Luz das Runas
Capítulo 3
Os pássaros estavam esperando quando ela entrou, com um Menino Gordo açucarado em cada mão. Dois corvos, um empoleirado no parapeito da janela, outro, com uma pena branca na cabeça, na verdade dentro do quarto, alisando as penas com o bico e observando Maggie com olhos de um curioso dourado de anel de matrimônio.
Maggie pôs os Meninos Gordos sobre a mesa de cabeceira.
– Fora! Fora! – disse ela aos pássaros, acenando suas mãos ameaçadoramente.
Os corvos pareceram totalmente impassíveis. O maior deles empinou a cabeça e coçou a asa languidamente. O menor – aquele com a pena branca – olhou para os Meninos Gordos junto à cama e fez um crocitar esperançoso.
Kaik! Kaik!
– De jeito nenhum – falou Maggie. – Agora vocês dois vão cair fora daqui?
O pássaro maior pulou sobre a cama.
O menor soltou um grito áspero: Crauk. Kaik.
– Caiam fora! – exigiu ela novamente.
– Ora, isso não é ser hospitaleira – disse uma voz ao lado de Maggie.Virando-se, ela viu que o corvo havia se transformado num homem maltrapilho, de olhos escuros e vestido de preto, com uma grande quantidade de joias de prata, sentado de pernas cruzadas sobre a colcha e observando-a com um sorriso radiante.
Os olhos de Maggie se arregalaram.
– Quem é você? O que quer?
– Bem, eu não recusaria uma mordidinha… – Ele se serviu de um Menino Gordo. – Eu sou Hughie, e esta é Mandy, e nós fizemos um longo trajeto para vir falar com você.
O corvo terminou seu Menino Gordo com uma velocidade que era quase sobrenatural e arremessou o outro para sua companheira, que, enquanto ele falava, assumiu o Aspecto de uma jovem com uma listra de prata em seus cabelos e um anel de unha de dragão na orelha esquerda.
– Kaik – disse Mandy afavelmente, comendo o Menino Gordo com a velocidade de um relâmpago.
Maggie examinou-os com desconfiança. Será que aquelas duas criaturas poderiam ser o Povo do Fogo? Tudo era possível. E havia alguma coisa no par que a fazia lembrar-se do Cavalo Vermelho: aquela insinuação de Caos por trás do Aspecto parecia quase comum – sem dúvida principalmente em Fim de Mundo, onde até o mais Estrangeiro dos equipamentos mal fazia erguer uma sobrancelha. Cada um deles trazia uma tatuagem sobre o braço – uma tatuagem ou uma marca de runa, Maggie não tinha certeza.
Ela invocou a runa Bjarkán e deu uma olhada no par através da visão real. Como Sleipnir, seus Aspectos eram diferentes quando vistos através do círculo de indicador e polegar: não mais humanos, nem mesmo aves, mas algo híbrido de um pesadelo das duas coisas, o desenho negro sobre seus braços agora brilhando com luz quase insuportável.
Maggie rapidamente invocou Tyr, a runa guerreira, pelas costas.
– Que são vocês? Demônios? Povo do Fogo?
Hughie sorriu e balançou a cabeça.
– Mensageiros, fêmea. Apenas mensageiros.
– O que vocês querem?
– Fazer um trato. Para chegar a algum arranjo.
– Que espécie de arranjo você quer dizer? – A runa Tyr ainda estava preparada para atacar.
Hughie lançou-lhe um olhar cômico.
– Fêmea, se quiséssemos confusão – disse ele –, já poderíamos ter começado uma a esta altura.
Os olhos de Maggie moveram-se rapidamente em direção ao pedestal, onde o Velho Homem permanecia silencioso sob o lençol. Nada parecia ter sido perturbado. Ela se permitiu relaxar um pouco.
– Então, o que vocês realmente querem?
– Queremos sua ajuda. Hugin e Munin, a seu dispor. Viajantes dos Nove Mundos. Outrora mensageiros do próprio Velho Homem, ora em necessidade de um emprego bem remunerado.
