Luz das Runas
Capítulo 7
O Carnaval da Confusão do Capitão Caos tinha provado possuir mais truques ocultos sob a sua cortina vermelha. Enquanto Freya ora se abanava, ora recaía numa mansa histeria, os artistas do Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo, envergonhados do fracasso de um dos seus, agora tentavam reparar o equilíbrio.
Nunca haviam se deparado com uma plateia tão exigente; nunca haviam experimentado tão humilhante fracasso. Tanto os Æsir quanto os Vanir compartilhavam da mortificação de Freya, e até os demônios estavam ansiosos por provar que seu lado era o mais forte; como resultado, o Capitão Caos – com seu sorriso agora mais amplo que nunca – estava quase esmagado por pessoas preparadas para reagir ao desafio.
O melhor dos Nove Mundos, ou seu dinheiro de volta! Essa havia sido a aposta; e o desparramo de moedas sobre o pequeno palco havia agora se transformado num tapete – um tapete escorregadio e tininte de riquezas que fazia os olhos do Astuto brilhar.
O problema com o dinheiro dotado de força magnética, naturalmente, era que ele atraía atenção. Custava-lhes dispêndio de força magnética e, depois de algumas horas, revertia à substância de que era feito: pó, areia, cinzas, pedras. Usá-lo significava arriscar exposição – talvez até prisão –, razão pela qual os deuses haviam recorrido a trabalhar seu caminho através das Estradas.
Se eles vencessem esta aposta, então poderiam pagar seu caminho a Fim de Mundo sem ter sequer que se esforçar por outra tentativa – razão pela qual, mesmo agora, Loki não havia desistido da chance de ganhar seu dinheiro de volta.
Depois de Freya, os deuses haviam discutido quem deveria tentar da próxima vez.
– Eu irei – disse Sif com um grunhido, assumindo seu Aspecto de Javalina. A apresentação sem brilho de Freya a tinha enchido de supremo desprezo; e embora ela se ressentisse profundamente do papel, também sabia que, como Rainha dos Porcos, ela não tinha igual em majestade, músculos e apetite nos Nove Mundos.
A aposta foi devidamente feita. A taxa, que havia dobrado desde Freya, foi paga, e Petula, Rainha dos Porcos, entrou no palco sob gritos de encorajamento da multidão. Loki apresentou-a com seu habitual topete, e nunca Petula havia se mostrado tão régia, tão peluda, tão rósea ou tão robusta; nunca comera tantas tortas de geleia de uma vez só ou mostrara tão primorosa dança de ponta de pés de seus reluzentes trotadores.
O Capitão Caos ficou olhando em silêncio. Depois, quando a plateia uivou pedindo mais, ele introduziu seu segundo ato: Olívia, a Elefanta, a Oligarca dos Elefantes, seu tronco como o da Árvore do Mundo, seu apetite insaciável. O palco era muito frágil para sustentá-la; ela preferiu soerguer seu caminho através da multidão como uma baleia terrestre, parando apenas para devorar trinta e nove bandejas de Meninos Gordos, uma dúzia de barris de cerveja, um espeto inteiro de frangos assados e uma criancinha da plateia – recuperada bem no último instante dentre as suas mandíbulas desdentadas, para aplauso frenético da multidão.
A decisão foi (quase) unânime. O Capitão Caos reconheceu o mérito da desafiadora, mas a vencedora era claramente Olívia, e restou a Loki pagar a conta por tudo que Sif havia consumido (uma quantia que passava um tanto mais do que ele próprio cuidara de apostar).
A seguir veio Bragi, o Rouxinol Humano, emparelhado com Linni, a Cotovia Humana. Bragi tocou sua guitarra e cantou tão docemente que a plateia chorou; mas quando seu rival subiu ao palco (Linni era uma bela mulher com a marca de runa Sól invertida sobre seus seios), alguns dos membros mais sensíveis da plateia de fato morreram, e até mesmo Skadi verteu uma lágrima (uma coisa que Loki julgava impossível).
