Luz das Runas
Capítulo 7
Loki ergueu a cabeça do chão.
– Conheço você, ou algo assim? – perguntou ele.
A criatura anã deu de ombros.
– Quem se importa? O importante é que você conhece minha senhora. E minha senhora precisa trocar uma palavra com você.
Loki engoliu em seco.
– Uma palavra? – Aquilo soou ameaçador. Na sua experiência, uma palavra geralmente acabava sendo uma coisa que machucava. – Quem é sua senhora?
– Não consegue adivinhar? – A voz feminina era enganosamente agradável, e levou vários segundos para Loki identificá-la como a do pássaro de fogo, agora empoleirado numa pedra acima dele. – Pensei que fosse mais esperto que isso, Loki. – A criatura abriu seu bico longo e pontudo e deu um bocejo muito humano. – Pobre queridinho! – prosseguiu ela. – Meus garotos foram duros com você? Desamarre-o, Jolly. Se ele tentar fugir, quebre suas pernas.
Ao que parecia, Jolly era o anão. Um nome um tanto inapropriado (pois significava alegre em inglês). Loki havia conhecido pessoas mais alegres no Inferno. Ele lançou um olhar feroz e uma careta para Loki enquanto cortava as cordas que o prendiam, deixando o Impostor com ainda mais certeza de que ele e Jolly já haviam se conhecido.
Mas não havia tempo para pensar nisso agora. Fenny, Caveira e Grande H estavam se fechando em torno dele, ameaçadoramente, e Loki sabia que o pássaro de fogo estava certo. Tentar fugir seria um erro.
– Obrigado. – Penosamente, ele ficou em pé.
O pássaro de fogo olhou-o sem piscar.
– Está com boa aparência, Angrboda – disse Loki. – As plumas sempre caíram bem em você.
O pássaro levantou uma asa displicente.
– Então, você me reconhece – disse ele.
– Ah, Angie. Como eu poderia não reconhecer? – falou. – Você sabe que é o amor de minha vida, não sabe? E Fenris… – Ele sorriu para o jovem que se autodenominava Fenny. – Num momento ele é um pequeno filhote de lobo bonitinho, pulando alegremente através da Floresta de Ferro, perseguindo esquilos e estripando pássaros; noutro, você fica sabendo que ele atingiu a puberdade e se tornou por inteiro uma coisa solta do Mundo Inferior, sequestrando o Papai, alinhando-se com as forças do Caos. Isso não faz alguém sentir-se orgulhoso?
Fenris grunhiu.
– Cale a boca, Pai!
– Articulado como sempre – disse Loki. – E seus amiguinhos, Caveira e Grande H? Serão Skól e Haiti? Lobos-demônios com um apetite por corpos celestiais?
Os irmãos peludos sorriram.
– Sim!
– Parceiro, somos os Devoradores.
Loki suspirou.
– Ok – disse ele. – A que devo o prazer de conhecê-los? Não que eu não aprecie essa pequena reunião de família, mas vocês tinham que mandar uma serpente atrás de mim? Um cartão postal não teria funcionado igualmente bem?
O pássaro de fogo abriu suas asas roxas e voou de seu poleiro na pedra. No momento em que pousou no chão, mudou de forma, surgindo então como uma jovem mulher esbelta vestida numa túnica negra bem justa e ostentando grandes botas e cabelo roxo. Parecia estar no final da adolescência. Era apenas aparência. Loki sabia muito bem que Angie era tão velha quanto as montanhas – na verdade, um pouco mais velha que elas – e que por trás de seu ar de inocência batia um coração antigo e feroz. Seus olhos estavam pesadamente circundados de kajal, e havia uma fileira de tachas púrpuras sobre sua sobrancelha esquerda. Um braço estava nu. O outro estava intrincadamente coberto por tatuagens: estrelas, pássaros, traços concêntricos e uma coisa que parecia com um sinal de runa, de cor ametista, sobre sua pele.
Interessante, pensou Loki. Ela nunca tivera uma runa. E essa era um tanto diferente; não era uma runa do Texto dos Antigos, mas era mais clara que uma runa bastarda. Uma nova runa, então? Será que isso era possível?
Ele apontou o sinal.
– Bonito. É isso que andam usando lá no Caos atualmente?
