Luz das Runas
Capítulo 4
A revelação do pequeno homem de cabeça quadrada causou tumulto entre os deuses. Apenas Loki pareceu totalmente inclinado a cair na risada, embora sensatamente tenha saído de perto quando os Æsir e os Vanir se encararam um ao outro com expressões de ultraje e incredulidade, e Jolly simplesmente continuou tomando seu chá e sorrindo de orelha a orelha com sua cara de macaquinho.
– Thor, o que em nome dos Infernos está acontecendo? – perguntou Heimdall, recuperando finalmente a sua voz. – Como pode isso, isso, ser um martelo?
Jolly sorriu perversamente.
– Aprendi algumas novas habilidades quando estive no Mundo Superior – disse ele, parecendo satisfeito consigo mesmo. – Não podia ficar só deitado por aí esperando vocês despertarem, podia?
Heimdall lançou um olhar feroz para Loki.
– E você está tentando nos dizer que você não sabia?
– Não olhem para mim – falou o Astuto. – Eu não fiz o Mjolnir. Nós todos sabíamos que ele tinha poderes…
– Poderes, sim. Mas braços? Pernas?
Jolly coçou suas axilas e bocejou.
– Pensei que vocês ficariam mais satisfeitos por me ver – disse ele. – Levando em conta que vão precisar de mim em breve.
Loki apertou os olhos ao encará-lo.
– Você não é um oráculo também, é?
Jolly balançou a cabeça.
– Graças aos deuses.
– Ainda assim – disse Jolly animadamente, servindo-se de mais chá. – Pelo que eu soube, há problemas se aproximando por aí, e vocês vão precisar de toda pequena ajuda de que puderem dispor. Porque se eles vierem até vocês através do Sonho…
– Malditas profecias! – disse Thor. – Por que elas nunca fazem sentido lógico? Todo esse negócio sobre portais e sonhos! Todo esse negócio sobre novas runas! Por que não podemos ter guerra no mundo real? – Ele arreganhou os dentes para Jolly, que arreganhou os próprios dentes em resposta. – Com o Mjolnir e o Corajoso Tyr ao nosso lado, nós lhes daremos umas marteladas danadas de boas.
O Corajoso Tyr deu um sorrisinho débil.
– A guerra é realmente a resposta? – perguntou ele.
Jolly deu-lhe um sorriso sagaz.
– Está se acovardando, é? – sugeriu ele.
– Claro que não – falou Açúcar. – Mas, Deus da Guerra, esta função não deveria ir para alguém… mais belicoso?
Jolly deu de ombros.
– Um pouco tarde para isso agora, não é? – Ele esticou os pés sobre a otomana. – Ótimo chá, a propósito. Há mais desses biscoitos?
– Então, hum, Jolly – disse Thor, cuja expressão frustrada havia gradualmente evoluído para uma expressão de impaciência crescente. – Quero dizer, estou feliz que você tenha se ocupado e tudo mais, mas… quando vou conseguir meu martelo de volta?
Jolly deu-lhe uma olhada.
– O quê?
– Bem, é claro que estou feliz por conhecê-lo, mas… quando vou conseguir meu martelo de volta?
O rosto de Jolly assumiu uma expressão não diferente da do rosto de Thor.
– E isso é tudo que eu ganho, é? – perguntou ele. – Nada de Ei, Jolly, estou tão feliz por você estar aqui ou Como é que foi ser engolido pela Serpente do Mundo? Ou mesmo Como você se saiu no meio do Povo? Não. É apenas Onde está meu maldito martelo? Sem nem pedir por favor…
– Bem, você realmente me pertence – comentou Thor.
– Pertenço a você? – reagiu Jolly asperamente. – Farei você entender que as coisas mudaram um tanto desde que fui propriedade de alguém. Não estou aqui apenas para bater nas coisas. E se você está esperando que eu me dobre e me sente no seu bolso como eu costumava fazer nos velhos dias, então pode esperar outra coisa, porque eu tenho minhas próprias ocupações…
– Mas você é um martelo! – protestou Thor.
– Não sou mais – disse Jolly, calmamente voltando a finalizar o seu chá.
O rosto de Thor se escureceu ainda mais.
– Loki… – disse ele numa voz perigosa.
Mas como o Astuto havia sensatamente escolhido aquele momento para encontrar alguma coisa urgente a fazer em outra parte, restou a Thor perceber que talvez houvesse alguém, afinal, que o irritava mais do que Loki.
Saber disso não fez nada para melhorar seu ânimo, e houve nuvens de trovão sobre a Colina do Cavalo Vermelho ao longo de toda aquela tarde, enquanto, do topo de outra montanha, um olho penetrante se ergueu no vale do Strond, e dois pássaros negros voaram para dentro da tempestade. Contornaram o relâmpago que fulminou os céus, giraram em torno dos Adormecidos duas vezes e depois rapidamente foram perdidos de vista.