Luz das Runas
Capítulo 2
Vinte e quatro horas já haviam se passado desde seu encontro com o Caos sob a Colina do Cavalo Vermelho, e Loki estava se sentindo infeliz. Infeliz, nervoso e perseguido. E se Jolly não houvesse ficado ao seu lado, vigiando-o o tempo todo, ele teria disparado em fuga há muito tempo, arriscando-se através do Hindarfell. Apesar dos deuses e demônios, o Norte estava ficando perigoso demais, e para Loki a Cidade Universal, com suas tavernas e mercados, parecia uma perspectiva mais agradável que a profecia de Ethelberta.
Naturalmente, as palavras da Vidente já tinham se espalhado como fogo selvagem. Tanto os Æsir quanto os Vanir tinham suas teorias sobre como interpretar a profecia. A princípio ela não soara diferente da fala comum, mas, rearranjada em nove linhas de verso, as palavras agora pareciam pesadas e ameaçadoras, como o som de rodas de carruagem rolando em direção a um campo de batalha:
O Berço caiu há uma era, mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo.
Até aí, tudo bem. Essa parte parecia direta. A maioria dos deuses já havia concordado que isso significava a reconstrução de Asgard – também conhecida como o Primeiro Mundo, a Cidadela do Céu ou o Berço do Povo do Fogo. A linha seguinte, contudo, havia causado alguma discórdia:
Em apenas doze dias, no Fim dos Mundos; uma dádiva vinda do interior de um sepulcro.
O que isso queria dizer? Que a ressurreição de Asgard traria consigo a destruição dos deuses? Ninguém sabia com certeza. Oráculos, como se sabia, nem sempre eram claros nos detalhes. E doze dias – como alguém poderia esperar reconstruir algo num espaço de tempo tão curto?
– Eu não acho que isso importa – disse Frey. – Não temos a força magnética para reconstruir Asgard. Nem em doze dias nem em doze anos. Olhem para nós, os doze de nós; os treze, se incluirmos Loki. Skadi se foi, Odin está morto, e a maioria de nós está com nossas forças magnéticas revertidas. Foi preciso o uso de todas as dezesseis runas do Velho Manuscrito para construir a Asgard original. Dezesseis runas e todos nós, Æsir e Vanir, em pleno Aspecto. E mesmo então nós precisamos de ajuda…
– Simpático de sua parte lembrar-se disso – disse Loki azedamente, em voz baixa.
– A questão é – continuou Frey – que mesmo no máximo de nossos poderes, foi uma tarefa monumental. Tínhamos runas novas, não quebradas; tínhamos todos os nossos guerreiros. Quantas novas runas nós temos agora? Aesk e Ethel. É tudo que possuímos.
– Meu irmão está certo – disse Freya. – Por que devemos supor que estejamos envolvidos? Tudo que a profecia realmente dizia foi que Asgard seria reconstruída…
– Sim, pelo Fogo e pelo Povo – emendou Thor. – Vocês não querem ver Asgard reconstruída? Ter de volta seus Aspectos? Dar um bom pontapé no Caos?
– Isso seria maravilhoso – disse Sif com sua voz mais sarcástica. – Agora tudo de que precisamos é de seu martelo de volta, o martelo que você perdeu no Ragnarók.
Ouvindo isso, Jolly ergueu os olhos com interesse, mas o Astuto balançou sua cabeça. Os ânimos estavam ficando acalorados demais para que ele erguesse o pescoço neste momento.
– Mas, Sif, a profecia… – falou Thor. – Ela praticamente jurou que haverá guerra…
– Eu não vejo por que tenha que haver guerra – disse Açúcar, cuja ansiedade, sempre alta, agora havia atingido níveis sem precedência.
– Mas você é o deus da guerra – comentou Thor.
– Quanto a isso… – disse Saco de Açúcar. – Eu estava pensando que talvez não leve jeito para esse tipo de coisa. Você sabe. Guerra e coisas assim…
Jolly deu um riso meio abafado.
– O quê? – questionou Açúcar.
Mas Jolly apenas deu um sorrisinho maldoso. Até onde lhe interessava, a diversão estava apenas começando, e os Æsir e os Vanir logo se encontrariam no meio da profecia de Ethel, quer a entendessem ou não.
Loki tinha seus próprios pensamentos, nenhum deles otimista. Tivera oráculos o suficiente na última vez que os Mundos haviam acabado. Além do mais, erguer Asgard era uma coisa, ele pensava, mas Traição, Carnificina e Loucura eram coisas que ele podia dispensar. Levando tudo em conta, ele preferiria estar em Fim de Mundo, sentado em algum lugar numa taverna, talvez bebendo um copo de vinho e vendo as garotas dançar.
Mas ele ainda tinha uma missão a completar, e Jolly nunca estava muito distante; além do mais, se conseguisse fugir, sabia que a ira de Angrboda nunca cessaria de persegui-lo – sem mencionar as efêmeras que viriam em seu rastro através do Sonho.
Seu retorno ao Mundo Superior foi recebido com uma reação um tanto desigual, indo do desprazer cheio de desdém (Freya e Sif) à raiva trovejante (Heimdall e Thor). Heimdall imediatamente dera voz à suspeita de que Loki os tinha traído de algum modo, de que os tinha vendido ao inimigo e estava trabalhando com o Caos. (O fato de que isso era verdade, naturalmente, deixou Loki ainda mais nervoso.)