– Não foi culpa minha – gemeu Bragi. – Eu já tinha dito a vocês. As cordas estão desgastadas…
– Ah, cale a boca! – replicou Heimdall asperamente, dando passos largos para subir ao palco. – Meu nome é Heimdall-Olho-de-Falcão, e eu aposto que posso acertar mais longe que qualquer um que vocês chamarem.
Mas o campeão do Capitão era Sam de Olho-de-Águia, e, a despeito de estar perfeitamente no páreo, Heimdall falhou – e perdeu a aposta.
Um por um, os deuses tentaram sua sorte, e um por um foram desclassificados.
Njörd, o Homem do Mar, que apostara que ele podia superar em nado qualquer homem vivo, perdeu uma corrida para Freddy Finn, o Peixe Humano.
Os Garotos Lobos e Fenris perderam contra um número chamado o Poderoso Cérbero.
Até Angrboda falhou em superar em encantamento Sassy, a Encantadora de Serpentes.
Loki achou que já bastava.
Não, ele não estava recuando. Ele perdera demais para parar de jogar agora. Apostara seus cavalos, seus vagões, sua comida; e sua única esperança era ganhá-los de volta antes que seu povo tivesse que seguir em frente.
Mas pelo que ele jogaria? Ele já perdera tudo. Nada restava – nem uma moeda, nem um farrapo, nem mesmo a camiseta nas suas costas.
Ainda assim, a próxima parada, ele pensou, seria uma que eles estavam certos de vencer. A Beleza, Loki disse a si mesmo, era certamente apenas uma questão de gosto. E os números animais eram sempre notoriamente imprevisíveis. Mas num simples teste de força – sem truques, sem adulação, apenas a força pura…
Quem poderia se equivocar? Thor era simplesmente o homem mais forte dos Nove Mundos. Mesmo com a runa invertida, ele poderia arrancar as tripas de qualquer um dos integrantes da equipe do Capitão Caos. Foi, portanto, com um senso pomposo (ainda que prematuro) de vitória que Loki então subiu ao palco e, sem mesmo se importar de levantar a plateia com sua eloquência, anunciou o poderoso Deus do Trovão.
O Capitão Caos pareceu impressionado. Ele também anunciou o campeão. O Homem de Aço encarou o Deus do Trovão em frente à cortina escarlate.
O teste era familiar. Maddy o reconheceria dos Dias de Feira por todo o Norte. Um sino no topo de um poste pintado preso a um simples contrapeso. De um lado, uma roldana e corrente, permitindo que o peso se movesse suavemente para cima e para baixo do poste. Do outro, um amortecedor de pressão de borracha. O teste era atingir o amortecedor com força bastante para lançar o peso animando a corrente com velocidade suficiente para fazer o sino soar. Um malho de ferro foi providenciado para o propósito.
Loki deu uma olhada no malho e riu.
– O Deus do Trovão iria parti-lo em pedacinhos com um simples sopro – disse ele para o Capitão Caos. – Sorte de vocês que ele traz suas próprias ferramentas… – E ele apontou para Jolly, em seu Aspecto como Mjolnir, enfiado elegantemente sob o braço de Thor.
Isso era o que tornava a aposta segura, ele pensou. Thor com seu martelo, Mjolnir, não tinha igual nos Nove Mundos. E embora estivesse agora claro para o Astuto que o Capitão Caos não era o que parecia, ele sentiu-se certo de que, neste caso, seu campeão era imbatível.
Por um momento, o Capitão Caos pareceu só um pouquinho hesitante. Ele apertou os olhos sobre Jolly e murmurou um pequeno feitiço. Depois seu sorriso retornou e ele disse:
– Eu não vejo por que não, amigo. Contanto que meu homem possa fazer o mesmo. Como se sabe, ele também prefere trabalhar com seu próprio instrumento.
