Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 54 de 103

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Luz das Runas

LIVRO CINCO – O Circo do Pandemônio

LIVRO CINCO

O Circo do Pandemônio

Não hesite em tirar vantagem de um otário.

(Velho provérbio Interiorano)

1

 

Enquanto isso, na estrada para as Divisões, um espetáculo sem igual desde a Velha Era abria caminho para Fim de Mundo com o objetivo de chegar bem a tempo do Ragnarók. Viajando agilmente dia e noite, mudando cavalos a cada parada – mil quilômetros em sete dias não seriam uma pequena proeza para esses cavalos, mesmo com runas de resistência costuradas em seus arreios – e com duas apresentações diárias, o Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo, agora em seu terceiro dia de existência, abrira seu caminho descendo pelo Hindarfell, atravessando as Divisões do Norte em direção a Fim de Mundo, apresentando-se em aldeias ao longo do caminho – para deslumbramento e aplausos do Povo.

Um circo – mesmo um de pequenas dimensões – tende a atrair atenção, e quando ele ostenta atrações como um Garoto Lobo, uma Rainha dos Porcos, Helga e Seus Brutamontes e a Mais Bela Mulher do Mundo, passar despercebido geralmente deixa de ser uma opção. Loki havia entendido isso desde o princípio, mas sabia que às vezes esconder-se à vista de todos era mais fácil que tentar passar despercebido.

Loki estava, sem dúvida, gostando imensamente da coisa. Ele era um showman natural. Suas palavras mantinham o público hipnotizado, e com iluminação inteligente e um punhado de feitiços, eles os trazia na palma da mão. Ficaria ainda mais feliz se Sigyn não estivesse com ele, mas a despeito de seus esforços para livrar-se dela, ela havia permanecido ao seu lado, ligada a ele pela fina corrente de ouro; ora em seu próprio Aspecto, ora na forma da pequena bolota dourada que havia assumido durante sua fuga de Malbry.

No entanto, nem isso podia diminuir a satisfação de Loki. Acrescente-se às atrações principais Jolly e Açúcar, em figurinos coloridos, dirigindo uma pequena carroça puxada por um par de perus; os Irmãos Lobos e Angie, em Aspectos; o Homem Mais Forte do Mundo (este era Thor); Heimdall, em seu disfarce de falcão, num ato duplo com a águia do mar de Njörd, e (ou assim o Astuto afirmava) o Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo teria sucesso garantido.

Os deuses e seus associados tinham sentimentos mais desencontrados. Freya, no seu papel atual de Mais Bela Mulher do Mundo, estava naturalmente mais que satisfeita. Repousando em Aspecto total numa tenda dourada e branca, ela sustentava uma corte de admiradores que, com a ajuda de um ou dois feitiços, estavam mais que ansiosos por doar suprimentos, dinheiro, presentes ou o que quer que Freya (ou mais frequentemente Loki) desejasse. Bragi, agora anunciado como o Rouxinol Humano, deleitou-se em passar seus dias cantando e fazendo música para uma multidão de adoradoras do povo. Até Skadi, em seu papel de Helga, com seus Cães de Trenó, teve boa vontade para tolerar a tolice até certo ponto, embora estivesse certa de que, mesmo com os cavalos em cada posto e o contínuo apoio do Povo, Loki falharia em conduzi-los até Fim de Mundo a tempo, e ela estava mais era satisfeita com a perspectiva de ver o Astuto comer o pó – como comeria, na manhã do sétimo dia, se neste dia eles não houvessem chegado aos portais da Cidade Universal.

