Luz das Runas
Capítulo 4
Ninguém além de Maddy tinha visto o Cavalo parir a si mesmo a partir do interior da Colina. Mas os sinais de sua passagem eram suficientemente claros. Alguma coisa grande havia se libertado; e, considerando a assinatura que havia deixado, era apenas uma questão de tempo antes que chegassem à óbvia conclusão.
A onda inicial de efêmeras vindas da Colina havia se reduzido a um limo nocivo, e os Æsir haviam se juntado aos Vanir agora, que em seus Aspectos animais haviam corrido pelos Adormecidos abaixo em direção à fonte do ataque. Agora, reagrupando-se junto à Colina do Cavalo Vermelho – ao menos, ao que dela restara –, eles examinavam os danos com olhos ansiosos, quando a horrível verdade lhes surgiu.
– Então, o tempo todo aquele Cavalo miserável havia estado bem aqui debaixo de nossos narizes? – disse Frey. – Mas quem poderia saber onde encontrá-lo? E por quê?
– Loki – falou Thor. – Ele fez a maldita coisa.
Sif, ainda em Aspecto de uma porca de batalha, grunhiu sua aprovação.
– Mas por que essa confusão toda? – gritou Idun, a única que, dentre todos do Vanir, não tinha qualquer Aspecto animal e havia assumido a forma de uma avelã, que Njörd carregava em suas garras. – Ele não poderia ter roubado apenas o Cavalo sem despertar metade do Mundo Inferior?
– É de Loki que estamos falando – disse Bragi. – Quem sabe por que ele faz essas coisas?
Ninguém soube responder. Mas o que estava claro para todos era que o que um dia pareceu pouco mais que uma brecha entre os limites dos Mundos, havia agora se tornado uma ferida escancarada. Não havia meio de saber quando outra onda de efêmeras poderia atacar. Mas numa coisa todos os deuses estavam de acordo. Esse dano aos limites entre os Mundos não havia acontecido desde o Ragnarók, e até onde lhes dizia respeito, Loki era o culpado.
Havia algumas justificativas para isso. Afinal, fora ele que provocara a abertura inicial no Sonho. Mais tarde, na Colina do Cavalo Vermelho, fora função de Loki vigiar o Olho. Mas agora o Olho havia sido pulverizado, e Loki estava desaparecido, seu rastro conduzia para o sul, com uma assinatura azul-gélida que podia apenas pertencer a Heimdall disparando atrás dele na perseguição.
– Quando eu puser minhas mãos no fujão – disse Thor, lançando seu martelo sobre um grupo de demônios gigantescos. – Vou usá-lo como um palito de dentes.
– Eu vou reduzi-lo a uma isca de peixe – comentou Njörd.
Freya, no Aspecto de ave carniceira, disse asperamente:
– Eu farei um colar de seus dentes.
Sif grunhiu através de suas presas.
– Eu vou espalhá-lo daqui até Campos Lisos.
Jolly retomou seu Aspecto por tempo longo o suficiente para observar, com um sorrisinho malicioso:
– Bem, eu não o vejo voltando para cá tão cedo, não com esta turma para enfrentar. Opa, cuidado, eles vêm aí outra vez…
A trégua na batalha se provara apenas passageira. Mais uma vez a Colina vomitava um novo jorro farto de efêmeras, tomando forma à medida que iam se aproximando, vindo em direção a eles com cascos e asas de pesadelo que obscureciam o sol no céu.
Mais uma vez os deuses se prepararam para encarar outra ofensiva.
Bragi puxou sua guitarra e produziu um acorde de grande poder. Uma bateria de pequenas notas agudas se espalhou sobre a encosta da colina, derrubando as efêmeras em seu caminho, embora elas ainda continuassem vindo.
Bragi franziu o cenho e apertou uma corda.
– Estou afinado? – perguntou ele.
Thor deu de ombros com indiferença. Dorian Scattergood era incapaz de distinguir sons, e ele mesmo nunca fora particularmente interessado por música. Até onde dizia respeito ao Deus do Trovão, guitarras, flautas – ou, ainda pior, alaúdes – eram melhores quando evitados.
