Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 46 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 3

 

Em Fim de Mundo, Maggie também estava prestes a entrar no reino do Sonho. Desta vez, montada sobre Sleipnir, ela não teve necessidade de dormir, mas pôde atingir a fonte do Sonho diretamente, conscientemente, em seu próprio Aspecto. Desta vez ela não teve medo. O Sonho não era mais uma ameaça para ela, mas uma trilha brilhante que conduzia ao Velho Homem; à vitória sobre seus inimigos; e à libertação de Adam da servidão.

Havia um único pequeno problema. Fora dos sonhos, Maggie Rede nunca havia realmente montado num cavalo. E o animal vermelho no estábulo ao lado, que se alimentava placidamente de um fardo de feno, parecia alarmantemente grande para ela agora que iria montá-lo.

– Tenho que fazer isso agora? – Maggie apelou a Adam.

Adam fez que sim.

– Nosso tempo é curto. Quanto antes descobrirmos o Velho Homem, melhor.

Mais uma vez Maggie olhou para o Cavalo. Ele parecia com qualquer outro cavalo – isto é, até que ela o perscrutou através do círculo de seu indicador e polegar, então viu a chama de sua assinatura e as runas que brilhavam de seus arreios. No Sonho, ele assumira o seu verdadeiro Aspecto novamente – aquele flamejante meio-cavalo, meio-aranha que havia se arrastado para fora da Colina? E, supondo que encontrassem o Velho Homem, o que aconteceria então? Qual era o plano do Mestre?

O Livro do Apocalipse falava de guerra; mas, embora Maggie confiasse implicitamente em Adam, ela ainda não confiava tão completamente em seu passageiro. Havia muitas perguntas não respondidas que ele ainda se recusava a responder. O que ele queria exatamente? Que poder tinha sobre Adam? O que – ou quem – era o Velho Homem? E quanto à garota de seu sonho, que Adam dissera ser sua irmã?

Sua irmã. O pensamento ainda lhe vinha como um choque. Por três anos inteiros Maggie Rede se julgara sozinha no mundo, e a notícia de que ela tinha uma família enchia-a de confusão. Ela nunca fora íntima de seus irmãos; nunca tivera irmãs com quem conversar. Donal Rede havia sido orgulhoso de seus filhos, indiferente à filha; Susan, que havia ansiado por uma garota que gostasse de belas roupas e trabalhos de costura, havia achado Maggie um tanto decepcionante. Agora Maggie sabia por quê. Ela nunca fora uma Rede. Ela havia sido um cuco em seu pequeno ninho doméstico, enquanto em alguma outra parte, sua tribo real lutava na Ordem, trazendo a calamidade, liberando demônios do Mundo Inferior e geralmente procurando minar tudo em que ela acreditava…

A menos, é claro, que ela os detivesse. Esse era o seu destino, Adam havia dito. Construir um mundo melhor, ele disse. Devolvê-lo aos poderes do bem. A Ordem estava morta. Fim de Mundo estava em desordem. Maggie sozinha se erguia entre os Æsir e sua cidadela. Mas com Sleipnir, a Palavra e o Velho Homem, ela ainda podia ter a esperança de desafiá-los; frustrar seus planos; libertar os Mundos do Caos para o bem, pondo um fim à Adversidade de uma vez por todas.

Mas o Caos que estava em seu sangue falava de possibilidades. E se a guerra não fosse o único meio de encerrar o conflito e sanar os Mundos? Se o Sonho pudesse ser usado para o bem e para o mal, por que o Caos não podia fazer o mesmo? E, sendo assim, ela não poderia achar um meio de fazer as pazes com o Povo do Fogo?

Tais eram os pensamentos de Maggie quando ela se içou sobre o lombo de Sleipnir. Pensamentos atormentados, inquietos, violentos, repletos de contradições.

Ela olhou para Adam.

– Muito bem – disse ele. – Agora, diga a ele aonde você quer ir. Meu mestre vai guiá-la pelo resto do caminho.

Maggie baixou os olhos nervosamente por sobre o Cavalo. Ele parecia calmo o suficiente por enquanto; na verdade, podia até estar dormindo. Não havia sela em seu lombo, mas ela manteve uma das mãos nas rédeas e apertou a outra em sua crina. Na sua mente, o Mestre era uma presença leve e experimental.

