e dos Vanir em seus Aspectos originais, viajando pelo céu como se o Ragnarók nunca tivesse acontecido.
– Minha nossa! – disse o peixeiro, e prontamente seguiu o conselho de Perth. Em segundos ele havia desaparecido, deixando Maddy ainda olhando fixo para seu amigo, que agora parecia muito à vontade no Cavalo Vermelho da Carnificina.
– Que Diabos? – disse Maddy para Perth. – E como você soube esse nome?
Perth suspirou.
– Eu posso estar experimentando algumas… dificuldades de ajustamento, mas eu me lembro realmente dos meus nomes – disse ele. – E, além do mais, se você tivesse feito o que lhe foi dito, não teríamos tido que lidar com tudo isso.
Os olhos de Maddy ficaram mais arregalados.
– O quê?
– Eu acho que devia ter adivinhado – disse ele. – Seus antecedentes não são imaculados quando se trata de seguir ordens.
Maddy continuou a encarar Perth. Ela descobriu que, a despeito de tudo que estava acontecendo ao seu redor, não conseguia tirar seus olhos dele.
Ela lançou a runa Bjarkán e viu, entrelaçado em sua assinatura vermelho-rosada, um fio de brilhante azul-martim-pescador que ela reconheceria em qualquer lugar.
O sorriso de Perth se ampliou bastante. Agora parecia tão amplo quanto a estrada. Seus olhos azuis brilharam com humor perverso, e desta vez não pôde haver dúvida: suas feições podiam pertencer a Perth, mas o sorriso pertencia a Odin.
– Odin? Não pode ser. Você estava morto…
Perth deu de ombros.
– Isso já aconteceu. Por que você acha que tenho tantos nomes? Aspectos vêm, Aspectos vão. Desta vez eu tive sorte o suficiente para achar um Aspecto que me servia, e com uma marca de runa novinha em folha, bem quando eu mais precisava…
Por um momento Maddy ficou dividida entre a alegria e o horror impronunciável. Alegria por Odin ter sobrevivido – mas a que preço? Perth era seu amigo. Se Odin o possuíra contra sua vontade, então não era melhor que o Murmurador. E embora a afeição de Maddy por Odin fosse profunda, ela sentiu que ele era capaz de coisas piores que se servir do corpo de outra pessoa se ocorresse de o seu estar indisponível.
– E quanto a Perth? – insistiu ela.
Ele respondeu de um jeito sarcástico:
– Estou bem, obrigado.
– Como você entrou aí?
Perth – ou era Odin? – deu de ombros.
– Como você acha que eu entrei? – perguntou ele. – Pelo modo de sempre. Sonhos, naturalmente. O escravo sonha com ser amo. – Ele olhou para Maddy. – O quê? Você achou que eu teria escravizado seu amigo? Obrigado pelo voto de confiança.
Mais uma vez ele deu uma olhada para a visão lá no alto. O Arco-Íris era espetacular – um arco duplo de luz de runa com o Escudo do Sol em sua fronte. Além dele, o banco de nuvens ainda se aproximava, costuradas por pontos de relâmpago.
– Maddy – disse ele –, Perth não está morto, não mais que Ethel Parson ou qualquer um dos outros está. Ethel deu à Vidente sua marca de runa e seu nome. Ninguém pode fazer isso contra sua vontade. Perth e eu estivemos ligados por anos no Sonho, você até me sentiu uma vez. Lembra-se da primeira vez que nos encontramos? Você achou que tinha visto alguma coisa em minha assinatura. Você achou que eu parecia familiar…
– Achei que você se parecia com Loki – falou ela.
– Somos irmãos – disse Perth. – O que você esperava?
Maddy deu um longo suspiro.
– Por favor. Diga-me o que aconteceu – insistiu ela.
– O quê, agora? – Perth olhou para o céu. – É mesmo a hora certa, você acha?
– Eu preciso saber – disse Maddy. – Eu preciso saber quem você é realmente.
– Sempre com perguntas – disse Perth. – Bem, eu fiquei preso naquela maldita Cabeça. Preso e flutuando no Sonho. E assim eu lhe pus à minha procura. Nós dois sabemos como isso funcionou. Foi um pouquinho desagradável, quando eu fui brevemente posto de novo em convívio com meu velho amigo Mimir, o Sábio. Sua irmã Maggie me torturou. Ela é muito parecida com você, a propósito. Bela garota, embora altamente tensa. Ela me fez lhe dar o Novo Manuscrito. Eu emiti minhas instruções para você, que você ignorou, como de hábito. Depois eu enviei Hugin e Munin procurarem Perth e trazê-lo até mim. Depois disso… Você sabe o resto.
– Mas e quanto à minha irmã? – perguntou Maddy. – Você disse; Perth disse…
– Sua irmã encontrou a Cabeça tal como você – explicou Perth, um tanto impacientemente. – Eu imagino que a descoberta a levou à mesma conclusão. Em todo caso, ela nunca adivinhou que eu simplesmente troquei os alojamentos por algo um pouco mais confortável. E agora vamos ao capítulo final. Devo supor que você estudou a profecia?
Sleipnir respondeu sacudindo sua crina e pateando sobre o chão freneticamente. Jorgi, que até aí havia estado calmo, respondeu então a Sleipnir, soprando através das narinas e sacudindo sua crina de luz de runa. Maddy pôs uma mão tranquilizadora sobre seu flanco, bem quando Hughie e Mandy, que vinham seguindo Jormungand a certa distância, vieram pousar na Praça da Catedral.
– General! – disse Hughie a Perth.
Kaik, disse Mandy. Kaik. Kaik.
Perth enfiou uma das mãos no bolso e saiu com um Menino Gordo. Ele lançou-o para Mandy, que o apanhou, depois baixou os olhos sobre Mandy novamente.
– Maddy, por favor. Fique sobre seu Cavalo.
Kaik.
– Faça isso, Maddy – sugeriu ele.
Maddy obedeceu.
– O que está acontecendo? – perguntou ela suplicante, tentando acalmar o Cavalo do Mar que, sentindo sua agitação, estava grunhindo e balançando a crina, mostrando seus dentes fantasmagóricos.
– Adversidade – disse Hughie.
– Kaik – falou Mandy alegremente.
– Não temos tempo para discutir isso – lembrou Perth. – O inimigo está a caminho. O resto dos deuses, se eles já chegaram aqui, estão prestes a se insurgir contra o próprio Caos, o Sonho em sua mais pura e letal forma, então, por enquanto vamos supor que eu saiba o que estou fazendo, está certo?
– E você sabe? – indagou Maddy.
– Não – respondeu Perth.
Depois disso, ninguém falou muita coisa, porque foi quando Maggie beijou a Pedra, o Povo dos Deuses chegou, e todo o Inferno ficou à solta.