Luz das Runas
Capítulo 6
Adam Scattergood olhou fixamente para o Cavalo que Maggie havia trazido consigo para fora do Sonho. Sua comunicação com seu passageiro, pela primeira vez em três anos, o tinha deixado sem a presença dele em sua mente, e embora o intervalo de separação houvesse durado apenas alguns minutos, isso o fizera sentir-se terrivelmente vulnerável, como se todo o conhecimento que ele havia adquirido houvesse sido súbita e brutalmente arrancado de si, deixando-o sem direção, sem defesa, ignorante e…
Livre?
O pensamento foi uma revelação. Que ele podia ser livre, realmente livre, nunca havia passado por sua mente. Começou com um tremor em sua espinha, que se espalhou até a boca de seu estômago e saltou como fogo selvagem para seu cérebro, enchendo-o de partes iguais de terror e empolgação.
Sua cabeça girou, sua garganta ficou seca; por um momento sentiu como se pudesse estar tendo uma convulsão. Em três longos anos de escravidão, de servir a cada capricho de seu passageiro, de viver no terror do que ele poderia fazer se Adam ousasse desagradá-lo, a ideia de simplesmente se afastar dele nunca lhe havia ocorrido.
Eu poderia ser livre, pensou Adam; e de repente ele se viu pondo de lado seu fardo e sua espada; esquecendo seus sonhos de destino – que não eram sonhos totalmente seus, ele entendia, mas da presença que o havia habitado por tanto tempo que, até agora, ele era incapaz de distinguir onde ele terminava e seu passageiro começava. Eu poderia fugir, pensou Adam, e o terrível tremor se intensificou. Eu poderia fazer isso imediatamente!
Se ele ousaria ou não fazer isso permanece especulação. Ele poderia realmente ter simplesmente ido para casa, posto de lado seu destino e voltar a ser Adam Scattergood: administrando a Estalagem dos Sete Adormecidos; mantendo boa relação com seus vizinhos; casando-se jovem, como seu pai; engordando, como sua mãe; indo à igreja todo Domingo e tentando ao máximo esquecer que ele poderia ter sido magnífico?
Em todo caso, não havia tempo para pensar. O tremor mal teve um momento para plantar seus anzóis enganosos em sua mente quando seu passageiro voltou empurrando-o com tal força que derrubou Adam no chão e prendeu-o ali, machucado, trêmulo e aterrorizado, como se a coisa que um dia fora Mimir, o Sábio, se lançasse de volta ao lugar em sua mente como um hóspede petulante numa poltrona muito usada.
Pensando em sua traição, Adam começou a gemer. O Inominável podia ser cruel e sabia como punir rebeliões. Mas hoje estava preocupado. Adam sentiu ao mesmo tempo uma furiosa e frenética empolgação, e um arrebatamento de raiva que suplantava qualquer coisa com que houvesse se deparado desde aquele dia nas margens do Sonho, quando os dois tinham pela primeira vez se tornado um só.
– Como ela se atreve? Como ela SE ATREVE a recusar a Mim? – gritava ele.
Adam deu uma olhada para Maggie, que o estava observando com alguma preocupação.
– Adam? Você está bem? – perguntou ela. Ele não parecia bem, Maggie pensou. Ela o vira estremecendo. – Adam? Por favor. O que aconteceu?
– Não é nada – disse Adam. – Passou agora. – Ele se endireitou. – Diga-me o que aconteceu.
Sentada ao lado dele na cama, Maggie recontou sua jornada através do Sonho, da Colina do Cavalo Vermelho à sua fuga pelas nuvens, à sussurrante, condutora Voz, que ela havia banido de sua mente quando tentara controlá-la.
Os olhos azuis de Adam se arregalaram.
– Você fez isso?
Maggie fez que sim.
– Em meu sonho. Mas não era realmente um sonho, era? – questionou ela, com um olhar de relance para o Cavalo ruão.
