Luz das Runas
Capítulo 4
– Fora de questão – disse Heimdall imediatamente. – Não vou mandar um grupo de resgate para salvar alguém que pode nem estar desaparecido. Quem dos Mundos levaria Loki e por quê? As chances são de que tenha se assustado e fugido. Vocês verão. Em poucos dias ele vai rastejar de volta com alguma desculpa esfarrapada sobre por que teve que fugir depressa enquanto vocês lidavam com o inimigo.
Não era frequente que Maddy convocasse uma reunião entre os deuses. Além do tempo que isso geralmente tomava – uma hora, pelo menos, para voar dos Adormecidos em forma de pássaro; outra hora para voar em retorno –, ela sabia que os Æsir e os Vanir eram aliados por força das circunstâncias, nada mais. Mas o desaparecimento de Loki, ela sentia, significava uma emergência. Será que eles não poderiam somente dessa vez concordar e enfrentar a crise juntos?
– Ele não fugiu. – Ela tentou explicar. – Eu lhe disse, Heimdall. A coisa estava morta. Eu me virei por um ou dois segundos e, quando olhei para trás, Loki havia desaparecido. – Ela lançou um olhar penetrante sobre o Vanir. – Ora, eu sei que vários de vocês têm problemas com Loki…
– Problemas! – explodiu Bragi, o Poeta.
– Abençoada seja você! – disse Idun gentilmente. A Curandeira tinha uma tendência irritante a ver o lado bom de todo mundo, incluindo Loki, apesar de a maioria sustentar que, no caso dele, não havia nada de bom para ver. – Eu acho que é um pouquinho injusto, Maddy. Eu sei que Loki pode ser um pouquinho, bem, selvagem, mas todos nós realmente nos importamos com ele…
– Não consigo suportar o desgraçado – disse Njörd. O Homem do Mar nunca havia perdoado completamente Loki por ter trazido Skadi para Asgard. Skadi, ex-esposa guerreira de Njörd, que havia se provado muito diferente da tímida e domesticada senhora que Loki o tinha levado a esperar.
Idun pareceu reprovadora.
– Bem, você não iria querer vê-lo magoado…
– Prefiro vê-lo morto – disse Heimdall por entre os dentes dourados. O Vigilante também tivera problemas com Loki; nada além do fato de que eles haviam estado em lados opostos no Ragnarók.
– Bem, se vocês vão ser negativos… – Idun se virou para os quatro Æsir. – Tenho certeza de que o resto não se sente assim…
– Não olhe para mim – disse Sif de Cabelos Reluzentes. – Estou de saco cheio das piadas estúpidas que ele faz. Posso lhe oferecer uma carne de porco, Sif? É tão bom vê-la focinhando por aqui. Vamos comer um pouquinho no parque? Francamente. É infantil.
Veio então um fraco som de sufocamento por trás da deusa da graça e da fartura. Dentre todos eles, Saco de Açúcar fora quem tivera mais problemas para se adaptar com sua nova identidade como deus. Mesmo em seu Aspecto – um Tyr Corajoso, o deus da guerra –, ainda retinha mais de suas características de duende do que era totalmente apropriado.
– Desculpe. É só tosse – falou ele.
Sif lançou-lhe um olhar prolongado e duro.
– Concordo totalmente – disse Freya, polindo as unhas. – Se alguma coisa pode tornar a vida nessa pútrida pequena aldeia perto de suportável, é saber que Loki está em outra parte.
– Mas vocês não podem simplesmente abandoná-lo – alertou Maddy. – Vocês lhe devem alguma coisa por ter salvado os Mundos…
– Pelos deuses! – explodiu Thor. – Se eu ouvir mais uma vez essa coisa de Loki-salvou-os-Mundos, juro que vou torcer o pescoço de alguém…
– Parem com isso! – ordenou Ethel. – Todos vocês. Gritar não vai resolver nada.
