Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 89 de 103

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Luz das Runas

LIVRO NOVE – Asgard

LIVRO NOVE

Asgard

O Fim do Mundo sempre começa com um beijo.

Lokabrenna, 19:12

1

 

Por um momento Maggie ficou aturdida pelo tamanho e esplendor da catedral. A famosa cúpula de vidro, que pelo lado de fora parecia com uma tampa de tigela feita de bronze polido, era diferente pelo lado de dentro, como ela podia ter imaginado. A luz do sol fluía do teto através de mil – dez mil – painéis de vidro recortado, inteligentemente dispostos para capturar a luz a qualquer momento concebível do dia. Maggie nunca tinha visto diamantes, mas se tivesse, podia ter comparado a uma pedra preciosa gigante e multifacetada que espalhava luz sobre as paredes, arcadas, pilares e pisos da grande catedral, tornando-a um lugar de luz mesmo no mais escuro dos dias.

Naquele dia ela estava especialmente radiante, cada painel lançando prismas e Arco-Íris, de tal modo que Adam, em seu traje branco, era um arlequim de vermelhos e verdes, e Maggie, que não era sempre dada a frivolidades, riu alto de satisfação quando viu a solene catedral se acender como um show de lanterna mágica.

O lugar estava quase vazio. Ninguém havia sido convidado, naturalmente, e Adam havia pagado uma gratificação para a catedral ficar fechada pelos quinze minutos da cerimônia. Só o pessoal que trabalhava com o órgão e a pequena equipe da catedral: o Diretor Espiritual em sua caixa de madeira, o Confessor com suas longas luvas negras, e o Sacristão com sua bolsa e seu sino se juntaram ao Bispo como testemunhas.

O Máquina Brava, um órgão tão grande que precisava de cinco homens para tocá-lo, procedia de uma época quase próxima à Adversidade, e Maggie ficou observando com curiosidade quando os grandes tubos – cada um tão alto quanto uma árvore e entalhado de runas da cabeça aos pés – começaram a tremer e ressoar no momento em que os maquinistas acionaram as alavancas e rodas que punham o Máquina Brava em atividade.

O órgão emitiu um som de guincho, depois uma série de arrotos. Era uma coisa antiga, temperamental, mas quando finalmente encontrou sua voz, não se comparava com nada que Maggie tivesse ouvido anteriormente. Era como uma floresta de árvores dotada de voz; como o mar; como as vozes dos mortos. Ele lhe infundia respeito; e foi com uma nova timidez que ela subiu com Adam os degraus para a Pedra do Beijo, onde o Bispo estava esperando para abençoar os dois.

Seu véu se prendeu na fivela de um de seus sapatos. Ela lutou para soltá-lo. Ficou subitamente cheia de um senso de pânico, uma urgência por fazê-lo; por que tudo terminasse.

O Bispo falou:

– Estamos aqui reunidos hoje para unir dois jovens nos laços do matrimônio. Adam Goodwin e Maggie Rede, tomem seus lugares diante da Pedra.

Adam e Maggie trocaram um olhar. Maggie tentou sorrir. Logo estará acabado, ela pensou. Logo ela e Adam estariam livres para começar uma nova vida juntos, como um só.

Mimir, o Sábio, vinha esperando por isso desde antes da Adversidade. Seus planos haviam sido frustrados uma vez, mas sua ambição gigantesca nunca havia diminuído. Agora estava prestes a chegar o momento em que Mimir, o Sábio, tomaria seu lugar entre as fileiras dos Æsir; a culminância de quinhentos anos de ódio e ambição – seus inimigos derrotados, seu reino reconstruído, ele mesmo renascido como Pai Supremo.