– Sem mais truques – falou ela a ele. – Tente alguma coisa como a que você tentou da última vez e…

– Sem truques, Maggie – disse ele. Confie em mim. Nós estamos do mesmo lado.

Ela voltou sua atenção para o Cavalo, que não havia feito qualquer movimento desde que ela o montara.

– Eu quero que você encontre o Velho Homem – disse ela, tão ousadamente quanto pôde.

Sleipnir abriu um olho.

Ótimo, disse a voz em sua mente.

E, com isso, o ar estremeceu em frente a eles, houve o clarão flamejante de uma luz de runa, o Cavalo deu um só passo à frente, e os três deslizaram para longe, para dentro do Sonho.

Sleipnir realmente nunca dormia, mas seria verdade dizer que ele tampouco ficava completamente acordado. Sendo uma criatura com um pé equilibrado em cada um dos oito Mundos, uma parte dele estava sempre no Sonho e ele se movia pela trilha dos Mundos com a facilidade de um raio de sol. A Morte, o Sonho, os Mundos Superiores – todos eram a mesma coisa para o Cavalo de Fogo, e ele conduziu os viajantes velozmente ao longo das margens do rio, onde pássaros negros voavam e a coisa que eles buscavam – que ocorria ser também a sua caça – brilhava entre as pequenas ilhas costeiras do Sonho, uma solitária luz azul no deserto.

Adam não estava dormindo, naturalmente. Pelo contrário: mantinha guarda nos estábulos e observou assombrado quando Maggie subiu desajeitadamente no Cavalo, desaparecendo com Sleipnir no meio do ar, deixando nada além da cocheira vazia e do ensolarado cheiro de feno no rastro de ambos. Mais uma vez a ausência do Murmurador deixou-o sentindo-se estranhamente leve, e por um momento ele abrigou um pensamento perigoso: “E se eles nunca mais voltassem?”, e sentiu uma pontinha de esperança. Depois, deixou de lado a ideia como se fosse absurda e se acomodou no feno para esperar.

* * *

Enquanto isso, Maggie estava cavalgando através de um vasto e desértico plano nivelado, o terreno obscurecido pela névoa vinda do chão, o céu uma tampa de aço manchada. No horizonte, um rio corria – ou talvez uma parte do Um Mar. Certamente Maggie nunca havia visto um rio tão amplo como aquele, nem mesmo em seus livros roubados.

Por outro lado, ela estava consciente de uma sensação de desapontamento. Isso era muito distante da empolgação da Colina do Cavalo Vermelho. Até Sleipnir parecia normal ali – um plácido velho ruão vermelho trotando através do ermo.

– Que lugar é este? – indagou ela em voz alta.

– Estamos muito perto da nascente do Sonho. – A Voz em sua mente soou quase presunçosa. – Pode ver o rio? As ilhas? Isso significa que estamos nos aproximando.

Maggie olhou por sobre toda a planície. O rio a distância estava apenas debilmente perceptível; um movimento contra aquela camada de névoa. Fogos-fátuos emitiam clarões aos pés deles, mas de resto não havia nada a ser visto, e nenhum som, exceto a muda batalha dos cascos de Sleipnir contra o chão e o de seu próprio coração, como a batida de uma asa de mariposa numa catedral vazia.

– Perto? Mas nós estamos aqui há horas! – disse ela.

– O tempo funciona de modo diferente no Sonho. Creia em mim, estamos nos aproximando.

Bem, Maggie pensou, o rio ao menos não parecia estar mais perto do que estivera quando eles haviam penetrado neste mundo. E ela não conseguia avistar qualquer ilha – apenas um amontoado informe de nuvens contra o horizonte distante. Exceto que, se estreitasse seus olhos, conseguia ver estranhas formas naquela confusão de nuvens; formas que de algum modo se transformavam em rostos de pessoas que ela havia conhecido um dia. Seu pai. Sua mãe. Seus irmãos. Sua amiga de infância, Molly Carr, que havia morrido quando ela tinha apenas oito anos. Maggie teve um sobressalto de surpresa – ela não pensava em Molly havia muitos anos – e fez menção de desmontar.

– Não! – exclamou a Voz em sua mente. – Não coloque seu pé neste chão. Nem mesmo por um momento!

– Por quê? – perguntou Maggie. – O Cavalo não parece estar tendo problema algum.

– Você tem que questionar tudo? – A Voz soou quase queixosa. – Você não pode agir conforme lhe digo por nenhum momento? Encontrar o Velho Homem e partir?

