Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 78 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 9

 

Era fim de tarde em Fim de Mundo. Quase doze horas já haviam se passado desde que Maggie desaparecera no interior do Sonho – uma extensão problemática de tempo para Adam e seu passageiro.

– Onde está ela? ONDE ESTÁ ELA?

A voz do Murmurador, furiosa a princípio, havia se reduzido a uma espécie de zumbido suplicante. Adam a ignorava. Ele não se importava. Na verdade, se houvesse sabido que Maggie Rede havia sofrido um acidente fatal, não teria se importado de modo algum com isso, mas sim com o fato de que ela tinha prometido o libertar de seu passageiro.

Ele havia observado de seu terraço enquanto o sol se erguia sobre a Cidade Universal e ouvido os sons distantes dos comerciantes, das carroças nos paralelepípedos, dos garotos de entrega – todos os sons familiares de uma vida que agora parecia muito longínqua.

Achava difícil imaginar-se sequer retornando àquela vida – mais difícil ainda lembrar que um dia já fizera parte dela. Pela primeira vez em muitos meses ele se flagrou pensando em Malbry. Ele havia ficado ansioso por fugir; por experimentar a vida na cidade grande. Agora se lembrava da Colina do Carvalho Vermelho, da Floresta do Pequeno Urso, da margem do rio onde ele e os outros garotos haviam brincado através de todos os longos e doces verões de sua infância. Pensou em sua mãe e na Taverna dos Sete Adormecidos e em seu próprio pequeno quarto sob a calha, nos seus soldadinhos de brinquedo alinhados no parapeito da janela e na ameixeira que havia crescido junto a ela.

Tudo isso parecia tão distante agora – ele tinha sonhos que pareciam mais reais –, e então tomou consciência de uma dor em seu peito, um nebuloso, surdo latejar, como um ferimento. Adam não era muito dado a pensar sobre seus sentimentos. Se fosse, teria reconhecido aquela dor nebulosa como saudade. O Murmurador a reconheceu, e seu desprezo foi devastador. Mas ao longo de três anos Adam havia aprendido a desligar a Voz escarnecedora de sua cabeça.

E assim ele apenas se sentou à janela e esperou que Maggie saísse do Sonho, inconsciente das lágrimas em seu rosto, ou do fato de que seus punhos estavam tão doloridamente apertados que suas unhas haviam riscado a sua pele. Na verdade, ele estava tão perdido para o mundo que, quando Maggie finalmente chegou em casa, levou-lhe um momento para entender que ela não era parte de algum sonho acordado, mas a pessoa com que havia prometido se casar no dia seguinte na catedral do Santo Sepulcro.

Ela tinha uma aparência terrível, ele pensou. Suas roupas estavam riscadas, estava sem um sapato, seu bergha fora despedaçado. Um corte sobre sua sobrancelha havia sangrado até atingir o cabelo tosado; havia um ferimento ao lado do rosto; os nós de seus dedos estavam cortados e sangravam.

– Que Diabos aconteceu? – perguntou Adam.

Maggie lançou-lhe um sorriso cansado.

– Jornada difícil. Preciso descansar. Há alguma coisa para comer?

Adam olhou ao redor para o quarto.

– Eu… eu posso ir buscar alguma coisa nos restaurantes. Mas…

– Ótimo – disse Maggie. – Estou morrendo de fome. Mas consegui. Dei um jeito em tudo.

Na mente de Adam, o Murmurador estava fervendo e zunindo de indignação. Vou ser o serviçal dela agora? Vou ficar atrás dela chamando-a? Eu EXIJO que ela Me conte o que aconteceu! Diga-lhe que não aceitarei ser mantido na ignorância!

Adam retransmitiu a mensagem tão diplomaticamente quanto pôde.

– Meu mestre estava perguntando…

– Eu sei – falou ela. – Diga a ele que eu consegui. Eu prendi o Velho Homem. É tudo que ele precisa saber.

– Mas, como? Onde ele está? – gemeu Adam.

Ela balançou sua cabeça.

– Eu o explodi. Mandei-o para o Inferno, tal como o Mestre pediu.

– O QUÊ? – gritou o Murmurador. – Você fez o quê?

Maggie pôde ver o passageiro de Adam olhando-a através dos olhos de Adam. Parecia como se estivesse olhando para o interior de uma cova de serpentes e aranhas.

Falando baixo com a voz de Adam, ele disse:

– Mas eu queria ver isso sendo feito.

