Luz das Runas
Capítulo 10
Lá em Malbry, Maddy Smith estava lutando para aceitar a informação.
– Você está dizendo que essa garota é minha irmã?
Hughie fez que sim.
– Sim, sua gêmea. Magni, filha do Carvalho do Trovão, gêmea de Modi, a Cinza do Relâmpago. O General passou anos procurando por ela, mas nunca conseguiu encontrá-la. E o tempo todo ela estava em Fim de Mundo, bem no colo da Ordem. Difícil de acreditar, não é, fêmea?
Maddy apertou os olhos sobre ele. Na verdade ela achava muito fácil de acreditar. Que Odin houvesse negligenciado contar a ela uma coisa tão importante como esta, que a tivesse enganado depois e ainda tivesse a audácia de esperar que ela o obedecesse agora sem questionamentos, mesmo que estivesse tecnicamente morto.
– Minha irmã… – disse ela lentamente. Como ela ansiara por ouvir estas palavras! Ter uma irmã de sua própria idade com quem dividir seus pensamentos, seus sonhos! Mae, a outra filha de Jed, era tão diferente de Maddy quanto as flores da primaveras são de caranguejos; mas quando Maddy soube de seu parentesco real, teve esperança de que um dia seu sonho pudesse se tornar realidade. Naturalmente, ela sabia que o Deus do Trovão precisava ter dois filhos; mas os oráculos frequentemente falhavam em revelar as coisas que são da maior importância. Depois da guerra com a Ordem, três anos antes nas planícies de Hel, Maddy havia finalmente suposto que sua irmã tão ansiada estava perdida no Sonho, não nascida em meio às ilhotas, nunca podendo despertar nos Mundos Médios. Mas, agora, ali estavam mensageiros de Odin dizendo-lhe que a garota estava viva e trabalhando com o inimigo.
– Vocês têm certeza de que essa é a mesma garota?
– Ah, sim. O General foi muito específico.
Sim, isso parecia bem coisa de Um Olho, tudo certo, Maddy pensou amargamente. Ele sabia tudo sobre sua irmã gêmea – talvez desde sua mais tenra infância – e, por motivos próprios, havia decidido não lhe contar. Por quê? Será que tivera medo, até naquela época, de dividir as lealdades de Maddy?
Mais uma vez ela pensou na profecia. Vejo uma poderosa Cinza que se ergue ao lado de um poderoso Carvalho… Será que aquilo queria dizer que ela e sua gêmea iriam trabalhar juntas? E quanto ao resto da profecia? Onde o Velho Homem entrava nisso? Por que sua irmã iria querer lançar efêmeras contra Loki?
Maddy franziu o cenho. Ela entendia agora por que não podia contar aos seus amigos. Seria anunciar ao Povo dos Deuses que um dos seus havia se tornado renegado em Fim de Mundo, e a instável aliança entre os Æsir e os Vanir se transformaria em conflito imediatamente. Os Vanir iriam querer matar o traidor; os Æsir, recuperá-lo de volta. E o inimigo – quem quer que fosse – teria pouco mais a fazer do que ficar observando enquanto os deuses se dilaceravam uns aos outros.
Mas se Maggie era o inimigo…
Maddy rejeitou o pensamento meio formulado. Segundo Hughie, sua irmã havia vivido no colo da Ordem desde que era menina. Ela não tivera nenhum Um Olho, nenhum Æsir para ensiná-la o significado de família. Quão solitária – quão diferente – ela deve ter se sentido! Quão fácil deve ter sido para alguém – alguém como Um Olho, talvez – moldá-la aos seus propósitos e fazê-la acreditar que era seu amigo!
– E quanto ao Velho Homem? Minha irmã o tem? – perguntou ela.
Hughie balançou a cabeça.
– Ainda não.
– E ele é o Murmurador?
Hughie deu de ombros.
– Não posso dizer. Você deve apenas encontrá-la, disse o General. Trazê-la para casa, não importa o que custar. Ela não deve entrar em contato com ele.
Mas Maddy, desconfortável desde o princípio com essa conversa perturbadora, se sentia cada vez menos à vontade. A comunicação através dos sonhos era, na melhor hipótese, um meio da maior imperfeição, e Odin – se fosse Odin de todo – havia conseguido transmitir apenas fragmentos do conjunto. O coração de Maddy queria acreditar que o espírito de Odin havia sobrevivido no Sonho, mas ela havia mudado nos três últimos anos. Não era mais a garotinha inocente que havia aberto o Olho do Cavalo naquele dia. Suas negociações com Odin de Um Olho haviam-lhe ensinado o valor da desconfiança. E quanto a Hugin e Munin – eles podiam ter sido leais um dia, mas quem podia dizer que eles não houvessem trocado de lado e estivessem trabalhando para o inimigo?
– Então, como posso saber que isso não é um truque?
Hughie pareceu ofendido.
– Um truque? Ora, quem nos Mundos iria fazer isso?
– Ah, vamos ver… – disse Maddy. – A Ordem, o Caos, os velhos deuses, os novos deuses, demônios, o Povo do Gelo, o Povo do Túnel, efêmeras, serpentes voadoras, duendes, foragidos do Mundo Inferior, artefatos mágicos com vontade própria ou qualquer um com um machado para destroçar. Os Mundos estão cheios de inimigos. Você quer a lista completa?
Houve uma pausa mais ou menos longa. Os corvos trocaram olhares de relance. Mandy, cuja transição de pássaro ao Aspecto de ser humano ainda parecia um tanto incompleta, crocitou com o que pareceu uma espécie de frustração e bicou o pilar da cama furiosamente.
