Luz das Runas
Capítulo 3
Do lado de fora da catedral, Maddy e Perth correram para se esconder quando o vidro caiu espatifado como granizo sobre as ruas. Acima deles se erguia a Ponte do Arco-Íris, a única barreira que restava entre a Ordem e o Pandemônio. Olhando por sobre o ombro agora, Maddy pôde ver a nuvem de sombra; uma muralha de escuridão às suas costas movendo-se inexoravelmente em direção à catedral.
Uma vez, quando tinha dez anos, Maddy tinha visto um eclipse do sol. Outras pessoas haviam ficado em suas casas, temerosas, ou haviam se ajuntado na igreja onde Nat Parson lhes relatou fábulas abastardadas de lobos-demônios que corriam pelo céu. Mas Um Olho havia explicado a ela: eram os movimentos do sol e da lua, e a dança que desempenhavam juntos. Quão rapidamente ele se movimentara! ela pensou. Quão rapidamente a sombra da lua havia corrido por sobre o vale! E que frio fizera, ela lembrou; quão fria e quão estranha a luz havia ficado quando o sol se transformou em sangue ao meio-dia!
A nuvem de sombra não era tão rápida. E, no entanto, Maddy podia vê-la se aproximando – movendo-se tão rapidamente quanto um homem caminhando – em direção à catedral arruinada. Tanto ela quanto Perth poderiam deixar a nuvem para trás, ela sabia: Perth estava montado sobre Sleipnir; Maddy estava montando Jormungand – e pegando o pior do negócio, ela pensou, porque, embora Sleipnir parecesse simplesmente desvairado, Jormungand fedia terrivelmente.
Mas Maggie ainda estava na construção – morta ou viva, ela não sabia – e, lá dentro, a Pedra do Beijo ainda brilhava, projetando uma coluna de luz ofuscante em direção ao coração do Arco-Íris, do qual o Escudo do Sol capturava os raios e projetava-os para fora como um berço no céu.
Perth arremessou para o alto a runa Yr como um escudo contra a luz ofuscante; Maddy fez o mesmo com Ác, a runa que ela havia conhecido por sua irmã.
Eles fizeram uma parada a alguma distância, numa das ruas laterais da Praça da Catedral, da qual puderam observar o desmoronamento da cúpula da catedral do Santo Sepulcro e tudo que se seguiu a ele. De cada um dos lados, o Povo de Fim de Mundo se agarrara aos seus narizes que jorravam e caíra de joelhos quando o efeito do choque que havia ocorrido na Pedra do Beijo reverberara por toda a Cidade Universal, trazendo carnificina em seu rastro.
Alguns, mais próximos ao centro, morreram. A maioria sobrevivera ao ataque inicial, mas fora dominada pelo pânico e, vendo o céu, correra para suas casas, ou enlouquecera, ou então fugira em delírio à procura de alguém a quem culpar. Alguns culparam os Faërie; outros, os velhos deuses; outros, a onda de estrangeiros. Alguns caíram de joelhos e rezaram, lembrando-se dos relatos da Glória. Lojas foram pilhadas; as pessoas foram roubadas, velhos trunfos obtidos sob a cobertura do Caos.
A calamidade sempre fortalece a fé, e na cidade as velhas crenças que haviam sido eclipsadas pela ganância agora retornavam a uma nova vida. A sra. Blackmore, a velha senhoria de Maggie, rapidamente redescobriu a prece, vestiu um bergha negro e fugiu pelas ruas, gritando que aqueles eram os Últimos Dias e que todos deviam se arrepender ou ser Purificados. O homem da lei que havia prendido Perth lembrou-se da garota sobre o Cavalo Vermelho e convocou às armas seus colegas restantes. Os Estrangeiros e negociantes que haviam se instalado tão confortavelmente na Velha Universidade descobriram-se atacados por todos os lados por nativos de Fim de Mundo, que, como a maioria das pessoas em crise, temerosos e necessitados de um bode expiatório, haviam decidido punir os estrangeiros pelo Apocalipse iminente.
E no meio disso tudo Perth simplesmente se assentava sobre seu Cavalo e sorria como um jogador apostando a última moeda.
Era uma expressão que Maddy conhecia – ela a tinha visto por último em Odin três anos atrás, nas margens do Inferno – e ela sabia muito bem o que significava.
Ela deu uma olhada para a catedral arruinada, protegendo seus olhos da coluna de luz.
– O que aconteceu? – perguntou ela. – Será que minha irmã morreu?
