Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 96 de 103

Páginas do PDF

Luz das Runas

Capítulo 8

 

Maddy já havia viajado através do Sonho. Primeiro no Inferno, havia cinco anos; mais recentemente, com Jormungand. Ela pensou que conhecia as regras – até esperava poder ter desenvolvido uma resistência. Mas quando penetrou na nuvem de sombra, viu que esperança tola aquela havia sido. O Sonho não tinha regras, não tinha aliados, não tinha leis. O Sonho era a Desordem encarnada.

Loki uma vez descrevera o Mundo Inferior como um afogamento num mar de sonhos perdidos. Foi isso que pareceu agora para Maddy, quando ela e Jorgi mergulharam mais profundamente no coração escuro da nuvem de sombra.

Ali, Maddy procurou pelos sonhos que haviam lhe proporcionado consolo em tempos difíceis. Sonhos com lugares distantes, com oceanos e ilhas; sonhos com mesas empilhadas de comida; com demônios e Faërie; com guerreiros e reis; com animais e pássaros falantes. Sonhos com voar; sonhos com navios; sonhos com continentes distantes. Mas ali, no coração da nuvem de sombra, os doces sonhos de sua infância não pareciam nada senão fragmentos perdidos no tempo, lampejos de um passado distante.

Em vez deles, apareciam os medos da infância: o medo da queda, do afogamento, dos lobos; o medo de ficar sozinha à noite com as árvores nuas batendo na janela e a luz do luar brilhando sobre o piso. Ali estava também o suor frio do pesadelo; os monstros de todas as espécies; e ali estava a verdade no fundo disso tudo: o medo da perda, da morte de um amigo, o medo do escuro, da consciência da morte.

Sonhe para salvar sua vida, Perth havia dito.

Mas Maddy não tinha ideia por onde começar. O que eu estou procurando mesmo?, perguntou-se com desespero crescente. Não há nada a não ser escuridão aqui…

E então surgiu a voz da Louca Nan: Nada sonhado está para sempre perdido – e de repente a ideia lhe ocorreu. Era óbvio, ela disse a si mesma. Não tinha que ser assim. Nada estava perdido para sempre. O que se quebrara podia ser reconstruído; o que era impossível podia ser conquistado. Os mortos podiam ser relembrados; os caídos podiam se erguer novamente. E quanto à escuridão…

Que se faça a luz!

E de repente, para Maddy, ela se fez.

Lá estava seu pai, Jed Smith, quando Maddy era uma garotinha. Ela lembrou-se de sua forja, e da luz que havia no âmago dela; do modo que ela ficava olhando para seu pai retorcer e revirar e dobrar o aço e martelá-lo para fazer formas intrincadas. Lá estava a irmã Mae, brincando com suas bonecas no gramado; e Um Olho, seu velho mestre e amigo, conhecido por alguns como Pai Supremo.

Lá estava a Louca Nan Fey, com seus gatos e suas histórias. E lá estava Malbry; o vale; a floresta; o rio com seus pequenos barcos; as pastagens no alto das montanhas; a luz do sol sobre a neve de inverno; o cheiro de feno no Mês da Colheita; o primeiro raio de sol sobre o Hindarfell depois de três meses inteiros de escuridão.

Era ali que os sonhos de Maddy haviam começado: em Malbry, sob a Colina do Cavalo Vermelho. E, isso, ela finalmente entendeu, era o que a Louca Nan queria dizer. Ela tomou um fôlego profundo e fechou seus olhos e tentou se agarrar àquilo que havia descoberto. Depois bateu os calcanhares contra os flancos de Jormungand e esporeou-a de volta em direção à Ponte. E quando saíram da nuvem de sombra, ela convocou o sonho com toda a sua força magnética e arremessou-o sobre o Escudo do Sol no âmago do Berço, de modo que toda a força de Aesk, a Cinza, e Iar, o Construtor, e Perth, o Jogador, mantiveram-no suspenso em luz de runas como uma gota numa teia de aranha; um fragmento do Mundo acima dos Mundos.

Deuses! pensou Maddy. Isso é lindo…

Teria o General planejado tudo aquilo? Teria ele previsto aquele momento? Teria ele tido desde o princípio a intenção de extrair as forças do Caos, para que, assim que a hora chegasse, ele e seus amigos pudessem usar o próprio poder do inimigo – o infinito poder do Sonho – para construir o Berço dos deuses a tempo de se desviar de seu ataque? Teria ele sabido que funcionaria desse jeito? Ou teria ele simplesmente jogado os obstáculos e inventado o enredo à medida que ele ia se desenrolando?

