Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 70 de 103

Páginas do PDF

Luz das Runas

LIVRO SETE – O Cavaleiro da Carnificina

LIVRO SETE

O Cavaleiro da Carnificina

Se desejos fossem cavalos, os mendigos cavalgariam.

Velho provérbio popular

1

 

Por mais que ela houvesse gostado de crer que isso não era mais que um pesadelo, Maddy não estava sonhando. Três horas haviam se passado desde que ela e Perth tinham seguido Adam à suíte próxima ao Passeio dos Inspetores. Lá, a surpresa do casamento pendente de seu velho inimigo se transformara em nada comparada ao desgosto de Maddy ao conhecer a identidade da noiva.

Adam Scattergood e Maggie Rede? Adam e Maggie noivos? Maddy percebeu imediatamente que isso devia ser parte de algum plano perverso, embora como Adam Scattergood estivesse envolvido nele permanecesse um mistério para ela.

Maggie sabia quem era Adam? Como eles teriam se conhecido? Estavam apaixonados? Adam podia realmente ter sentimentos pela irmã de sua inimiga? E como, pelos Mundos, a gêmea de Maddy podia estar apaixonada por Adam Scattergood? Adam, cujo coração era tão malvado e amargo quanto uma maçã do final de Novembro, destinada a nunca amadurecer, mas a cair tão logo as primeiras geadas chegassem?

Agora ela olhava através da runa Bjarkán, escondida nas sombras, na esperança de captar um vislumbre de sua irmã, ou alguma pista do que ela estava fazendo ali. Mas não havia nada de estranho para ser visto, exceto o Cavalo Vermelho nos estábulos. Não tinha havido violência ali – nenhum sinal de luta, nenhuma explosão de força magnética –, e embora ela pudesse discernir o rastro de Maggie, uma meada mais clara na tapeçaria de assinaturas que se enfileiravam na rua, não havia nada que indicasse que sua irmã houvesse perdido o juízo, ou explicasse o que uma filha de Thor podia enxergar em Adam Scattergood.

Exigira de Perth todo o seu poder de persuasão para impedir que Maddy subisse até o apartamento em frente e depois simplesmente arrombasse a porta.

– O que você acha que acontecerá – disse ele – se entrar atacando?

Maddy olhou para ele.

– Sim, mas…

– Ouça. Isso precisa de planejamento cuidadoso. Você não a quer chamando a Lei para nós, nem quer dar início a uma encrenca, quer?

Relutantemente, Maddy concordou que talvez não fosse o melhor plano.

– Então, o que faremos?

Perth deu de ombros.

– Ela conhece você. Se ela a vir aqui, desconfiará de alguma coisa. Mas se eu puder entrar e investigar…

– Você? – perguntou Maddy.

– Por que não? Não há uma cobertura em Fim de Mundo em que eu não possa entrar e de que eu não possa sair. Confie em mim. Eu posso fazer isso.

Maddy sorriu.

– Confiar em você? Perth, se você está tentando fingir que isso é qualquer coisa que não vontade de roubar a prataria, ou quaisquer outros objetos de valor que possam estar esperando lá dentro…

Perth tentou fazer uma expressão magoada.

– Atire em mim se quiser – disse ele. – Mas você sabe que eu posso. E se um par de candelabros, uma bolsa ou uma caixa de rapé de prata calhar de cair acidentalmente em meu poder… bem, que mal há nisso, hein? – Ele deu um amplo e desavergonhado sorriso, e não pela primeira vez Maddy ficou impressionada por sua semelhança com Loki. A parecença não estava tanto na coloração ou em qualquer das feições, mas no modo como se movia; em seus olhos; em suas expressões mutáveis. O irmão mais velho de Loki, talvez; não tão destrutivo, mas ainda com aquela faísca mercurial, aquele pequeno traço de fogo selvagem em si.

Ocorreu a ela que talvez fosse assim que Um Olho devia ter sido em seu início, e uma onda de nostalgia a dominou. Teria seu velho amigo sobrevivido de algum modo? Sua irmã teria sabido disso, se assim fosse? E quais eram as suas ligações com o Velho Homem das Regiões Selvagens?

– Tudo bem – concordou ela, dirigindo-se a Perth. – Você vai. Mas seja cauteloso. Eu não quero que você se machuque. Olhe, não toque em nada, depois volte e me conte o que viu. Entendido?

Perth sorriu.

– Entendido.

– E nada de candelabros, nem caixas de rapé, ou algo do gênero. Certo?

Perth deu de ombros.

– Desperdício.