Loki, que dava como fato seguro que nada era mais forte que o Mjolnir, fez um sinal com a mão em aprovação. O Homem de Aço era grande, naturalmente – talvez só um pouquinho mais alto que Thor –, mas o tamanho não era tudo. Para começar, ele era canhoto, enquanto Thor privilegiava sua mão direita, o que lhe dava uma ligeira vantagem. Além disso, naturalmente, Thor tinha a força de cem homens e Mjolnir. Não havia meio de ele perder – o que era bom, porque desta vez os deuses não tinham mais nada a apostar.
Eles jogaram uma moeda para decidir quem ia primeiro. Thor venceu.
Ele arregaçou as mangas. Ergueu Jolly. Golpeou o amortecedor. O peso chacoalhou a meio caminho, subindo pelo poste, depois caiu de volta no lugar com um estrondo.
O Capitão Caos deu de ombros.
– Primeira vez. Faremos melhor de três, não faremos?
Na segunda vez, Thor atingiu o amortecedor com cada grama de sua considerável força. O peso chacoalhou buliçosamente subindo pelo poste, quase – mas não totalmente – roçando o sino.
Um longo suspiro brotou da multidão.
– Melhor – disse o Capitão Caos. – Daremos a vocês uma nova tentativa. É justo. Vocês talvez não estejam acostumados com nossa máquina.
Thor cerrou os dentes. Apertou com força a cintura. Flexionou os músculos. Estalou os nós dos dedos. Esfregou poeira nas palmas das mãos suadas para garantir que o cabo do Mjolnir não escorregasse. Ergueu seu poderoso martelo para o alto e baixou-o com força assombrosa.
O peso agitou a corrente ao subir – depressa, e depois perdendo impulso. Só mais cinco argolas para chegar – quatro – três – dois – um…
Todos os deuses prenderam o fôlego.
Ting!
O peso apenas beijou o sino.
Um alfinete caído teria feito mais som.
Mas Thor havia vencido a máquina.
A multidão aplaudiu. Fez uma reverência. Loki enxugou o suor de seus olhos. E então chegou a hora do Homem de Aço assumir sua vez no desafio.
Loki olhou com um sorrisinho. Os deuses sabiam quem era aquele Homem de Aço, mas nem era preciso dizer que ele não era páreo para Thor. O martelo que ele trouxera sobre o palco era ligeiramente maior que Jolly, mas Loki estava se sentindo no topo dos Mundos, e ele simplesmente aplaudiu o Homem de Aço quando ele assumiu sua posição diante da máquina.
Os deuses e seus aliados no Caos haviam se apinhado em torno do Astuto.
– Teria que ter sido melhor – disse Heimdall entre os dentes dourados. Loki notou que Heimdall estava com uma aparência um pouco pálida, e sorriu.
– Relaxe. Você se preocupa demais – falou ele. – Não há chance de ele vencer o Deus do Trovão.
– Melhor que não vença – grunhiu Skadi. – Porque se Thor perder, nós todos perdemos. Você principalmente, Estrela do Cão.
Loki fez um ruído de displicência, reparando que Skadi também estava parecendo um pouco mal-humorado.
– Vocês se preocupam demais, todos vocês. A fé de vocês em mim é espantosa. Agora, só deem uma recuada. Apreciem o show. Isso vai ser muito divertido.
O Homem de Aço ergueu o martelo.
A multidão prendeu seu fôlego…
O martelo baixou com violência. A corrente subiu sacudindo pelo poste tão rapidamente que nem o olho do Vigilante conseguiu segui-la. O sino emitiu um ressoante clang – e depois, como se não bastasse, disparou para longe do topo do poste em direção à parte de baixo da ponte.
Ouviu-se um som metálico distante quando o sino atingiu uma das escoras da ponte, e então, alguns momentos depois, um espatifar na água quando ele caiu no rio. A multidão aplaudiu como louca; moedas de ouro choveram sobre o palco e Loki empalideceu até a raiz dos cabelos.
Skadi rangeu seus dentes.
