Luz das Runas
Capítulo 5
Foi uma entrada impressionante, como Maddy admitiu mais tarde, depois que limpou o pó dos cabelos e ficou maravilhada com os fragmentos de pedra – alguns de pedras preciosas que o Povo do Túnel teria vendido suas mães para adquirir – projetados tão altos no ar que cinco minutos depois estavam ainda tombando como estrelas cadentes sobre Malbry.
Naturalmente, ela já havia visto a Serpente do Mundo. Mas Jormungand em Aspecto era uma visão para desafiar os nervos de qualquer um. Sua cabeça era tão grande quanto uma junta de bois, sua crina como um monte de feno de luz de runa. E suas mandíbulas – que estavam escancaradas para engolfar os enxames de efêmeras – eram como um par de portas de estábulos cercadas por dentes no formato e no tamanho de cimitarras.
Maddy estendeu a mão procurando sua espada mental, sabendo que era inútil. Jormungand empinou a cabeça maciça; Maddy juntou suas forças derradeiras e se preparou para partir para a briga. Ela podia sentir o hálito venenoso da Serpente, sentir o calor de sua aproximação. Mas ela não atacou. Simplesmente se recostou indolentemente e abriu a boca para ela, a não mais que vinte passos de distância. Talvez a tivesse reconhecido, ela pensou. Talvez estivesse ouvindo a razão.
Maddy baixou a espada mental.
– Lembra-se de mim? – perguntou ela.
Maddy ainda estava longe de sentir-se confiante. A última vez que ela e a Serpente haviam se encontrado havia sido três anos antes, numa das masmorras da Fortaleza Negra, e embora ela tivesse ajudado os deuses a fugir, isso se devia muito mais a Loki, que havia se usado como isca humana para induzir o monstro a dar livre curso à sua destruição.
– Eu sou… uma amiga de Loki – disse ela.
Jormungand soltou um longo silvo.
– Bem, nem tanto uma amiga – emendou Maddy apressadamente. – Mais o que você chamaria de uma aliada.
A Serpente do Mundo fez um som indefinível e enrolou-se em seu lençol de muco viscoso. Seu fedor era quase palpável. Maddy ficou pensando no que poderia impedir a Serpente de apenas abrir suas mandíbulas e engoli-la como uma uva. Mais uma vez estendeu a mão à procura de sua espada mental. Reduzida a não mais que um palito de dentes agora, ela mal teria detido um rato. A Serpente do Mundo soltou um enorme bocejo…
E então se ouviu uma risada de garota e uma voz aguda de lá do alto que dizia:
– Ah, querida. Ponha isso pra lá…
Maddy ergueu os olhos, bem a tempo de ver a Bruxa da Floresta de Ferro pular de sua posição no flanco da Serpente, em peles escarlates da cabeça aos pés e parecendo muito satisfeita consigo mesma. Ao seu lado, os Irmãos Lobos davam cambalhotas como marionetes desgovernadas no rastro da devastação.
– Acho que você pode usar uma escada – disse ela. – Suba a bordo, e eu vou levá-la para casa. – Ela olhou seriamente para Jormungand, que havia voltado sua atenção para um bando de efêmeras que estava passando. Abrindo suas enormes mandíbulas, ela inalou e puxou as efêmeras para dentro de sua boca com a facilidade de uma baleia ingerindo plâncton.
Angie afagou sua crina limosa.
– Com fome, querida? Esta é minha garota! – Ela sorriu para Maddy. – Minhas garotas sempre tiveram um apetite saudável – disse ela. – Agora vamos lá, doçura, leve Maddy para casa. Você pode ir comendo uns petiscos pelo caminho.
