Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 42 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 14

 

Enquanto isso, em Malbry, os deuses e seus aliados do Caos estavam envolvidos numa enérgica discussão. O desaparecimento de Maddy, bem como o da Serpente do Mundo, já havia causado preocupação suficiente; mas as assinaturas que ela havia deixado – os feitiços gastos, sua luta com Loki, o inconfundível rastro de cor de sua fuga para dentro do Sonho – haviam detonado mais divisões entre os Æsir e os Vanir.

Uma facção (na maior parte de Thor) tinha certeza de que ela havia sido sequestrada, embora seus rastros fossem confusos. Por um lado, a presença do rastro de Loki indicava alguma espécie de emboscada. Por outro, estava claro que ela derrotara Loki – o que parecia sugerir que, qualquer que fosse a razão, Maddy havia penetrado no Sonho por vontade própria. Como ela havia feito isso, se Loki ainda estava ou não com ela, e se a presença da Serpente do Mundo podia positivamente identificar os dois, ela e a Serpente, como o Cavaleiro cujo nome era Traição, permanecia uma questão em debate.

O lado de Heimdall estava fortemente a favor de encontrar Loki e fazê-lo falar. Mas para os Æsir, a brecha no sonho – que agora crescia num ritmo visível – permanecia a preocupação mais imediata.

– Ela tem que ser lacrada – argumentava Frey, cujo sinal de runa, Madr, o marcava como um amigo do Povo. – Se não a lacrarmos, então o Povo do vale não terá chance alguma.

A Sif de Cabelos Reluzentes deu um grunhido de desprezo.

– Lacrá-la? Você e a tribo de quem? – perguntou ela. Na verdade, Thor havia passado a maior parte da tarde trabalhando em torno da brecha no Sonho, batendo no chão e explodindo-o com runas, finalmente usando Mjolnir, seu poderoso martelo, para dar pancadas no lugar da fuga do Cavalo. O único resultado visível foi a fila de enormes buracos cavados pelo martelo que agora cercavam a Colina do Cavalo Vermelho.

O Deus do Trovão parecia ressentido.

– Isso não é como consertar um vazamento, querida – disse ele, com o olhar severo que um dia havia arrasado gigantes. – Estamos falando sobre a ruptura fundamental entre o tecido dos Mundos, não sobre uma curva em U defeituosa.

Sif deu um ronco muito parecido ao de uma porca.

– Mais bolo, querida? – sugeriu Thor.

A essa altura a Caçadora havia se juntado aos deuses na sala frontal da Paróquia, e, com suas peles e seu chicote de runas, estava parecendo muito deslocada na otomana de seda azul de Ethel. Os corvos de Odin – em forma humana – se empoleiraram silenciosamente ao seu lado.

– Eu sei que tivemos nossas diferenças – disse Skadi, olhando para Njörd. –

Mas esta brecha no Sonho ameaça todos nós. Tem que ser fechada. Custe o que custar.

– Você acha que não tentamos? – argumentou Thor.

– Sei que vocês tentaram – disse Skadi. – Mas a brecha está crescendo o tempo todo. É como uma coisa derretendo um buraco no gelo, e todos nós estamos prestes a mergulhar nele.

A imagem, embora crua, foi poderosa o bastante. Os deuses trocaram olhares temerosos. Apenas Jolly pareceu despreocupado; aparentemente esquecido da chegada iminente do novo Ragnarók, ele estava pegando o gelo e formando uma pilha de cupcakes que Ethel havia feito para o chá da tarde.

Não que ela quisesse chá. Mas em seus dias como mulher de um pároco, Ethel havia se acostumado a confiar em certas rotinas, razão pela qual a mesa estava disposta como o habitual, com sua série de pequenos sanduíches, broinhas e bolos. Skól deu uma fungada esperançosa nos cupcakes, mas Jolly não estava disposto a dividir. Ele arreganhou os dentes para o lobo-demônio e deu um longo grunhido. Por um momento Skól ficou tentado a aceitar o desafio, mas, vendo a expressão feroz de Jolly, decidiu sensatamente não o fazer. Além do mais – um lobo em luta com um martelo? Cara, isso era esquisito demais!

– Eu não entendo – disse Heimdall por fim. – A princípio a profecia parecia clara. Asgard reconstruída pelo poder do Sonho. Mas, até aqui, a brecha no Sonho não nos trouxe nada senão Caos.

Ele olhou pela janela da Paróquia, onde a brecha era claramente visível ao sol da tarde que caía – uma coluna de nuvens que pairava acima do que restava da Colina do Cavalo Vermelho. Ele calculou seu diâmetro em quatrocentos metros – não grande, mas crescendo firmemente, expandindo-se, devorando arbustos, rochas, relva, árvores a um ritmo de cerca de um metro por hora. Todos os deuses podiam ouvi-la agora – um som como o cricrilar de grilos; um som dentro do qual todos os outros sons eram derrotados por uma parede de ruído.

