Luz das Runas
Capítulo 8
Loki ficou em silêncio por um longo tempo. Quando por fim encontrou sua voz, todo o humor havia desaparecido dela.
– Você sabe que eles nunca concordarão com esses termos. Um trato com a Bruxa da Floresta de Ferro? Eles nunca acreditariam que não fosse uma armadilha. No momento em que eu lhes contar que falei com você, eles vão arrancar minha pele como se eu fosse uma uva. E se você acha que me manter como refém ajudará… bem, você teria mais chance se levasse minha cabeça para eles; a qual, aliás, eles provavelmente me arrancariam no minuto em que eu mencionasse seu nome…
Angie ergueu uma sobrancelha, e a fileira de tachas refletiu a luz.
– Sempre tão dramático! – disse ela. – Seu povo não pode se dar ao luxo de me desprezar. Eu quero dizer que, sem mim, o que você tem? Velhos derrotados e ultrapassados como Heimdall e Frey. Filhos das flores como Idun e Bragi. Recrutas desobedientes como Tyr. Além do mais, você ainda não ouviu a melhor parte. Se os Æsir aceitarem meus termos, isso é o que estou querendo lhes oferecer. Primeiro, uma aliança com meu povo. Naturalmente, eu não posso responder por todo o Caos, mas até onde diz respeito ao nosso pequeno grupo, o Povo dos Deuses faz aliados melhores do que inimigos, e nós os queremos do nosso lado. E para demonstrar nossa boa vontade, bem como minha runa, estou preparado para dar-lhe o Martelo de Thor no momento em que o trato for fechado.
Os olhos de Loki se arregalaram.
– O Martelo de Thor? Mjolnir?
– Nenhum outro – disse Angie, presunçosa.
– Como? Ele foi perdido no Ragnarók. Engolido por… Ah! – Ele sorriu. – Eu entendo.
– Está certo. Jormungand. – Angie deu de ombros. – Aparentemente… suas funções digestivas levam um tempo maior do que pensamos.
– Eca… – disse Loki.
Os Irmãos Lobos sorriram.
– Ela não pode evitar – disse Fenris. – Devorar coisas é algo que domina a família.
– E assim nós o recuperamos – continuou Angie. – E estamos preparados para devolvê-lo ao seu proprietário por direito. Um gesto de boa-fé, se preferir assim, já que os deuses deram a sua palavra.
E, tendo dito isso, Angie desviou os olhos e começou a examinar as unhas, que estavam pintadas de roxo, enquanto Loki, que estava pensando desesperadamente, tentava extrair o sentido de seu plano em sua mente.
No total, ele achou que havia entendido. O Caos era propenso a rebeliões. Esta era a natureza de seu povo. Ele próprio havia lutado em seu terreno com os inimigos deles quando isso lhe convinha, o que não lhe fizera ganhar amigos entre seu próprio povo. Agora, ao que parecia, Angie estava fazendo o mesmo. Mas ela e seus renegados não se arriscariam a um confronto aberto. Era muito melhor marchar sob alguma outra bandeira; assim, quando a Cidadela do Céu fosse reconstruída e a Ordem restaurada, eles usariam a aliança com os deuses para se proteger da represália do Caos – enquanto agiam precisamente como lhes agradava, como crianças delinquentes querendo sua liberdade, contudo felizes, protegidas e alimentadas por pais complacentes demais para expulsá-las.
Sim, pensou Loki, isso realmente fazia sentido. E, no entanto, havia coisas que o perturbavam. A primeira era como eles pareciam organizados. O Caos é – bem – caótico. Não há generais no Pandemônio. E Angie não era exceção, provando-se tão volúvel quanto o próprio Loki. Mas ali estava ela, falando de tratos, juramentos, estratégias e da reconstrução da Ordem e de Asgard. Não era de modo algum a Angie que ele conhecia. O que levou o Astuto a concluir que talvez alguma outra pessoa estivesse por trás de tudo isso.
Ele sabia muito bem que não devia dizer isso, contudo. Se eles tinham o martelo de Thor, pensou, aquilo precisava de tratamento cuidadoso. O martelo, Mjolnir, Mão Direita de Thor, havia sido um dos grandes tesouros da Velha Era, perdido para sempre, assim pensavam, na grande revolta que o Povo gostava de chamar de Adversidade e que os Æsir conheciam como Ragnarók.
Desde então, os deuses mal sobreviviam. Até a tentativa de resgate de Maddy resultara num sucesso apenas parcial. Seus números agora eram por volta de treze – incluindo um duende e uma porca barriguda, o que dificilmente podia passar como trunfo de conquista, pensou. A avaliação de Angie, embora áspera, não era inteiramente injusta. Os Æsir eram uma força desgastada; os Vanir não estavam em situação melhor. E com Skadi sumida de sua cidade, Maddy era a única cujos poderes não haviam sofrido alternativas dramáticas, de forma que parecia improvável que os deuses chegassem a fazer um retorno triunfal.
