Luz das Runas
Capítulo 10
Quatro dias inteiros já tinham se passado desde que Maddy e Jorgi haviam chegado a Fim de Mundo. No meio-tempo, ela havia percebido que sua tarefa estava longe de ser simples. A Cidade Universal era muito maior que qualquer cidade que ela havia imaginado ou sonhado. Ela se estendia como uma colcha de retalhos de praças e ruas e passagens estreitas; de arcadas, pátios internos pavimentados, minaretes, jardins murados e pequenas fontes. Havia lojas e feiras, negociantes e ladrões, artistas de rua e shows de animais e marinheiros de folga com dinheiro para torrar. Havia colégios e catedrais, os quais, embora nunca tão grandes quanto Nat Parson afirmava, ainda assim conseguiam se erguer até o dobro da árvore mais alta, roçando o céu com suas agulhas de vidro dourado. Havia estátuas de antigos dignitários, há muito tempo desprovidas de seu revestimento dourado, e listradas de fuligem e esterco de pássaro. Havia canais com filas de iates ao longo de casas graciosas cercadas por árvores. Numa praça havia um pedestal de mármore sobre o qual se erguia um general gigantesco cavalgando sobre uma serpente, ambos intrincadamente esculpidos em pedra e cercados por pequenos jatos de água que se elevavam e caíam a intervalos. Olhando mais de perto, Maddy quase teve certeza de reconhecer as feições de Njörd no mármore, embora Perth a assegurasse de que esse fora um dos grandes reis antigos – um rei da Velha Era chamado Knut, cujo poder havia sido tão grande que conseguia repelir as ondas do Um Mar e invocar os monstros marítimos conforme sua vontade.
Perth era cheio de histórias. Maddy não tinha meio de saber se qualquer uma delas era verdadeira, mas mesmo assim estava muito consciente do quanto precisava de sua orientação nesta cidade de perigosas maravilhas. Menos de uma hora depois de chegar, ela já havia percebido que encontrar sua irmã não seria uma missão tão simples como havia suposto; com a visão real, logo ficara claro que a cidade estava repleta de assinaturas – algumas brilhantes, outras embaçadas, todas se movendo em vaivém incessante, como fios numa intrincada tapeçaria. Poderia levar semanas para encontrar Maggie Rede – se, na verdade, ela conseguisse de fato encontrá-la.
– Ah, por que você precisa procurar por ela? – Perth vinha lhe fazendo as mesmas perguntas no transcorrer dos últimos quatro dias. – Não podemos apenas fazer negócios aqui? Com suas habilidades e as minhas, poderíamos chegar ao céu!
Mesmo em tempo tão curto, Perth havia se provado um discípulo muito apto no uso de runas, manuseando os toques de dedos com a mesma facilidade sem esforço que demonstrava em bater carteiras e surrupiar moedas. Sua própria força magnética era quase tão brilhante quando a de Maddy, o que a levara a pensar que a runa que ele carregava devesse ser uma do Novo Manuscrito. Ela a batizara simplesmente de Perth, e esperava que Ethel pudesse ajudá-la a identificar com mais clareza se as duas ainda viessem a se juntar.
Mas ensinar as runas para Perth tomava tempo. E também tomava tempo impedi-lo de se meter em encrencas. Deixadas aos seus próprios arbítrios, as novas habilidades de Perth teriam provavelmente o levado para a cadeia dentro de uma semana, e quando ela o flagrou tapeando nas cartas mediante o uso da runa Bjarkán para olhar para as mãos de seus adversários, teve que explicar ao seu novo amigo que as runas não eram coisa para se brincar.
A força magnética era um dom perigoso, ela disse, para ser usado apenas raramente e em segredo. Os dias da Ordem podiam estar abalados, mas ainda havia enforcamentos em Fim de Mundo.
Perth escutou o sermão com todo sinal de contrição, depois voltou a fazer precisamente o que fizera anteriormente, usando a Fé para fazer ouro de tolo ou Kaen para tapear nas juntas dos dedos, de modo que a maior parte do tempo Maddy se ocupou de tentar mantê-lo sob controle.
É o mesmo que tentar controlar o Fogo Selvagem, ela pensava, e percebera com dor no coração o quão terrivelmente sentia falta de Loki. Dos outros também – de todos eles. Ela esperava apenas que eles entendessem, supondo que ela sobrevivesse para explicar, por que os havia desorientado e por que, quando ela partira para a cidade à procura de ajuda, escolhera agir sozinha.
Ensinar Perth era uma das razões pelas quais Maddy havia feito tão pouco progresso na Cidade Universal. A segunda razão era mais simples. Pela primeira vez em sua vida Maddy Smith estava com medo. Ah, não dos perigos da grande cidade, ou do que pudesse encontrar em sua busca; mas do que poderia ter que fazer quando finalmente encontrasse sua irmã.
Criada por um homem que a recriminava pela morte de sua mãe no parto, a mais jovem e mais franca irmã de Mae, a garota mais bonita da aldeia, Maddy havia passado sua infância sonhando encontrar a verdadeira família, a tribo que a aceitaria pelo que ela era. Ela a havia encontrado nos Æsir. Descobrira um pai em Thor, um avô em Odin. Mas desde que Loki havia lhe contado a verdade, Maddy havia desejado conhecer sua gêmea desconhecida com um anseio silencioso, desesperado. A ideia de que poderia ter uma irmã pelo mundo, nascida na família errada, sonhando os mesmos sonhos e esperando que Maddy a encontrasse, a tinha sustentado nos três últimos anos. Mesmo depois do ataque sobre a Colina do Cavalo Vermelho ela não havia perdido nunca a esperança. Assim, em vez de alertar os Æsir para o perigo que ameaçava todos, ela havia deixado o Astuto levar a culpa e fugira sozinha para Fim de Mundo.
Agora o maior medo de Maddy era de que seu instinto a tivesse enganado, de que Maggie fosse o inimigo, e que por suas ações ela própria pudesse atrair o Fim dos Mundos. Ela desejava que os corvos de Odin viessem lhe dizer o que fazer a seguir. Ou que o próprio Odin lhe falasse novamente através do Sonho – mas os únicos pássaros que vira até ali tinham sido os pombos de aparência desmazelada que infestavam a cidade, e seus únicos sonhos haviam sido coisas confusas, fragmentadas, que não faziam sentido quando ela despertava.
E assim ela ficou com o único amigo que havia conseguido encontrar em Fim de Mundo. Perth conhecia o lugar como a palma da mão; além disso, seu trabalho nas feiras da cidade significava que Maddy teria a oportunidade de observar montes de pessoas passando. Um dia desses, ela dizia a si mesma, uma daquelas pessoas seria sua irmã.