Enquanto isso, não longe da aldeia, os deuses estavam tomados pela apreensão. Um punhado de forças magnéticas era só o que lhes restava; estavam mancando, exaustos, próximos à derrota. Reagrupando-se num terreno mais elevado, haviam visto o rio subir, enquanto o Povo se juntava em grupos aqui e ali, em torno dos edifícios mais sólidos – principalmente a igreja e a Paróquia, onde Ethel havia permanecido para prestar ajuda – alguns carregando seus bens, outros silenciosamente olhando com fúria para aqueles que haviam lhes trazido aquele desastre sobre a cabeça.
A Louca Nan Fey estava em meio à multidão, embora soubesse perfeitamente que os deuses não eram de modo algum responsáveis pelo que estava acontecendo. Tudo isso estava escrito no Bom Livro e nas cantigas de ninar de sua infância – que iriam todas mostrar, disse a Louca Nan, que as velhas histórias das esposas que a Ordem desprezava não eram tão tolas quanto afirmavam, e que se alguém de algum modo pudesse ter evitado aquela longa espera pelo Apocalipse, teria sido mais provavelmente uma velha esposa…
Então veio um estrondo todo-poderoso, e saindo do pouco que havia restado da Colina surgiu Jormungand em pleno Aspecto, lançando para o alto uma chuva de pedras ao brotar violentamente do chão. Pedaços flamejantes de pedra semiderretida salpicaram o vale como estrelas cadentes, e Nan e os aldeões foram forçados a correr em busca de um abrigo qualquer enquanto os deuses se viravam para encarar o novo ataque.
Demorou cerca de cinco minutos para que o pó e os detritos baixassem o suficiente e os deuses pudessem perceber que a Serpente do Mundo não estava sozinha. Um trio de lobos a acompanhava, e também um pássaro do fogo, uma águia do mar e um pequeno falcão marrom cuja assinatura rabiscada pelo céu o designava inequivocamente como…
– Loki. Eu devia ter desconfiado – grunhiu Thor, agarrando Jolly pelos pés.
Mas Jolly havia dado uma olhada em Jormungand e retomado seu Aspecto de duende.
– Essa desgraçada viscosa me engoliu um dia – disse ele. – Maldito seja eu se cair na sua boca outra vez.
O Deus do Trovão, achando-se desarmado, soltou um uivo de fúria.
– Você volte aqui imediatamente! – rugiu ele.
– Ou senão o quê? – disse Jolly, mexendo nos dentes.
– Mas isso é a Serpente do Mundo! – exclamou Thor queixosamente.
– E daí que ela seja? Está do nosso lado.
Quando os deuses contemplaram em silêncio, ficou claro que Jolly estava certo. Se estar ao lado dos deuses significava engolir efêmeras, beber sombras, devorar sonhos, abocanhar demônios aos bandos com o que parecia um apetite insaciável, então a Serpente estava do lado deles.
Além do mais, ela tinha uma cavaleira. Quase obscurecida pela luz das runas, ela parecia estar pendurada à sua crina, sua assinatura castanho-avermelhada brilhando através do miasma. Os três lobos que tinham visto estavam ainda nos seus flancos; e embora ao lado da Serpente estes parecessem não maiores que gatinhos, os deuses podiam ver por suas assinaturas que não eram lobos comuns, mas criaturas de terrível poder e força. Acima de todos eles voava o pássaro de fogo – um pássaro diferente de qualquer outro dos Nove Mundos, seu rastro colorido daquele púrpura sobrenatural do fim do Arco-Íris que os deuses associavam ao Caos.
– O que pelos Infernos está acontecendo? – grunhiu Thor em frustração. – Aquilo não é Maddy cavalgando a serpente?
Os outros apertaram os olhos sobre a cena e finalmente concordaram que era.
– Ela está vindo para cá – disse Freya. – Posso ver suas cores agora.
– Graças aos deuses ela está a salvo – falou Njörd.
Bragi pegou sua guitarra e dedilhou um acorde de vitória.
– E virá um Cavalo de Fogo – disse Ethel em sua voz discreta. – E o nome do Cavalo é Carnificina. E virá um Cavalo do Mar. E o nome do Cavaleiro é Traição.
