Luz das Runas
Capítulo 4
Maggie despertou naquela amanhã se sentindo cansada e não reparada. Era esperado, naturalmente. Era, afinal, o dia de seu casamento. Ela contava em sentir-se nervosa, principalmente em sua condição. Era também a manhã de Ragnarók, e o céu da aurora estava apocalíptico em ouro rosado e rosa-marshmallow, embora Maggie fosse ingênua o bastante para interpretar isso como um bom sinal.
Maddy sabia exatamente o que isso significava, sendo criada no rústico Norte. Céu vermelho à noite, para o pastor um prazer. Céu vermelho de manhã, sinal ruim deve ser. Podia não haver muitos pastores na Cidade Universal, mas no dia do Fim dos Mundos, ela pensou, todo mundo faria bem em prestar atenção a esse provérbio de velhas senhoras.
Havia escurecido quando ela e Perth retornaram com Jorgi para Ratos D’Água, e nesse momento nenhum dos dois sentia muita vontade de falar. Perth estava exausto, sua força magnética apagada, seu corpo coberto de arranhões. Maddy estava igualmente drenada, sua esperança de evitar o inevitável completamente abalada pela perda do Velho Homem. Só Jorgi parecia animada – provavelmente com a perspectiva de outra noite de caça às focas – e, na chegada, prontamente assumiu sua forma de Serpente e deslizou de volta para a água. O Cavaleiro da Traição não precisava de cavalo para o que tinha que fazer no dia seguinte; embora seu coração vacilasse à ideia de trair sua irmã, o General não tinha lhe dado nenhuma escolha a não ser matar Adam Scattergood.
Naquela noite ela havia tentado dormir, mas o sono nunca fora tão evasivo. Culpa, aflição e preocupação a mantiveram acordada, e às três da madrugada ela estava tão completamente desperta que abandonou toda esperança de descanso e se levantou para se preparar para a traição.
Perth, por outro lado, estava profundamente sonolento, e não se agitou quando ela entrou em seu quarto – nem mesmo quando Maddy lançou a runa Sól e, em seu brilho, olhou para seu amigo. Ela teria acolhido bem sua companhia na tarefa que jazia à frente, mas ele parecia tão inocente enquanto dormia, sua cabeça num ângulo infantil, que ela ficou relutante em acordá-lo.
E assim ela foi sozinha até o Passeio dos Inspetores, quando a primeira luz do Último Dia começou a colorir o céu oriental, e, tremendo, esperou no beco que Maggie fizesse sua aparição.
Maggie também estava desperta desde bem antes da primeira luz. Muito embora nunca houvesse sido vaidosa, havia prazer em se banhar e se paparicar; na escolha do cheiro; na pintura das palmas da mão com ocre em desenhos tradicionais; e, finalmente, no prender o bergha branco em torno da cabeça, sobre o qual o véu de noiva se estenderia sob sua guirlanda de rosas.
Era quase quinze para as oito.
– Você ainda não está pronta? – perguntou Adam, andando para cá e para lá no piso da cobertura.
Maggie se virou e olhou para ele. Belo em seu traje de seda branco, seu cabelo claro cortado na última moda em Fim de Mundo, ele parecia simplesmente um anjo. Um pouco pálido, talvez, ela pensou, embora isso fosse compreensível. Todos os homens jovens ficam nervosos na manhã de seu casamento.
– Quase – disse ela. – Como estou?
Ela deixou cair seu véu – que ela fizera com a seda amarela que Adam havia trazido – e, colocando a guirlanda de rosas sobre a cabeça, olhou para seu reflexo.
Adam sorriu. Não era um sorriso especialmente amigável, mas Maggie, ainda olhando para seu reflexo, falhou em notar sua falta de calor. Ela estava pensando na cerimônia a ser logo realizada na catedral do Santo Sepulcro, quando ela e Adam se ergueriam diante da Pedra do Beijo e declarariam seu amor em palavras ritualísticas do Bom Livro:
Minha mão para a sua mão,
Minha alma para a sua alma,
Meu nome para o seu nome,
Para sempre, seremos um só.
Adam também estava pensando nas palavras da cerimônia de casamento. Ele não tinha ideia de por que seu passageiro achava-as tão importantes, mas em sua mente o Murmurador estava quase desmaiando de empolgação. Isso logo terminaria. Seu passageiro iria embora. E assim Adam sorriu à sua noiva prometida, e disse numa voz que tremia de expectativa:
– Querida, você parece preparada.
Na rua abaixo, Maddy não se sentia preparada de modo algum. O dia iria ser perfeito, ela pensou: o céu vermelho havia dado uma guinada para um azul angelical; o sol estava brilhando; não havia nuvens. Dentro de poucos minutos, ela disse a si mesma, os sinos do Santo Sepulcro soariam, e Maggie Rede proferiria seus votos de casamento com Adam Scattergood.
Um casamento, mesmo um modesto, sempre atrai atenção, e Adam, ao que parecia, não havia poupado gastos. Um flautista, um tocador de tambor, uma carruagem enfeitada de flores, para ser puxada – por ninguém além do Cavalo Vermelho dos Últimos Dias – até a catedral do Santo Sepulcro, onde o casal se casaria em frente à Pedra do Beijo, de acordo com a tradição que datava de quinhentos anos.
Uma pequena multidão já havia se juntado em torno da carruagem matrimonial, dançando a canção do flautista; a maioria era de crianças, as mãos entendidas e clamando por lembrancinhas – os pequenos biscoitos em forma de coração tradicionalmente atirados aos festeiros.