– Oops…
– Batida firme – disse o Capitão Caos.
Por um momento Loki pensou em fugir. No Aspecto de Fogo Selvagem, ele poderia correr até o topo da ponte antes que os deuses o alcançassem. Mas Ethel estava lá, com os vagões; e se não o detivesse, havia Njörd em seu Aspecto de águia do mar e Heimdall, em seu disfarce de pássaro; sem mencionar os lobos e Skadi, todos os quais ficariam mais do que satisfeitos de descarregar a frustração sobre sua pele.
Heimdall lançou sobre Loki um olhar gozador.
– Bem, isso foi muito divertido – disse ele. – Só a expressão no seu rosto já praticamente indica que você está inventando uma desculpa por ter perdido todo nosso equipamento de viagem numa aposta!
Mas Loki não estava ouvindo. Ele subitamente sentiu-se incrivelmente fraco. Ele devia ter abusado de sua força magnética, porque suas pernas não o sustentavam. Ele sentou-se na beira do palco, sentindo-se pior que nunca. Sua cabeça doía; sua visão flutuava; sua assinatura parecia tão débil que mesmo Thor, que havia saído do palco com a intenção de quebrar todos os ossos de seu corpo, pensou melhor e sentou-se também.
Pensando bem, refletiu o Deus do Trovão, ele não estava se sentindo muito animado tampouco. Não era sempre que ele perdia uma chance de usar seus punhos sobre o Astuto; mas, realmente, o sujeitinho não estava com boa aparência. Thor esperava que não fosse nada contagioso.
– Loki, você está com uma aparência terrível – comentou Idun, que entre todos os deuses (exceto Sigyn, que não contava) era a única que ainda tinha fé no Astuto. – Posso lhe trazer um pouco de maçã?
Mas o Capitão Caos havia descido do palco com um pulo, parecendo mais vibrante do que nunca. Seus olhos eram como estrelas, seus dentes eram como quartzo e sua capa faiscava de maneira deslumbrante. Nunca Loki havia visto alguém que parecesse tão completamente vivo – e a despeito da névoa, sua assinatura era um Arco-Íris mais amplo que uma estrada de rodagem.
– Hora de pagar, pessoal – disse ele. – Foi uma boa luta, mas negócio é negócio.
Loki tentou se levantar, mas falhou.
– O que você fez comigo? – perguntou ele.
– Nada – respondeu o Capitão Caos.
– Você está mentindo – disse o Astuto. – Há alguma coisa por trás daquela cortina. Uma força magnética. Eu acho que já a tinha visto, mas não consegui discernir o que era. Você nos tapeou, de algum modo. Deuses! Ai, maldição, minha cabeça! Um ferrão de dor espetou sua têmpora; mais uma vez sua visão flutuou nauseada.
– Se eu fosse você – falou o Capitão Caos –, cairia fora enquanto ainda consegue se mover. – Ele se virou para os deuses. – Hora de pagar.
– Com quê? – questionou Thor. – Você nos limpou.
– Não totalmente – disse o Capitão Caos.
– O que quer dizer? – perguntou Loki, que já sabia a resposta.
O Capitão Caos sorriu para ele.
– Eu acho que você sabe, Astuto – afirmou ele. – Eu o possuo agora, corpo e alma. Pague e seus amigos podem pegar a estrada. Eu não tentarei impedi-los. Mas se você tentar renegar seu trato, eu reterei todos. Você sabe que eu posso.
E, então, por fim, através da névoa em sua mente, Loki percebeu a verdade. Ele se virou para seus companheiros, mas sabia que era inútil. Todos que haviam subido no palco estavam na mesma situação que ele: apáticos, drenados de sua força magnética, a assinatura reduzida a um fogo baixo. Nenhuma chance de mudar de Aspectos agora ou tentar fugir para isso; até mesmo se afastar, a esta altura, poderia se provar muito difícil em seu estado enfraquecido.