E tudo isso com um simples beijo…

A Pedra do Beijo do Santo Sepulcro era maior do que Maggie havia esperado. Um pedaço de pedra vulcânica negra, com a espessura de um metro e meio e a altura de quatro metros, e coberta de inscrições, como os tubos do órgão, de runas que corriam para baixo e para cima como pequenas colônias de formigas ordenadas, pequenas demais para Maggie decifrar. Na superfície próxima, um trecho mais liso assinalava o ponto que havia feito a Pedra do Beijo merecer este nome: por quinhentos anos, peregrinos e penitentes, noivas e noivos haviam beijado o lugar no qual uma marca – um beijo de pedra – se entalhara profundamente.

 

E agora o Bispo lia em voz alta o antigo cântico matrimonial. Maggie e Adam repetiam as palavras – a voz de Adam estremecendo um pouco, a de Maggie clara e confiante:

Minha mão para a sua mão,

Minha alma para a sua alma…

Naturalmente, nunca ocorrera a Maggie que, como tudo no Bom Livro, o pequeno e simples cântico pudesse ser uma coisa de poder. Para Maggie, era apenas uma tradição, como o véu e o vestido de noiva. O Murmurador sabia mais, naturalmente, e seu velho coração feroz exultava.

Meu nome para seu nome,

Para sempre, seremos um só.

– Agora, podem beijar a Pedra – disse o Bispo, um homem de meia-idade, ambicioso, que, como o Confessor, o Diretor Espiritual, o Sacristão e os cinco maquinistas, tinha agora apenas segundos de vida.

Maggie se ajoelhou para beijar a Pedra. Ela pareceu curiosamente quente ao toque, como se algum vestígio de calor houvesse restado dos fogos de sua criação há muito tempo extintos. Havia uma espécie de vibração também; e um zumbido como o de uma colmeia de abelhas, que subia pelas pontas de seus dedos e fazia seu coração estremecer.

Ela ergueu os olhos para Adam e o viu transfixado. Seu coração jovem se inchou de felicidade. Todas as dúvidas que ela tivera – seus medos, suas inseguranças – desapareceram quando viu o rosto de Adam iluminado pelo êxtase.

Naturalmente, a alegria de Adam não tinha nada a ver com fazer seus votos a Maggie. Mas alguma coisa havia acontecido, mesmo assim; uma coisa que o fazia querer gritar, berrar e dançar como um selvagem.

Depois de três anos de escravidão, o Murmurador finalmente desaparecera. Sumiu para sempre, Adam pensou. Não haverá mais escuridão. Não haverá mais sonhos…

Ele baixou os olhos para a nova esposa e quase não a odiou. Seus olhos estavam brilhantes, seu rosto corado, ele sentia renascido para a felicidade perfeita.

Maggie beijou a Pedra…

E então…

Todas estas coisas aconteceram de uma vez só:

A cúpula de vidro da catedral do Santo Sepulcro se rachou bem ao meio, revelando um céu que por sua vez estava partido pela metade, uma escura, outra clara, com Bif-rost como linha divisória, como um escudo contra a noite.

Um som como o bater violento de todas as portas que um dia existiram no Mundo irrompeu na catedral.

Um único titânico raio de força magnética disparou do coração da Pedra do Beijo, lançando uma ondulação de energia rúnica a todos os pontos da bússola de uma vez só. Ao mesmo tempo um facho de luz emergiu do entalhe que se parecia tanto com um beijo…

E o Bispo e seus colegas – na verdade, todo ser vivo no lugar, com uma única exceção – imediatamente caíram ao chão, nariz e ouvidos jorrando sangue. O Bispo morreu num segundo, junto com o Diretor Espiritual, os maquinistas, o Confessor, a substancial colônia de ratos da catedral – e, naturalmente, Adam Scattergood, que tivera tempo suficiente apenas para lembrar-se de nunca confiar num oráculo antes de ser expelido com a força de um disparo de besta e projetado em direção à encapelada nuvem negra que já havia devorado o céu, a qual, com sua perspectiva recém-descoberta, ele pôde então identificar como o Sonho em seu Aspecto mais caótico – conhecido pelo Povo como Pandemônio, o Mundo de Inumeráveis Demônios.