Luz das Runas
Capítulo 2
– Casar? – Maddy quase gritou. Ver Adam ali já era um choque suficiente para ela, mas saber que ele iria se casar. Adam, que, quando garoto, aos doze anos havia gostado de atirar bombinhas nos gatos vadios e pedras nos mendigos, mesmo nos deuses… Era absurdo demais para ser levado em conta. Quem iria querer se casar com ele? E o que ele estava fazendo ali, de qualquer modo?
Perth estava observando-a com curiosidade, um brilho de interesse em seus olhos.
– Velha paixão? – insinuou ele, assim que Adam havia se afastado.
– Longe disso – falou Maddy, ainda seguindo Adam com seus olhos. Ela hesitou, fez uma carranca para si mesma, e depois tomou uma rápida decisão. – Vamos atrás dele – disse ela. – Eu quero saber o que ele está fazendo.
– Mas e quanto ao nosso negócio? – perguntou Perth.
– Mais tarde – respondeu Maddy. – Siga-o primeiro. E tente ser discreto.
– Você realmente acha que é importante? – indagou Perth.
Maddy fez que sim.
– Pode ser. De qualquer modo – ela acrescentou –, ele é rico. Você pode roubá-lo se quiser.
Perth deu de ombros.
– Bastante justo. – O roubo não era realmente seu jogo, mas ele estava sempre aberto a sugestões.
Foi fácil seguir Adam através das multidões e tendas e barracas de feira. Muito menos fáceis eram as ruas abertas, as vielas e as passagens. A Cidade Universal era vasta e fora construída em grande escala: as ruas principais eram amplas e espaçosas, com longas, nuas extensões de pavimentação, e apenas uma fileira de pés de tília providenciando alguma sombra. Maddy havia pego um bergha cor-de-rosa de uma barraca de passagem, que usava agora em torno da cabeça à maneira de algumas nativas de Fim de Mundo; combinava mal com sua túnica e suas botas, que a marcavam como uma garota do Norte, mas pelo menos ocultava seu rosto, ela pensava, e tentava ficar logo atrás de Perth – envolto como ele estava em mantos azuis – enquanto foram caminhando através da Praça do Santo Sepulcro com sua fonte de mármore e sua grande catedral, e desceram diretamente para o Passeio dos Inspetores, penetrando no coração da cidade.
Aquela era a maior (e mais cara) rua comercial em todo o Fim de Mundo, e Maddy começou a se sentir muito notória enquanto ela e Perth seguiam Adam, passando pelas fileiras de lojas com toldos coloridos – joalherias, armarinhos, chapelarias, cafés e relojoarias, lojas de cristal e porcelana. Até aí o tempo de Maddy havia se passado em torno das docas e em Ratos D’Água, bem como em favelas de operários, e esta nova face de Fim de Mundo surgia como uma surpresa total para ela.
Ali as calçadas tinham três metros de largura e eram incrustadas com ornamentos de bronze. Ali havia carruagens puxadas por parelhas de cavalos, landôs para viúvas milionárias e veículos ousados de assentos elevados para os jovens e a sociedade chiques. Ali havia damas com chapéus feitos com plumas de pássaros exóticos; havia jovens fanfarrões vestidos com peles e ricos estrangeiros com suas fileiras de esposas, cobertas de véus negros da cabeça aos pés, os olhos escuros pudicamente baixados.
Havia ali serviçais de todas as raças, alguns carregando mensagens, alguns sozinhos, outros transportando pacotes nos rastros de seus donos. Maddy reparou que muitos carregavam a marca de um ferro em brasa sobre o braço – não exatamente uma runa, mas um símbolo como duas pontas de flecha opostas.
– O que este sinal significa? – perguntou ela.
Perth deu de ombros.
– Marca de escravos – disse ele. – Pessoas, criminosas na maioria, ou gente que não pode ou não vai pagar suas dívidas, ou prisioneiros feitos em batalhas pelos Estrangeiros e desembarcados aqui. Antes do colapso da Ordem, os criminosos apenas iam para a cadeia, ou eram castigados, ou Purificados, ou postos nos troncos. Mas atualmente há um mercado de escravos a cada três semanas na Praça do Santo Sepulcro, e é para lá que a maioria dos malfeitores acaba indo. Alguns são mandados para o trabalho de construir estradas, quebrar pedras em pedreiras ou trabalhar em fazendas como operários. Alguns, se tiverem sorte, ou souberem ler, terminarão como escravos domésticos para os ricos e repulsivos.
Maddy lançou sobre Perth um olhar de curiosidade. Ele vinha parecendo especialmente furtivo desde que haviam entrado naquele trecho da cidade, e agora, a meio caminho da descida para o Passeio dos Inspetores, estava visivelmente desconfortável. Ela havia se perguntado por que ele se vestira daquele jeito, nos longos mantos de um estrangeiro, quando era claramente um nativo de Fim de Mundo (e com o sotaque para prová-lo). E agora ela se lembrava da forma da marca de runa que Perth havia jurado ser uma tatuagem.
E via como ela podia ser mudada facilmente – com ferro e fuligem, ou tinta de tatuador – da marca de um prisioneiro para um novo distintivo de liberdade.
– Perth, você foi um escravo?! – exclamou ela, quase esquecendo, em sua surpresa, que a intenção deles era perseguir Adam.
Perth estremeceu e puxou seu lenço de cabeça por sobre o nariz e a boca.
– Está certo. Vá em frente, conte a todo mundo. Eu fui um escravo nas galés. Você tem uma ideia do que eles me farão se eu for apanhado novamente?
– Sinto muito – lamentou Maddy. – Eu não sabia…
– Seu amigo está ficando longe de nós – avisou Perth, com um sinal de cabeça em direção a Adam.
– Ah – disse Maddy, e apressou seu passo.
A multidão da feira se abriu para deixá-los passar.