Parecia mais do que provável; a construção estava destroçada, sua cúpula desfeita como um ovo podre. Nenhum movimento vinha do entulho; e, olhando através de Bjarkán para a cena, Maddy não conseguiu enxergar assinaturas, nenhum sinal de qualquer coisa que restasse viva; só aquele estranho dedo de luz apontando para o céu turbulento…
E então ele surgiu, aquele brilho fugidio, brilhando através do pó que vagava pelo ar. A cor da presença de Maggie, sua força magnética, de um branco prateado contra a destruição. Com o coração disparado, Maddy se moveu para pressionar Jormungand em direção à origem da assinatura…
– Não faça isso – aconselhou Perth.
– Por que não?
– Simplesmente não faça. – Ele se parecia com Odin mais que nunca agora. – Você me desobedeceu uma vez, e todos os Mundos pagarão o preço. Mas esqueça seu dever agora e tudo pelo que trabalhamos estará perdido. Sua irmã está viva. Fique feliz por isso. Se quer que ela permaneça assim, temos uma profecia a cumprir.
– Mas eu pensei que minha irmã era para ser o Cavaleiro cujo nome é Carnificina. Os Videntes praticamente disseram isso!
– Nunca confie num oráculo. – Agora ele tinha a voz de Odin também; os olhos de Maddy começaram a dar pontadas. – A parte de sua irmã nisso está feita. Para bem ou mal, a filha do ódio abriu a porta para Asgard. Nosso trabalho agora é protegê-la.
– Como você sabe? – perguntou Maddy.
– Porque eu estava morto – respondeu Perth –, e isso dá uma perspectiva muito peculiar das coisas. Agora, se você não tem mais pergunta alguma…
Maddy ergueu os olhos para o céu.
– Eu não entendo. Como minha irmã pôde fazer tudo isso? Ela estava aqui apenas para se casar…
Perth deu de ombros. Você acha isso? – perguntou ele e fez um gesto em direção à catedral. – O Berço caiu há uma era, mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo; em apenas doze dias, no Fim dos Mundos; uma dádiva vinda do interior de um sepulcro. Catedral. Berço. Palavras tão semelhantes! Você acha que isso foi só uma coincidência? E quanto ao arquiteto? Onde você acha que Jonathan Gift achou os meios para construir este lugar? E quem você acha que o orientou?
Os olhos de Maddy se arregalaram.
– O Murmurador?
Perth fez que sim.
– Exatamente – disse ele. A Cidade Universal não foi construída apenas sobre as ruínas de Asgard. E a coisa que vocês do Povo chamam de Pedra do Beijo, toda escrita com runas de poder, foi a Primeira Pedra de Asgard, a Pedra Fundamental da Cidadela do Céu, ligada através de Bif-rost, a Ponte do Arco-Íris, a cada um dos Nove Mundos.
Ele franziu o cenho para Maddy impacientemente.
– Por quinhentos anos a pedra ficou aqui, esperando que alguém a despertasse. Jonathan Gift sabia disso. Ele assegurou que a Pedra se mantivesse a salvo, bem dentro do coração da cidade. Por quinhentos anos a Ordem a guardou, não entendendo o que ela significava. Mas o Inominável entendeu. Ele sabia, e vigiava, e aguardou o tempo propício, esperando por alguém chegar, alguém com força magnética suficiente para proferir a Palavra e liberar o poder.
Maddy ficou pasmada.
– Minha irmã – disse ela. – Mas por que o Inominável, o Murmurador, iria querer reconstruir Asgard?
– Para possuí-la sozinho, naturalmente – falou Perth com um sorriso retorcido. – A despeito de todo o seu poder em Fim de Mundo, Mimir era um prisioneiro. Descarnado e privado de sua força magnética, ele não tinha esperança de fugir. Acabar com os Mundos era uma saída; mas, melhor ainda, se ele conseguisse realizá-lo, era roubar um Aspecto de um de nós e usá-lo para penetrar em Asgard.
– Um de nós?
Ele fez que sim.
– Está certo. De preferência alguém como você, cuja runa era intacta e cheia de poder. Ele tentou com você no Inferno e falhou. Mas agora…
– Ele tem minha irmã? – perguntou ela.
Perth pôs uma das mãos sobre o braço de Maddy.
– Não há nada mais que você possa fazer. Maggie se entregou voluntariamente. Ela falou as palavras da Pedra do Beijo; as palavras inscritas para esse propósito há cerca de quinhentos anos. E depois selou o juramento com um beijo… – Ele traçou o sinal da runa no ar…
– Que também calha ser uma runa Gabe, uma dádiva, na linguagem da Velha Era. Embora seja mais que provável que sua dádiva acabará sendo a morte de todos nós.