Mas com o Mjolnir, eles podiam ter uma chance. O poderoso martelo, entalhado com runas que o tornavam indestrutível, pesado o bastante para fazer fendas profundas nas ravinas nas montanhas, e, no entanto, capaz de se reduzir a um tamanho pequeno o suficiente para se enfiar em sua camisa.
Nenhuma arma semelhante havia sido forjada desde o princípio da Velha Era. Até o Povo do Túnel havia perdido a habilidade; e Loki estava dilacerado entre desconfiar de Angrboda e suas motivações e o simples conhecimento de que com o Mjolnir qualquer coisa poderia ser possível: a derrota do Caos, a reconstrução de Asgard e, com a nova Cidadela do Céu, o retorno de seus Aspectos originais. E, com eles, o poder para governar os Mundos…
– Tudo bem – disse ele, erguendo os olhos para o lugar onde Angie estava agora sentada, numa borda de rocha acima dele, balançando as pernas. – Eu tentarei, Angie. Eu vou levar sua sugestão aos deuses. Eu não posso fazer qualquer promessa.
Ela apertou seus olhos circundados por kajal para ele.
– É melhor você ser persuasivo – advertiu ela. – Eu quero minha sala em Asgard. – Ela se virou para sorrir para Fenris, que estivera observando Loki com aberta desconfiança ao longo de toda a conversa. – E também é melhor não haver traição, ou Fenny e os garotos vão lhe fazer outra visita.
O Grande H piscou.
– Pode crer nisso, parceiro.
– E só para garantir seu completo apoio, estou mandando Jolly para ficar ao seu lado. – Angie sorriu para o anão, que estava olhando para Loki com um ar de desgosto. – Você gostará de Jolly – disse ela. – De fato, vocês se tornarão inseparáveis. Ele vai servi-lo, acompanhá-lo até em casa, será uma companhia constante. E, se você tentar qualquer coisa, um truque, uma fraude ou uma traição, então se meterá numa grande encrenca.
– Grande encrenca? – Loki zombou. – Então, o que ele fará? Morderá meus joelhos?
Jolly lançou sobre ele um olhar maléfico.
– O que você está dizendo? Está dizendo que sou baixinho?
– Quem, eu? – perguntou Loki.
Jolly arregaçou as mangas de sua jaqueta, revelando antebraços musculosos nos quais estava inscrito o símbolo:
Os punhos do anão também eram excepcionalmente grandes para uma pessoa tão pequena, e Loki teve tempo apenas para ler as palavras Fadir e Modir tatuadas sobre os nós dos dedos antes que o anão baixasse a cabeça e lhe desse uma cabeçada diretamente no plexo solar, arrancando todo o ar de seus pulmões e deixando-o ofegante sobre o chão.
Jolly pôs sua cabeça deformada bem junto ao rosto de Loki.
– Não me chame de baixinho – disse ele. – Eu não gosto quando as pessoas me chamam de baixinho.
– Certo – respondeu Loki.
– Agora, ponha-se de pé.
Loki o fez com dificuldade. Ele passara tempo demais no chão naquele dia e estava começando a se sentir uma vítima. Olhou para o anão com respeito cauteloso. Ele podia ser baixinho, pensou Loki, mas havia um monte de força magnética no sujeitinho. As runas gêmeas nos braços de Jolly reluziram com um maligno brilho vermelho.
De sua borda de rocha, Angrboda sorriu.
– Nós o chamamos de Daeg, o Raio. Tem um belo soco, não é?
Loki teve de admitir que sim.
E a ideia de que Angie tinha acesso agora a duas das runas do Novo Manuscrito causava um impacto ainda maior. Onde ela conseguira encontrar a força magnética que deveria pertencer aos novos deuses? Deixava-o muito incomodado pensar em Angie equipada com tais coisas. E o que os outros deuses fariam disso? Nada de bom, isso era certo. Na verdade, eles provavelmente deduziriam que ele próprio era de algum modo culpado…
– Estou lhe dando vinte e quatro horas – disse Angie. – Deve ser o suficiente para convencer os deuses de que precisam de meu povo ao seu lado.
– E se eles decidirem o contrário? – perguntou ele.
– Tenho certeza de que você pode persuadi-los.
– E se eu não puder?
Angie deu uma risada, balançando as pernas contra a superfície da rocha. Ao lado dela os Irmãos Lobos abafaram risadinhas, e Fenris rosnou seu divertimento.
– Loki – disse ela –, você me mata de rir.
– Obrigado – disse Loki sem alegria alguma.
– Não, realmente – disse Angrboda. – Você vai precisar dessa visão otimista quando reconstruir Asgard.
– Sim, sempre sou otimista ao máximo quando estou prestes a ser esquartejado por meus amigos.
Ela lhe lançou um olhar indulgente.
– Estou lhe mandando de volta para o Mundo Superior. Caveira e Grande H vão tomar conta de você. E se precisar fazer contato comigo, basta dizer ao Jolly. Ele sabe o que fazer.
O homenzinho arreganhou os dentes novamente. Ele era decididamente um carnívoro, pensou Loki. Talvez até mesmo um canibal.
Loki suspirou.
– Ok. Vamos embora, então.
– Esse é meu garoto – disse Angie.