Luz das Runas
Capítulo 12
Maggie Rede desconfiava de sonhos, bem como de sonhadores. Mas Adam explicou tudo muito bem; agora ela começava a entender como o Sonho fora rompido pelo Povo do Fogo para liberar o Caos dentro dos Mundos, e como desse Caos eles planejavam reconstruir a Ponte do Arco-Íris e, de lá, tomar posse do próprio Firmamento, o Primeiro Mundo da Criação.
– E assim você vê – disse Adam. – A resposta para tudo está nos sonhos. Seus sonhos, Maggie; seus e meus. Foi assim que libertamos o Cavalo de Fogo. Será assim que rastrearemos o Velho Homem. E será assim que derrotaremos o Povo do Fogo e traremos a Ordem de volta aos Nove Mundos.
– Mas por que tem que ser eu? – perguntou Maggie.
– Por causa de quem você é – respondeu Adam. – Porque você carrega o sangue deles nas veias.
– Mas eu não carrego – protestou Maggie. – Meu tio era um Inspetor. Meus pais eram gente da Ordem. Meus irmãos estavam ambos na Ordem.
Adam tocou a sua nuca, onde a marca de runa Ác, o Carvalho do Trovão, ainda brilhava sob o cabelo tosado.
– Você não recebeu isso de Donal Rede. Ou de sua esposa Susan.
– Então, de quem eu recebi? – questionou Maggie.
Adam suspirou e tomou sua mão.
– Você me perguntou sobe a garota – disse ele.
Maggie olhou para ele ansiosamente. Desde seu retorno a Fim de Mundo ela havia ansiado por saber mais sobre a garota na Colina que se parecia tanto com ela, a chamara pelo nome e sabia sobre sua família.
– Isso pode ser um choque – disse Adam. Na verdade, ele estava se divertindo. Pela primeira vez desde que seu passageiro fizera residência em sua mente, ele estava experimentando a alegria de exercer poder.
– Quem é ela? – perguntou Maggie. – Ela me disse que não era uma inimiga.
– Talvez não para você – disse ele. – Mas para mim, para meu mestre, para todos os Mundos, para tudo que nós mais amamos…
– O que você quer dizer? Quem é ela?
Ele sorriu.
– Seu nome é Maddy Smith – disse ele. – Eu a conheci; lutei com ela há muito tempo, antes de conhecer meu mestre. Ela parece bastante comum, mas na verdade é uma das mais perigosas e poderosas integrantes do Povo-Vidente. Ela me odeia. Ela sempre me odiou. E…
Adam fez uma pausa para causar efeito.
– Sim?
– Maggie, ela é sua irmã.
Ele esperara lágrimas, histeria, talvez; para Adam, isso teria sido normal. Mas Maggie Rede não era uma garota comum, e embora seus lábios houvessem se apertado momentaneamente, sua expressão permaneceu estranhamente calma. Seu choque e repulsa ao descobrir a marca de runa em sua nuca agora parecia a uma eternidade de distância; na verdade, Adam pensou com ressentimento, ela era igual à própria Maddy: insolente, teimosa e inteligente demais para seu próprio bem.
– Como podemos ser irmãs? – perguntou ela. – Eu nunca nem mesmo a encontrei.
Adam deu um sorriso apertado.
– Claro que vocês não se encontraram – disse ele. – Mas vocês são irmãs, mesmo assim. Vocês são as filhas gêmeas de Thor e Jarnsaxa, do Caos e do Povo do Fogo. É por isso que meu mestre quer que você a mate enquanto tem chance. O elo que as une é perigoso, e até que ele possa ser cortado, sua alma vai sempre permanecer na balança, e o Povo-Vidente nunca a deixará em paz.
Por um longo tempo Maggie não disse nada. Será que em um mundo uma pessoa poderia parecer tão inofensiva – até mesmo gostável, em aparência – e em outro ser tão tortuosa e destrutiva como Adam Goodwin parecia sugerir?
Ela pensou no Cavalo Vermelho lá embaixo nos estábulos. Ele parecia um animal tão comum! E, no entanto, em outro mundo, ele era o Cavalo Vermelho dos Últimos Dias. Será que o que Adam dissera era verdade? Será que o inimigo era a própria irmã gêmea de Maggie?