Mas não havia tempo para perguntas agora. A Ponte do Arco-Íris já havia desaparecido pela metade, e as assinaturas que brilhavam junto ao seu arco decrescente estavam apagadas e exauridas. Maddy tentou não olhar, mas mesmo com uma olhadela às pressas podia notar que os deuses estavam em mau estado: exaustos, em número inferior, sangrando com feridas que Idun não tinha tempo para curar.

Thor, com o Mjolnir, ainda mantinha livre o limiar da Ponte; Loki, em seu Aspecto de Fogo Selvagem, sustentava o parapeito à sua esquerda, com Heimdall, Olho de Falcão, mantendo vigilância. Frey e Freya sustentavam a direita; Bragi tocava uma marcha triunfal; Njördi e Skadi lutavam lado a lado com um par de águias gigantes, com suas asas chamuscadas por efêmeras.

O braço esquerdo dotado de força magnética de Tyr ainda rasgava e malhava a nuvem de sombra, mas seu braço direito estava inutilizado, sua força magnética quase acabada. Quando Maddy mergulhou mais uma vez no Sonho, ele tombou e caiu sobre o joelho; a Ponte sacudiu; o Escudo do Sol bruxuleou; e o Lobo Fenris surgiu atrás dele para assumir seu lugar contra o inimigo que avançava…

Agora Maddy estava trabalhando em velocidade desesperada, mergulhando dentro e fora do Sonho como uma lançadeira num tear. A Louca Nan estava fazendo o mesmo, moldando forças magnéticas no céu. E a partir das forças magnéticas, o Primeiro Mundo começou lentamente a tomar forma. Ele não se parecia com qualquer espécie de cidadela que Maddy Smith houvesse conhecido; não havia nada ainda que ligasse tudo aquilo. Aqui ela reconhecia um lago nas montanhas perto de Farnley Tyas. Lá estava o Salão dos Adormecidos com seu teto pendente de estalactites. Aqui estava uma casinha com malvas-rosa em torno da porta – a velha casa de Nan, Maddy percebeu, com os gatos à soleira da porta. Acolá estava a igreja de Malbry – e as docas onde Perth tivera seus alojamentos. Lá estava a catedral do Santo Sepulcro com sua cúpula de vidro e piso de mármore. Aqui estava a oficina de Jed Smith. Aqui estava o cheiro das campânulas na primavera, e o som de toques de recolher no verão. Aqui estavam os campos de cevada, e os bodes no alto das pastagens de verão. E ali – bem ali – estava a Colina do Cavalo Vermelho, com a relva de cauda de coelho crescendo por sobre um dos declives e o Cavalo Vermelho recortado em barro como se nada em absoluto houvesse acontecido…

E então todo mundo ouviu o som: um bater de asas na nuvem de sombra como o batimento de um coração gigantesco.

Surt, o Destruidor, havia chegado por fim.

Maddy ouviu o som e parou, metade dentro, metade fora do Sonho.

Heimdall viu-o chegando e praguejou.

Skadi ouviu-o e abriu suas asas.

Sigyn ouviu-o e pegou na mão de Loki.

Bragi ouviu-o e começou a tocar uma canção fúnebre ao ritmo de sua pulsação.

Angrboda ouviu-o e sorriu, e disse aos três lobos-demônios ao seu lado: Chegou a hora, garotos. Façam a Mamãe ficar orgulhosa.

Tyr Corajoso ouviu e olhou do outro lado para o Lobo Fenris…

Ethel ouviu-o e fechou seus olhos…

Loki ouviu-o e pensou: Agora vai…

O General ouviu-o e soube que era a hora.

– Sonhem! Todos vocês! SONHEM! – rugiu ele, e sua voz soou alta quase o suficiente para abafar o som das asas que batiam. Todos ouviram a ordem, e os Æsir e os Vanir se movimentaram para obedecer; até Heimdall e Skadi, cuja lealdade a Odin havia padecido mais de um golpe ao longo dos anos desde o Ragnarók.

Loki também obedeceu ao comando, mudando para seu Aspecto de falcão e mergulhando de ponta-cabeça dentro do Sonho quando o que restava de força magnética na Pedra do Beijo morreu e a onda de sombra finalmente irrompeu, esmagando toda a Ponte do Arco-Íris, fazendo o Escudo do Sol cair dentro do papo da escuridão.

