Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 8 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 4

 

– Fora de questão – disse Heimdall imediatamente. – Não vou mandar um grupo de resgate para salvar alguém que pode nem estar desaparecido. Quem dos Mundos levaria Loki e por quê? As chances são de que tenha se assustado e fugido. Vocês verão. Em poucos dias ele vai rastejar de volta com alguma desculpa esfarrapada sobre por que teve que fugir depressa enquanto vocês lidavam com o inimigo.

Não era frequente que Maddy convocasse uma reunião entre os deuses. Além do tempo que isso geralmente tomava – uma hora, pelo menos, para voar dos Adormecidos em forma de pássaro; outra hora para voar em retorno –, ela sabia que os Æsir e os Vanir eram aliados por força das circunstâncias, nada mais. Mas o desaparecimento de Loki, ela sentia, significava uma emergência. Será que eles não poderiam somente dessa vez concordar e enfrentar a crise juntos?

– Ele não fugiu. – Ela tentou explicar. – Eu lhe disse, Heimdall. A coisa estava morta. Eu me virei por um ou dois segundos e, quando olhei para trás, Loki havia desaparecido. – Ela lançou um olhar penetrante sobre o Vanir. – Ora, eu sei que vários de vocês têm problemas com Loki…

– Problemas! – explodiu Bragi, o Poeta.

– Abençoada seja você! – disse Idun gentilmente. A Curandeira tinha uma tendência irritante a ver o lado bom de todo mundo, incluindo Loki, apesar de a maioria sustentar que, no caso dele, não havia nada de bom para ver. – Eu acho que é um pouquinho injusto, Maddy. Eu sei que Loki pode ser um pouquinho, bem, selvagem, mas todos nós realmente nos importamos com ele…

– Não consigo suportar o desgraçado – disse Njörd. O Homem do Mar nunca havia perdoado completamente Loki por ter trazido Skadi para Asgard. Skadi, ex-esposa guerreira de Njörd, que havia se provado muito diferente da tímida e domesticada senhora que Loki o tinha levado a esperar.

Idun pareceu reprovadora.

– Bem, você não iria querer vê-lo magoado…

– Prefiro vê-lo morto – disse Heimdall por entre os dentes dourados. O Vigilante também tivera problemas com Loki; nada além do fato de que eles haviam estado em lados opostos no Ragnarók.

– Bem, se vocês vão ser negativos… – Idun se virou para os quatro Æsir. – Tenho certeza de que o resto não se sente assim…

– Não olhe para mim – disse Sif de Cabelos Reluzentes. – Estou de saco cheio das piadas estúpidas que ele faz. Posso lhe oferecer uma carne de porco, Sif? É tão bom vê-la focinhando por aqui. Vamos comer um pouquinho no parque? Francamente. É infantil.

Veio então um fraco som de sufocamento por trás da deusa da graça e da fartura. Dentre todos eles, Saco de Açúcar fora quem tivera mais problemas para se adaptar com sua nova identidade como deus. Mesmo em seu Aspecto – um Tyr Corajoso, o deus da guerra –, ainda retinha mais de suas características de duende do que era totalmente apropriado.

– Desculpe. É só tosse – falou ele.

Sif lançou-lhe um olhar prolongado e duro.

– Concordo totalmente – disse Freya, polindo as unhas. – Se alguma coisa pode tornar a vida nessa pútrida pequena aldeia perto de suportável, é saber que Loki está em outra parte.

– Mas vocês não podem simplesmente abandoná-lo – alertou Maddy. – Vocês lhe devem alguma coisa por ter salvado os Mundos…

– Pelos deuses! – explodiu Thor. – Se eu ouvir mais uma vez essa coisa de Loki-salvou-os-Mundos, juro que vou torcer o pescoço de alguém…

– Parem com isso! – ordenou Ethel. – Todos vocês. Gritar não vai resolver nada.