Ele preferiu lançar seu martelo novamente, abrindo fendas no chão do vale que iam para baixo, penetrando no Mundo Abaixo. Açúcar brandiu sua espada mental, Frey sua foice de lâmina dupla. Mas para cada demônio extraviado que eles conseguiam deter, para cada raio mental que atingia o alvo, para cada pedaço de efêmera que era lançado de volta ao esquecimento, mais dez fugiam pelo ar, tornando-se incorpóreos, adquirindo a forma de vapores e nuvens, ou afundavam de volta no chão pantanoso, seguindo raízes, rios, correntezas, descobrindo seu caminho para o Um Mar, apanhando sonhos conforme iam flutuando.
Por toda a extensão de Malbry a Fim de Mundo, as pessoas sentiam suas presenças. Bebês acordavam gritando; cachorros bons tornavam-se maus da noite para o dia; velhos familiares morriam durante o sono; coelhos comiam seus filhotes. O Sonho havia virado outra página. A Adversidade se aproximava.
Enquanto isso, lá na Colina do Cavalo Vermelho, a situação parecia irremediável. Os deuses ficaram reduzidos de dez mil para um. Envenenados pelo ar tóxico, as penas chamuscadas, a força magnética destruída, cortados, feridos e doloridos, passo após passo e golpe após golpe, foram forçados a recuar para longe da Colina.
Tyr tinha um bom número de mordidas de rato. O braço direito de Frey pendia inútil. A guitarra de Bragi tinha uma corda partida. Até Thor estava mancando, embora Jolly parecesse estar se divertindo. E o fluxo de efêmeras que saíam da Colina estava firme como sempre.
Maddy, a menos de um quilômetro e meio de distância, havia se saído ainda pior que os Æsir. Pendurada num carvalho mirrado, um rio de lama e fogo aos seus pés, ela havia conseguido, com runas e sua espada mental, combater o pior do ataque. Os seres que haviam emergido fora da Colina em sua maior parte tinham-na evitado, mas um choque com uma coluna de formigas-navalhas, algumas sanguessugas gigantes e uma coisa que se parecia com um pterodátilo (embora, claro, ela nunca tivesse visto um) tinham-na deixado com cortes, arranhões, além de um talho por sobre toda a testa, que sangrava com força. Misturado com os gases do Mundo Abaixo e os contínuos ataques à sua força magnética, isso agora a deixava muito enfraquecida, sua espada mental reduzida a pouco mais que uma lasca, seu apoio no tronco da árvore – agora escorregadio devido ao seu sangue – finalmente começando a falhar.
Embora seus amigos estivessem próximos, estavam fora de alcance. O ar estava carregado de efêmeras. Suas presenças formavam uma espécie de nevoeiro – um nevoeiro repleto de estilhaços de rajadas invisíveis – que se agarrava ao cabelo e às roupas de Maddy, gelando seus membros, puxando-a para abaixo, esgotando sua resistência.
Os corvos de Odin não estavam em parte alguma onde pudessem ser vistos – na verdade, era difícil ver qualquer coisa sob aquela rastejante nuvem de nevoeiro.
Ela se perguntava vagamente onde Loki poderia estar. Em algum lugar mais seguro, provavelmente. O Astuto sempre tivera habilidade para não estar presente quando os problemas surgiam – um fato que fizera pouco para granjear a confiança dos Æsir durante o atual conflito. Além do mais, o que saía agora da Colina teria posto à prova a fé do mais fiel dos poucos amigos restantes de Loki.
Como antes, começou com um ronco vindo dos canais do Mundo Abaixo; o fluxo de efêmeras vacilou e parou, como um cano de água bloqueado por alguma espécie de obstrução. E veio um som como o de mil chaleiras prestes a explodir todas de uma vez só; um som gritado, sibilante, matraqueador.
Então Jormungand fez sua entrada.