Adam pôs o braço sobre seu ombro.
– Eu sei que você não quer isso, Maggie – falou ele. – Tal como eu também nunca quis. Mas tudo isso mudou quando eu a conheci. Juntos, podemos encarar qualquer coisa. Juntos, com a ajuda do meu mestre, podemos mudar os Nove Mundos, pegar o que foi destruído e construí-lo de novo.
– Podemos? – questionou Maggie.
– Claro que podemos.
E ao dizer isso ele olhou dentro dos olhos dela, e todo o senso comum de Maggie se dissolveu numa névoa cor-de-rosa. Ali estava alguém que conhecia seu coração; alguém que a aceitava; alguém com quem ela podia partilhar qualquer segredo, por mais sombrio que fosse.
Sua mão se dirigiu para a sua nuca, onde a marca de runa Ác estava brilhando como um tição.
– Você não acha que eu estou manchada? Por isto? – perguntou ela.
– Claro que não. – Adam sorriu. – Na verdade, eu acho que você é bonita.
Maggie olhou para ele com surpresa. Ela nunca fora uma beldade, naturalmente; nem mesmo antes de haver cortado seus cabelos. Pobre demais para adquirir as roupas caras que estavam na moda em Fim de Mundo, ela sempre fora considerada comum – alta demais; masculinizada demais; inteligente demais; insolente demais; sem vontade de desempenhar os jogos de sedução praticados por outras garotas de sua idade. Seus olhos luminosos eram diretos demais; seus cabelos, que haviam sido bonitos, estavam sempre escondidos sob um lenço. Agora até isso se acabara, e bem no momento em que Maggie, pela primeira vez na vida, havia começado a se preocupar com sua aparência.
Naturalmente, Adam sabia disso perfeitamente bem. Maggie Rede e Maddy Smith eram iguais em mais que feições; elas compartilhavam um temperamento similar, e mesmo suas diferentes formações haviam feito pouco para alterar essa semelhança. Ambas haviam sido crianças solitárias – Maddy passando horas sozinha na Floresta do Pequeno Urso, Maggie em seus covis subterrâneos sob a velha Universidade. Maggie tinha o orgulho de sua irmã; sua coragem e sua confiança. Mas por baixo de tudo, tudo que ele podia ver era que Maggie ansiava por alguém em quem pudesse confiar; por um amigo com quem pudesse trocar confidências – ou por quem, talvez, pudesse se apaixonar…
Amor? Maggie Rede teria rido à simples ideia há apenas alguns dias. Agora havia alguma coisa em seus olhos; um calor que tocava seu rosto simples com algo próximo à beleza. Adam Scattergood havia mudado também do mimado e taciturno jovem que fora um dia. Aos dezessete anos, ele era bonito; tinha um ar de mistério; sabia muitas coisas; era diferente de todos os outros homens jovens que ela conhecera. E o mais importante de tudo: estava dizendo a Maggie o que ela queria ouvir – que ele precisava dela, que ele a queria –, e para Maggie, ser necessária era o maior de todos os atrativos.
Ele delicadamente puxou o bergha que cobria o cabelo tosado de Maggie.
– Você precisa mesmo usar isso? Agora que eu a vi sem ele…
Mais uma vez, e desta vez pela última, Maggie hesitou.
– Mas Adam, meus cabelos…
– Eu gosto deles desse jeito. Eles a tornam diferente – disse ele.
Fora a primeira vez que Maggie ouvira esta palavra usada como tudo, menos uma negação.
– Diferente? – perguntou ela, permitindo que ele desfizesse o lenço de cabeça e o afastasse para longe.
Adam tocou ternamente seus cabelos.
– Lindos – repetiu ele.
Ele puxou Maggie para si; ela pousou a cabeça em seu ombro. A testa dela parecia feita para aquele abrigo; ela fechou seus olhos e se instalou ali.
– Eu ainda não confio em seu mestre – disse ela.
Adam sorriu.
– Você confia em mim?
Maggie concordou lentamente.
– Então, venha comigo – falou Adam. – E sonhe…