Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 52 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 9

 

Era quase meio-dia no Lua e Estrelas, o tempo usado por Heimdall e Ethel para convencer os deuses de que confiar em Loki era a sua melhor chance. Thor e Freya estavam particularmente resistentes à ideia: ambos tinham bons motivos para lembrar a última vez que Loki havia tentado alguma coisa desse tipo – uma ocasião que terminara com Freya prometendo casamento contra sua vontade e Thor, na posição de noiva, disposto a destruir a festa.

Skadi também teria protestado mais violentamente se tivesse sido de algum modo consultada. Mas com as marcas de runa invertidas e a força magnética se esgotando; com pouco dinheiro e suprimentos ainda mais escassos; com Açúcar e Jolly ainda na cadeia; com o homem da lei e sua guarda pressionando para obter informações e os Irmãos Lobos trancafiados no celeiro com Skadi e Njörd, os deuses restantes estavam começando a entender o valor de um pouco de subterfúgio.

– Bem, eu não vou me vestir de mulher outra vez! – declarou o irado Deus do Trovão.

– Por que não? Foi divertido. Você ficou tão bonitinho!

Thor se arremessou sobre o Astuto, mas Heimdall interceptou o golpe.

– Eu lhes disse. Ninguém toca nele – falou ele, e rangeu seus dentes dourados. – Pelo menos não até o sétimo dia. Depois disso vocês podem bater nele o quanto quiserem.

O sujeito em questão sorriu e se acomodou mais confortavelmente na poltrona favorita do sr. Mountjoy. Ele havia chegado em seu Aspecto de falcão, mas planejava retonar com mais barulho depois, e havia mandado Frey sair em forma de lobo para fazer os arranjos necessários.

– Então, vou precisar de um pouco de papel e tinta de escrever – disse ele. – E tinta de pintar, tela, cola, madeira, e, ah, algumas garrafinhas de água.

Tendo estes suprimentos providenciados, os deuses deixaram-no sozinho uma hora, depois da qual ele surgiu, ligeiramente manchado de tinta de escrever, mas satisfeito consigo mesmo e brandindo um certo número de páginas cuidadosamente escritas. Ethel pegou uma e examinou-a.

– Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo – leu ela em voz alta. – Um Paradigma de Excelência! Monstros e Prodígios! Maravilhas e Aberrações! Trazidos a vocês das Desvairadas Regiões Selvagens, venham ver. – Ela ergueu uma sobrancelha. – Sr. Músculos, o Homem Forte! Os Assombrosos Garotos Lobos! A Rainha dos Porcos!

Os olhos de Sif se estreitaram perigosamente.

– Rainha do quê? – disse ela.

Loki fez uma expressão humilde.

– Atraente, não? Também tem Helga e seus Cães de Trenó, Dunhilde Dançarina e seus Anões, Biddy, o Encantador de Pássaros. Além disso, venderemos A Poção Purgativa para Todos os Fins do Professor Pinkerton (garrafas de água, para vocês e eu), a Cura Para Qualquer Coisa, da calvície à incontinência, principalmente quando temos Idun por perto com um feitiço curativo escondido em sua manga. – Loki lançou sobre eles seu sorriso brilhante. – E aí? Sou um gênio ou não?

Por alguns minutos o barulho foi grande demais para que se distinguisse qualquer resposta individual. Heimdall ficou ocupado demais em cuidar do seu protegido impenitente da chuva de raios e mísseis mentais que sobrevieram para dar muita atenção a qualquer outra coisa.

A salvo por trás da runa Yr, a causa de todo aquele tumulto estava apenas sentada e observando de um modo entediado, e brincava com a bolota dourada que pendia da corrente em seu pulso. Era uma corrente muito delicada, embora muito mais poderosa do que aparentava, e embora ainda atasse as mãos de Loki, dava-lhe liberdade de movimento sem nunca lhe permitir esquecer que estava ali.

– Você está louco – bradou Bragi, quando o barulho enfraqueceu. – Estamos tentando passar discretamente, e você quer que nos exibamos como um circo!

Loki deu de ombros.

– É a melhor saída – disse ele. – Ninguém questiona um show itinerante. Quanto mais bizarro, melhor. Vocês serão acolhidos de braços abertos. E, contanto que o povo seja entretido, pagará nossa viagem com comida e suprimentos e nos passará através dos postos avançados. Além do mais, você poderá tocar sua guitarra.

– É mesmo? – Bragi fez uma expressão esperançosa.

– Rainha dos Porcos? – repetiu Sif.

– A menos que você prefira ser a Dama Barbada…

– Barbada o quê?

Ethel sorriu.

– Sabem? – disse ela. – Isso pode realmente funcionar.

– Rainha dos Porcos! – protestou Sif.

– Deixem-me dar uma martelada nele! – disse Thor.

– Você não fará uma coisa dessas – advertiu Ethel. – Ele está sob minha proteção agora. – Ela fez uma pausa para permitir que o tumulto diminuísse. – Pensem nisso, todos vocês. Se ele é um traidor, então a melhor coisa a fazer é mantê-lo conosco, onde não pode causar nenhum mal. E se ele não é – sua expressão se ensombreceu –, bem, isso não importará realmente a nenhum de nós a menos que cheguemos a Fim de Mundo a tempo.

Loki lançou sobre Ethel um olhar cauteloso. A Vidente nunca gostara dele, nem antes da morte de Balder, e ele estava fortemente surpreso por ela falar em sua defesa.

– Obrigado – disse ele.

Ela sorriu para ele. Mas era um sorriso curioso, perturbado, que nada fez para reconfortá-lo.

– E você, naturalmente, será o Felizardo – falou ela. – Diretor de circo, gerente… General?

Loki sorriu.

– Quem mais?

Ethel continuou sorrindo.

E assim o Astuto impôs sua saída, e foi com o mais agudo prazer que ele se pôs a distribuir papéis, esmiuçar detalhes e assegurar que todos soubessem com precisão o que ele queria deles. Poucos dos deuses acolheram a ideia com entusiasmo. Mas, precisando enfeitiçar todo homem da lei, todo guarda de posto avançado, todo taberneiro desconfiado entre o Hindarfell e a Cidade Universal, precisando manter seus Aspectos por sete impossíveis dias inteiros sem a chance de reabastecer sua força magnética, eles tinham que concordar – relutantemente – que o método de Loki era o mais rápido.

Ethel permaneceu serena como antes, falando pouco, mas sempre alerta. Loki achava isso amedrontador. Ainda assim, ele pensava, a Vidente sempre havia sido um enigma para ele, e este novo Aspecto dela era duplamente enigmático. Além do mais, ele não se importava; não estava planejando ficar por ali muito tempo. Quanto à Adversidade…

Loki tinha visto um Ragnarók e não queria mais saber disso. Guerra com o Caos… o Fim dos Mundos – desta vez ele tencionava estar bem longe quando o Inferno todo fosse liberado. Talvez em algum navio em outra parte, em seu caminho para as Terras Distantes. Havia ilhas lá, Loki sabia, onde nenhum floco de neve jamais havia caído; onde frutas tropicais cresciam o ano todo; e onde a coisa mais extenuante que um homem fazia o dia todo era tomar outro drinque, ou decidir qual das garotas locais era a mais bonita, ou escolher de uma mesa farta qual precisa iguaria ele desejaria saborear em seguida.

Ele merecia isso, Loki pensou. Ele já salvara os Mundos uma vez. Daquela vez, ele prometia a si mesmo…

Os Æsir poderiam se virar sem ele.