– Não muito – disse Angie. – E eu não mandei aquela efêmera. Na verdade, todos nós fomos mandados para salvá-lo, porém sua amiguinha divertida interferiu.
– É mesmo? Que comovente! – disse Loki. – Eu devia saber que você estava do meu lado quando ordenou que o Baixinho quebrasse minhas pernas.
Jolly deu um pequeno grunhido.
– Parceiro – disse Caveira. – Não o chame de baixinho.
Mas Loki estava pensando com desespero. O fato de que estava em família não significava que estava em casa e a salvo. Bem o contrário, na verdade. Isso era Angrboda, também conhecida como Angie, a Bruxa da Floresta de Ferro; a Tentadora; a Mãe dos Lobos; cruel como um puma, astuta como uma cobra, imprevisível como… Bem, imprevisível como Loki.
Agora, Loki, olhando em retrospecto, se perguntava como ele podia ter sido tão imprudente para se envolver com a Tentadora. Ela era muito fascinante, admitiu. Isso, ele supôs, era sua única desculpa. Mas não se pode brincar com o Caos. Quinhentos anos, três filhos demônios e dois Apocalipses depois, isso ainda parecia uma má ideia, e a ausência dele claramente não fizera nada para que o coração dela ficasse mais afetuoso.
Ainda assim, ele não estava morto, por enquanto, o que provavelmente significava uma de duas coisas. Uma: ela precisava dele vivo. Duas: os planos dela para sua execução envolviam algo mais rebuscado que três irmãos lobos e um anão rabugento.
Das duas possibilidades, Loki preferia a número um.
Ele sorriu para Angrboda.
– Então, primeiro de tudo, eu gostaria de dizer como estou feliz por você ter conseguido chegar até aqui. Suponho que você tenha deixado a Fortaleza Negra durante o pequeno tumulto que eu causei lá e conseguido entrar no mundo através do Sonho.
Fenris soltou um grunhido surdo.
Jolly fez uma expressão de desgosto.
– Esse pequeno tumulto, como você o chama, acabou com quase tudo. O Caos foi rompido, a Morte foi escancarada e o Sonho foi inundado por efêmeras lutando para penetrar no Mundo Superior. Felizmente, Jormungand já havia saído do Sonho e voltado para o Um Mar, do qual ele nos libertou, não graças a você. – Ela lançou um olhar cheio de desprezo para Loki. – Sim, nós escapamos. Mas foi por pouco. E quanto à sua contribuição para os eventos… Loki, você nunca cresce? Eu nunca vi nada tão irresponsável.
Loki olhou de esguelha, incrédulo.
– Você está me dando um sermão sobre responsabilidade?
– Aquela brecha que você abriu – disse a Tentadora. – Uma brecha da Morte para o Mundo Inferior. Por trinta segundos aquele portão foi aberto, deixando só Hel sabe o quê penetrar nos Mundos. E você está aqui, com essa expressão de Quem? Eu? no rosto, fingindo que não tem nada a ver com você?
– Seja razoável – disse Loki – Eu estava morto…
– Estar morto não é desculpa. Você teve uma segunda chance, e cabe a você pôr ordem nas coisas. A velha Ordem se foi. Isso significa que você é a Nova Ordem agora. Você e o resto dos deuses sobreviventes. Isso significa que cabe a vocês refazer o equilíbrio, ajudar a reconstruir Asgard, mandar o Caos embora, trazer estabilidade aos Mundos Médios. E, em vez disso, o que estão fazendo? Escondendo-se na Terra de Lugar Nenhum, se embebedando, provocando brigas uns com os outros, fazendo farras junto com o Povo, em louvor aos deuses, enquanto o tempo todo aquelas efêmeras estão abrindo seu caminho através do tecido dos Mundos…
– Ora, espere um minuto – disse Loki. – Desde quando você se importa com a manutenção da Ordem? Eu pensei que seu negócio fosse o Caos.
Angrboda desviou o olhar e brincou com uma mecha de seu cabelo roxo.
– Vamos apenas dizer que neste caso… eu tenho um interesse pessoal.
– Um interesse? Em quê?
