Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 86 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 7

 

A grande catedral do Santo Sepulcro era conhecida por todo o Interior como uma das maravilhas que haviam restado dos Nove Mundos. A Adversidade havia devorado a maior parte do resto: a Cidadela do Céu, a Ponte do Arco-Íris, a Biblioteca da Universidade, a Sala dos Heróis, o Observatório, o Planetário, o Relógio de Mil Anos, a Fonte Perene – até a esquadra de navios mercantis que um dia velejara até o Mundo Além.

Quinhentos e três anos passados, os saberes que haviam sido utilizados na construção – até na concepção – de tais coisas haviam sido banidos ou esquecidos. O pouco que restava impunha um respeito quase religioso às mentes do Povo da Cidade Universal, um respeito que a Ordem foi rápida em identificar e colocar a seus propósitos.

Agora aquele último vestígio das maravilhas da Velha Era tinha se tornado basicamente um meio de levantar dinheiro – por causa da invasão dos negociantes e a crescentemente alta Taxa da Catedral que todos os nativos de Fim de Mundo tinham que pagar.

Maggie era sob muitos aspectos uma típica nativa de Fim de Mundo. Enquanto os visitantes de toda a Ilha faziam fila (e pagavam) para ver a catedral, ela nunca realmente havia entrado nela, preferindo desfrutar da vista da praça – uma vista que podia ser desfrutada gratuitamente. Os peregrinos pagavam um bônus, naturalmente; mas os nativos eram mais espertos. Qualquer um que pagasse para ver os panoramas da cidade merecia ser depenado, pelo menos era assim que Maggie sempre havia pensado – até que por fim Adam mudara a sua opinião.

Mas Adam era um romântico, naturalmente. Ele queria que os dois se casassem apropriadamente, na catedral. E com um bispo, nada menos – Maggie não ousara pensar no quanto tal luxo custaria. Mas Adam fora determinado; e agora, quando Maggie se aproximava da praça, ela não podia deixar de sentir um arrepio de respeito ao erguer os olhos para ver a cúpula de vidro desenhada pelo arquiteto de Fim de Mundo – o homem que, muitos anos antes de sua morte, havia sido rebatizado de Santo Sepulcro.

Maggie conhecia sua história, tendo-a lido em um de seus velhos livros no Departamento de Arquivos, mas nunca havia feito completamente a ligação entre Jonathan Gift, o matemático, com o santo cujo celebrado martírio (nas mãos de forças sobrenaturais que nunca haviam sido totalmente explicadas) havia sido uma das poucas histórias de ninar que as crianças eram autorizadas a ouvir, nos dias de outrora na Ordem.

Na realidade, a verdade era mais estranha que a ficção. De acordo com os arquivos, Jonathan Gift havia simplesmente desaparecido um dia, depois de uma discussão com um de seus pedreiros-chefes. O homem, cujo nome era James Carver, havia aparentemente questionado uma ordem de Gift sobre o desenho de um friso de mármore e fora ouvido ameaçando o arquiteto no dia em que ele desaparecera. O mau gênio do pedreiro-chefe era famoso, e quando mais tarde o arquiteto foi dado por desaparecido, supôs-se que Carver o tinha matado. Carver negou – mas era natural que o fizesse. Ele foi para a forca negando o crime, numa época em que a lenda de Gift já estava parcialmente estabelecida, e os boatos se espalharam como fogo selvagem. Ao chegar o fim do século (o grande projeto arquitetônico de Gift havia, na verdade, levado trinta anos para ficar pronto, e não os simples sete dias da versão da Ordem), os boatos e as lendas eram tudo que restavam, e ninguém mais se lembrava do homem.

Agora, ao se aproximar da praça, Maggie tentava recapturar a alegria que ela havia sentido cedinho naquela manhã. O encontro com Maddy havia arruinado tudo. Mesmo o fato de que Adam iria finalmente ser libertado falhou em banir sua sensação crescente de que algo muito errado estava por acontecer.

Talvez ela houvesse sentido isso no rosto de Adam; ou na sensação de algo pulverulento no ar; ou até nos sinos da catedral – seu badalar soando estranhamente desafinado, como carrilhões ouvidos debaixo da água.

Ela deu uma rápida olhada no céu. Mesmo ele havia mudado: uma luz esverdeada agora brilhava, vinda do noroeste. Não era o nascer do sol, mas alguma outra coisa – a aurora boreal, talvez? Fogo do Santo Sepulcro? Ela não conseguia dizer. Mas sentira a mudança.

O Cavalo Vermelho parou diante do portão da catedral, o grupo de festeiros em seu rastro começando a se dispersar, por fim. As noivinhas haviam ido embora. Uma garotinha que havia seguido a carruagem desde o Passeio dos Inspetores olhou para Maggie e mostrou a língua.

Adam já estava descendo da carruagem, com cuidado para não manchar sua seda branca.

Por um momento, Maggie achou ter visto uma curiosa expressão no rosto dele, quando se flagrou lutando contra a ânsia de perguntar a ele se ele estava realmente certo de que era aquilo que queria. Mas fazer isso seria admitir para si mesma que ainda havia uma dúvida em sua mente; e que espécie de noiva tem dúvidas sobre seu marido no dia de seu casamento?

Adam ergueu os olhos para ela e sorriu.

– Maggie – disse ele. – Eu lhe devo tanto! Como poderei pagar-lhe um dia?

Ele estendeu uma mão para ajudá-la a descer da carruagem. O Cavalo Vermelho soprou pelas narinas e bateu as patas.

– Você está falando sério? – perguntou Maggie.

Mais uma vez Adam sorriu para ela.

– Maggie, eu vou ser libertado – falou ele. – Agora pertencemos um ao outro. Você e eu, e nosso bebê. – E ele pôs os braços em torno dela e beijou-a delicadamente na boca.

Na cabeça dele uma pequena Voz, que mal chegava a ser um sussurro, disse: Ótimo.

– O que foi isso? – questionou Maggie.

– Apenas o meu coração – respondeu ele.

E, com isso, os dois jovens caminharam de mãos dadas, saindo da luz e penetrando na grande catedral, onde a Pedra do Beijo do Santo Sepulcro – o altar que por séculos o Povo de Fim de Mundo havia usado e reverenciado sem entender o que era – estava agora finalmente pronta para servir ao seu propósito.