Os deuses haviam se reunido na Paróquia – o único lugar que permitia tanto espaço quanto privacidade para esse propósito. E se Nat Parson tivesse vivido para testemunhar a visão de dez deles em seus Aspectos totais, sentados em torno da mesa do café, bebendo chá em sua melhor porcelana, discutindo as ações dos demônios e com sua esposa no meio deles, ele provavelmente teria caído morto no chão. Não que o observador casual fosse notar muita coisa que o fizesse lembrar Ethelberta Parson na calma e pensativa mulher que havia falado com tanta autoridade. A paciência de Ethel, sua lealdade, sua amabilidade e seu bom senso serviam bem a Frigg, a Vidente, em seu atual Aspecto. E quando ela baixou sua xícara e se dirigiu ao grupo, os deuses instintivamente se voltaram para ela.
– Amigos – disse a eles, baixinho. – Muita coisa mudou desde o Fim do Mundo. Há três anos o tempo era de desordem. Agora temos uma chance de reconstrução. E do mesmo modo como Loki ajudou a construir a Cidadela do Céu, nós podemos muito bem precisar dele para reconstruí-la.
– Reconstruí-la? – perguntou Heimdall. Seus penetrantes olhos azuis eram dois pontos de gelo. – Desde quando isso foi uma opção?
A Vidente sorriu para ele. A marca de runa Ethel em seu braço – uma das runas do Novo Manuscrito, mística e cheia de poder – cintilou com um nevoento branco-azulado.
– As cartas estão prestes a ser renegociadas – disse ela. – Falo como devo e não posso ficar calada.
– Por que ela está falando assim? – questionou Açúcar.
– Shhh – disse Maddy, que reconhecia uma profecia quando escutava uma.
Ethel continuou numa voz distante:
“Vejo uma poderosa Cinza que se ergue ao lado de um poderoso Carvalho.
Vejo um Arco-Íris se erguendo no alto; legado da Morte enganosa.
Mas a Traição e a Carnificina cavalgam com a Loucura pelo céu afora.
E quando o ‘arco se romper, o Berço cairá,
Então Carvalho e Cinza e tudo abaixo virá’.”
Ela parou, como que esperando por inspiração. Os deuses aguardavam ansiosamente: Heimdall, com os olhos revirados; Njörd, com um ar de esperança; Thor, com a testa franzida; Frey, o Ceifeiro, com um sorriso; Idun, com os olhos arregalados de uma criancinha escutando uma história.
– Eu odeio quando ela fica hermética desse jeito – revelou Thor finalmente, coçando a barba. – Chamam isso de profecia? Parece mais um manual de reflorestador.
Mas Ethel já falava novamente, declamando em tons claros e ponderados:
“O Berço caiu há uma era, mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo.
Em apenas doze dias, no Fim dos Mundos; uma dádiva vinda de dentro de
um sepulcro.
Mas a chave para o portal é um filho do ódio, um filho de todos e de
ninguém.
E nada do que se sonhou se perde, e para sempre nada se perderá
também.”
Maddy achou que soava como uma das cantigas de ninar de Nan Fey. O conhecimento de Maddy sobre essas coisas não era vasto – nos dias da Ordem correra um rumor de que as cantigas mais aparentemente inofensivas ocultavam conhecimento dos Dias Antigos –, mas todos sabiam que a velha sobre o bebê no topo das árvores, bem como a Cidadela do Céu, havia sido conhecida um dia como Berço do Povo do Fogo.
– Há alguma coisa mais? – pediu ela.
Mas nada mais veio da Vidente. Em vez disso, Ethel cerrou os olhos para eles, seu Aspecto desaparecendo mais uma vez para dar lugar a uma simples esposa de pároco, uma expressão intrigada em seu rosto.
– Vocês todos estão muito silenciosos – falou ela, olhando para o círculo de deuses ao redor. – Foi alguma coisa que eu disse? Ora, o que é que eu estava fazendo?
Eles olharam para ela.
– Ah, sim. Chá. – Ela sorriu e estendeu a mão para a jarra de porcelana. – Nada é igual a uma boa xícara de chá para pôr tudo em perspectiva novamente. Devo dar uma de Mãe, pessoal?