E, assim, à noitinha, uma figura indefinível em marrom avermelhado escalou rapidamente por um telhado do estábulo, vindo de um beco dos fundos do Passeio dos Inspetores, depois subiu por um cano de escoamento, passou por um fosso, sobre uma série de cumeeiras, metade de suas telhas devoradas pelo musgo, e finalmente chegou a um telhado em declive que dava para a cobertura. Sem seus coloridos mantos de Estrangeiro, Perth podia passar por um pedreiro, um varredor de chaminés, ou até mesmo um escravo; em todo caso, estava bem escondido, inteiramente invisível da rua, enfiado confortavelmente por trás de uma pilha de chaminés.

Ele lançou a Bjarkán sobre a cobertura e olhou para o cenário através dos dedos. Por um momento, viu apenas luz: as cortinas estavam puxadas de tal modo que apenas uma estreita fatia do quarto era visível a olho nu, e mesmo com a visão real, tudo que pôde ver foram os traços de uma assinatura que cruzava o quarto, como se alguém estivesse dando passos de lá para cá por trás das cortinas entrecerradas.

Devia ser a irmã de Maddy, ele pensou. Apenas uma integrante do Povo do Fogo deixaria tal rastro. Ele estreitou o foco da Bjarkán e se aproximou um pouco mais. Mesmo daquele ponto de observação pôde ver pouco além de sua assinatura e seus movimentos, os dois revelando agitação, e sua sombra na janela, movendo-se rapidamente de lá para cá.

Então se ouviu um som de asas, e um pássaro pousou no cano da chaminé bem acima de sua cabeça. Um corvo de tamanho peculiar, que olhou atentamente para Perth.

– Xô – fez Perth.

Crawk. Crawk.

Então outro pássaro se juntou ao primeiro; um segundo corvo, este com uma pluma branca em sua cabeça. Ele soltou um grito áspero – Ack-ack-ack! – e bicou o pássaro maior na asa.

Perth bifurcou uma forma de runa. O pássaro maior saltou de seu poleiro. Mas em vez de fugir voando, ele pousou diretamente sobre o topo do telhado próximo a ele e, num segundo, assumiu o Aspecto de um homem jovem vestido de negro, com cabelos desgrenhados e um sorriso amplo.

– Isso não foi muito educado – disse ele, sentando-se de pernas cruzadas sobre o telhado.

Perth pensou em lançar a Hagall, depois decidiu que não. Mesmo que o pássaro-homem pudesse ser detido por tais métodos, o uso de uma força magnética tão poderosa iria alertar a garota na cobertura.

– Quem é você e o que você quer?

– Chame-me de Hughie – disse o pássaro. – E essa é minha irmã Mandy. Ajudantes do Cavaleiro da Carnificina, e tudo que queremos é ver esse Cavaleiro preparado para o Fim dos Mundos, a menos que você tenha aí um torrão de açúcar sobrando, ou talvez um pedaço de bolo…

Kaik! Kaik!, fez o pássaro menor, bicando a tampa da chaminé.

Perth lançou-lhe um olhar desconfiado.

– O Cavaleiro da Carnificina?

Hughie sorriu. Para Perth, o sorriso pareceu tão real quanto uma bolsa cheia de ouro ilusório, mas era a chance de descobrir mais sobre sua nova amiga Maddy e sua misteriosa irmã. Perth não sabia muito sobre profecias ou fábulas da Velha Era, mas conhecia a Canção dos Três Cavalos do Livro do Apocalipse, e não precisou de muito tempo para entender que o Cavalo Negro que Maddy chamava de Jorgi, com seus apetites peculiares e a tendência a mudar de Aspectos, não era cavalo coisa alguma, mas alguma criatura saída do Sonho disfarçada de cavalo. E ali estava Hughie falando de um Cavaleiro cujo nome era Carnificina…

– Quem é o Cavaleiro da Carnificina? – perguntou ele. – É aquela garota na suíte?

Hughie deu seu sorriso cintilante.

– É sim. Ela poderá ser, se cavalgar…

– E o que isso tem a ver comigo?

– Acho que pode ter tudo.

Perth parou um momento, pensando firme. Será que Maddy sabia de tudo isso? De seu ponto de vista, sua nova amiga havia sido reservada de modo muito irritante. Desde que chegara a Fim de Mundo, ela não dissera nada sobre sua família, suas origens, a fonte de sua misteriosa força magnética. Quem era a garota que ela viera procurar? Quem era o Velho Homem das Regiões Selvagens? Como uma garota das Terras do Norte viera a aprender tanto sobre runas? O que Perth realmente sabia sobre Maddy? Que ela era nova na cidade; que ela tinha uma força magnética e sabia como usá-la; que tinha inimigos poderosos.