Bragi dedilhou sua guitarra. Ainda desafinada depois da batalha, ela soltou um irritante som lamentoso.

– Ah, por favor – disse Freya. – Se eu escutar mais um dos cantos fúnebres de Bragi, eu vou me matar.

Bragi pareceu magoado.

– São as cordas – explicou ele. – Você sabe como é estar fora de Aspecto. Se apenas pudéssemos retomar Asgard!…

Freya fungou.

– Sim, eu sei. Em Asgard, tudo é magnífico. Em Asgard, Sif consegue seu perfil de volta, Tyr consegue brincar com os garotões, Thor consegue martelar quem quer que ele queira, eu tenho a oportunidade de roupas e de um banho, e você consegue tocar seu alaúde novamente sem fazer os ouvidos de ninguém sangrar. – Ela atirou para trás uma mecha de seu cabelo de um vermelho dourado. – O único problema é que, naturalmente, Asgard foi destruída há uma era, levando nossos Aspectos com ela, e a única chance de obtê-la de volta é decifrar uma profecia desajeitada que nem mesmo rima.

Fenny deu uma risadinha maliciosa.

– Calouros. Você não tem uma pista, tem, garota?

– Quem você está chamando de garota? – retrucou Freya, com seu Aspecto de Carniceira começando a aparecer.

Heimdall teve que intervir antes que a coisa ficasse um tanto mais feia.

– A chave para o portal é um filho do ódio, um filho dos dois e de nenhum. Vocês acham que esse trecho pode se referir a Maddy? Afinal, ela é a filha de Thor e do demônio Jarnsaxa. Agora, porque ela seria uma filha do ódio…

– Loki – disse Frey com convicção. – Ele é o filho de demônios, e todos o odeiam. Mais ainda, foi ele quem abriu o portão para o Mundo Inferior da primeira vez. Quem mais poderia ser?

– Não tenho certeza de que aprecio o termo demônios – disse Angie, interrompendo. – Algumas pessoas podem achá-lo ofensivo.

– Então, o que você preferiria? – perguntou Heimdall.

– Pessoas de origem Caótica?

– Deuses! – explodiu Heimdall. – Maddy está perdida, Loki fugiu, o Fim dos malditos Mundos está próximo, e você está me fazendo sermão sobre correção política? – Mas Ethel havia de repente ficado muito imóvel. – O que houve agora? – questionou ele.

– Maddy não está perdida – disse ela. – Como é que eu deixei passar isso? É óbvio.

– O que é? – disse Heimdall.

– Eu vejo um poderoso Cinza que se ergue ao lado de um Poderoso Carvalho. Todos nós pensamos que a Cinza era Yggdrasil, mas…

– O sinal de Maddy é o Cinza – disse Frey. – Você quer dizer que Maddy está envolvida com isso? Se isso é verdade, quem é o Carvalho? E quanto à Traição, à Carnificina e à Loucura?

– Os Três Cavalos dos Últimos Dias. – Ethel deixou cair seu trabalho de tricô (um chapéu) e, pela primeira vez, pareceu agitada. – O Cavalo de Fogo é Sleipnir, é claro. O Cavalo do Mar é Jormungand. E o Cavalo do Ar está provavelmente a caminho. E se Maddy é a chave para tudo isso, então Fim de Mundo é o lugar para onde ela vai se dirigir. Foi lá que Asgard tombou, afinal de contas. E é lá que nós devíamos estar neste exato momento.

– Por quê? Para que a pressa? – quis saber Saco de Açúcar.

Ethel lançou-lhe um olhar opressivo.

– Dentro de apenas doze dias, no Fim dos Mundos; uma dádiva saindo de dentro de um sepulcro. Vocês todos se lembram da profecia que eu fiz anteontem. Isso significa que dentro de nove dias, em Fim de Mundo, onde Asgard tombou no fim da guerra, o conflito final vai ocorrer.

Houve silêncio quando os deuses ouviram isso.

– E quanto ao Povo? – comentou Frey. – Partimos agora, e eles estarão acabados.

– Se partirmos tarde demais, nós é que estaremos acabados!

Frey suspirou.

– Ethel está certa – disse ele.

– E quanto a Loki? – perguntou Angie, com um olhar de curiosidade sobre Ethel. – Sendo o Astuto, e tudo mais, você não acha que precisaremos dele?

– Precisar dele? – indagou Thor. – Eu quebrarei seu pescoço.

– Não se eu quebrá-lo primeiro – interveio Frey.

– Deixem-no em paz – disse Skadi. – Não temos tempo para persegui-lo agora. Quando tivermos acabado em Fim de Mundo, poderemos lidar com ele com folga. – Ela olhou ao redor para os outros deuses. – De acordo?