Hughie disse reprovadoramente:
– Você tem questões muito sérias de confiança a resolver, fêmea.
Maddy deu de ombros.
– Então, pode me persuadir.
Mas Hughie estava ficando agitado; ele baixou o pote de açúcar vazio e deu alguns passos em torno do quarto. As penas em seu traje – que parecia ser em parte uma túnica, em parte um manto – se desdobraram como asas negras no ar.
– Teremos que fazer isso agora – falou ele.
Mandy soltou um crau agudo.
– O General disse que ela seria assim. Disse que teríamos que persuadi-la.
Mandy deu um sinal de encolher o corpo inteiro que fez Maddy lembrar-se de Açúcar. Depois, estendendo a mão para sua manga esfarrapada, puxou um pedaço de pano azul desbotado. Hughie tomou-o dela e estendeu-o para Maddy.
– O que é isso? – perguntou ela.
– Abra-o.
Maddy abriu. Dobrada no pedaço de pano havia uma tira de couro do tamanho de um polegar, dentro da qual estava preso um pedaço de aço. Uma fivela, ou talvez um broche, ela pensou, o metal escurecido e marcado com pequenos sinais de velhice. E havia runas gravadas nele: Tyr, Raedo e Úr, o Boi – unidas para formar um sigil que Maddy sabia ser o de Odin.
– Onde vocês conseguiram isso? – perguntou ela.
Hughie sorriu para ela.
– Brilhante, hein?
Com uma das mãos que não estava completamente firme, Maddy lançou a runa Bjarkán e olhou através dela para a forma da runa. Sua força magnética estava quase destruída pelo fogo; apenas uma delicada cintilação de azul-borboleta animava o sigil. Mesmo assim, despertou nela uma poderosa sensação de nostalgia. Isso havia pertencido ao seu mais velho amigo; sua assinatura estava nela. Uma súbita onda de aflição e perda ameaçou subjugá-la.
– Onde vocês conseguiram isso? – perguntou ela de novo.
Hughie deu de ombros.
– Retirei-a do Sonho, procurando pelo General.
Maddy apertou os olhos, cuja atenção havia se distraído novamente e estava investigando agora os conteúdos de uma caixinha de chá sobre a prateleira do fogão de Ethel.
– Estamos falando do Sonho – disse ela. – Não se retira coisas assim do Sonho, como se fossem madeiras flutuantes do rio.
– Nós retiramos – afirmou Hughie. – Nós supervisionamos os Nove Mundos. Estamos fazendo isso há quinhentos anos, procurando restos de naufrágios como este… – Ele gesticulou em direção à tira de couro. – Você sabe o que é isso, fêmea?
Lentamente, Maddy balançou a cabeça.
– É da rédea de um cavalo. Onde há uma rédea, haverá um cavalo. E onde houver um cavalo, haverá um cavaleiro.
Um cavaleiro, ela pensou. Um general.
Estaria Odin realmente por trás de tudo isso, orquestrando a própria libertação?
Tais pensamentos haviam cruzado sua mente anteriormente. Mas ela sempre os repelira. Odin podia ter escapado da esfera de Hel durante aqueles segundos de Caos, quando o Sonho transbordou de suas margens e o Mundo Inferior liberou suas efêmeras para os Mundos – uma coisa assim havia acontecido antes, mas as probabilidades eram tão desesperadamente baixas que Maddy tinha medo de sequer ter esperanças.
O Sonho era um estado perigoso no qual, se ele havia escapado, seu velho amigo poderia ter sido levado à loucura – isto é, supondo que ele houvesse conseguido evitar seus companheiros de viagem de Hel: demônios, efêmeras, diabos do fogo, povo das sombras e Aspectos de Juízo Final, bem como um mundo todo de sonhos vívidos, letais como um rio de serpentes. E, no entanto, Loki havia conseguido. E por onde um passara, outros poderiam passar. Qual era o plano de Odin?, pensou. Como sua irmã gêmea estaria envolvida? E quem – ou o quê – era o Velho Homem?
– Difícil de provar – disse ela por fim. – Agora, se você trouxesse o próprio Cavalo…
Mandy bateu as asas e crocitou.
Hughie pareceu perplexo.
– Mas, fêmea…
– Pare de me chamar de fêmea! – ordenou ela.
– Maddy, então. Mas eu pensei que você conhecesse.
– Conhecesse o quê? – perguntou Maddy.
– O Cavalo do General. Sleipnir, nascido de Loki e Svadilfari, que construiu os muros da Cidadela do Céu. Sleipnir, a montaria de oito patas de Odin, que, de acordo com a lenda, tem um pé em cada Mundo, exceto no Pandemônio…
– Sim? – exigiu Maddy impacientemente. – Por favor, Hughie, acabe logo com isso, pelo amor dos deuses!
– Sim, bem, está bem aqui.
– O que você quer dizer com bem aqui? – questionou ela.
– Quero dizer que estava aqui o tempo todo. Quinhentos anos, desde a Guerra do Inverno, praticamente sob seus narizes. Escondido em plena vista, você pode dizer. É, o General é um sujeito esperto. E ele sempre tem um plano.
Maddy proferiu uma praga silenciosa contra o General, seus planos e seus corvos. Mas agora, por fim, ela sabia para onde ir. Onde mais Odin teria escondido o Cavalo que poderia transportá-lo entre os Mundos? Onde mais ele poderia escondê-lo em plena vista sem despertar suspeitas? Onde mais ele poderia estar certo que nem o Povo nem os Faërie iriam interferir em seus planos?
Onde mais, pensou Maddy, senão na Colina do Cavalo Vermelho?