Luz das Runas
Capítulo 2
Nan Fey também conhecia as velhas cantigas infantis. Havia histórias ocultas em todas elas – relatos do Povo-Vidente e de seu tempo, transformados em absurdos à medida que os anos reescreviam a linguagem, distorcendo-os sutilmente e transformando-os em invocações solenes, boatos de epidemias, e as profecias, os heróis, os amantes, os generais e os deuses se tornavam por fim canções de pular corda e acalantos; mesmo quando suas histórias foram classificadas como fora da lei pela Ordem, as palavras do Povo-Vidente haviam permanecido nas bocas e corações das crianças.
A Jovem Nancy Wickerman havia sido uma coletora de canções de pular corda e cantigas infantis desde que era nada senão uma criança, e agora, envelhecida e louca (como o povo dizia), ela percebia que, mesmo dentro de seus maiores absurdos, aquelas palavras tinham um curioso poder.
A Terra do Rosbife, por exemplo. Absurda como era sem dúvida alguma, Nan a ouvira, mencionada em mais de uma história – um lugar onde as leis naturais não se aplicavam; onde o povo comum podia voar pelo ar, e as nuvens como crinas de cavalos que galopavam pelo céu de verão. De acordo com a lenda, a Terra do Rosbife era um lugar onde a comida nunca faltava e a bebida era sempre farta, onde a Morte fora banida para sempre, e da qual a fortaleza do Povo-Vidente, a lendária Cidadela do Céu, aparecia como um castelo no céu, cada tijolo e cada telha reluzindo como um encantamento.
O povo de Malbry agora identificava a terra mítica como uma versão romantizada de Fim de Mundo, mas Nan acreditava que havia mais nas velhas histórias do que o sonho de um ignorante da Cidade Universal. O Velho Homem já lhe revelara o quanto; o Velho Homem que vinha a ela em sonhos. Segundo as velhas histórias, a Cidadela do Céu havia estado ligada a Fim de Mundo por uma fabulosa Ponte, uma construção de forças magnéticas e efêmeras, nascida do Caos, mas a serviço dos deuses, e visível para o olho humano apenas quando o sol e a chuva combinavam. Era esta ponte, o Velho Homem dizia, que ainda existia nas cantigas das crianças, seu verdadeiro nome – Bif-rost – invertido e corrompido, como a própria runa de Nan, e oculto por quinhentos anos, esquecido até o Fim do Mundo.
Mas agora o Fim do Mundo estava perto. Chegara a hora da Louca Nan Fey. Já dois dos três Cavaleiros da Profecia estavam a caminho para Fim de Mundo. O terceiro ainda carecia de um corcel, naturalmente, mas a Louca Nan não estava perturbada por detalhes triviais como este. Ela possuía um bom número de cestas, uma delas uma cesta de vime para roupas de lavar de um tamanho mais do que confortável – certamente generosa o suficiente para levar uma velha senhora e qualquer quantidade de aguardente.
Nan gostava de aguardente, especialmente quando o tempo estava frio. Ela a fazia de maçãs no verão, e quando os meses escuros vinham, ela fantasiava que podia sentir o gosto do sol em cada engolida. Os sonhos, naturalmente, vinham com mais facilidade quando havia tomado um gole ou dois – o que ficava mais crucial quando os sonhos sérios eram necessários. E agora ela abria os velhos olhos brilhantes e estendia a mão para pegar uma garrafa ao lado de sua cama, e sentia o gosto dos dias ensolarados de antigamente, e a magia dos verões passados tornavam seus pés e as pontas de seus dedos mais leves.
Nas nuvens entrou e foi além da lua, e em Terra dos Videntes pôde penetrar, ah, pensava Nan e, refrescada, levantou-se e foi procurar a velha cesta de vime para roupas de lavar. Segundo a canção, ela sabia, aquele era o meio para alcançar as nuvens, e, louca ou não, Nan Fey tinha a séria intenção de alcançá-las e cavalgar seu Cavalo do Ar pelos céus a caminho de Bif-rost.
A cesta estava um pouco empoeirada, ela achou, tendo sido mantida no porão. Ainda assim, o vento daria um jeito nisso. Nan empurrou-a para dentro da cozinha e muito cuidadosamente pisou dentro dela. A garrafa de aguardente no bolso de seu avental fazia um reconfortante som de líquido agitado. Ela estava usando seu xale de pelo de bode mais quente (pode fazer muito frio nas montanhas) e o gorro que usava para funerais. Fechou os olhos e se aprumou; a cesta seca estalou e se queixou com seu peso. Seu coração estava batendo a ponto de explodir; a excitação a deixava febril. Ela tomou outro gole de aguardente – para acalmar os nervos, Nan disse a si mesma – e esperou que a cesta se elevasse.