– Sonhem como nunca sonharam! – trovejou a voz do Pai Supremo. Não havia tempo algum para explicações; não havia mais tempo para sustentar a Ponte. Havia sido um jogo desesperado – e com apostas muito elevadas, ele sabia disso. Uma tentativa de usar o poder do Sonho contra as forças do Caos; e, num único movimento, restabelecer o equilíbrio dos Mundos, erguer Asgard, reinstalar os deuses e lançar o pêndulo rapidamente de volta, com a Ordem em seu lugar novamente.

Mas o Destruidor atravessou rompendo a nuvem, então o jogo acabou. E estava chegando muito perto – eles estavam atrasados, a Ponte estava perdida, e Asgard, a fortaleza na qual eles apareciam em seus Aspectos mais verdadeiros e poderosos, estava ainda a alguma distância de se completar. O que significava que, assim que a Ponte se fosse, eles teriam que encarar o inimigo em Aspecto humano – com as marcas de runa revertidas – e Surt iria acabar com eles de uma vez por todas com uma simples batida de sua asa cercada de fogo.

SONHEM!

Odin rugiu pela última vez, vendo a Ponte quebrada desabar. Todos os Vanir: Heimdall, Skadi e Njörd, Frey e Freya, Bragi e Idun se transformaram em pássaros e se espalharam por dentro da nuvem de sombra. Cacos de marcas de runas lampejavam dentro da nuvem; mas na confusão ninguém conseguia ver o quanto de Asgard restava para ser construído. Era apenas um castelo no ar, ou poderia ser uma Cidadela?

Abaixo dele, Thor, com o Mjolnir na mão, estava tentando manter a posição sobre o que havia restado da Ponte quebrada. Ele não era um sonhador, mas entendeu a urgência da ordem do General. Tentou invocar Asgard da nuvem de efêmeras, mas tudo em que conseguiu pensar foi Sif, sua esposa, sentada em frente de seu espelho, penteando seus cabelos dourados…

Sif estava se saindo um pouco melhor. Mobílias interiores haviam sempre sido mais importantes do que Thor para ela, e tinha cinco anos para planejar a decoração de sua sala em Asgard. Mantas, colunas, tapeçarias, pisos de mármore e cadeiras ornamentadas, camas de colunas e gaiolas de pombos tomaram forma com a velocidade do Sonho quando Sif de Cabelos Reluzentes convocou-as para sair da nuvem.

Loki estava perplexo. A mulher-serpente mandada para matá-lo, naquele primeiro dia na Colina do Cavalo Vermelho, havia profetizado que ele não teria sala na nova Asgard. Agora a desconfiança de Loki quanto a oráculos estava começando a chegar à paranoia, mas desde o início ele achou que isso queria dizer que ou os deuses iriam recusar sua entrada na nova Cidadela do Céu ou que ele tombaria numa batalha antes que ela fosse concluída. Nenhuma das duas opções o atraía muito, e agora ele estava diante de uma escolha difícil – a de sonhar com Asgard no lugar sem qualquer garantia de que seria beneficiado com isso, ou reduzir seus prejuízos, poupando sua força magnética e se arremetendo para o céu aberto.

Só a runa Matrimônio era um obstáculo em seu caminho, mas enquanto Sigyn estivesse trabalhando em Aspecto, pensou, ele poderia ter uma chance.

Ele apertou os olhos e concentrou sua força magnética em Eh. Ela reluziu em seu dedo médio, uma estreita faixa dourada de luz. Espertamente o Astuto traçou com o dedo uma runa; era Tyr, e sua lâmina era pequena, mas cortante.

Ele olhou de relance para o perfil de Sygin. Ela parecia muito inconsciente de seu plano; seus olhos estavam fechados, seu rosto sério um estudo em concentração. O que ela faria se ele o deixasse?, ele pensou. Ela não podia mudar para a forma de pássaro…

Ora, vamos lá, disse Loki a si mesmo. Agora não é decididamente a hora certa para você descobrir que tem uma consciência.

Ele trouxe a runa Tyr para mais perto. A runa do Matrimônio começou a brilhar. Ela ardia; e ainda assim ele a segurava, pensando: Sinto muito, Sig. Eu tenho que partir. Eu realmente não sou do tipo que gosta de casamento…

Bem naquele momento veio uma terrível guinada da Ponte que desabava. Loki foi posto em desequilíbrio e caiu. É isso aí, ele pensou. Vou cair fora daqui…

Mas quando ele estava prestes a mudar de forma, sentiu a mão de Sygin agarrar-se à sua, e ela o puxou para a frente, para um lugar que era igual à caverna junto aos Adormecidos, exceto que ali ele não era um prisioneiro, e dois garotinhos brincavam aos seus pés – dois garotinhos de cabelo vermelho…

A Sygin de sonho sorriu para Loki. Não era um sorriso confortador – era um tanto maternal demais para isso –, mas era amável, a despeito de tudo.