– Bem, não vejo como alguém pode achar qualquer coisa nessa névoa – disse Maggie. – Acho que se eu caminhar um pouco… Quero dizer, como você sabe que o Velho Homem está aqui? Ele poderia estar bem aos seus pés, por tudo que você sabe.

– Eu não tenho que saber – respondeu asperamente a Voz. – E você não tem que pensar, graças aos Deuses. Tudo que temos a fazer é cavalgar. Pode fazer isso, Maggie?

Maggie deu um suspiro de tristeza.

– Tudo bem. Não há necessidade de ser grosseiro – disse ela. – Eu só queria…

– Sim, eu sei – cortou a Voz em sua mente. – Você só queria caminhar um pouco. Devo lhe mostrar o que aconteceria então? Isso a deixará feliz?

Ela deu de ombros.

– Há uma faca em seu bolso. Tire-a.

– Como você…?

– Eu apenas sei – disse a Voz. – Agora a retire de seu bolso, garota. Estenda-a por todo o comprimento de seu braço. Depois, deixe-a a cair aos pés do Cavalo. Bem, o que você está esperando?

– Vou ser capaz de encontrá-la novamente? – perguntou Maggie, ainda segurando a faca de bolso.

– Eu duvido muito – respondeu a Voz secamente. – Mas talvez sua curiosidade interminável seja satisfeita.

Maggie deixou a faca cair. Por um momento pensou que ela havia desaparecido no meio do ar; depois, foi atingida por uma percepção tão desmedida que quase caiu no lombo de Sleipnir. Ela soltou um grito, olhou para cima e apertou as mãos na crina de Sleipnir até que os nós dos dedos ficaram brancos. Acima dela, a lasca de metal que havia sido sua faca de bolso penetrou no céu cinza-ferro…

Só que não era o céu de modo algum, como Maggie então subitamente entendeu. Eles estavam viajando de ponta-cabeça. A névoa aos seus pés eram nuvens, ela viu; os fogos-fátuos eram relâmpagos distantes; enquanto a tampa cinzenta sobre eles era o chão, a certa grande e incompreensível distância.

– Eu lhe disse que as coisas eram diferentes aqui – disse a Voz com um traço de arrogância. – E especialmente aqui, no âmago do Sonho, as viagens raramente são lineares.

– Era por isso que precisávamos do Cavalo? – perguntou Maggie, tentando não ficar nauseada. A que distância de suas cabeças ficava o chão? Oitocentos metros? Dezesseis quilômetros? E como é que ele não caía?

– Sleipnir não é apenas um cavalo. Ele é um filho das efêmeras, que recebeu a forma externa de um cavalo. No Sonho, ele pode adotar a aparência que quiser. Como esta…

E, só por um momento, Maggie se flagrou no leme de um longo e alto navio com velas vermelho-vivas, todas se agitando com flâmulas e bandeiras ao longo dos cordames.

– Ou esta…

Então Sleipnir tornou-se um elefante, sua cabeçada ornada com rubis, portando uma torre em seu lombo e todo pintado de barro vermelho.

– Ou talvez esta…

A transformação final do Cavalo foi numa coisa que Maggie nunca vira. Parecia-se com alguma espécie de carruagem estofada de veludo vermelho que se movia muito mais velozmente que qualquer veículo que ela houvesse conhecido; desaparecendo de um Mundo para entrar em outro com a velocidade de um Sonho e fazendo um som semelhante ao do trovão…

Maggie apertou os pulsos.

– Pare com isso!

Imediatamente o Cavalo retornou à sua forma, tão plácido e troteador como sempre.

– Como você faz isso? – quis saber Maggie.

– Eu não faço – retrucou a Voz. – Eu simplesmente redirecionei sua força magnética que, a propósito, é impressionante. Como tenho certeza de que você sabe, Maggie, eu não tenho uma presença física ainda. Mas isso logo mudará. Tão logo eu consiga o Velho Homem.

– Então – disse Maggie –, onde exatamente está o tal Velho Homem?

– No Sonho, naturalmente – respondeu a Voz.

– Sim, mas…

– O Sonho é um lugar em movimento perpétuo, feito de infinitas ilhas. Algumas são muito pequenas, enquanto outras podem conter mundos inteiros. Algumas duram apenas fragmentos de tempo, outras podem durar mais. Tenho razão para crer que o objeto que buscamos se prendeu num desses fragmentos de sonho.

