Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 10 de 103

Páginas do PDF

Luz das Runas

Capítulo 6

 

Exige certa força mental forçar um deus a fazer uma promessa. Até a Vidente havia achado isso difícil – o que uma vez levara à morte de Balder, o Belo, e à infortunada cadeia de eventos que havia resultado nas semanas que conduziram ao Ragnarók. Mesmo agora, não era fácil. Mas desprovido do Aspecto e com nenhuma força magnética a que recorrer, Loki estava suscetível ao máximo. E a força da Palavra, junto com uma poderosa combinação das runas Úr, Naudr, Isa – e algumas outras que ele não conseguia discernir muito bem –, foi suficiente para forçá-lo a uma soturna capitulação.

Mas um juramento prestado por um deus é aprisionador, como Hel havia descoberto quatro anos antes, no Fim do Mundo, na praia do Sonho, e rompê-lo teria efeito desastroso. Basicamente, a detestável verdade que o Astuto percebeu era esta: o que quer que o jovem pálido lhe ordenasse a fazer, ele agora era obrigado a fazer, ou teria que encarar as consequências cósmicas.

– Então, o que você quer? – perguntou ele, por fim, quando ficou claro que estava preso. Sentiu-se inquieto, como era natural que se sentisse: a última vez que fora capturado assim, fora por Thiassi, pai de Skadi, que, depois de três semanas de nada gentil persuasão, havia finalmente arrancado de Loki uma promessa de raptar Idun, a Curandeira, e entregá-la à custódia do Povo do Gelo. Tal juramento, uma vez feito, não pode ser quebrado sem incorrer no custo mais sério, e lhe exigira toda a astúcia e magnetismo para encontrar um meio de evitar tanto o pagamento quanto a retribuição.

– O que quer que vocês queiram, eu darei a vocês. Só me digam o que é, ok?

O jovem pálido deu de ombros.

– Estamos esperando – disse ele.

– Esperando? Pelo quê?

– Você verá.

Ocorreu a Loki mais uma vez que talvez Skadi estivesse por trás de tudo isso. Talvez ela não tivesse ido para casa. Talvez ela tivesse planejado isso por todo esse tempo. Os jovens captores podiam ser criaturas dela; embora parecessem do Povo, havia uma coisa de fera nos três, um brilho animal nos olhos dourados, nas bocas cheias de dentes demais…

– Então, não vão me dizer quem está na chefia?

– Você descobrirá logo – veio a resposta.

O jovem pálido que havia lançado a Palavra agora se virara para seus companheiros.

– Vigiem-no para mim, vocês dois. Se ele tentar se mover, batam nele.

Loki deu-lhe um olhar magoado.

– Quem, eu? O que foi que eu fiz?

O Grande H baixou um olhar de esguelha para Loki, parecendo, se isso era possível, ainda maior e mais ameaçador do que antes. Um débil cheiro repugnante de carne podre pareceu emanar dele. Loki sentiu que a higiene pessoal não estava no topo da lista de prioridades daquele jovem.

– Eu darei uma cintada da minha força magnética nele – disse o Grande H.

Força magnética?, pensou Loki. Que força magnética?

Mais do que nunca, ele ansiava por uma visão concreta, que mostraria o que ele precisava ver. Mas a própria força magnética estava ainda apagada, e os irmãos não mostravam cor alguma, nem qualquer sinal de uma runa, embora agora que ele olhava mais de perto, pudesse ver que portavam tatuagens semelhantes: um sol flamejante no braço do Grande H, uma lua cheia no braço de seus amigos, cada uma delas ladeadas por um símbolo que Loki conhecia como a Cruz do Lobo. Não um sinal de runa, exatamente, mas um sinal de aliança com o Caos em uma de suas mais sombrias e sinistras formas.

 

O líder deles havia se movido para o fundo da caverna, aparentemente à espera de alguém. Loki, aproveitando-se da oportunidade para ganhar informações, virou-se para o menor de seus captores e lhe abriu o sorriso mais inocente.

– Então, Grande H… – balbuciou.

– Não, eu sou Caveira – corrigiu o jovem.

– Cara… – O Grande H deu-lhe uma cotovelada.

– Ops. Desculpa.

Loki não disse nada, mas sorriu por dentro. Agora, pelo menos, sabia seus nomes. Apelidos, os dois, supôs; mas cada pedacinho de informação era valioso. Ele vestiu sua expressão mais inocente e virou-se para os irmãos mais uma vez.

– Então, o que aconteceu com seu polegar? – perguntou ele, apontando a bandagem que adornava a mão de Grande H. Parecia coincidência demais que todos os três captores pudessem ter sofrido acidentes idênticos. E agora que ele começara a pensar nisso, será que não havia alguma coisa estranha nisso tudo, uma coisa que fazia soar um alarme distante?

– Nós, tipo, prestamos um juramento.

– Irmãos de sangue, cara – completou o Grande H.

– É mesmo? – disse Loki. – Então, vocês não são irmãos verdadeiros? Quero dizer, vocês dois se parecem, são muito semelhantes. O que o H significa? Harmonioso? Hilário? Hostil? Hercúleo? Eu disse harmonioso, certo? Eu realmente quis dizer harmonioso. Ah, acho que não entendi o nome do seu irmão?

– Não falem com ele – advertiu a voz de seu líder do fundo da grande caverna. – Ela não disse para não falar com ele?

– Ela? – perguntou Loki apreensivamente. Mais uma vez, imagens de Skadi e seu chicote de runas tomaram forma inquietante em seus pensamentos.