– O que é isso? – perguntou Njörd. – Uma profecia?
– É do Livro do Apocalipse. – Ethel, cujo papel como mulher de um pároco havia incluído ajudá-lo numa tarefa muito oficiosa, a de preparar seus sermões semanais, tinha mais que apenas um conhecimento passageiro dos conteúdos do Bom Livro. – O Cavalo de Fogo, a Colina do Cavalo Vermelho e agora, talvez, o Cavalo do Mar…
– O quê? A Serpente? – disse Freya.
– Mas uma serpente não é um cavalo… – começou Njörd.
– E o Bom Livro é frequentemente impreciso – disse Ethel em sua voz calma. – Mas se eu estiver certa, então o Fim dos Mundos está mais próximo do que imaginamos. Dois dos Cavaleiros já estão aqui. Temos que encarar o inimigo.
– Pensei que era isso que estávamos fazendo – disse Thor.
Ethel balançou sua cabeça.
– Não. Isto é apenas uma diversão. A batalha final terá lugar em Fim de Mundo. Dentro de apenas doze dias, no Fim dos Mundos…
– O quê? – perguntou Thor.
– Onde mais? – retrucou ela. – É onde Asgard tombou, afinal. Eles até construíram um memorial.
– A Catedral do Santo Sepulcro.
Por um momento houve silêncio enquanto os deuses refletiam sobre o Fim dos Mundos. Açúcar em particular sentia-se muito apreensivo. Em sua recentemente adquirida capacidade como deus da guerra, estava consciente de que a perspectiva de outro Ragnarók devia enchê-lo de entusiasmo. Mas Saco de Açúcar não havia ainda superado seu papel anterior – e de certo modo não impositivo – e havia achado o Aspecto de Tyr do Coração Corajoso inesperadamente difícil de assumir.
Talvez, pensou Açúcar, quando Asgard fosse reconstruída, ele assumisse o Aspecto mais prontamente. Mas, por enquanto, ele achava matar ratos uma provação, e a ideia de uma batalha final o deixava de pelos arrepiados.
– Um Cavalo cujo nome é Traição – disse Thor. – Isso tem que ser Loki, não?
– Não vamos tirar conclusões precipitadas, ok? – falou Ethel, ainda observando a aproximação da Serpente. Ela estava se movimentando muito depressa agora, embaçando toda a estrada de Malbry, e agora os deuses podiam sentir seu cheiro também, como uma extensão de terrenos pantanosos ao sol; um fedor salgado que travava suas gargantas e fazia seus olhos lacrimejar. Por fim ela parou, e Maddy desceu de onde estava se agarrando; Maddy com um talho em sua cabeça e três enormes lobos em seus calcanhares.
– Está tudo bem. Jorgi está do nosso lado – disse ela, vendo Thor quase pronto para atacar.
– O que aconteceu? – perguntou Idun, no Aspecto da deusa. – Você está bem? Coma um pouco de maçã…
As maçãs de Idun eram lendárias – uma cura para a velhice, para a doença, bem como para os ferimentos de guerra. Ela carregava suprimentos para todo lugar que fosse; a fruta estava seca, mas ainda boa, e Maddy aceitou um pedacinho, não tanto por suas propriedades de cura quanto como pelo pretexto que ele lhe fornecia para ficar em silêncio alguns minutos a mais. A ideia de mentir para seus amigos era quase assustadora demais para ser levada em consideração; e até a presença de Jorgi e os lobos agora surgia como uma bem-vinda distração.
Freya, também no aspecto de Deusa, puxou um lenço de mão perfumado (que pertencia a Ethel, cujo guarda-roupa estava diminuindo rapidamente) e aplicou-o sobre seu pequeno nariz.
– Ela pode ser uma aliada – observou Freya –, mas por que tem que cheirar tão mal?