– Então, você realmente não sabe qual deles.

– Se eu soubesse isso, por que precisaria de você ou do Cavalo? – A arrogância se fora, para ser substituída mais uma vez pela irritação habitual da voz. – Uma coisa pode ser retirada do Sonho apenas se for uma entidade física. Mesmo um pedaço de pedra pode servir, se… – Ela parou abruptamente. – O que foi isso?

Parecia-se com uma faixa de luz brilhante se arremessando entre os cascos do Cavalo. Pela primeira vez em sua estranha viagem, Sleipnir mostrou sinais de nervosismo. Ele empinou as orelhas, balançou sua crina e soprou faíscas de suas narinas. As faíscas eram vermelhas e alaranjadas e os circundaram como vaga-lumes.

– Será que é a coisa? – perguntou Maggie.

– Não, não é. – A Voz foi concisa. – Mas podemos não ser os únicos a estar procurando o Velho Homem.

Maggie olhou de esguelha para as nuvens, tentando não pensar no infinito espaço abaixo dela. Descobriu que era muito mais confortável recordar a ilusão de uma planície recoberta de névoa, sob a qual fogos- fátuos ocasionais lançavam seus clarões. A luz que ela vira não era nada parecida a eles: para começar, era muito mais luminosa; e, depois, parecia mover-se por debaixo deles com uma intenção definida. Estava também chegando perto. Maggie viu-a lançar seu brilho, ainda mais luminoso que o núcleo de uma forja.

– Será que é alguém do Povo do Fogo? Será minha irmã? – indagou Maggie.

– Espero que não – comentou a Voz secamente. – Depois do que aconteceu na Colina do Cavalo Vermelho, eu não estou exatamente confiante.

– Isso não é justo! – disse Maggie. – Eu não sabia que ela era um deles.

O Murmurador deu de ombros, mentalmente.

– O fato é que você não é de confiança. Suas lealdades estão divididas. Posso ver isso em sua mente. Você acha que pode convertê-la.

Maggie pareceu desafiadora.

– Bem, talvez eu pudesse convertê-la – sugeriu ela. – Se eu apenas pudesse conversar com ela…

– Ouça, Maggie – disse a Voz, soando muito fria agora. – Eu sei que você não confia em Mim. Eu entendo. Espero que chegue uma hora em que você o faça. Mas você se preocupa com Adam, não se preocupa?

– Sim.

– Então, em consideração a Adam, faça como eu digo. Eu lhe direi o que fazer. E quando tivermos o Velho Homem, eu libertarei o rapaz.

Maggie fez que sim.

– Tudo bem.

Por debaixo deles, a luz estava ofuscante agora; um escudo de fulgor sob a névoa. Era difícil ver detalhes sobre a nuvem, mas por um momento Maggie julgou ter podido ver a forma de uma coisa por trás do fulgor. Ela apertou os olhos, então, lembrando-se de que isso era o Sonho e de que ali sua visão interior era muito mais forte, fez um círculo entre o indicador esquerdo e o polegar e espiou por dentro dele para a luz que se movimentava.

O resultado foi dramático. Ela viu de repente, no coração ardente da radiação, a imagem de uma mulher velha – oitenta, noventa, cem anos de idade –, seus cabelos brancos revoando atrás, suas pernas enfiadas sob o corpo, suas mãos agarradas fortemente às laterais de uma…

Aquilo era realmente uma cesta de roupa para lavar?

Por um momento Maggie pôde apenas ficar olhando fixamente. A coisa certamente se parecia com uma cesta; sua forma espectral dançava no ar, e sob ela, sustentando-a por todo o trajeto, havia uma coisa semelhante a um cavalo…

Naturalmente, ele não possuía semelhança alguma com os cavalos que Maggie já havia visto. Mas na verdade ela o fez pensar em Sleipnir – Sleipnir no Aspecto que havia assumido na Colina do Cavalo Vermelho. Mas enquanto Sleipnir era bestial em Aspecto, esta criatura – se é que ela estava viva de todo – era muito claramente um espírito do ar. Parecia feita de filamentos de luz, trançados como uma teia de aranha luminosa através da escuridão. Sua cauda se estendia ao longe interminavelmente; sua crina era uma nebulosa ardente. E, escarranchada nele, a velha mulher em sua cesta de roupa de lavar sorriu, cacarejou e acenou para ela.

