Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 20 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 4

 

A revelação do pequeno homem de cabeça quadrada causou tumulto entre os deuses. Apenas Loki pareceu totalmente inclinado a cair na risada, embora sensatamente tenha saído de perto quando os Æsir e os Vanir se encararam um ao outro com expressões de ultraje e incredulidade, e Jolly simplesmente continuou tomando seu chá e sorrindo de orelha a orelha com sua cara de macaquinho.

– Thor, o que em nome dos Infernos está acontecendo? – perguntou Heimdall, recuperando finalmente a sua voz. – Como pode isso, isso, ser um martelo?

Jolly sorriu perversamente.

– Aprendi algumas novas habilidades quando estive no Mundo Superior – disse ele, parecendo satisfeito consigo mesmo. – Não podia ficar só deitado por aí esperando vocês despertarem, podia?

Heimdall lançou um olhar feroz para Loki.

– E você está tentando nos dizer que você não sabia?

– Não olhem para mim – falou o Astuto. – Eu não fiz o Mjolnir. Nós todos sabíamos que ele tinha poderes…

– Poderes, sim. Mas braços? Pernas?

Jolly coçou suas axilas e bocejou.

– Pensei que vocês ficariam mais satisfeitos por me ver – disse ele. – Levando em conta que vão precisar de mim em breve.

Loki apertou os olhos ao encará-lo.

– Você não é um oráculo também, é?

Jolly balançou a cabeça.

– Graças aos deuses.

– Ainda assim – disse Jolly animadamente, servindo-se de mais chá. – Pelo que eu soube, há problemas se aproximando por aí, e vocês vão precisar de toda pequena ajuda de que puderem dispor. Porque se eles vierem até vocês através do Sonho…

– Malditas profecias! – disse Thor. – Por que elas nunca fazem sentido lógico? Todo esse negócio sobre portais e sonhos! Todo esse negócio sobre novas runas! Por que não podemos ter guerra no mundo real? – Ele arreganhou os dentes para Jolly, que arreganhou os próprios dentes em resposta. – Com o Mjolnir e o Corajoso Tyr ao nosso lado, nós lhes daremos umas marteladas danadas de boas.

O Corajoso Tyr deu um sorrisinho débil.

– A guerra é realmente a resposta? – perguntou ele.

Jolly deu-lhe um sorriso sagaz.

– Está se acovardando, é? – sugeriu ele.

– Claro que não – falou Açúcar. – Mas, Deus da Guerra, esta função não deveria ir para alguém… mais belicoso?

Jolly deu de ombros.

– Um pouco tarde para isso agora, não é? – Ele esticou os pés sobre a otomana. – Ótimo chá, a propósito. Há mais desses biscoitos?

– Então, hum, Jolly – disse Thor, cuja expressão frustrada havia gradualmente evoluído para uma expressão de impaciência crescente. – Quero dizer, estou feliz que você tenha se ocupado e tudo mais, mas… quando vou conseguir meu martelo de volta?

Jolly deu-lhe uma olhada.

– O quê?

– Bem, é claro que estou feliz por conhecê-lo, mas… quando vou conseguir meu martelo de volta?

O rosto de Jolly assumiu uma expressão não diferente da do rosto de Thor.

– E isso é tudo que eu ganho, é? – perguntou ele. – Nada de Ei, Jolly, estou tão feliz por você estar aqui ou Como é que foi ser engolido pela Serpente do Mundo? Ou mesmo Como você se saiu no meio do Povo? Não. É apenas Onde está meu maldito martelo? Sem nem pedir por favor…

– Bem, você realmente me pertence – comentou Thor.

– Pertenço a você? – reagiu Jolly asperamente. – Farei você entender que as coisas mudaram um tanto desde que fui propriedade de alguém. Não estou aqui apenas para bater nas coisas. E se você está esperando que eu me dobre e me sente no seu bolso como eu costumava fazer nos velhos dias, então pode esperar outra coisa, porque eu tenho minhas próprias ocupações…

– Mas você é um martelo! – protestou Thor.

– Não sou mais – disse Jolly, calmamente voltando a finalizar o seu chá.

O rosto de Thor se escureceu ainda mais.

– Loki… – disse ele numa voz perigosa.

Mas como o Astuto havia sensatamente escolhido aquele momento para encontrar alguma coisa urgente a fazer em outra parte, restou a Thor perceber que talvez houvesse alguém, afinal, que o irritava mais do que Loki.

Saber disso não fez nada para melhorar seu ânimo, e houve nuvens de trovão sobre a Colina do Cavalo Vermelho ao longo de toda aquela tarde, enquanto, do topo de outra montanha, um olho penetrante se ergueu no vale do Strond, e dois pássaros negros voaram para dentro da tempestade. Contornaram o relâmpago que fulminou os céus, giraram em torno dos Adormecidos duas vezes e depois rapidamente foram perdidos de vista.