– E, pelos Infernos, o que eles estão fazendo aqui? – grunhiu Açúcar, cujos pelos da nuca haviam se eriçado instintivamente à visão dos lobos, que se revelavam agora como Caveira, Grande H e Fenris, ainda vestindo seus costumeiros trajes pretos, mas com o acréscimo posterior de uma grande e reluzente variedade de cintos guarnecidos de tachas, faixas de pulsos e joias de prata (a maior parte elaborada a partir do motivo da caveira), que claramente servia como equipamento de guerra.
Fenny baixou os olhos sobre Açúcar com desprezo.
– Foi nisso que os Æsir se transformaram? – indagou ele. – Recrutando calouros para lutar em sua guerra?
Saco de Açúcar grunhiu novamente.
– Quem você está chamando de calouro? – perguntou ele.
Fenny deu de ombros.
– Um tanto pequenino você, não é mesmo? Estou surpreso que consiga até segurar uma espada. Quanto ao último deus da guerra…
Caveira e Grande H trocaram sorrisos.
– Ele era um tipo bem grandão – disse Caveira.
– Sim. Tinha um monte de carne nele, cara – confirmou Grande H.
Açúcar grunhiu e apertou seus punhos. Fenny lhe lançou um sorriso irregular e exibiu a Cruz do Lobo em seu braço. Eles podiam até ter chegado a trocar socos se, naquele momento, o pássaro de fogo não houvesse pousado em frente aos deuses, adotando o Aspecto de Angrboda, a Tentadora da Floresta de Ferro.
– Você! – disse Freya com relutância.
– Tenho que dizer que esperava um pouquinho mais de gratidão – falou Angie.
– Gratidão? – grunhiu Thor.
Angie mandou-lhe um beijo com a mão.
– Eu disse que vocês precisavam de mim – advertiu ela. – E de meus adoráveis Garotos Lobos, é claro. Imaginem só em que confusão vocês estariam se Jorgi não estivesse aqui para ajudar.
Thor franziu o cenho e apertou os olhos. A Serpente do Mundo, que havia recuado depois de depositar Maddy no chão, estava agora enrolada amigavelmente em torno do que restava da Colina do Cavalo Vermelho, parecendo-se com alguém ao fim de um longo e muito satisfatório jantar da festa do Yule; cheia de carne e de batatas, mas ainda capaz de dar uma beliscada satisfeita numa torta de carne, num chocolate, num punhado de passas, em algumas avelãs…
– Vocês estão dizendo que não estavam por trás de tudo isso? – questionou Thor, com desconfiança.
– Claro que não – disse Angie. – Por que deveria estar? Eu quero minha sala em Asgard.
– O que nos leva a Loki novamente – falou Thor, olhando de relance para o céu, onde o falcão e a águia estavam começando a fazer sua descida. – Bem, quando eu puser minhas mãos sobre ele…
– Por que culpar Loki? – disse Maddy.
– Porque sempre é Loki – argumentou Thor.
Maddy se mexeu desconfortavelmente. O Deus do Trovão tinha razão. Tempo após tempo, quando os problemas surgiam, o Astuto estava por trás deles. Desta vez ele era inocente, e apenas ela poderia provar. Afinal, fora sua culpa; ela havia despertado o Cavalo Vermelho; ela deixara Maggie levá-lo dela. Naturalmente, se contasse a verdade aos deuses, teria que trair sua irmã – sua gêmea –, e qualquer chance de redimir Maggie seria perdida. A ligação dela com o Murmurador iria queimá-la para sempre aos olhos deles. Mesmo que finalmente ficasse provado que Maggie havia sido uma simplória inocente, os deuses exigiriam vingança. Maddy imaginou a irmã acorrentada nos subterrâneos, ou banida para o Mundo Inferior. Ela não podia deixar isso acontecer, de modo algum. Mas se mentisse para proteger sua gêmea, então era certeza de que Loki levaria a culpa…
Antes que ela pudesse tomar sua decisão completamente, a águia do mar branca e o pequeno falcão marrom haviam pousado numa cerca nas proximidades, tornando-se Heimdall e Loki novamente.