– O Sonho é um rio que corre através dos Nove Mundos – disse Adam, que precisava não dar corda ao assunto. – É um lugar perigoso e tão real quanto qualquer outro lugar. Mais ainda, talvez, porque no Sonho você pode ver as coisas como elas realmente são, despida de seus disfarces.
– Disfarces? – perguntou Maggie.
Ele olhou para o Cavalo.
– Bem, eu suponho que ele parece diferente do modo que era quando você estava no Sonho.
– Mas por que ele está aqui? – perguntou Maggie. – E de quem era a Voz? E quem era aquela garota? E por que ela se parece comigo?
O passageiro falou na mente de Adam:
– Diga a ela que você não pode discutir isso agora. Diga a ela que há uma coisa que você precisa que ela faça. Diga a ela que é muito importante. E, pelo amor dos deuses, diga a ela para parar de fazer perguntas!
Mas Maggie estava olhando para Adam através do círculo de indicador e polegar. Seu amigo parecia febril, ela pensou, nauseado, ansioso e temeroso; e toda vez que ela falava com ele, ele punha a cabeça de lado um pouquinho, como se esperasse instruções antes de responder a ela, ou como se estivesse escutando uma voz que só ele podia ouvir.
Ela lembrou-se do que a garota do Norte lhe dissera sobre a Voz em sua cabeça. De que ela a chamara? De Murmurador? E será que Adam a ouvia também?
Ela focalizou a atenção sobre a runa Bjarkán, procurando as cores de Adam. Ela viu – um estranho cordão de luz de runa em sua assinatura. Adam se encolheu; suas cores flamejaram – e foi aí que Maggie teve certeza. Outro alguém estava observando-a, um observador silencioso e fantasmagórico…
Ela baniu a runa.
– Mestre? – perguntou ela. – Não é preciso se esconder. Eu sei que você está aí.
Na mente de Adam, o passageiro se retorceu e cuspiu como uma cova de serpentes.
Adam, com um tremendo esforço, se forçou a permanecer calmo.
– Eu não tenho ideia do que você está falando…
– Não minta para mim, Mestre. Você tentou assumir o controle de minha mente. Tentou me fazer obedecer você. Aquela garota na Colina disse que você faria isso. Ela disse que você era o inimigo.
– Não – disse Adam. – Isso não é verdade.
– Então, onde está você? – exigiu Maggie. – E por que não me diz o que está acontecendo?
– Eu vou dizer – respondeu ele na voz de Adam. – Mas primeiro preciso de sua obediência.
Adam, vocalizando as palavras de seu mensageiro, podia sentir a intensidade de sua raiva. Sentia que ele estava à beira de alguma erupção colossal:
Como ela se atreve a questionar a MIM!
Ele se encolheu. Maggie se flagrou estranhamente comovida. Quando Adam lhe aparecera pela primeira vez no labirinto sob a Cidade Universal, ela o havia achado um tanto arrogante. Depois disso ela ficara ligeiramente espantada com aquele jovem que sabia tantas coisas. Mas agora que vira suas verdadeiras cores por fim, sentia uma ternura peculiar. Ele era apenas humano, ela pensou; e a coisa que se autodenominava Mestre o tinha sob seu poder.
– Eu quero que você liberte meu amigo.
– Maggie, não – pediu Adam.
– Liberte-o – repetiu ela. – Depois podemos conversar.
Adam estava suando agora.
– Por favor – disse ele. – Você não sabe com o que está lidando. Ele salvou minha vida no Mundo Subterrâneo. Agora ele me diz o que fazer. Ele sabe o que estou pensando. Misericórdia, por favor… – Ele gemeu e caiu de joelhos.
– O que houve? – perguntou Maggie.
Pela voz de Adam, o Mestre disse:
– Foi você quem fez isso, Maggie Rede. Eu não gosto de causar dor.
Adam começou a malhar e gritar, arranhando o chão com suas mãos.
– Por favor, Maggie! Faça-o parar!
– Deixe meu amigo em paz – ordenou ela.