Thor deu de ombros.

– Vamos para Fim de Mundo, então.

– De acordo – disse Ethel com um sorriso.

E foi por isso que, ao pôr do sol, alguém que estava observando a estrada de Hindarfell (através do círculo de indicador e polegar) pôde ver o bando desordenado – alguns a cavalo, outros trotando a pé, outros correndo, outros pairando no ar – se aproximando da estreita brecha nas rochas e saindo do vale.

A observadora, armada de visão verdadeira, pôde ver suas assinaturas, ameaçadoras como a borda de uma tempestade, atravessando o cair da noite como um Arco-Íris quando eles penetraram na sombra das montanhas.

A observadora, caso eles a tivessem visto na varanda junto à estrada de Malbry, suspirou, balançou sua cabeça e resmungou: “Moleques, o que eles vão fazer agora?”, antes de puxar sua camisa sobre seus joelhos e dar coices com seus calcanhares numa dança jubilosa. Ela não era uma bela visão, para ser claro, com suas velhas pernas inchadas nas suas longas meias listradas, mas a Louca Nan Fey podia dançar uma jiga tão alegremente quanto o homem mais próximo quando a ocasião o exigia, e ela havia esperado por um longo tempo para ter exatamente esta oportunidade. O Velho Homem lhe havia prometido um talismã de força magnética só seu e um lugar ao seu lado entre os Faërie, se ela apenas fizesse o que ele lhe dissera para fazer quando chegasse próximo a ele no Sonho.

A Louca Nan Fey acreditava em sonhos. Sempre acreditara, mesmo quando tentaram lhe dizer que os sonhos iriam roubar sua alma. Eles nunca roubaram – talvez a alma de Nan fosse velha e seca demais para que os demônios do sonho se importassem com ela –, mas ao longo dos últimos três anos parecia que toda vez que ela fechava os olhos via mais do que quando os abria. E agora ela vira o Velho Homem no Sonho – ah, sim, e seus passarinhos negros também –, e eles lhe ensinaram uma canção de pular corda igual àquelas ao som das quais dançava quando era criança:

O Berço caiu há uma era,

Mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo…

O que, pelo menos para a mente de Nan Fey, significava que tudo devia fazer uma volta circular novamente, como a Serpente com sua cauda em seu rabo circundando os Nove Mundos, e ela havia sorrido e balançado a cabeça, porque ela conhecia o Bom Livro, incluindo o Livro do Apocalipse, no qual o fim de um Mundo e o começo de outro são anunciados.

Para Nan, os sinais eram muito claros. O Fim do Mundo estava chegando. O primeiro sinal havia sido o surgimento de novas runas da Era Mais Nova; depois, a libertação dos velhos deuses da Fortaleza Negra do Mundo Inferior. A seguir, viera o Inominável e sua derrota a custo da vida do General. Então, viera a brecha do Sonho, derramando-se no Mundo Médio. E ainda depois houvera o retorno do Cavalo de Odin e a fuga da Serpente do Mundo.

Depois disso, como todos sabiam, não haveria mais que um passo a dar para os Últimos Dias. Quando os deuses convergissem para Fim de Mundo, dizia-se que Três Cavaleiros viriam aos Mundos, três Cavaleiros sobre Três Cavalos – vermelho dos fogos do Mundo Abaixo, negro pelas profundezas do Um Mar e branco pelas nuvens do Firmamento –, eles conquistariam os Nove Mundos e Asgard pertenceria a eles:

E virá um Cavalo de Fogo,

E o nome de seu Cavaleiro é Carnificina.

E virá um Cavalo do Mar,

E o nome de seu Cavaleiro é Traição.

E virá um Cavalo do Ar,

E o nome do Cavaleiro é Loucura…

E agora Nan Fey ria alto. Por anos o povo havia zombado de suas visões, chamando-a de louca e lunática e dizendo que tinha a cabeça nas nuvens. Bem, muito em breve ela mostraria para eles. Eles veriam quem era louco. Nan Fey iria cavalgar o Cavalo do Ar para a Ponte que levava ao Firmamento, e a marca com a qual ela havia nascido – uma forma quebrada e invertida da runa Fé – se tornaria uma força magnética do Novo Manuscrito, completa e cheia de poder.

Enquanto isso, assim dissera o Velho Homem, tudo que Nan tinha a fazer era sonhar. Portanto ela voltou à sua casinha, sentou-se sobre sua cama estreita – o mesmo catre de caixote que havia usado quando garota, quando era Nancy Wickerman, a filha do fazedor de cestos – e dobrou as mãos como pétalas murchas sobre o colo de seu vestido; então, esperou que o Sonho a conduzisse para dentro das nuvens e além da lua e através do Mar em direção a Asgard.