– Onde nós estamos? – perguntou Loki.

– Em casa – disse ela.

– Em casa? Onde?

– Em Asgard, é claro – respondeu ela com um sorriso. – Lembra? Sua sala em Asgard?

– Eu não vou ter uma sala em Asgard – disse Loki. – Lembra? O Oráculo me revelou.

Sigyn riu.

– Então venha dividir a minha. Há muito espaço para dois.

– Não me entenda mal – disse Loki. – Quero dizer, isso é muito generoso, mas eu realmente não preciso…

– Todos precisam de alguém – falou ela. – Todos, até alguém como você precisa de um lugar para o qual retornar.

A avidez de Loki para escapar foi suspensa pela curiosidade.

– O quê? – perguntou ele. – Você me hospedaria? Depois de tudo que eu fiz? Quero dizer, eu dificilmente seria um marido fiel…

– Claro que hospedaria – afirmou Sigyn.

– Você deve estar louca – disse Loki.

– Então estou louca – falou Sigyn. – Quem se importa? Agora, sonhe!

Por que não?, pensou Loki, e fechou seus olhos.

E entrou na nuvem de sombra.

Em torno dele, os deuses estavam fazendo o mesmo. Frey sonhou com salas de banquetes; Freya com espelhos e joias; Heimdall com horizontes e montanhas; e Ethel com Balder, seu filho há muito perdido, com perfeita, afetuosa nitidez.

Skadi sonhou com uma sala de gelo; Njörd sonhou com uma sala no Mar; Idun sonhou com pomares e jardins; Bragi sonhou com música.

E Perth e Sleipnir sonharam com muros – muros tão grossos quanto altos são os homens; ameias; baluartes; amuradas e contrafortes; pontes levadiças e parapeitos e torres.

Eles tinham apenas segundos agora, mas o tempo funciona de modo diferente no Sonho, e segundos eram tudo de que precisavam – contanto que a sombra do pássaro negro recuasse. Surt devia ter sentido a urgência. A batida das asas ficou mais ruidosa. Uma ponta de asa roçou a Ponte…

Agora apenas Tyr e os lobos-demônios se erguiam entre Asgard e o Caos. Fenris, Caveira e Grande H estavam no último trecho do parapeito, prontos para golpear quando o pássaro negro irrompesse. De modo algum sonhadores, mas Devoradores maduros, os três agora estavam no auge de si mesmos, as mandíbulas estalando, os olhos selvagens, as presas arreganhadas para a nuvem de sombra. Cada segundo era valioso; cada segundo podia significar a chance de conquistar uma vitória, mesmo que a Ponte do Arco-Íris se dissolvesse no ar…

– AGORA! – A voz de Perth veio do alto. – Deem tudo que vocês têm!

O Corajoso Tyr, cujos poderes nunca haviam recorrido ao voo mesmo na mais propícia das ocasiões, sentiu-se começando a cair. Seu Aspecto estava falhando. Seu braço dotado de força magnética bruxuleou e começou a se apagar. Abaixo dele – bem lá embaixo – estava Fim de Mundo: um tabuleiro de xadrez de luz e sombra.

Ao lado dele, o Lobo Fenris lançou-lhe um olhar. Seus olhos cinza-dourados estavam brilhando.

– Acha que pode montar nas minhas costas, novato?

Açúcar baixou os olhos.

– Para ir aonde? – perguntou ele.

Fenris puxou a cabeça em direção à nuvem.

– Cara – disse Caveira. – Nós não temos chance alguma.

– Esse é Surt – disse o Grande H. – Surt, homem. O Destruidor…

Fenris exibiu seus dentes.

– Sim. Pois eu digo que vamos lá e beijamos a bunda dele.

Caveira e Grande H trocaram olhares. Abaixo deles, a Ponte não era nada exceto ar.

Açúcar engoliu em seco.

– Parece um plano. – Ele se agarrou na juba de Fenny com as duas mãos.

Fenny soltou um uivo aprovador.

– O novato disse que nós temos um plano. Estão comigo, garotos? – Então ele abriu suas mandíbulas e saltou, uivando, sobre a nuvem que se aproximava bem quando a ponta da asa do Destruidor baixou como uma lâmina sobre Bif-rost.