Contudo, sua história de rapto pelo Povo do Túnel e de sua subsequente soltura por Jolly – que parecia o suficiente com um anão para tornar a história plausível, ele pensava – havia convencido a maioria dos outros, com a possível exceção de Ethel, que não comentou nada, mas cujos olhos revelaram mais entendimento do que Loki achou inteiramente tranquilizador.
Mas acalmar a suspeita dos deuses não era a única tarefa que Loki tinha que encarar. A segunda, e mais difícil, tarefa era persuadi-los a ouvir um projeto tão furiosamente implausível que até o Astuto não estava convencido de que não levaria à catástrofe.
Um pacto com a Bruxa da Floresta de Ferro. O próprio Loki não estava convencido de que tal coisa era possível. E Angie – para quem ela estava trabalhando? Seu plano era bem pensado demais para ser simplesmente obra de sua equipe; Loki sabia por experiência que Angie era tão inconstante quanto ele mesmo.
Então, quem estaria por trás daquilo? O Caos? Velhos deuses? O próprio Surt? Nenhuma das opções era esperançosa. Fosse qual fosse o ângulo pelo qual olhasse, Loki estava certo de que tudo terminaria em lágrimas – ou sangue… talvez o próprio sangue. Ele precisava de um aliado – e precisava terrivelmente – antes que tudo explodisse em sua própria cara.
Maddy parecia a escolha óbvia, exceto que ela era uma novata e os outros poderiam não a seguir. Heimdall? Esqueça. Frey? Njörd? Idem. Idun não tinha má vontade com ele, mas sua natureza confiante significava que ela acreditava que não havia mal em mais ninguém também. Tyr teria sido útil, mas em seu atual Aspecto não tinha força de vontade para se posicionar contra o resto deles. E, quanto à Ethel, a Vidente – Nunca confie num oráculo. Esta senha havia servido bem a Loki no passado, e ele não iria arriscar sua vida procurando exceções.
O que lhe deixava apenas uma possibilidade. E, por fim, depois de uma grande quantidade de planejar e pensar, Loki finalmente soube o que fazer. Seria complicado, mas poderia funcionar. Ele foi ver o único membro dos Æsir que ele sabia – bem, ele tinha esperança – que não fosse fazer perguntas embaraçosas e, uma vez convencido da boa fé de Loki, fosse lhe oferecer proteção.
Thor.
O mais poderoso dos Æsir. Apesar de sua marca de runa invertida, o Deus do Trovão sempre guardara um respeito invejoso pelo intelecto superior de Loki. E, desta vez, com o Martelo como isca e à luz da profecia, a perspectiva de guerra no horizonte, ele poderia ser tentado a assumir a luta. Com Thor ao seu lado, os outros seguiriam, mesmo até o Fim dos Mundos…
O Astuto chegou à aldeia ao romper do dia, com Jolly trotando em seus calcanhares. Ninguém o viu, exceto a Louca Nan Fey, que estava lavando roupas pelo Strond abaixo e o reconheceu no mesmo instante. Nan, naturalmente, era tão louca quanto um peixe, mas não era tola, tampouco, e identificou Loki como um membro do Povo do Fogo imediatamente pelo rastro que ele deixou atrás de si. Quanto ao homenzinho em seus calcanhares, podia ser um duende, ela pensou, mas, pelas suas cores, que se quebravam e rodopiavam…
– Eu vejo você, Estrela do Cão – cacarejou Nan Fey. – Quem é seu amiguinho, hein?
Loki lançou-lhe um olhar severo.
– Ele não é amigo meu – disse.
– Ah, então é assim? – indagou Nan com um sorriso. – Os deuses estão lhe trazendo com rédea curta? Isso não será por causa da profecia?
Loki lançou um olhar feroz para ela.
– Só porque existe uma profecia não quer dizer que o meu Fiel Amigo esteja envolvido. Nada vai acontecer, tudo bem?
Nan deu outro sorriso sem dentes. Ela não precisava de uma profecia para saber que alguma coisa estava a caminho. O Velho Homem já lhe revelara isso. Desde o Fim do Mundo, o Velho Homem lhe viera muitas vezes em sonhos, sussurrando e adulando; contando-lhe histórias e canções de sua juventude que Nan havia julgado esquecidas. As palavras sempre soavam como absurdas para ela, mas ela sabia que havia uma sabedoria no absurdo, se alguém pudesse decifrá-lo. Enquanto observava a trilha do membro do Fogo, ela cantarolou um pequeno acalanto que estivera em sua mente desde que acordara – uma pequena cantiga que remetia diretamente à Velha Era:
Veja o Berço balançando
Bem acima da cidade.
O Povo do Fogo vem descendo
Para trazer o bebê.
A caminho do Portão de Hel
O Povo do Fogo está rumando.
Fazendo beicinhos, fazendo beicinhos,
Tudo está desmoronando.
Ela se perguntou se Loki conheceria aquela cantiga. Provavelmente não; o que sem dúvida era melhor. Nan Fey gostava do Astuto e lamentava sinceramente o que ia acontecer com ele. Mas o sentimento não poderia ter lugar na cadeia iminente de eventos. Os planos do Velho Homem sempre devem vir primeiro, e se ele exigia um sacrifício…
Assim ela viu o Astuto passar e deu seu pequeno sorriso sem dentes. Fazendo beicinhos, fazendo beicinhos. Essa não era a expressão correta, naturalmente. Mas alguma coisa estava por vir. Alguma coisa grande. O Velho Homem lhe revelara isso.