Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 14 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 10

 

Três anos haviam se passado desde que Adam Scattergood encontrara uma saída do Mundo Inferior. Pouca coisa restava agora do garoto que havia urinado nas calças na Colina do Cavalo Vermelho e quase perdera o juízo com a mais simples insinuação de coisas sinistras. Agora era ele que se erguia do chão quando outras pessoas fugiam de medo. E ele viu tanta coisa sinistra, sobrenatural e totalmente absurda, que todos os traços de medo nele haviam desaparecido, deixando-o com um ódio do Povo-Vidente e dos Faërie. Um ódio que era noventa e nove por cento nascido da inveja e um por cento de seu passageiro – a sussurrante Presença em sua mente que estava com ele nos últimos três anos.

O Povo-Vidente tinha o poder de construir Mundos. Por que Adam não o teria também? Mas Adam não tinha qualquer marca de runas, Adam não tinha qualquer Livro das Palavras, e mesmo que tivesse, sabia que não havia uma partícula de força magnética nele, e as palavras se estenderiam inutilmente na página, não importando com que força ele tentasse despertá-las.

A Voz em sua cabeça havia lhe dito isso – a Voz sussurrante que o havia guiado para fora do inferno e de volta aos Mundos Médios; a Voz que lhe ensinara tantas habilidades, mas que às vezes ainda arengava e ralhava com ele, chamando-o de inútil, estúpido e fraco. Um absurdo, pois Adam havia treinado implacavelmente no decorrer desses três anos, e seu corpo era todo feito de músculos.

A princípio Adam havia se perguntado de quem seria aquela Voz que o guiava. Há três anos ele viu como o Inominável havia se transformado num Aspecto, saindo de uma cabeça de pedra entalhada de runas, e como havia lutado com o general cego do Povo-Vidente e o matado; depois viu como ele tentou possuir Maddy Smith, e fracassou, e se perdeu no rio Sonho. Adam também parecia recordar que o Inominável na verdade tinha um nome: era Mimir, o Sábio, ou o Murmurador. Um ser antigo com um amargo rancor guardado contra os deuses e com o poder de penetrar nas mentes e controlar as ações e pensamentos dos fracos.

Mas aí a cautela natural de Adam havia borrado os limites de sua memória. As questões dos deuses não eram assunto que lhe dissesse respeito, e ele estava em tudo e por tudo feliz em permanecer na ignorância. Ele sentia que, quanto menos se lembrasse dos eventos de três anos antes, menos provavelmente incorreria na fúria do passageiro dentro de sua mente.

Além do mais, havia compensações. Seu passageiro invisível tinha habilidades. Agora Adam compartilhava delas também; ele tinha conhecimento e instintos que anteriormente haviam lhe faltado. Emergindo do Mundo Inferior, ele se espantara caçando para comer – matando um veado com as mãos nuas e arrancando a pele para uso posterior, embora estas fossem habilidades que nunca houvesse aprendido.

Mais tarde, descobrira que conseguia lutar também – o que um grupo de bandidos montanheses soube, a um alto custo. Espada, arco e flecha e arremesso de facas, tudo parecia estranhamente familiar. Ele também conseguia cavalgar um cavalo e apanhar um peixe, e descobrir seu caminho à noite pelas estrelas, todas as quais tinham nomes antigos – nomes que ele nunca soubera.

A princípio, ele não era naturalmente forte. Mas caminhar e exercitar-se o enrijecera, e quando chegou à Cidade Universal, tinha mais meio metro de altura e estava com mais quarenta e cinco quilos do que quando deixara Malbry aos catorze anos. Na verdade, o filho mimado e preguiçoso de Aileen Scattergood havia se tornado um jovem de boa aparência, treinado em todas as formas de combate, falando quatro dialetos e melhor conhecedor do Bom Livro que o mais veterano dos Mestres da Ordem.

Seu nome não era mais Scattergood, embora tivesse mantido a parte de Adam. Scattergood era um nome provinciano, adequado para um rústico do Norte. Em vez dele, adotara o nome de Goodwin, um confiável e seguro nome das Terras Baixas, e inventara uma história plausível para justificar sua presença em Fim de Mundo.

Não que fosse precisar dele agora, Adam Goodwin dizia a si mesmo. Não, depois de semanas vasculhando a cidade, ele havia encontrado o prêmio que buscava. Dois prêmios, na verdade – e a Voz em sua cabeça pareceu pular e uivar de alegria, reforçando o seu medo ocasional (mas sempre não dito) de que a coisa em sua mente fosse insana.

– Adam? – repetiu Maggie. Seus olhos eram escuros e expressivos, e de uma cor de ouro cinzento como o granito da montanha. Igualzinha à cor de sua irmã, na verdade, pensou ele, e uma nova onda de ódio brotou dentro dele, vendo o rosto de sua inimiga…

Naturalmente ele não a vira – exceto em seus sonhos – pelos três últimos anos. Mas esses olhos eram inconfundíveis; e essa boca, com seu traço de cólera; o cabelo puxado para trás numa trança grossa…

Por que não a matamos agora mesmo? Por que não mandamos a sua cabeça para o Povo-Vidente em um saco?

Seu tolo, suspirou o passageiro. Deixe a parte da reflexão para mim, está bem? E tente ser sedutor, pelo menos uma vez na vida. Esta garota é extremamente valiosa.

E assim Adam engoliu seu ódio e deu à garota seu sorriso mais insinuante. Era um pouco frio, talvez, mas tudo que Maggie viu foram seus olhos azuis, a linha firme de seu queixo e os belos cabelos que caíam quase infantilmente sobre sua testa…

Muito bom, disse o passageiro. Agora diga a ela o que eu lhe disse. E, em nome dos deuses, seja educado! Não use qualquer uma de suas maneiras de garoto aldeão do Fim de Mundo.

Então, Adam estendeu sua mão e disse:

– Adam Goodwin, ao seu dispor. Maggie Rede? Eu estava procurando por você.