– Que espécie de emprego bem remunerado? – perguntou ela.
– Qualquer coisa que você queira, fêmea. Podemos viajar através da Morte, através do Sonho. Nós vemos coisas. Sabemos coisas. Montes de coisas.
Maggie olhou-o com desconfiança.
– E você acha que vou confiar em vocês? Você acabou de me dizer que trabalhavam para o Velho Homem.
– Ai – disse Hughie –, não trabalhamos mais. Você é o Cavaleiro da Carnificina, fêmea. Isso significa que nós pertencemos a você agora.
Os olhos de Maggie se arregalaram.
– A mim? – indagou ela.
Mandy concordou com um crocito.
– Você quer dizer, como criados ou algo assim?
Hughie coçou sua axila.
– Criados, espiões, sentinelas; transportadores, carregadores de escudos, cavalgaduras, bagageiros, fornecedores de coisas brilhantes e geralmente paus para toda obra. Então… o que você diz, hein?
Mandy crocitou e suspirou esperançosamente pelos farelos de Meninos Gordos à mesa junto à cabeceira da cama. Maggie se flagrou querendo rir. As criaturas podiam ser bem perigosas, com suas runas misteriosas e sua habilidade de se transformar em pássaros, porém mais que tudo lhe faziam lembrar-se de crianças selvagens, caóticas – estranhamente afetuosas, cheias de diversão, efervescendo com energia incansável.
Ela lançou Bjarkán uma última vez. Uma vez mais ela viu as criaturas em Aspectos; mais uma vez ela examinou suas assinaturas. Ela viu uma tendência a roubar, uma grande dose de malícia, alguma vaidade e um constante apetite por coisas doces e objetos brilhantes, mas não havia traço de maldade ali entre as cores frenéticas. Fosse o que fosse o que mais eles tencionassem, os corvos não significavam nenhum mal para ela.
– Como vocês podem me ajudar? – perguntou por fim. – Vocês podem me dar as novas runas?
Hughie balançou sua cabeça.
– Então, vocês podem despertar o Velho Homem?
Ele deu de ombros.
– Sinto muito, fêmea.
– Então, o que exatamente vocês podem fazer?
– Nós podemos lhe dar o Povo do Fogo.
E, tendo dito isso, Hughie enfiou a mão no bolso e retirou uma bola amarrotada de papel cor-de-rosa, que passou para Maggie. Por um momento seus olhos dourados, inumanos, se fixaram nos olhos cinzentos de Maggie. Ele deixou a bola de papel cair na sua mão aberta.
Crawk, disse Mandy. Crawk. Crawk.
Maggie desdobrou a folha amarrotada. Ela viu uma única página pobremente impressa fazendo propaganda de alguma espécie de show:
O PEQUENO CIRCO PANDEMÔNIO DO FELIZARDO!
MONSTROS E PRODÍGIOS!
MARAVILHAS E ABERRAÇÕES!
Ela franziu o cenho, confusa, diante da página. Um circo? O que pelos Mundos aquilo queria dizer? Como poderia um circo itinerante estar ligado ao Povo do Fogo? Então seus olhos se arregalaram, e ela entendeu.
– É assim que eles estão fazendo? É assim que estão passando despercebidos? Quão perto eles chegaram? Quanto tempo até que cheguem a Fim de Mundo?
Hughie coçou a cabeça e crocitou.
– Eles chegaram até Rhydian. É uma velocidade muito boa, fêmea. Naturalmente, eles têm que agradecer Loki por isso. Ele é um que nunca deixa de apresentar um plano, se sua vida depende disso.
Os olhos de Maggie ainda estavam sobre o papel.
– Eles vão chegar aqui a tempo?
– Sim, nesse ritmo, sem dúvida – disse ele. – Embora talvez haja um meio de retardá-los ou pará-los completamente.
– Como?
Ele pareceu hesitar.