Sif, voltando seu olhar para eles, deu um grunhido de indignação.
– Olhem! Vejam só o que o gato nos trouxe!
O rosto de Thor assumiu a expressão de alguém que, há muito tempo surpreendido pelos acontecimentos, finalmente enxerga um propósito em sua vida. Ele se arremeteu para a frente, e em menos de um segundo Loki estava balançando, pendurado em seu pulso, enquanto todos os deuses se juntavam ao redor para observar.
– Muito bonito – disse o Astuto, totalmente exausto, a esta altura. – Belo modo de tratar um cara que acabou de salvar a vida de todos.
Seus olhos verdes ardentes se acenderam ao ver Maddy, e uma expressão de alívio surgiu em seu rosto. Se Maddy estava ali, disse a si mesmo, então seria capaz de testemunhar a seu favor. Fossem quais fossem seus motivos para levar o Cavalo, ela nunca deixaria um amigo em apuros.
– Então, como você salvou nossas vidas? – perguntou Frey.
– Bem, se vocês me derem uma chance de explicar… E, a propósito, eu não quero parecer puritano aqui, mas há senhoras presentes – disse Loki, apontando seu estado de nudez e acrescentando com um sorrisinho malicioso – Ah, e Sif e Freya, naturalmente.
– Cale a boca e vista isso – falou Heimdall, que já havia encontrado uma coisa para vestir a si mesmo e agora atirava uma trouxa de roupas para Loki. Com sua habitual economia de palavras, o Vigilante explicou a situação como a entendia ao pequeno grupo de deuses perplexos, enquanto Loki lutava com uma camisa emprestada (grande demais para ele). Angie contemplava tudo com um sorriso de ternura, enquanto Fenny e seus lobos-demônios ficavam ao redor, sorrindo e mostrando os dentes, exibindo os músculos e tatuagens da Cruz do Lobo.
O Grande H dirigiu-se ao Astuto.
– Cara – disse ele. – Você está com uma aparência horrível.
– Amigos seus? – perguntou Heimdall.
Mais uma vez Loki começou a explicar. Não foi uma explicação direta. Ele estava acabando de chegar à parte onde, destemidamente, havia assumido a forma de pássaro para verificar as montanhas, quando mais dois pássaros – na verdade, dois corvos – pousaram sobre a cerca da Paróquia.
Hughie e Mandy, Maddy pensou; mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, uma súbita e violenta comoção brotou.
Os Irmãos Lobos, todos os três agindo como um só, rapidamente haviam retomado seus Aspectos e, com um único salto gigante, avançado para a cerca da Paróquia. Ao mesmo tempo, os novos visitantes voaram, abatendo-se sobre as cabeças dos lobos, crocitando ruidosa e impudentemente. Os três lobos uivaram de frustração quando os pássaros ficaram fora de alcance com segurança. Fenny tentou abocanhar o corvo maior, que respondeu bicando-lhe o nariz.
– Ah, de onde eles vieram? – perguntou Angie, contrariada. – Sempre causando problemas…
Maddy não pôde deixar de sorrir ao ouvir isso. Do que ela conhecia da Tentadora até aí, era a ela que os problemas pareciam perseguir.
– Parem com isso! – exigiu Angie asperamente, dirigindo-se aos corvos e lobos. – Nós estamos em trégua, lembram-se?
– Uma trégua? – perguntou Hughie, retomando seu Aspecto humano. – O quê, com esses bobos?
Ferris lançou sobre Hughie um olhar furioso, segurando seu nariz com as duas mãos.
Açúcar, que havia rejeitado os lobos ao vê-los, segurou sua espada mental e recuou, mal-humorado.