– Isso é uma profecia? – perguntou Maddy.
– Não. Uma suposição civilizada. Agora, então, vamos fazer nosso trabalho? Temos uma cidadela a construir, e ela não pode ser uma parte dela.
Teimosamente, Maddy balançou a cabeça.
– Essa coisa dominou minha irmã – afirmou ela. – De modo nenhum eu vou abandoná-la desse jeito.
Perth fez um som impaciente. Agora ele se parecia com o Um Olho dos velhos dias num de seus mais negros e desagradáveis humores.
– Quão estúpida você pode ser? – disse ele asperamente. – Não há nada que você possa fazer por ela. Ela está perdida para nós agora. O que está feito está feito. E nós dois temos um trabalho a fazer. Esta força magnética é uma dádiva para os Æsir… – Ele apontou a coluna de luz que havia sido liberada da Pedra do Beijo. – Podemos usá-la para combater o inimigo. Para armar-nos, para reconstruir nossa fortaleza, ou podemos ficar olhando-a consumir-se enquanto você perde tempo com sentimentalismo…
Mas Maddy mal estava ouvindo.
– Eu já lutei contra o Murmurador. Posso fazê-lo outra vez – falou ela. – Juntos, podemos expulsá-lo. – Seu coração estava batendo com força. – Vale a pena fazer uma tentativa!
Perth lançou um olhar feroz.
– Maldita seja! – disse ele. – Você vai me trair outra vez?
Maddy sustentou seu olhar.
– Não posso abandonar minha irmã – insistiu ela. – Se Mimir a tem…
– Ele não a tem – disse ele.
– Mas você acabou de me dizer…
– Eu disse que ela se entregou voluntariamente. Mas ela nunca foi o objetivo principal. O Murmurador tentou controlá-la uma vez. Ele sabia que não podia possuí-la. Ele sabia que ela, ou você, o expulsaria antes que ele chegasse a Asgard.
– Então, qual é o problema? – perguntou Maddy, confusa. – Se ele não tem Maggie, afinal, então por que ela tem que ficar perdida para nós?
Mas Perth nunca teve chance de responder à pergunta de Maddy, porque bem nesse momento veio um som e um movimento da cúpula arruinada. Por um momento ela mal reconheceu a figura que se aproximava como Maggie Rede. Seu véu amarelo estava enegrecido de poeira, seu rosto inexpressivo e manchado de lágrimas e fuligem. Ela saltou dos escombros, com os olhos fixos no chão pedregoso, movendo-se tão lenta e cuidadosamente como se tivesse cem anos. Aflição e raiva marcavam sua assinatura em tons lúgubres de verde e vermelho.
– Maddy, creia em mim – disse Perth. – Você realmente não vai querer fazer parte disso.
Mas Maddy não estava ouvindo. Ela deu um passo para longe do flanco da serpente e delicadamente pronunciou o nome da irmã.
Maggie ergueu lentamente a cabeça. Um par de olhos de um cinzento dourado encontrou-se com os seus. Por um momento Carvalho e Cinza ficaram cara a cara sob Bif-rost.
Então os olhos de Maggie perderam sua expressão enevoada e adquiriram uma concentração mortífera. Um sorriso de doçura peculiar pairou sobre suas feições destroçadas.
– Fuja. Agora – insistiu Perth, batendo seus calcanhares sobre os flancos de Sleipnir.
Mas já era tarde demais. Os olhos de Maggie haviam se fixado sobre o General. A marca de runa na sua nuca brilhou com um repentino clarão.
– Você matou Adam, demônio – disse ela, e a runa Ác, cruzada com Úr e Hagall, relinchou pelo ar empoeirado. Os reflexos de Perth foram rápidos e, misturados com as habilidades de uma vida de Odin, o resultado foi impressionante.
Perth, combinando Raedo e Úr, desviou o raio mental em direção a um muro, e Maddy teve tempo suficiente apenas para admirar a habilidade com que seu velho amigo manipulou as runas antes que ele adotasse a ofensiva, espalhando um punhado de runas com velocidade e poder assombrosos em direção à fonte do ataque.
Então era assim que ele era antes que sua marca de runa fosse invertida, pensou Maddy, bem quando o raio mental disparou, cobrindo Maggie com cacos de força magnética. E com esse pensamento veio a certeza de que Perth tentaria matar Maggie – exatamente como ela tentaria matá-lo, se Maddy não interferisse.