Nada aconteceu. Ela tomou outro gole.
Ainda assim a cesta não se elevou.
A Louca Nan começou a se sentir um pouco ridícula, sentada em sua cesta de roupas para lavar com seu xale e gorro, esperando ser conduzida para a Terra do Rosbife – um tanto ridícula e um tanto louca. Talvez o Povo estivesse certo, afinal – talvez ela realmente fosse louca. Ela ficou tentada a abrir os olhos, só uma vez, para ver se alguém estava olhando. Mas o Velho Homem tinha lhe dito o que fazer, e Nan não estava propensa a desobedecer. Ela fechou os olhos bem fechados e pensou no Sonho, e desta vez pensou ter sentido alguma coisa se mexer e raspar no chão abaixo dela. Sua cabeça flutuava com a aguardente, mas ela mantinha seus olhos resolutamente fechados. Enquanto isso, a sensação de movimento aumentava, de tal modo que agora ela se sentia como o cavalinho de brinquedo que Nancy tivera quando menina pequena, um cavalo de pau que ela batizara de Epona, que seu pai havia jogado no fogo quando Nancy começou a conversar com ele, contando-lhe histórias, fingindo voar…
Fazia cerca de setenta anos que Nan havia pensado em Epona. Agora a sua imagem retornava, e Nan se rejubilava com a lembrança. Tinha sido um tempo feliz, ela pensou; um tempo em que até mesmo uma marca de runa quebrada podia atingir o olho de um general. Nan havia sido forte e alerta como um pônei de montanha; ansiando por servir ao General, por aprender com ele, por ajudá-lo em seu plano. Ele poderia ter-lhe pedido qualquer coisa. Ela teria se aventurado sob a Colina. Ela teria levado o Murmurador até ele. Ela teria atacado a própria Ordem, se ele apenas lhe ordenasse. Mas aquela marca de runa quebrada dela era insuficiente para os propósitos dele, e o tempo havia passado, sua juventude se fora, e Odin nunca fizera uso algum dela.
E então surgira Maddy Smith; Maddy, com sua marca de runa. Especial desde o primeiro dia – uma estrela mais brilhante que o próprio General. A princípio Nan havia tentado ser amiga da garota, ensinando-lhe suas canções e histórias. Mas Odin de Um Olho tinha se apoderado dela. Pior ainda, havia dado a ela aquilo por que Nancy ansiara a vida toda, deixando Nan se defender sozinha quando os Æsir reclamaram seus direitos de nascimento.
Mas então o Velho Homem viera até ela, prometendo salvação. A juventude, sua saúde, uma força magnética só sua; o retorno de tudo que ela havia perdido no curso de uma vida desperdiçada. O que mais ela podia esperar? Os Æsir haviam perdido seu General; os Vanir estava fracos e dispersos. A Ordem havia sido aniquilada. As runas – fossem velhas ou novas – haviam se provado inadequadas em face da ameaça do Mundo Inferior, a brecha entre os Mundos que reduzira todas as coisas a um cobertor de cinza e escória.
Mas o Velho Homem poderia dar um jeito naquilo tudo. Ele era, afinal de contas, um oráculo. Quando a Ponte fosse reconstruída e a brecha no Mundo Inferior consertada, todas as explicações seriam por fim dadas, e o equilíbrio retornaria aos Mundos.
Nan abriu um olho. Ela estava sonhando, sabia; isso explicava a sensação de voar. Quando olhou ao redor agora, viu que o chão coberto de neve estava muito longe lá embaixo e que a cesta de vime estava cavalgando no topo de uma nuvem ampla e reforçada, com uma crina toda prateada pela luz do luar que se estendia até a metade do céu e com uma barriga que estava inchada de chuva…
Epona, pensou Nan. O Cavalo do Ar…
Da sombra dos Sete Adormecidos, Loki ergueu os olhos para um céu que estava polvilhado de frias estrelas de meio de inverno, e por um momento ele a viu, cavalgando lá no alto, brilhando sob a luz da lua, com um rastro de força magnética correndo atrás dela como a cauda de um cometa, e disse a si mesmo:
– Que Inferno seria aquilo? – E tateou a corrente em torno de seu pulso.
Em Fim de Mundo a peça final de um plano intrincado caíra agora em seu lugar, e o Cavaleiro cujo nome era Loucura (ainda enfiado em sua cesta de roupas para lavar) cavalgava Epona à Terra do Rosbife, onde o Velho Homem esperava por ele.