Maddy notou que Mandy, que também havia retornado à sua forma humana, estava agora usando o brinco de garra de dragão de Fenny. Seus dourados olhos brilhantes estavam iluminados pela malícia. Ela abriu a boca e crocitou.
Loki fechou os olhos para eles por um momento, depois baixou o olhar para si mesmo novamente.
– Sabem? – refletiu ele. – Isto aqui pode ser a camisa de uma senhora.
– Não se preocupe – falou Heimdall soturnamente. – Você não vai precisar usar por muito tempo. – Ele se virou para Maddy. – Diga-me, o que exatamente aconteceu aqui?
Mais tarde, Maddy percebeu que aquela fora sua chance final para confessar seu papel nos acontecimentos do dia. Uma janela de oportunidade, e estupidamente ela a havia perdido. Mas a percepção tardia é uma falsa amiga, do tipo que mete você em encrenca, depois fica lhe seguindo parecendo uma santinha e dizendo: Viu só? Eu bem que lhe falei…
Se alguém perguntasse a ela, talvez ela pudesse ter confessado. Alguém como Njörd, Ethel, Freya ou até Bragi, cuja ideia de uma repreensão era cantar para o culpado o mais alto que pudesse. Mas Heimdall, cujos olhos eram duros como aço temperado e quase tão implacáveis quanto este; Heimdall, que tudo via, tudo ouvia, e não confiava em ninguém, e nunca dormia…
– Fale então, Maddy – disse Loki, sentindo sua hesitação. – Diga a eles que não foi culpa minha. Você esteve lá. Você viu.
Maddy desviou os olhos.
– Por favor…
Loki se dirigiu ao círculo de deuses.
– Pessoal, eu sei que não parece – disse ele. – Mas desta vez não tem nada a ver comigo. Eu estava sob a Colina, lá na minha casa, cuidando da minha própria vida, e de repente… bum! Surpresa. Perguntem a Maddy. Ela estava lá. Ela deve ter visto tudo.
Maddy balançou sua cabeça.
– Sinto muito, Loki. Eu não posso – falou ela.
– Que você quer dizer? – indagou Heimdall.
– Quero dizer que não vi nada. Nada além de efêmeras. Mas com certeza você não pode achar que Loki teve alguma coisa a ver com aquilo.
– Não posso? – questionou o Vigilante. – Considere que eu o surpreendi tentando empreender uma fuga bem quando as coisas começaram a ficar graves por aqui. Uma situação pela qual ele é certamente responsável. Sem mencionar o surgimento da Serpente do Mundo, o Lobo de Fenris e agora Sleipnir. São três dos filhos de Loki até aqui; ao menos três dos que conhecemos… – Ele se virou para Loki. – Então, onde está Hel?
Loki pareceu perplexo.
– Hel? Você sabe que ela não deixa seus domínios…
– Não até agora – disse Heimdall. – Mas com as coisas do jeito que estão, por que não deixaria? Talvez ela saiba como estamos desesperados. Talvez esteja apenas esperando por alguém, alguém como você, para dar a ordem.
– Exatamente isso – concordou Freya cheia de rancor. – Ele monta um plano com a Tentadora. Ele nos seduz a fazer um trato com o Caos, dá a Thor um martelo que só funciona quando lhe dá na telha, começa uma batalha que ninguém pode vencer e então, quando os dois lados estão de qualquer modo envolvidos, foge correndo para recolher o saque, deixando a serpente no controle da Colina e o resto de nós virtualmente impotentes. Isso não é quase certo?
Loki lançou a Maddy um olhar angustiado.
– Conte a eles, Maddy. Por favor – pediu ele.
Mais uma vez Maddy desviou o olhar.
Heimdall arreganhou seus dentes dourados e virou-se para Angrboda.
– E aí, Tentadora? O que você diz? – Sua voz era surda e perigosa.
– Deixe-me lembrá-lo – disse Angie. – Fizemos um acordo, os deuses e eu. Vocês prestaram um juramento. Rompê-lo agora… – Ela sorriu. – Poderia haver… consequências.