Deuses! Ela me vê, pensou Maggie.

Mas o Murmurador estava mostrando sinais de agitação.

– Perca-os de vista! – ordenou a Voz em sua mente. – Não os deixe nos seguir mais.

– Ela é alguém do Povo do Fogo?

– Não, é pior que isso – disse a Voz. – Desperte o Cavalo Vermelho da Adversidade, e logo os outros despertarão também. Se você fez seu trabalho na Colina do Cavalo Vermelho. – Maggie ouviu a Voz estalando o pensamento como alguém cortando a cabeça de uma rosa. – Não se importe com isso agora – disse ela. – Mas precisamos deixá-lo para trás. Ele quer seguir Sleipnir.

Como se tivesse ouvido seu nome pronunciado em voz alta, Sleipnir deu um relincho nervoso. Maggie notou que ele estava começando a regredir ao seu Aspecto bestial – faíscas partiam de sua crina e cauda; suas pernas começaram a se alongar; a teia de força magnética que o freava começou a ficar de um azul brilhante – e Maggie notou que dentro de alguns momentos o animal vermelho iria mais uma vez se tornar a criatura que ela parira do Olho do Cavalo.

– Aguente firme! – avisou o Murmurador. – Podemos ter que viajar em terreno difícil.

Mas antes que houvesse terminado a sentença, o tecido do Sonho já estava se modificando em torno deles. Desaparecidas estavam as ilusões de terra e céu; desaparecidos estavam o rio distante, as nuvens no horizonte. Agora não havia horizonte algum, mas um ajuntamento de luzes ao longe, em direção ao qual Sleipnir começou a acelerar numa velocidade incompreensível.

– Mantenha o controle firme das rédeas!

Mas Maggie não tinha a intenção de soltá-las. Sua única cavalgada anterior através do Sonho havia sido mansa em comparação a esta e ela não tinha a experiência de viajar pelo Mundo Inferior que Maddy possuía. Isso era totalmente diferente, e se não fosse por Adam, ainda esperando por ela na Cidade Universal, teria banido o Murmurador de sua mente e escapado aos horrores através dos quais ela agora voava…

– Ilhas – avisou a Voz.

Para Maggie, elas não eram parecidas como qualquer ilha de que ela tivesse ouvido falar. Mas elas realmente flutuavam; como balões de Dia de Feira elas derivavam em torno dos viajantes, movendo-se em todas as direções, algumas circulando, outras se elevando, algumas revestidas de força magnética, outras quase escuras. Algumas pareciam estar voando de ponta-cabeça – cidades inteiras flutuando no meio do ar com suas agulhas de torres espetando o leito do rio; embora por tudo que Maggie sabia, ela era a única que havia perdido o senso de perspectiva.

Havia lugares que quase se pareciam com sua casa, com suas ruas estreitas e seu porto. Havia vales e picos, florestas e clareiras. Havia momentos roubados; amores perdidos; beijos secretos; pensamentos culposos. Havia diamantes enterrados a milhões de quilômetros de profundeza, junto com medos ocultos e amigos perdidos havia muito tempo. Havia gente em exposição no lugar do mercado, vestida de nada além da pele, o que uma multidão de Anciões da aldeia observava com desaprovação. Havia criaturas no formato de instrumentos musicais; galinhas com cabeças iguais a trombetas e porcos barrigudos com corpos em formato de tubas. Havia nadadores no Um Mar à noite observando as estrelas cadentes lá no alto. Havia gente descalça descendo por um corredor interminável, com terríveis criaturas em seus calcanhares. Havia a lembrança do nascimento e a certeza da morte. Não havia nada; havia tudo – e através de tudo isso cavalgava Maggie Rede e o Cavalo de Fogo, enquanto a Louca Nan e o Cavalo do Ar os seguiam em seu rastro turbulento.

E então, com a mesma velocidade com que iam, eles pararam de repente, e Maggie se flagrou flutuando num pequeno barco a remo vermelho, descendo por um rio de movimento veloz. Não havia remos nele, e, no entanto, ele se movia bem livremente, sacudindo violentamente de lá para cá. Maggie, consciente das transformações anteriores de Sleipnir, manteve a mão firme no leme e tentou evitar os detritos que pareciam se erguer e afundar na água suja. Ela logo percebeu que o Cavalo do Ar juntara-se a ela – mais uma vez se tornando a cesta de roupa para lavar na qual a Louca Nan havia começado sua jornada –, mas, pressionada pela velocidade crescente da Voz dentro de sua mente, ela concentrou todos os seus esforços em seguir a correnteza em direção a uma terceira embarcação, que parecia à deriva, visível somente através da densa névoa que se elevava da água. A terceira embarcação estava desocupada, mas havia alguma coisa lá, do mesmo jeito; alguma coisa que Maggie podia quase distinguir na forma de runa mostrada pelo indicador e o polegar…

– Aquilo é o Velho Homem? – perguntou ela.