– Não antes que você concorde com minhas condições.
– Que condições?
– Todas elas.
Maggie pôs a mão sobre a boca. Percebeu que estava tremendo.
– Não – falou ela. – Eu farei o que você quer. Juro que farei.
– Jura pelo seu nome verdadeiro?
– Sim! Sim!
Imediatamente, a presença na mente de Adam desprendeu-se dele. O jovem arrastou-se até seus joelhos e vomitou. A garganta de Maggie estava apertada ao máximo. Ela nunca sentira tanto terror em sua vida. Ela queria nunca mais senti-lo.
O que está acontecendo comigo?, pensou ela. O que é esta fraqueza traiçoeira?
– Eu não queria fazer isso – disse o Mestre pela voz de Adam. – Mas vocês dois precisavam de uma lição, e nosso tempo está ficando cada vez mais curto.
Adam olhou para Maggie.
– Obrigado – sussurrou ele e pegou a mão dela.
Por um momento Maggie segurou-a, não sabendo muito bem o que sentir. Sozinha e sem amor por tantos anos, aquele simples contato humano parecia estranho e exótico – e emocionante. Ela ficou imaginando como seria beijar Adam e flagrou-se corando violentamente.
– Ele se foi? – perguntou ela, por fim.
– Ele nunca vai realmente embora – contou Adam. – Mas creio que estamos bem para conversar.
Isso não era totalmente mentira. Ele sabia que, se a enganasse, ela veria o engano em suas cores – mas não era toda a verdade. Na verdade, ele ainda podia ouvir seu passageiro, sua Voz apagada e esperta dentro de sua mente, e sabia que, se cometesse um erro, a represália viria a seguir.
– Você queria respostas, Maggie – disse ele. – Você tem certeza de que está preparada?
Ela fez que sim.
– Tudo bem. Eu lhe contarei tudo. Então, se você ainda não confia em mim…
– Eu confio em você – garantiu Maggie. – É em seu Mestre que não confio.
Adam pareceu desconfortável.
– Espero poder mudar sua opinião sobre isso. Eu preciso de você, Maggie…
Maggie sorriu. Parecia muito estranho usar tal sorriso, como tentar usar algum item de vestimenta inabitual. Ela lembrou-se de sua sensação de desagrado quando Adam havia descoberto a força magnética em sua nuca; sua relutância em retirar seu bergha em frente a um homem que não era de sua família. Agora essas sensações pareciam infantis, absurdas. O que havia ali a ser temido?
Quando menina, ela vira seus pais morrerem e seu mundo se dissolver no Caos. Se ela soubesse então o que sabia agora, podia tê-los salvado – tê-los ajudado –, ou no mínimo reagido com luta. Mas agora as coisas seriam diferentes. Agora ela tinha força magnética – aquele fogo misterioso que transformava pessoas comuns em deuses. Melhor ainda, tinha um amigo. Alguém que a ouvia. Alguém que se preocupava com ela.
Maggie havia sonhado em curar Fim de Mundo, em Purificar uma cidade em anarquia. Agora seu sonho ficara menor, de algum modo; menor, e, no entanto, mais significativo. Bibliotecas perdidas, comerciantes sórdidos, a decadência da Lei e da Ordem – até seu desejo de vingança contra os agentes do Caos –, tudo havia cedido caminho a um tipo mais poderoso e profundo de desejo.
Maggie não tinha nome para ele. Ela mal sabia que ele existia. Tudo que ela sabia era que alguma coisa havia mudado; alguma alavanca havia sido puxada ou empurrada, pondo em movimento um mecanismo que nunca havia sido usado. E como outra pequena peça de uma intrincada armadilha que houvesse caído lentamente no lugar, Adam Goodwin sorriu para si mesmo, enquanto o Cavalo Vermelho dos Últimos Dias começou a mascar as borlas de seda da colcha e, pela primeira vez em quinhentos anos, Mimir, o Sábio, ficou satisfeito.