Heimdall lançou um olhar feroz.
– Os deuses mantêm sua palavra.
– Bem, isso é bom – disse Angie, sorrindo para ele. – Na última vez um deus que deixou de cumprir trato foi mandado lá embaixo para os domínios de Hel, três anos atrás. E todos nós sabemos o que aconteceu depois, não sabemos?
Os deuses trocaram olhares, seus rostos sombrios.
Finalmente o Vigilante falou:
– Você obterá o que foi prometido, Tentadora. Você terá sua sala em Asgard. Mas não fizemos promessas quanto a Loki, e se ele nos traiu…
– Traiu vocês? Como? – questionou Angie.
– Alguma coisa aconteceu aqui – falou Thor. – Alguma coisa que partiu a Coluna em pedaços e libertou o Cavalo do General. Loki estava ali. Loki fugiu. Loki sabe mais do que está dizendo.
– Além disso, há o Bom Livro – disse Freya. – O nome do Cavaleiro é Traição…
– Sejam justos – pediu Loki desesperadamente. – Vocês estão citando uma profecia do Povo. Vocês sabem como estas coisas são distorcidas. Só para começar, meu nome é Astuto. Não Traição. Há uma diferença, vocês sabem.
– Não muito grande – grunhiu Sif.
– Quase nenhuma diferença – disse Frey.
– Deixem-me extrair a verdade dele a marteladas – sugeriu Thor, parecendo quase alegre com a perspectiva.
– Por fim, uma solução prática – disse Frey. Ele se virou para apoiar o deus da guerra, que fingiu estar olhando para outra coisa. Açúcar era ainda em maior parte um duende, e a perspectiva de deitar mãos violentas sobre o Capitão era praticamente impensável.
– Eu não acho que precisemos ir tão longe – interveio Njörd. – Mas eu gostaria de obter algumas respostas.
– Concordo – disse Bragi. – Voto para que fiquemos de olho nele até que saibamos o que está acontecendo.
Loki deu seu sorriso retorcido.
– Por ficar de olho nele… – disse ele – estou deduzindo que o que vocês querem realmente dizer é prendam-no com ferros e fechem-no longe daqui até que possamos provar que ele é culpado?
– Precisamente – confirmou Thor, movendo-se para a frente novamente.
– Era o que eu pensava – disse Loki.
Dito isso, ele assumiu seu Aspecto de Fogo Selvagem e disparou pelo pátio num rastro lampejante de chamas. Naturalmente, os deuses estavam esperando por isso; mas sob o efeito da batalha recente, a força magnética estava reduzida e os reflexos, embotados. Uma dúzia de raios mentais disparou através do pátio, mas nenhum deles acertou Loki, que, ziguezagueando em torno da Paróquia, havia saltado pela janela entreaberta, ricocheteado a partir do fogão da cozinha, terminado na lareira e desaparecido numa nuvem de faíscas antes que qualquer um pudesse apanhá-lo.
Até onde os deuses sabiam, isso provava sua culpa conclusivamente. Maddy Smith sabia mais, naturalmente, porém não podia se permitir ficar do lado de Loki. Não contra Maggie, sua gêmea muito querida; Maggie, cujos motivos eram ainda obscuros, mas que, ela tinha certeza, precisava de sua ajuda.
Loki podia cuidar de si mesmo – afinal, ele tinha uma longa história de escapar de encrencas. E se ela tinha que fazer uma escolha, bem…
Um Cavalo do Mar, ela pensou implacavelmente. E um Cavalo cujo nome é Traição…
Pois que seja Traição, então, ela disse a si mesma com um suspiro interno, e, sem esperar por desdobramentos posteriores, deixou os deuses travando sua discussão e partiu novamente em direção à Colina, onde o Cavalo Negro dos Últimos Dias estava esperando para conduzi-la até Fim de Mundo.