Fosse o que fosse, ela pensou, era brilhante. O brilho inutilizava sua visão real. Era como olhar para alguma coisa contra o sol; e ela descobriu que mesmo através da Bjarkán não conseguia determinar o tamanho da coisa, ou se ela estava viva.

– Não perca tempo! – disse o Murmurador. Apenas estenda a mão para pegá-lo quando passar!

– Pegá-lo? Com o quê? – indagou Maggie. – Eu não tenho nem mesmo um pedaço de corda.

Mas o momento para discussão já havia passado. O rio Sonho, ali em sua nascente, se movimenta com incrível rapidez, e o pequeno barco a remo de Maggie estava sendo carregado a tal velocidade que, dentro dos quatro ou cinco segundos de sua conversa, eles já haviam quase alcançado seu alvo. A Louca Nan não estava muito atrás – talvez a uma distância do comprimento de dois barcos – e Maggie podia ouvi-la rindo e cantando para si mesma acima do rugido do rio.

– Deixa disso! – cacarejava a Louca Nan. – Você não pode superar Epona!

Com isso Maggie muito erroneamente concluiu que Epona era o nome daquela velha mulher-demônio e perdeu desnecessários segundos tentando lembrar se o ouvira anteriormente, ou em realidade por que o bizarro espetáculo de uma mulher velha cavalgando numa cesta de roupa para lavar despertava em sua memória o som de sua falecida mãe cantando e uma súbita vontade de comer rosbife…

– Detenha-a! – o Murmurador quase gemeu. – Deixe-a chegar diante de você, e todo o Meu trabalho terá sido em vão…

Maggie manteve a mão sobre o barco enquanto tentava ver por sobre o ombro. A velha louca estava a cerca de dois metros de distância. Por um momento os olhos de granito dourado de Maggie se encontraram com os olhos de um azul apagado de Nan, e então ergueu a mão, onde a runa Ác fez um clarão, preparada para atacar…

– Maddy Smith! – cacarejou Nan. – Fabuloso encontrá-la aqui! Vamos para a terra, garotinha! – gritou ela, balançando sua cabeça alegremente. – A Terra do Rosbife, onde as Fadas brincam e ninguém nunca fica com fome!

Talvez tivesse sido ao ouvir esse nome, Maggie pensou, que ela mais tarde recordou o que acontecera. Ou talvez fosse a repentina ideia de que a velha havia retirado um pensamento de sua mente. De um modo ou de outro, isso arruinou seu alvo, e Ác passou voando inofensivamente pela cabeça de Nan e desapareceu na corrente de ar deixada pelo barco.

Ao mesmo tempo, uma onda propeliu a cesta de roupa de Nan uma fração à frente de Maggie. O braço magro de Nan se estendeu e agarrou alguma coisa do terceiro barco; depois, o Cavalo do Ar disparou, adernando através das águas do Sonho e se erguendo no ar arrebatador, com a voz de Nan guinchando de alegria em seu rastro, e a fúria do Murmurador, imensa e totalmente consumidora, esmagando Maggie como um rugido em sua cabeça:

– NÃO! NÃO! ELE ESTAVA EM NOSSAS MÃOS!

E então o impossível aconteceu. A Louca Nan deixou cair sua posse. Talvez fosse a empolgação, ou a fadiga daquela cavalgada aos portões do Inferno, ou o fato de que seus velhos braços não eram tão fortes como costumavam ser. Em todo caso, ela deixou-a cair, e por um momento o objeto que os dois buscavam caiu como uma estrela sobre a superfície do Sonho.

Maggie, que havia esfriado com o pensamento do que seu fracasso poderia significar para Adam, flagrou-se agindo por um instinto que ela nunca pensara ter. Com velocidade sobrenatural, ela lançou as rédeas de Sleipnir para frente como uma linha de pescar e puxou o objeto que caía. Por um instante achou que não havia conseguido… e depois ele estava de algum modo em suas mãos – uma coisa que podia ter sido uma pedra, mas que cintilava com um curioso azul-martim-pescador.