– Bem, isso pode ser uma tentativa com pouca chance de sucesso… – disse ele. – Mas há uma coisa adormecida em Rhydian. Uma coisa que, se for despertada, pode fornecer a solução para seu problema e o nosso.
– Você quer dizer, adormecida como o Velho Homem? – perguntou Maggie.
– Não exatamente. É mais como uma armadilha, ou uma corda de tropeçar. Penso que você achará que é mais que suficiente para lidar com gente da espécie do Povo do Fogo. Mas… – Hughie fez uma pausa. – Se eu fosse você, não diria nada ao seu amigo, ou ao seu pequeno passageiro. Na verdade, não nos mencionaria de modo algum. Melhor não deixá-lo saber como ocorreu de você chamar-nos.
– Chamá-los? Eu não chamei! – disse ela.
Hughie sorriu.
– E, no entanto…
Maggie pensou bastante, ainda olhando para o pedaço de papel amarrotado. Se Hughie estivesse certo, e o Povo do Fogo tivesse chegado perto da fronteira das Terras do Norte, então alguma coisa precisava ser feita. Por direito, ela devia contar tudo a Adam, mas não confiava em seu passageiro. O Murmurador já havia tentado fazê-la matar sua irmã. O que aconteceria se ela lhe contasse sobre o Povo do Fogo?
Franzindo o cenho, ela se virou para Hughie novamente.
– Você disse que essa coisa retardaria a marcha deles. Como uma espécie de armadilha, você disse.
Hughie fez um sinal positivo.
– É sim, fêmea.
– Minha irmã está com eles?
– Não.
– Então me diga o que fazer – pediu ela.
Ele sorriu.
– Apenas sonhe um sonho.
Quando Maggie despertou, os pássaros tinham ido embora e Adam estava sentado ao lado dela.
– Eu devo ter caído no sono – disse ela, com uma olhadela para a janela aberta. – Sinto muito. Eu sei que não devia ter…
– O Velho Homem falou? – perguntou ele, e ela viu o Murmurador em seus olhos.
Maggie balançou a cabeça.
– Nem uma palavra.
– E nada mais aconteceu? – A voz do Murmurador era desconfiada e seca como um punhado de poeira de cemitério.
Mais uma vez Maggie balançou a cabeça, e qualquer sensação de culpa que ela pudesse ter por enganar Adam se afastou para longe. O Murmurador era perigoso demais para ela confiar em Adam naquele momento. Quem sabia que tipo de punição seu mestre poderia infligir a ele, e tudo porque Maggie Rede não conseguira manter sua boca fechada? Além do mais, o que ela realmente tinha feito? Aberto a janela cerca de cinco centímetros? Comprado um par de Meninos Gordos? Tirado uma soneca? Sonhado um sonho?
Ela ergueu seus olhos e lhe lançou o mais doce e o mais aberto dos sorrisos.
– Eu tive o sonho mais maravilhoso – disse ela. – Agora, que tal um beijo?
E quando ele puxou-a em sua direção e agarrou sua nuca, Maggie sentiu dentro de si uma onda de alguma coisa poderosa demais para que a expressasse. Ela não tinha palavras para descrevê-la; mas sabia que preferiria morrer a ver Adam sofrer por causa dela. Se tudo corresse conforme o plano, ela pensou, o Povo do Fogo logo seria subjugado, o Velho Homem lhe daria as novas runas, e Adam ficaria finalmente livre.
E quanto aos corvos de Odin…
Maggie enfiou as mãos em seu bolso e sentiu o papel amarrotado ali. Assim que pudesse, disse a si mesma, ela o jogaria dentro do fogo. Não restaria nenhum traço dos dois pássaros – nenhuma partícula de açúcar, nenhuma assinatura, nem mesmo um pedacinho de farelo de Menino Gordo para indicar que eles haviam estado ali. Talvez ela houvesse apenas sonhado com eles, e tudo isso fosse somente um delírio provocado por um excesso de Meninos Gordos.
Em todo caso, Maggie pensou, tudo aquilo acabara agora.
Adam não precisava saber.