– Na nova Asgard, é claro – disse Angrboda impacientemente. – Ouça, Loki. Neste ritmo, com a Cidade Universal devastada, com as efêmeras saindo do Caos, com os Nove Mundos tão cheios de buracos que poderiam passar por queijos das Divisões, as coisas vão provavelmente chegar ao fim dentro de mais ou menos vinte anos. Mas reconstruam Asgard e vocês terão uma chance. Uma chance de recuperar seu Aspecto. De restabelecer a Ordem. De serem deuses…
– O que há de vantajoso nisso para você? – disse Loki.
– A verdade é que… – disse ela. – Eu gosto daqui. Eu construí um nicho no Mundo Superior. E se o Caos vier aos Mundos Médios…
– Você está dizendo que o Caos poderá não ficar surpreso ao descobrir que você se tornou totalmente nativa?
Angie deu de ombros.
– Algo assim.
– Para não mencionar uma nova runa. E, a propósito, como foi que você a conseguiu?
– Fica bem em mim, não acha? – disse ela. – Ela é Wyn, a runa das apostas elevadas e dos grandes prêmios. Jogue suas cartas corretamente e você ainda poderá descobrir que alguns desses prêmios irão para você.
– Então, o que você quer de mim? – perguntou Loki.
– Querido, eu quero ajudá-lo, naturalmente. Estou com vontade de colocar todos os meus recursos à sua disposição. Você precisará de toda ajuda que for preciso se quiser reconstruir Asgard.
– Reconstruir Asgard? – falou Loki. – Mas eu não construo coisas. Isso não é comigo. Eu trapaceio, roubo, engano, saqueio, saboto, violo, tomo à força e derrubo. Mas construir? Angie, você pegou o homem errado. Você precisa de Thor, ou de Heimdall…
Ela balançou a cabeça.
– Preciso de você. Ouvi falar que alguém fez uma profecia.
– Você deve estar brincando – disse Loki.
– Nem um pouquinho – respondeu a Tentadora. – Eu levo essas coisas muito a sério. E você deveria levar também, quando o inimigo manda uma efêmera atrás de sua pele…
– Você sabia que o Caos estava atrás de mim?
Angrboda balançou a cabeça.
– Isso não veio do Caos – respondeu ela. – Alguém dos Mundos Médios puxou aquela criatura para fora do Sonho. Alguém que claramente quer ver você morto…
– Maravilhoso – retrucou Loki.
– Ah, a gente estava de olho em você! – garantiu Angie reconfortante. – Os garotos teriam impedido que você ficasse ferido.
– Bem… Hã… Obrigado – disse Loki. – Perdoe-me se eu não estiver morrendo de entusiasmo pela ideia de os Irmãos Lobos e de o garoto Fenny se colocarem entre mim e minha extinção. Sem esquecer o Baixinho aqui… – Ele lançou um olhar para Jolly, que respondeu imediatamente arreganhando-lhe uma série de caninos amarelos assustadores.
– Não me chame de baixinho – disse o anão.
Loki reprimiu a ânsia de dar uma risada.
– Você falou de recursos agora há pouco. Estou supondo que você tenha algo mais nas mangas do que este pequeno grupo de comediantes aqui… Porque, se não tem, Thor e Heimdall vão gargalhar de mim e depois jogar bola com minha cabeça…
– Ora, Loki – advertiu Angie. – Eu espero que você não me seja difícil. Você terá que negociar conosco, queira ou não. A única chance real que você tem é escolher se quer fazê-lo do modo fácil ou do modo difícil. – Seus olhos cercados de kajal se apertaram ameaçadoramente, e, ao seu lado, Fenny soltou um grunhido de advertência.
Loki deu de ombros.
– Então, qual é o negócio?
– Bem – disse Angie –, é bastante simples. Eu tenho uma coisa que os Æsir julgava perdida, da qual eles precisarão quando houver uma luta. Eu também tenho uma nova runa para colocar à disposição deles. Em troca, quero garantias…
Oh-oh. Aí vem coisa, pensou Loki.
– Primeiro: anistia para meu povo. Quando os Æsir voltarem ao poder, eu quero ter certeza de que seremos deixados em paz. Segundo: o retorno dos territórios que são nossos por direito. A Floresta de Ferro para Fenris. O Um Mar para Jormungand. E para mim? Um lugar em Asgard. Um lugar só meu entre os deuses. – Angrboda deu um passo à frente e beijou o nariz de Loki, brincalhona. – Portanto, estes são meus termos, queridinho – concluiu ela. – Agora é sua vez. O que você tem a dizer?