– Cara – disse o jovem peludo. – Você ouviu o que Fenny disse. Cale a boca!

Loki ocultou um sorriso triunfante. Fenny, ele pensou. Então, é este o seu nome.

Nomes, como ele sabia por experiência, eram palavras de poder, nunca concedidas levianamente. Mas esse não era um nome que reconhecesse, e relanceou os olhos através da caverna outra vez, tentando ver se havia no rosto do jovem algo que pudesse lhe dar uma pista da natureza – bem como da dimensão – do problema em que se metera.

Nada. Só a luz da lanterna e as sombras que saltavam como lanças arremessadas contra as paredes de rocha da caverna. Então…

Só por um momento ele viu uma coisa. Talvez fosse um truque da luz, mas ela trouxera de volta um brilho aos seus olhos e um tremor de reconhecimento em sua mente. Havia alguma coisa naquele perfil. Alguma coisa naquelas tatuagens semelhantes. E alguma coisa por trás da forma humana – um vestígio de cores imperfeitamente escondidas, um filete distante de violeta…

Ah. É claro. Ali estava. Um traço de assinatura no ar, tão débil que Loki não o havia percebido a princípio. Então, quando seu magnetismo gasto começou a se recuperar, as cores lentamente voltaram, filamento por filamento, envolvendo sua silhueta com seu reflexo fugaz de Arco-Íris.

Loki traçou a forma da runa Bjarkán e, através dela, tentou ver Fenny mais de perto, mas suas mãos estavam amarradas com força demais para isso, e a impressão momentânea que pensara ter tido – a de que havia outra pessoa por trás do garoto – desapareceu num borrão de luz e sombra.

– Pare com isso, você – advertiu o Grande H.

– Parar com quê?

– Você sabe o quê.

Frustrado, Loki balançou a cabeça. Não era nada bom, ele disse a si mesmo. Não havia nada que pudesse fazer. A menos que…

Eu darei uma cintada do meu magnetismo nele, dissera ele.

Agora Loki pensava sobre a ameaça do Grande H. Se ele pudesse persuadi-lo a usar seu magnetismo – ou o que quer que ele julgasse ser isso –, então a explosão de luz de runas que viria inevitavelmente na sequência poderia muito bem ser suficiente para identificar sua assinatura, ou no mínimo para revelar quão forte ele era. Naturalmente, Loki não desejava levar uma cintada de nada, mas às vezes é preciso correr um risco.

Ele arreganhou seus dentes.

– Você fede – disse ele.

O Grande H olhou para ele.

– Está falando comigo?

– Bem, dã – disse Loki. – O que você acha? Já é ruim o suficiente ter que olhar para vocês dois sem ter que sentir o cheiro de vocês. Quero dizer, seu povo não toma banho?

– Cara, ele está muito ferrado! – disse Caveira, não sem admiração. – Ninguém desrespeita a Irmandade. Não me importo de quem ele seja pai…

– Cale a boca! – gritou Fenny do fundo da caverna.

Loki ignorou-o.

– Irmandade? Que Irmandade? A Irmandade de BO? E que tipo de dialeto é esse, afinal? Das Divisões do Norte? Da terra das ovelhas? Você me parece o tipo de homem que pode dar sorte com suas ovelhas…

– Dar sorte com as suas ovelhas? – O rosto do Grande H estava perigosamente congestionado.

– Bem, você se parece com um…

O soco, quando veio, foi tão completamente poderoso quanto Loki temera. Ele o atingiu bem no lado da cabeça, lançando-o de lado contra a parede de rocha. O único problema era que o Grande H não usara força magnética, só uma de suas grandes e peludas mãos, e as únicas cores que Loki pôde ver foram as estrelas que dançaram diante dos seus olhos.

Não foi um plano tão bom, afinal.

Ele caiu de lado, respirando com dificuldade, tentando ligar os poucos fatos que possuía. Fenny. Caveira. Grande H. A Irmandade. Aquelas tatuagens idênticas. Aquelas cores. Ele as vira anteriormente, sabia que sim. Se apenas pudesse lembrar onde!…

Os olhos de um verde flamejante de Loki se arregalaram na escuridão.

A Cruz do Lobo.

Pai dos Lobos.

Não me importo de quem ele seja pai…

– Ah, não! – sussurrou ele.

Então veio um bater de asas quando uma coisa grande voou para dentro da caverna. Alguma espécie de pássaro, pensou Loki, e mais uma vez ele pensou na Caçadora – mas Skadi, ele sabia, teria escolhido uma forma que refletisse alguma coisa do mundo natural. Um falcão, talvez, ou um puma, ou seu Aspecto favorito, o lobo das neves.

Aquela criatura era uma coisa semelhante a um pássaro, mas nenhum pássaro que Loki tivesse conhecido. Em vez disso, parecia o desenho de uma criança traçado a partir de algo vislumbrado em sonhos: as asas eram de um roxo violento, a cabeça de um escarlate vivo. Ele pousou numa saliência de rocha, com faíscas espirrando do rabo de fogo, e cravou um olhar penetrante em Loki.

Por trás dele veio correndo uma figura pequena, com uma perna torta, agressiva, pouco menor que um duende em altura, mas com uma cabeça quadrada, maciça, que lhe dava uma aparência do Povo do Túnel.

Ela lançou sobre Loki um olhar de desprezo.

– Ah, é você, seu maldito! – disse ela.