– Você matou Adam – disse Maggie novamente, e lançou novo punhado de runas. As runas foram inábeis, mas eficazes, cada uma se quebrando em pequenos cacos, espalhando potentes pequenos mísseis por toda a área. Um caco extraviado atingiu Perth no rosto, e ele tombou sobre a parte traseira da sua sela.
Sleipnir subiu aos ares imediatamente, as longas pernas se escarrapachando para o céu, de modo que Maddy não teve tempo para ver onde e quão gravemente Perth fora atingido. Ela ergueu um escudo para se proteger; Aesk e Yr dispersaram a força magnética. Sabia que devia ir embora – Perth estava ferido e precisava de ajuda. Mas ainda assim não conseguia abandonar Maggie.
– Maggie, por favor. Deixe-me explicar…
– Vocês mataram Adam – repetiu Maggie. Sua voz era monótona e inexpressiva. Era como se a dor de sua perda houvesse lhe destruído o coração.
– Eu não o matei! – garantiu Maddy. – Eu queria, mas não consegui. Você viu…
– Por quê? – perguntou Maggie. – Você nos odiava tanto?
– Não! – exclamou Maddy desesperadamente. – Eu queria salvá-la, queria impedir tudo isso. Ninguém queria que Adam morresse…
Teimosamente, Maggie balançou a cabeça.
– Ah, sim, eles queriam. Queriam que ele morresse porque ele era um homem do Povo. Porque estava apaixonado por mim. E porque eu estou grávida de um filho dele…
Filho dele? Oh, deuses. Filho de minha irmã?
De repente Maddy mal pôde respirar. Ela entendeu então o que Perth havia querido dizer quando dissera que Maggie estava perdida para eles. Maggie Rede nunca havia sido o alvo prioritário do Murmurador. A garota era mesmo forte demais, inconstante demais para servir como hospedeira. Mas seu filho não nascido – um filho do Fogo, com a força magnética repassada pelo ventre de sua mãe – seria muito aberto e fácil de moldar. Sua personalidade, ainda não formada, se transformaria na do Murmurador. E Maggie, naturalmente, estaria lá para proteger seu filho de qualquer um que o ameaçasse – o que significava que o Aspecto do Murmurador estaria a salvo até que seus poderes estivessem plenamente desenvolvidos.
A voz de Maddy cresceu em urgência, então.
– Maggie, você tem que me escutar. O Murmurador possuiu seu filho. Ele quer usá-lo e você também para voltar para Asgard.
Mas Maggie não estava ouvindo. Um duplo punhado de runas mentais voou como lâminas de navalha e se fincou no muro em torno do escudo de Maddy.
– Você está mentindo! – disse ela numa voz áspera. – Primeiro Adam, e agora meu bebê também! Quisera ter matado você quando tive a chance! Quisera ter matado todo o Povo-Vidente!
Mais uma vez Maddy tentou argumentar com sua irmã, mas em seu coração sabia que ela já estava perdida. Maggie estava preparando uma runa que cortaria seu escudo mental. Uma combinação de Úr e Hagall tomou forma entre seus dedos.
Por trás dela, a nuvem de sombra havia chegado aos muros da catedral. Monumental, ela se erguia às costas de Maggie, silvando com energia destrutiva.
– Afaste-se da sombra! – disse Maddy. – Maggie, quer você confie em mim ou não, não se aproxime da nuvem de sombra!
Maggie arremessou a arma nela. Esta se partiu contra o escudo mental. Com os olhos furiosos, ela recomeçou, invocando sua força magnética mais poderosa.
Maddy tentou calcular mentalmente a distância que a levaria de volta a Jormungand. Ela poderia cobri-la em trinta segundos, pensou, contanto que o escudo mental se mantivesse ativo neste intervalo. Forjou uma versão da Ask e lançou um punhado de pequenas runas pontudas que giraram como frutos secos do sicômoro ao cair. Seu propósito não era ferir, mas confundir, para conseguir um pouco mais de tempo. Uma delas cortou a palma da mão de Maggie, fazendo-a encolher-se e desviar os olhos, e, nesse segundo, Maddy saltou sobre as costas de Jorgi e esporeou-o para que partisse. Acima delas, o arco da Ponte do Arco-Íris. Abaixo delas, uma cidade no caos.
E no centro de tudo isso, a luz da Pedra do Beijo ainda brilhava contra o Escudo do Sol, perfurando Fim de Mundo como um inseto, e Maggie Rede arremessava runas ao céu e jurava vingança contra os Æsir, enquanto dentro de sua barriga uma coisa tão pequena que mal tinha batimento cardíaco sorria e sussurrava para si mesma, e sonhava com os Mundos a dominar.