Luz das Runas
Capítulo 6
Nan não tinha medo dos sonhos. O Sonho era a fonte viva de tudo. O Sonho liga a Ordem e o Caos, ela sabia; o Sonho liga a Morte ao Mundo Médio. Um sonhador pode falar com os mortos, caminhar com os deuses, construir maravilhosos castelos no ar.
E nada sonhado está perdido, e nada está perdido para sempre…
Sete dias haviam se passado desde que Nan Fey se tornara o Cavaleiro da Loucura. Durante esse tempo ela havia seguido as instruções que lhe eram retransmitidas pelos pássaros do Velho Homem, esperando, com alguma apreensão, pelo momento em que seria convocada a agir – embora o que exatamente se esperava que ela fizesse fosse ainda uma coisa misteriosa. Até então, tudo que tivera que fazer fora alimentar seus gatos e Epona, cuidar de sua casinha e esperar até que a nuvem de sonho que viria da Colina do Cavalo Vermelho rastejasse até às proximidades da aldeia.
Na verdade, ela não estava mais rastejando. Na manhã de Domingo a nuvem se tornara uma asa espalhada sobre o vale, lançando sua sombra de Bons Campos até às margens do Strond. A casa de Nan estava longe o suficiente para dar a ela alguns dias a mais de segurança; mas Malbry estava bem em seu caminho. Grupos de refugiados já haviam se mudado conforme a nuvem avançava – alguns chegando à Floresta do Pequeno Urso –, mas a maior parte dos aldeãos de Malbry nunca havia saído do vale, e a ideia de deixá-lo agora, mesmo em face de tal perigo, era demais para que suportassem.
Nan esperou por tanto tempo quanto pôde. Mas na noite de sexta-feira, com a nuvem de sonho cobrindo o céu e sufocando até o som do Strond com seu rugido surdo, odioso, ela concluiu que não havia tempo a perder. Com ou sem as ordens do Velho Homem, ela tinha que fazer alguma coisa para ajudar. Sozinha, fora de Aspecto, ela duvidava se seria de qualquer utilidade para os aldeões. Mas talvez se cavalgasse Epona…
Ela pôs suas botas mais reforçadas, o xale e o chapéu que usava para os dias de festa. Depois saiu para o quintal a fim de dar uma olhada no Cavalo do Ar.
Em seu presente Aspecto ela pareceu (para Nan, que nunca havia realmente cavalgado) muito mais atemorizante do que parecera quando elas haviam voado juntas através do Sonho. Não portava nem sela nem rédea; então inspecionou-a cheia de dúvidas e se perguntou se ela conseguiria carregá-la. Uma queda em sua idade significava a morte; e isso parecia provável demais para Nan, cujos velhos ossos quebradiços temiam o mais ligeiro choque e doíam quando chovia.
Ainda assim, ela disse a si mesma, uma pessoa que havia voado através do Sonho numa cesta de roupa para lavar não deve temer nada de uma velha égua, e então pegou na crina do Cavalo e, pondo-se em pé sobre um velho cepo de árvore, sussurrou no ouvido de Epona:
– Agora, então, velha garota. Vamos cavalgar, direitinho e suavemente, para Malbry.
Epona ergueu sua cabeça e relinchou.
– Boa garota – disse a Louca Nan. E com um esforço, ela pôs sua velha perna sobre o lombo do cavalo branco e içou-se no lugar, agarrando-se bem e com força, com as suas duas mãos apertando a crina do Cavalo. – Esta é minha boa garota – repetiu Nan quando, sem mais prelúdio, o Cavalo do Ar começou a caminhar, depois a trotar, e finalmente a galopar pela estrada de Malbry abaixo enquanto Nan se segurava para sobreviver, e o som da brecha no Sonho aumentava gradualmente de um rugido distante para o de uma tempestade.
Acima dela, dois corvos circulavam, mas o som dos trovões na brecha no Sonho engoliu seus gritos, como engoliu tudo mais.
– Boa garota – falou Nan Fey outra vez e, batendo com seus calcanhares, ela cavalgou o Cavalo Branco dos Últimos Dias em direção à nuvem de sonho, enquanto em Fim de Mundo, o Velho Homem dormia, e um Cavaleiro cujo nome era Traição vagava a esmo pelas ruas da Cidade Universal, ainda ignorante do fato de que o verdadeiro traidor era outra pessoa…