Somente Idun estava intocada – Idun, que não havia participado do jogo –, e Loki agora se agarrava ao seu ombro como um homem que se afoga se agarraria a uma corda estendida.
– Por favor – sussurrou ele. – Ajude-me a ficar em pé…
Foi a primeira vez na vida que Idun pôde se lembrar do Astuto pedindo ajuda. Ele devia estar realmente fraco, ela pensou; e seu coração bondoso se inchou de compaixão quando ela o pôs em pé. Loki oscilou, mas ficou aprumado, e virou seu rosto para o Capitão, cujo braço agora portava a marca de runa Kaen, não invertida e intacta.
– É um espelho, não é? Não admira que Thor não pudesse vencê-lo. Ele estava combatendo seu próprio reflexo em Aspecto, com Mjolnir. E Freya, foi o próprio Aspecto dela que ela viu, outra versão dela mesma. É por isso que nós nunca poderíamos vencê-lo. Foi por isso que você foi capaz de roubar nossa força magnética…
– Roubar? – disse o Capitão Caos. – Vocês me deram por vontade própria. Fizemos uma aposta, lembra-se? – Seu sorriso se ampliou. – O que quer que vocês fizessem, vocês fariam a vocês mesmos. Você nunca viu um pássaro bater a cabeça contra seu próprio reflexo numa vitrine?
– O que é isso? – perguntou Loki. Agora que ele parara de lutar, sua força estava retornando lentamente. Não o suficiente para usar a força magnética, mas pelo menos o suficiente para ver claro. – O que é isso? Ou devo dizer quem é você?
Mais uma vez o Capitão Caos sorriu.
– Bem, hoje, eu sou você – disse ele. – Ou pelo menos uma versão de você. Amanhã, quem sabe o que eu serei? Tenho que dizer que nunca me diverti tanto com um jogo desde o Fim dos Mundos. Um circo itinerante? É genial. Entendo que foi ideia sua?
– Eu perguntei o que você era – falou Loki. – Vamos lá. Você sabe que eu estou impotente. Você pegou tudo que eu tinha. Dê-me ao menos isso. O que é você?
O Capitão Caos olhou para ele.
– Meu nome era Svallin – revelou ele finalmente. – Lembra-se de Svallin, o Escudo do Sol? Eu viajava pelos céus com Sól, o Sol. Eu refletia sua luz por sobre todos os Mundos. Agora estou preso nas Terras do Norte, Lugar Nenhum, nas fundações de uma ponte. Sim, foi onde eles me puseram – disse o Capitão, quando Loki demonstrou sua surpresa. – Eles me encontraram, depois de Ragnarók, quando eu havia caído do céu. Viram minhas runas e souberam que eu tinha força magnética. E então eles me enfiaram dentro desta ponte, e…
– E você tem estado aqui desde então. Como uma aranha em sua teia. E todas essas pessoas sob a ponte – Loki apontou a multidão em suas costas –, elas não são pessoas comuns, não é? São pessoas que você apanhou ao longo dos últimos quinhentos anos. Todas são apenas reflexos, através de um espelho escuro… – Seus lábios marcados se retorceram. – Bem, parabéns – disse ele. – Você me pegou direitinho. O que vai acontecer agora?
O Capitão deu seu sorriso maligno. Meu sorriso, Loki acrescentou de forma um tanto amarga para si mesmo. Tudo nele – os truques, a conversa, a falsidade – foi extraído direto de mim. E agora…
– Agora, naturalmente, você não pode me deixar ir embora. É isso mesmo, não é?
Tudo ficou horrivelmente claro para ele. O modo pelo qual eles haviam sido atraídos: a trilha de farelos de pão que eles haviam seguido ali; o nevoeiro que ocultara a armadilha; a alegria com a qual o antigo ser havia assumido as feições de Loki, seus modos, seu estilo.