Poderia ser ela um dos Cavaleiros? Poderia ser Jorgi o Cavalo Negro? Parecia a Perth que talvez fosse. E quanto mais pensava nisso, mais provável ficava parecendo que algum tipo de ganho podia ser obtido de tudo isso: um tesouro do Mundo Abaixo, talvez, ou um conhecimento pelo qual a pessoa certa podia pagar.

– Diga-me – falou Hughie por fim. – Como chegou a ficar sabendo de uma coisa chamada o Velho Homem das Regiões Selvagens?

Perth balançou a cabeça. Era uma frase que ele ouvira Maddy usar um bom número de vezes, mas não tinha ideia do que era. Uma pessoa? Um objeto? Um pouco das duas coisas?

– O que é?

– Um tesouro – disse Hughie. – Um tesouro saído do Mundo Abaixo, mais precioso que ouro e rubis.

– É mesmo? – perguntou Perth. – E você sabe onde ele está?

– Sim. Está bem ali, na cobertura.

– Verdade? – indagou Perth.

Mandy crocitou.

– E o que vocês querem de mim? – questionou ele.

– Queremos que você o roube – respondeu Hughie.

– Roubá-lo? Mas vocês disseram que eram…

– Ajudantes do Cavaleiro da Carnificina. O que significa que servimos aos interesses do Cavaleiro. Mesmo quando o próprio Cavaleiro não sabe onde ficam seus interesses.

– E vocês estão me dizendo que o Cavaleiro precisa de…

–… Um ladrão – concluiu Hughie. – Um ladrão danado de bom. – Seu sorriso se ampliou mais do que nunca. – Um que possa escalar o terraço no meio da noite. Um que possa entrar sem fazer barulho algum e levar o Velho Homem de onde ele está escondido. Um que possa desfazer os nós de força magnética que o prendem sem alertar ninguém. E, finalmente, um que possa carregá-lo de volta à segurança, onde ninguém possa encontrá-lo, e começar a recolher as recompensas…

– Que recompensas? – interessou-se Perth.

Hughie fez um gesto vago. Os anéis de prata em torno de seus braços fizeram um som tilintante agradável. Perth, que sabia como calcular o valor de um anel de prata sem sequer avaliá-lo, sentiu um arrepio agradável ir da ponta de seus dedos ao seu cinturão de dinheiro.

– Qualquer coisa que você quiser – afirmou Hughie. – Ouro, força magnética, o desejo de seu coração…

– Meu coração é muito exigente.

– E o Velho Homem é muito generoso – disse Hughie. – Contanto que você seja muito discreto.

Mais uma vez Perth pensou um pouco sobre o assunto. Ele deveria falar disso a Maddy? Certamente ela iria querer saber. Mas o que ele realmente devia a ela? Obviamente ela também estava atrás daquele prêmio que dava a um homem o desejo de seu coração – por que mais ela o teria mandado ali sem sequer lhe dizer o que era?

Ele pensou sobre Maddy Smith. Gostava da garota. Realmente gostava. Mas a amizade, em sua experiência, raramente era um bom investimento, enquanto dinheiro na mão… bem, isso era uma coisa que ele entendia. E por muito que ele lamentasse desapontar uma amiga, a ideia de obter o desejo de seu coração era suficiente para embotar sua consciência. Não era como se alguém fosse ficar magoado, afinal de contas.

Ele invocou a runa Bjarkán novamente e olhou através da janela da cobertura. Através das cortinas viu a cama de quatro colunas, uma colcha de veludo, um plinto, os filamentos de luz de runa que assinalavam os movimentos da ocupante e uma bola de alguma coisa azul que brilhava…

– É aquilo?

Hughie fez um sinal positivo.

– É sim.

E agora ele podia quase ouvi-lo também: uma voz débil, apagada no fundo de sua mente que sussurrava seu nome:

– Perth, Perth…

– Ele fala! – exclamou ele.

– Faz mais do que isso. Mas primeiro você tem que libertá-lo.

– Libertá-lo? – perguntou Perth. – Por quê? Ele é um prisioneiro?

– Sim, amigo – respondeu Hughie. – Um escravo.

Por um momento Perth analisou a missão. Não parecia difícil demais. O ponto de entrada óbvio era o terraço; o risco maior, os cinco metros de espaço aberto entre o alvo e a cama. A melhor ocasião era durante a madrugada: a garota estaria dormindo, e ele empreenderia sua fuga pelo telhado. Tudo parecia muito simples; um pequeno roubo fácil. Naturalmente, a escalada não era fácil, e ele teria que ser muito discreto…

– E aí? – perguntou Hughie. – Você tem um plano?

Perth sorriu.

– Eu sempre tenho.