E depois, num momento, ela estava de volta. O Sonho se fechou como uma cortina por trás dela. Ela quase caiu quando o Cavalo Vermelho deu uma ansiosa guinada em direção ao emaranhado de feno sobre sua cocheira. A cavalgada devia ter-lhe dado um enorme apetite, pensou Maggie, segurando-se ao objeto que ela havia retirado do Sonho; depois, ela desceu deslizando do lombo do Cavalo e mergulhou nos braços de Adam.

– Adam, eu consegui! O Velho Homem!

– Deixe-me vê-lo – disse o Murmurador, retomando seu lugar na mente de Adam.

O rapaz não era um hospedeiro ideal, teria sido muito melhor possuir a garota, com sua maravilhosa, pura, inquebrável força magnética, mas ele já sabia por experiência que Maggie era forte demais para ser quebrada. A menos que ela cedesse por vontade própria, os suplicantes não tinham escolha.

– Pegue-o! – ordenou ele, e Adam obedeceu, ao mesmo tempo se perguntando o que era tão maravilhoso num pedaço de pedra. Parecia-se com um vidro vulcânico que há muito, muito tempo, ele e seus amigos tinham usado para escavar os flancos da Colina do Cavalo Vermelho, embora este fosse de longe o maior pedaço que Adam houvesse visto. Era mais pesado do que esperava, e quando o virou nas mãos, quase conseguiu ver suas feições ali, grosseiramente modeladas na pedra.

– Não parece grande coisa – disse Maggie. – Você tem certeza de que é ele mesmo?

Adam fez que sim.

– Absoluta. – Ele passou as mãos sobre a superfície polida. Era quente; muito mais quente que a pedra comum, como se pudesse quase estar viva. E então ele até se lembrou, embora sua convivência com a encarnação anterior do Murmurador houvesse durado apenas minutos – a maior parte deles passada em terror abjeto enquanto os deuses e demônios guerreavam no Inferno para valer…

Ele se lembrou do duende, que havia se apoderado da pedra Cabeça e a arremessado dentro do rio Sonho – onde o ser que havia sido Mimir, o Sábio, havia tentado possuir Maddy Smith e falhado; e como naquele momento uma Voz em sua mente…

– Está certo – interrompeu o Murmurador. – Foi por isso que eu precisei de você por tanto tempo. Um veículo para a Minha consciência. Naturalmente, você foi apenas uma solução temporária. Não tinha potencial para mais. Nem mesmo uma marca de runa quebrada para entrar em Asgard. Eu fiz o que pude com o que tinha, mas sabia que um dia eu teria que me mudar.

– Você quer voltar para lá? – perguntou Adam.

– Voltar para minha velha cela? Ah, não. Eu tenho uma coisa um tanto melhor em mente. Além do mais, ela já está ocupada.

Maggie estava se sentindo inquieta. Incapaz de seguir a conversa entre Adam e seu passageiro, ela voltara sua atenção para a pedra que lutara tanto para recuperar.

O que havia de tão especial nela, então? Maggie formou a runa Bjarkán e perscrutou o objeto através de suas lentes. O que ela viu foi uma coisa que se parecia mais com um grande repolho dentro de uma rede de compras; mas a rede era feita de luz de runas – dúzias e dúzias de fios trançados – e o repolho…

Ela deu um grito sufocado e repeliu a runa.

– Está vivo! – exclamou ela. – Ele olhou para mim!

O ser que um dia fora Mimir, o Sábio, sentiu uma rara pontada de diversão. Ele usou a voz de Adam para dizer:

– Olhou agora? Devo apresentá-lo a você?

Maggie arregalou os olhos diante da pedra Cabeça. Agora que ela sabia como olhar, podia ver as feições muito claramente: o contorno de um queixo magro; um nariz ressaltado; uma boca inteligente agora apertada por linhas duplas de aflição; e do outro lado de uma cavidade ocular vazia uma marca de runa que ela reconheceu como uma forma quebrada de Raedo, o Viajante, ao contrário.

Em sua cocheira, o Cavalo de Fogo fez um som esganiçado, inquieto.

– Em nome da misericórdia, quem está ali dentro?

Adam olhou para ela e sorriu.

– Maggie, conheça o General. Também conhecido como o Velho Homem.