Por um momento a incerteza cruzou as feições do Astuto. Como eles haviam caído na armadilha? Ele entendia como o Escudo do Sol podia haver roubado força magnética do Povo-Vidente assim que eles haviam entrado em seu domínio, mas como ele sabia que eles estavam vindo? Quem o havia alertado sobre sua aproximação? E como ele havia conseguido se esconder?
Os olhos de um verde ardente do Capitão Caos brilharam.
– Eu sabia que você adivinharia – disse ele. – O negócio é que eu não quero deixá-lo ir embora. Aqueles outros, talvez, mas não você. Você é o melhor divertimento que eu já tive em quinhentos anos. E eu não quero voltar a refletir multidões vulgares de dia de feira, ou barcaças sobre o rio. Além disso, trato é trato – emendou ele. – Você jogou, você perdeu. Eu sou seu dono.
Loki lançou um olhar desesperado para os rostos que o cercavam. Todos estavam impassíveis, exceto o de Idun, que estava orvalhado de aflição.
– Você não pode estar falando sério – falou ele. – Além do mais, se pode manter a memória do que o Escudo reflete, então por que precisará do original?
– Porque ela não dura – disse o Capitão. – Eu trabalho com força magnética emprestada. Quando ela se esgota, a imagem se apaga. Eu não posso viver de sombras para sempre.
Mais uma vez Loki deu uma olhada para seus amigos. Ele podia ver para onde isso estava rumando. A plateia havia muito se dispersara e retornara aos seus divertimentos – aos malabaristas e comedores de fogo e vendedores de pastéis que abundavam na margem do rio; agora apenas o Capitão Caos permanecia, encarando os deuses com um sorriso zombeteiro. Seria demais, Loki pensou, supor que os deuses fossem lutar por ele.
Com que o Capitão comparara a coisa? Um pássaro batendo a cabeça contra seu próprio reflexo?
– Ora, vamos lá – disse ele delicadamente.
Freya deu de ombros com desprezo.
– Você provocou isso – falou ela. – Não espere apoio de nós.
Sif arreganhou as presas.
– Se você acha que nós vamos arriscar nossas vidas para pagar seu vício de jogo…
Os olhos de miosótis de Idun estavam úmidos.
– O que você vai fazer com ele? – perguntou ela ao Capitão Caos.
O Capitão sorriu.
– Não se preocupe – respondeu ele. – Eu não vou ferir Loki. Quero dizer, eu sou Loki sob tantos aspectos! Juntos, nós poderemos ser fabulosos.
Loki pensou sobre aquilo por um momento, e percebeu que era quase verdade.
– Você ficará seguro ao meu lado – disse o Capitão. – Ninguém poderá mais tocar você. Nem os Æsir, nem os Vanir, nem mesmo Lorde Surt poderão se aproximar de você. O Fim dos Mundos pode ir e vir, mas você estará seguro como em uma família.
– É mesmo? – perguntou Loki, sentando-se.
– Claro – assegurou o Capitão Caos. – Eu sobrevivi ao Ragnarók, não sobrevivi? Eu posso suportar o calor do Sol. E se você me tirar daqui, então nós dois poderemos ser livres novamente. Exceto que você será invencível. O que acho que não o incomodará.
Loki sorriu.
– Não, eu acho que não me incomodaria.
Por fim ele estava começando a entender o que o Capitão Caos queria deles. Afinal, não era a primeira vez que ele encontrara um artefato da Velha Era que havia se tornado um malfeitor. Ele sabia o quão perigoso isso podia ser – quão perigoso, e quão útil. A ideia de possuir o Escudo do Sol – de possuir, ao invés de ser possuído – ficou subitamente muito atraente. Se ele pudesse removê-lo da ponte e colocá-lo a seu serviço, então todas as suas preocupações ficariam para trás.
Naturalmente, isso podia não ser fácil. Os pensamentos do Capitão refletiam os seus. Era mais que provável que, enquanto ele estava meditando sobre a fraude, sua imagem estivesse fazendo a mesma coisa. Ainda assim…
Eu posso vencê-lo, Loki pensou. Talvez não em força magnética, mas em astúcia…
Idun ainda estava parecendo preocupada. Ela lançou sobre o Capitão Caos um olhar de dúvida.