– Eu sei que você queria – disse Maggie. – Se eu pudesse tê-lo trazido de volta…

– Tê-lo diante de Mim, impotente, totalmente consciente do que havia perdido, sabendo que eu e apenas eu era quem lhe havia causado sua derrota. Era ISSO o que eu queria, garota. Era ISSO o que eu e você tínhamos combinado.

Maggie podia ver a raiva do Murmurador crescendo a cada sílaba. Ela sabia que teria que ser cautelosa agora: a criatura estava horrivelmente alerta, e iria atacar ao primeiro sinal de fraqueza. Ela o encarou sem tremer, mesmo com o coração prestes a explodir de medo, e dirigiu-se a ele com uma voz que era tão calma a ponto de parecer indiferente.

– Isso teria sido um bônus – disse ela. – Mas temos coisa maior com que nos preocupar. Não podemos nos dar ao luxo de tripudiar sobre nossos inimigos.

Os olhos de Adam se arregalaram de incredulidade.

– Você está se atrevendo a passar um sermão em MIM?

– De modo algum – falou Maggie, ainda sustentando o furioso olhar do Murmurador. – Mas você sabe que o Velho Homem era perigoso. Você viu como ele tentou me transformar. Eu não podia me dar ao luxo de deixá-lo vivo.

Ela apontou sua condição em frangalhos.

– Olhe para mim, estou exausta – disse ela. – Uma batalha de vontades teria acabado comigo. E assim eu fiz o que tinha que ser feito. Mantive minha promessa. E você fará o mesmo.

Por um longo tempo, o Murmurador olhou ferozmente para ela com os olhos de Adam. Friamente, Maggie sustentou o olhar, sabendo que tudo dependia disso: seu futuro com Adam; seu filho; sua vida. Em vinte e quatro horas, ela disse a si mesma, ao olhar para aqueles olhos, haverá apenas Adam respondendo ao olhar. O passageiro desaparecerá de uma vez por todas, e não haverá mais mentira alguma, mais nenhum medo…

– E agora preciso comer. Dormir. Um banho quente. Amanhã é meu grande dia e eu não quero vê-lo, nem saber de você até lá. Você me entende?

Por um momento mais longo o Murmurador fez uma pausa. Maggie pôde sentir sua raiva, mas havia outra coisa também: algo como diversão; quase como satisfação.

– Você está finalmente amadurecendo – disse ele. – Odin ficaria orgulhoso de você.

Depois ele se retirou e Adam voltou, seus olhos azuis arregalados e medrosos.

– Você fez isso realmente? Você matou aquela coisa?

– Eu não quero mais falar – disse Maggie. – Por favor, Adam. Deixe-me em paz.

No fundo de sua mente, a Voz do passageiro sussurrou uma advertência silenciosa.

– Não faça mais perguntas. Faça o que ela diz. Não podemos deixá-la colocar o bebê em risco.

Adam deu de ombros.

– Tudo bem – disse ele. – Eu vou lhe buscar alguma coisa para comer.

Maggie se virou para esconder seu alívio e começou a preparar o banho. A água quente saiu de uma torneira em forma de um cisne prateado e espirrou dentro da banheira.

– Então, me traga uma dúzia de Meninos Gordos – disse ela. – E um pouco de cordeiro assado, de arroz frito e sopa de feijão. Ah, e castanhas. Bolinhos de carne de porco, se eles tiverem. Pão ázimo com azeitonas e anchovas. Pães de torresmo. Frango temperado. Torta de peixe. Salsichas. Bolo de fruta. E tortas de geleia. Estou tão gulosa por torta de geleias…

Só mais um dia, ela dizia a si mesma enquanto Adam seguia suas instruções. Depois disso, estaria livre. Uma esposa; uma mãe; uma filha do Povo. O Cavaleiro da Carnificina não existiria mais, e todos os acontecimentos dos últimos nove dias – sua irmã, o Cavalo Vermelho, o Velho Homem – poderiam ser páginas viradas do Livro de Palavras a que pertenciam e com a mesma rapidez esquecidos. Contanto que ela pudesse ser forte o suficiente. Contanto que isso funcionasse.

Por favor, faça com que funcione!

Enquanto Adam esquadrinhava o Passeio dos Inspetores à procura de todos os itens da lista de Maggie, o relutante Cavaleiro da Carnificina pisou na banheira com pés de garras e fez a poeira do Sonho desaparecer em milhões de bolhas com cheiro de rosas. Depois disso, quando Adam retornou, ela conseguiu, a despeito de sua fadiga, fazer mais do que justiça a uma refeição que teria humilhado a Rainha dos Porcos; então, desfaleceu na cama e dormiu sem sonhos até de manhã.