Os deuses haviam se reunido na Paróquia – o único lugar que permitia tanto espaço quanto privacidade para esse propósito. E se Nat Parson tivesse vivido para testemunhar a visão de dez deles em seus Aspectos totais, sentados em torno da mesa do café, bebendo chá em sua melhor porcelana, discutindo as ações dos demônios e com sua esposa no meio deles, ele provavelmente teria caído morto no chão. Não que o observador casual fosse notar muita coisa que o fizesse lembrar Ethelberta Parson na calma e pensativa mulher que havia falado com tanta autoridade. A paciência de Ethel, sua lealdade, sua amabilidade e seu bom senso serviam bem a Frigg, a Vidente, em seu atual Aspecto. E quando ela baixou sua xícara e se dirigiu ao grupo, os deuses instintivamente se voltaram para ela.

– Amigos – disse a eles, baixinho. – Muita coisa mudou desde o Fim do Mundo. Há três anos o tempo era de desordem. Agora temos uma chance de reconstrução. E do mesmo modo como Loki ajudou a construir a Cidadela do Céu, nós podemos muito bem precisar dele para reconstruí-la.

– Reconstruí-la? – perguntou Heimdall. Seus penetrantes olhos azuis eram dois pontos de gelo. – Desde quando isso foi uma opção?

A Vidente sorriu para ele. A marca de runa Ethel em seu braço – uma das runas do Novo Manuscrito, mística e cheia de poder – cintilou com um nevoento branco-azulado.

– As cartas estão prestes a ser renegociadas – disse ela. – Falo como devo e não posso ficar calada.

– Por que ela está falando assim? – questionou Açúcar.

– Shhh – disse Maddy, que reconhecia uma profecia quando escutava uma.

Ethel continuou numa voz distante:

“Vejo uma poderosa Cinza que se ergue ao lado de um poderoso Carvalho.

Vejo um Arco-Íris se erguendo no alto; legado da Morte enganosa.

Mas a Traição e a Carnificina cavalgam com a Loucura pelo céu afora.

E quando o ‘arco se romper, o Berço cairá,

Então Carvalho e Cinza e tudo abaixo virá’.”

Ela parou, como que esperando por inspiração. Os deuses aguardavam ansiosamente: Heimdall, com os olhos revirados; Njörd, com um ar de esperança; Thor, com a testa franzida; Frey, o Ceifeiro, com um sorriso; Idun, com os olhos arregalados de uma criancinha escutando uma história.

– Eu odeio quando ela fica hermética desse jeito – revelou Thor finalmente, coçando a barba. – Chamam isso de profecia? Parece mais um manual de reflorestador.

Mas Ethel já falava novamente, declamando em tons claros e ponderados:

“O Berço caiu há uma era, mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo.

Em apenas doze dias, no Fim dos Mundos; uma dádiva vinda de dentro de

um sepulcro.

Mas a chave para o portal é um filho do ódio, um filho de todos e de

ninguém.

E nada do que se sonhou se perde, e para sempre nada se perderá

também.”

Maddy achou que soava como uma das cantigas de ninar de Nan Fey. O conhecimento de Maddy sobre essas coisas não era vasto – nos dias da Ordem correra um rumor de que as cantigas mais aparentemente inofensivas ocultavam conhecimento dos Dias Antigos –, mas todos sabiam que a velha sobre o bebê no topo das árvores, bem como a Cidadela do Céu, havia sido conhecida um dia como Berço do Povo do Fogo.

– Há alguma coisa mais? – pediu ela.

Mas nada mais veio da Vidente. Em vez disso, Ethel cerrou os olhos para eles, seu Aspecto desaparecendo mais uma vez para dar lugar a uma simples esposa de pároco, uma expressão intrigada em seu rosto.

– Vocês todos estão muito silenciosos – falou ela, olhando para o círculo de deuses ao redor. – Foi alguma coisa que eu disse? Ora, o que é que eu estava fazendo?

Eles olharam para ela.

– Ah, sim. Chá. – Ela sorriu e estendeu a mão para a jarra de porcelana. – Nada é igual a uma boa xícara de chá para pôr tudo em perspectiva novamente. Devo dar uma de Mãe, pessoal?