– Eu não acho que você deva confiar nele – disse ela. – Eu acho que ele está tentando tapear você.
Loki sorriu.
– Não é preciso ter pressa. Vamos explorar o que está sendo oferecido.
Por trás deles, os deuses estavam se recobrando o suficiente para manifestar interesse. Heimdall estava parecendo desconfiado novamente; os longos dentes de Skadi estavam arreganhados.
– Típico do Astuto – disse Freya. – O rato abandonando o navio que naufraga.
– É melhor você não fugir de nós – advertiu Angie numa voz baixa.
– Por que ele não fugiria? – grunhiu Sif. – É isso que a doninha sempre faz.
Loki deu uma olhadela por sobre o ombro.
– Você tem que se livrar deles primeiro – falou ele. – Eu não quero você compartilhando poder com eles.
O Capitão Caos ergueu uma sobrancelha.
– Tem certeza de que seus amigos o deixariam para trás?
Loki ergueu um pouco sua voz, o suficiente para que os deuses pudessem ouvi-lo.
– Eles não são meus amigos – disse ele. – Você ouviu o que eles disseram agora há pouco. Você não acreditaria no que eles já me meteram. Ameaças, torturas, serpentes, casamento. Diga uma coisa, e eles já a fizeram. Duas vezes, em alguns casos. Retire-os daqui, deixe-os irem embora, e depois podemos falar de negócios.
– Tem certeza? – perguntou o Capitão. – O negócio é que eu sou seu dono. Se eu deixar seus amigos ficarem, então algum dia eles pagarão seu débito. Do contrário, você será meu de uma vez por todas.
– Para mim, está bem – disse Loki. – Ora, que são os outros para você? Eu quero que eles desapareçam, com sombras e tudo. Eles não me deixam ser como eu quero. Mande-os embora… – Ele se interrompeu, baixou os olhos e disse: – Eu quero dizer, mande-os embora, Mestre.
Por um momento o Capitão pareceu inseguro. Seus olhos saltaram de Loki para os deuses, e depois voltaram para Loki mais uma vez. Depois, ele fez que sim.
– Tudo bem. Mas lembre-se, eu o conheço, Astuto. Se você está pensando em me enganar…
– Por que eu o enganaria? – indagou Loki. – Pense no que está oferecendo. Eu seria louco se recusasse. Além do mais, você ouviu o que eles pensam de mim. Eles pensam que eu sou uma doninha, um vira-casaca. Um rato abandonando um navio que naufraga. – Mais uma vez o Astuto baixou seus olhos, não tanto por submissão, mas pela necessidade de ocultar um sorriso. – Talvez eles estejam certos em pensar assim – disse ele. – Eu nunca demonstrei lealdade a ninguém. Nunca fiz nada senão por mim mesmo. Talvez eu mereça ser posto de lado. Ninguém nunca me amou. Eu só espero – ele deu um suspiro – que eles possam de vez em quando pensar em mim com alguma coisa parecida à afeição. Talvez quando eu desaparecer, eles venham a se lembrar como eles se divertiam quando Loki estava por perto, e venham a dizer a si mesmos: Ele não era tão mau, um tanto louco, talvez, mas…
Jolly soltou um urro explosivo.
Idun rompeu em lágrimas ruidosas.
O Capitão olhou para eles pensativamente, depois dirigiu a palavra ao Astuto.
– Eu acho que você está certo – disse ele por fim. – Pessoal, vocês ouviram. Estão livres para ir embora.
Por um momento os deuses ficaram perplexos, incertos do que fazer. Idun chorava firmemente. Freya parecia confusa. Açúcar assoou o nariz com força e tentou parecer que era alergia. Thor franziu o cenho para Loki. A pavorosa suspeita de que o Astuto pudesse realmente ter feito uma coisa nobre começou muito lentamente a penetrar em sua mente.
