Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 55 de 103

Páginas do PDF

Luz das Runas

Capítulo 2

 

Desde seu último encontro desastroso com o Velho Homem dentro da pedra, Maggie havia tentado interrogá-lo mais duas vezes. Nas duas falhou em despertar sequer uma faísca por parte do prisioneiro. Maggie se culpava por isso. A batalha de mentes entre eles e a força do golpe que o havia atingido deixara a Cabeça de pedra sem vida e escura, sem qualquer indício de quando – ou se – seu ocupante pudesse redespertar.

Mesmo assim, uma parte dela estava secretamente aliviada. Sua última conversa com Odin a tinha deixado raivosa e confusa, torturada por dúvidas quanto a si mesma e incertezas, preparada para questionar até aquelas verdades pelas quais sempre vivera.

Suas tentativas de localizar o Povo do Fogo haviam sido igualmente frustrantes. A pedido do Murmurador, ela havia tentado várias vezes encontrá-los através do Sonho; mas ou eles haviam se protegido, ou a turbulência da brecha entre os Mundos os tinha ocultado das vistas.

Para seu alívio, o Murmurador havia demonstrado uma paciência surpreendente. O Velho Homem falaria por fim – era apenas uma questão de tempo. O Povo do Fogo não era uma ameaça imediata; mais cedo ou mais tarde seria encontrado. Enquanto isso, Maggie ficava na cobertura, jogando damas com Adam, conversando ou praticando com suas runas, e o tempo transcorria quase pacificamente, de tal modo que às vezes horas a fio se passavam sem um único pensamento sobre a guerra, ou sobre o Fim dos Mundos, ou sobre os Æsir, ou o Velho Homem, ou até o Bom Livro.

Todo dia Adam passava uma ou duas horas fora da cidade, observando as cercanias, comprando suprimentos e checando o Cavalo Vermelho. Maggie sempre ficava fechada em casa – não era seguro para ela, Adam dizia, mostrar seu rosto ao ar livre. Quando ele retornava, era sempre com algum presentinho – flores, ou frutas, ou pastéis, ou um colar de contas vivamente coloridas – que Maggie aceitava com grata surpresa. Fazia tanto tempo que ninguém lhe dava um presente! Ela queria dar-lhe alguma coisa em troca, mas exceto pelas novas runas, ou por alguma espécie de mapa indicando a posição do Povo do Fogo, Maggie não tinha nada a oferecer.

Agora, em seu terceiro dia de ócio, ela estava se sentindo cada vez mais inquieta. O dia fora claro e acolhedor: a primavera estava enfim a caminho, e de repente Maggie sentiu-se desesperada para passear ao longo do Passeio dos Inspetores; para sentir o cheiro dos pés de tílias ou talvez comprar um ou dois pastéis…

Ela deu uma olhada suspirante pela janela. Adam havia dito que estaria de volta por volta do meio-dia, mas o relógio da catedral havia batido duas horas e Maggie estava ficando com fome.

Com certeza, ela pensou, não podia haver mal algum em abrir uma fresta na janela. Ela entreabriu-a cerca de cinco centímetros e o perfume da cidade inundou o ambiente – um complexo aroma de especiarias e cerveja, de perfumes e fumaça de madeira e sal marinho, de lixo, flores e carne assada –, e com ele vinham os sons de vozes familiares e cascos sobre as ruas de paralelepípedos; de vendedores ambulantes vendendo suas mercadorias; de cães e gaivotas guinchantes e o do vento passando pelos topos dos telhados; a multidão de sons urbanos de que Maggie tão terrivelmente sentia falta.

Com uma mão, ela lançou a Bjarkán. Se houvesse algum perigo em alguma parte, a verdadeira visão o revelaria. Mas nada de incomum apareceu, e assim Maggie abriu a janela um pouco mais e deu um passo para o terraço. Era bom estar ao ar livre. Olhou para além do terraço e tomou um profundo fôlego do ar da cidade. Os açougues especializados em carnes e casas de café estavam todos abertos para negócios, e o cheiro de cozinha se ergueu das ruas, fazendo a boca de Maggie se encher de água.

Havia um vendedor bem abaixo dela e o grito:

– Pastéis doces! Meninos gordos! Marzipã para sua mulher! – Fez sua boca se encher de água ainda mais.

Ela podia ir até lá e voltar num piscar de olhos, disse a si mesma. Sair só o suficiente para comprar um par dos bolinhos de farinha fritos, açucarados, que os habitantes de Fim de Mundo chamavam de Meninos Gordos. Significaria deixar o Velho Homem por não mais que cinco minutos. Certamente isso não faria mal algum.

Ela lançou Bjarkán com um piparote sobre o Velho Homem. Ele não mostrou sinal de ter despertado.

Abaixo dela, na rua apinhada de gente, o vendedor de pastéis anunciava suas mercadorias aos gritos.

– Marzipã! Meninos Gordos!

Maggie se virou em direção à porta. Cinco minutos. Isso é tudo. Que mal cinco minutos podem fazer? E com uma última olhadela para o Velho Homem, ela saiu do quarto, fechando a porta, e correu pelos degraus abaixo para a rua.