O coração de Maddy vacilou mais ainda. Isso não seria fácil. A ideia de matar um jovem em seu próprio casamento era bastante terrível; fazê-lo em meio a uma multidão de crianças, qualquer uma delas podendo ser atingida, era quase impensável. Mas aquelas eram as ordens do General, claras e inequívocas, e qualquer chance que ela pudesse ter tido de questionar seu plano fora perdida.
Ela desejou que ele estivesse com ela agora. Não queria fazer isso sozinha. Tudo em torno daquilo parecia errado, mas com tão pouco tempo até o evento crucial, Maddy não podia pensar em qualquer outra solução para impedir o casamento de sua irmã.
Já faltavam dez minutos para a hora. A noiva estava mais que tradicionalmente atrasada. Por um momento, Maddy ousou ter esperança de que Maggie pudesse ter mudado de opinião, de que de algum modo ela pudesse ter percebido o terrível engano que cometera…
E então surgiu uma vigorosa saudação da multidão, e a noiva e o noivo fizeram sua aparição.
Maddy olhou fixo para eles de seu esconderijo no beco. Maggie usava um véu amarelo e carregava um cesto de lembrancinhas; Adam estava resplandecente de branco. A pequena multidão saudou quando eles surgiram, as crianças clamando por lembrancinhas, e o flautista começou a tocar uma alegre canção tradicional chamada A Dança do Beijo, que Maddy reconheceu imediatamente dos casamentos de sua própria aldeia.
Ela se aproximou um pouco mais, saindo da entrada do beco. Atraída pela procissão das crianças, hipnotizada pelos rostos vívidos, o rubor rosado no rosto de sua irmã, o modo pelo qual ela ria e trocava gracejos com o povo que agora se enfileirava no Passeio dos Inspetores – alguns cercando a carruagem, outros simplesmente acenando para ela –, Maddy se juntou ao pequeno agrupamento e não precisou de qualquer visão real para revelar-lhe que isso não era representação. A felicidade de sua irmã era real; ela praticamente reluzia de empolgação.
Será que Adam teria mudado? Maddy pensou. Será que o malvado garotinho havia se transformado em alguém que sua irmã podia amar? Será que ele a amava?
Não. A ideia era insuportável. O único modo pelo qual ela poderia fazer isso seria se Adam fosse uma autêntica ameaça; mas quanto mais ela tentava imaginar isso, mais ela parecia lembrar-se daquele dia distante na Colina do Cavalo Vermelho, quando ela havia lançado o raio mental e Adam molhara, amedrontado, suas calças…
Num momento a comitiva partiria. Teria que ser feito logo. Feito logo e bem; não haveria nenhuma segunda chance. Ela se aproximou um pouco mais. A carruagem de casamento estava agora a não mais que vinte passos longe dela, e, aproximando-se, Maddy baixou a cabeça, como se para apanhar do chão uma das lembrancinhas que haviam caído nos paralelepípedos, e começou a invocar a runa Hagall.
Mas – uma reviravolta do Destino, talvez – o gesto que devia ocultá-la atraiu a atenção de Maggie. A garota ficou paralisada bem quando estava atirando um punhado de lembrancinhas para a multidão, e no momento em que Maddy ergueu o olhar instintivamente, se flagrou olhando para um par de olhos cinzentos tão salpicados de dourado e curiosos quanto os seus próprios olhos…
Por menos de um segundo seus próprios olhos se arregalaram.
Assustada, Maggie prendeu seu fôlego.
Alguma coisa se passara entre elas – uma força muito maior que Aesk ou Ác – que lampejou através de suas consciências de gêmeas. Adam, vendo Maddy ali, encolheu-se, e instintivamente ergueu o braço. O mesmo velho Adam, Maddy pensou, e começou a erguer o raio mental…
Mas Maggie estava estendendo sua mão, um pequeno sorriso tímido sobre seus lábios.
– Ah, Maddy, eu sabia que você iria… – balbuciou ela.
Olhando em retrospecto mais tarde, Maddy sentiu que aquele fora seu momento. Fora o momento – o segundo de preparo, o teste derradeiro de sua lealdade.
E ela falhou, a runa Hagall descarregando-se inofensivamente no chão bem quando Maggie viu o que estava acontecendo.
– Maggie, espere… – disse Maddy.
Mas Maggie já estava fora de alcance. Seus olhos, tão esperançosos um momento antes, agora ardiam com a traição e o horror. Ela ergueu um punho que de repente se eriçou com luz de runa.
– Eu pensei que você fosse diferente – disse ela. – Pensei que você estivesse do meu lado. Está provado que você era um deles, bem como aquela coisa disse que você era…
E, arremessando um punhado de feitiços, ela pressionou o Cavalo Vermelho da Carnificina a ir em frente e conduziu-o em trote ágil pelo Passeio dos Inspetores, dispersando a pequena multidão (as crianças ainda clamando por lembrancinhas), as runas estalando como bombinhas por toda a rua pavimentada, o tocador de tambor e o flautista correndo atrás, a guirlanda deslizando de sua cabeça para cair na sarjeta.
O Povo todo reagiu de modos diferentes.
Alguém gritou: Fogos de artifício! Outros continuaram dançando. Outros ficaram boquiabertos olhando para o céu, conscientes de que haviam visto uma coisa estranha, mas incapazes de articulá-la em palavras. Alguns ouviram as vozes de pessoas há muito tempo mortas; alguns riram, um tanto desesperadamente; outros choraram – mas, é assim mesmo, todos não choram em casamentos?
Maggie olhou para trás uma vez, com os olhos furiosos, mortais, sob seu véu. Depois tanto ela quanto Adam desapareceram.