Ele grunhiu.
– Não posso deixá-lo fazer isso.
Loki soltou uma praga por dentro e sinalizou com os braços para o Deus do Trovão.
– Vão em frente! Sumam! – gritou ele. – Esqueça que eu um dia estive aqui, tudo bem? – Ele se virou para Idun. – Ponha-os para fora. Dê um pouco de maçã para eles, não importa para quê, e caia fora de Rhydian, pelos Infernos!
– Mas e quanto a você? – indagou Idun, com os olhos arregalados.
– Esqueça-me. Eu sei o que estou fazendo.
Então, quando Idun e os deuses enfraquecidos saíram do palco e de suas forças magnéticas, Loki ergueu os olhos para seu duplo e forçou seu sorriso mais inocente.
– Então. Diga-me onde está – disse ele.
Os olhos do Capitão se apertaram.
– O Escudo do Sol?
– Bem, se vou libertar nós dois, precisarei saber onde você o guarda.
O Capitão deu um sorriso torto.
– Tudo bem – disse ele. – Mas há uma pequena coisa que… – E ele arregaçou o punho da camisa para revelar uma bolota dourada numa corrente em torno de seu pulso direito, a imagem-reflexo daquela que Loki vinha usando nos últimos cinco dias. – O que é isso?
Loki estremeceu. Ele vinha esperando manter aquele segredo ao menos por um tempinho mais.
– É… um talismã – falou ele.
– Tire-o – disse o Capitão.
– Por quê?
– Apenas tire-o – disse ele. – Há alguma coisa nele que me perturba.
Em segredo o Astuto concordou; mas alguma coisa lhe dizia que naquele caso sua bola de presidiário podia ser útil.
– Ele tem… valor sentimental – disse ele. – Eu preferia não o tirar.
– É mesmo? – perguntou o Capitão Caos. – Você não me parece desse tipo. – E, puxando a runa Kaen, agora brilhando, sem inversão, sobre seu braço, ele ergueu-a até o Astuto. Uma bola de luz violeta lúgubre tomou forma em torno de seu punho fechado, silvando como um punhado de serpentes.
– Eu sei que é uma espécie de força magnética – disse ele. – Eu posso senti-la sobre mim. Por isso, não tente nada estúpido, certo? – Ele lançou o punhado de fogo purpúreo quase sobre o rosto de Loki. – Um espelho tem mil olhos. Eu não vou sofrer se você ficar cego.
A boca de Loki ficou muito seca.
– Tudo certo, tudo certo, é uma força magnética – confessou ele. – Os deuses puseram-na em mim há cinco dias. É algum tipo de runa de aprisionamento, é tudo que eu sei. Eu tentei retirá-la, mas não consegui. Eles haviam me acorrentado ao vagão.
O Capitão ergueu uma sobrancelha.
– Então, você é um prisioneiro também? – disse ele. – Por que não me disse isso antes?
– Ora, vamos lá – falou Loki. – Ser levado para cá e para lá como um cão numa corrente, dificilmente teria sido meu momento de maior orgulho. Perdoe-me por não ter querido que ninguém dos Nove Mundos desse uma boa risada à minha custa.
Perto o bastante da verdade, ele pensou, para seu captor ser enganado. Ou assim ele esperava – aquela bola de fogo poderia causar um monte de danos. Por um momento, o Capitão examinou-o cuidadosamente através da Bjarkán. Depois, pareceu relaxar novamente.
– Tudo bem, acredito em você – disse ele. – Talvez possamos lidar com isso depois. Por enquanto, temos trabalho a fazer. – E, ainda segurando a bola de fogo, ele começou a explicar seu plano a Loki, enquanto acima deles, sobre a Ponte de Rhydian, o Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo partia novamente num ritmo sacudido, e a Mente e o Espírito de Odin o observavam sob a Ponte, asas negras dobradas contra a escuridão, os olhos em formato de contas sem dar uma só piscadela.