Sif, no entanto, estava menos satisfeita. Petula, Rainha dos Porcos, havia se provado quase tão popular quanto a própria Freya, especialmente entre as crianças, que sempre traziam consigo cestas de comida, pois Loki havia garantido às multidões pasmadas que a Rainha dos Porcos consumia não menos que catorze pães por dia, bem como seis galões de maçãs, uma costela de bife, uma perna de carneiro, uma truta defumada, uma torta de frango, um bolo de sementes, um bolo de ameixa, cinco dúzias de tortas de geleia (Loki tinha uma queda por tortas de geleia), um quarto de galão de leite e uma dúzia de garrafas da melhor cerveja – e isso, naturalmente, era Inverno, que, conforme Loki lhes disse, era um tempo de jejum para a Rainha dos Porcos; do contrário, teria ficado tão pesada que mesmo uma junta de bois teria achado impossível transportá-la.

A história conveniente garantiu que o Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo ficasse sempre bem provisionado; embora, naturalmente, também significasse que Sif havia passado os últimos três dias em fúria perpétua, tempo em que Thor havia sensatamente se mantido longe dela – isto é, quando ele não estava já empenhado em erguer carroções de feno, brigar com touros a unha, fazer malabarismo com bigornas e apresentar todas as outras proezas esperadas do Homem Mais Forte do Mundo.

A viagem estava indo muito bem. As estradas estavam em sua maioria livres da neve. Desde que passaram o Hindarfell, haviam conseguido cobrir trezentos quilômetros – excelente marca para as estradas mais ao norte – e pela noite de seu terceiro dia estavam se aproximando da fronteira nas Terras Baixas.

A fronteira era marcada pelo rio Vimur, e o único ponto de travessia a oitenta quilômetros passava por uma cidade chamada Rhydian. Era um centro de comércio de certa importância, um cidade de mercados industriais repleta de operários, fazendeiros, tecelões, pedreiros, curtidores, barqueiros movendo sua carga rio abaixo em direção a Fim de Mundo; e cobrindo o rio em sua parte mais estreita, ficava a maravilhosa Ponte de Rhydian, conhecida em todo o Interior como uma das maravilhas da Era.

Ninguém se lembrava de quão velha ela era. Alguns afirmavam que era um trabalho de Jonathan Gift, o gênio que havia projetado a catedral do Santo Sepulcro. Com aproximadamente cento e vinte metros, suspensa de quatro grandes pilonos de pedra por dezesseis cabos de aço trançado, a ponte havia coberto o Vimur desde antes que alguém pudesse lembrar, quase intocada pela passagem do tempo. Rezava a lenda que havia antigas runas embutidas nas fundações da ponte que impediam as pedras de se esfarelarem, os delicados cabos de aço de se enfraquecerem. Fosse como fosse, as habilidades exigidas para projetar e construir tal maravilha havia muito tinham sido perdidas nas névoas do tempo, com o resultado de que, ao longo dos séculos, Rhydian havia se tornado a maior cidade fora de Fim de Mundo, um centro de comércio e indústria que ficava em segundo lugar apenas para a própria Cidade Universal.

No meio da tarde, em meio a uma névoa que se erguia, eles já conseguiam ver a Ponte de Rhydian, solitária contra o céu que escurecia. Podiam até sentir o cheiro da fumaça da cidade e dos curtumes nas margens do rio, um cheiro repulsivo, desagradável e químico; mas para Loki – que estava reclinado sobre uma pilha de peles na parte traseira de seu vagão, bebendo de uma garrafa de vinho e comendo uma das tortas de geleia de Sif –, aquele era o cheiro do dinheiro.

O lugar mais apropriado para um circo, ele pensou. Gente com dinheiro e mercadorias para negociar estava sempre em expectativa de divertimento. Esta não era uma aldeia das Terras Altas, que negociava com baguetes de pães e fardos de cerveja. Ali haveria cavalos, ouro, peles, vinhos finos, talvez até escravos. O povo, embora talvez não tão sofisticado quanto os habitantes de Fim de Mundo, teria a mesma espécie de gostos caros que acompanhava o dinheiro do extremo norte. Com sorte e o tipo certo de patrocínio, o circo poderia seguir viagem fornido por pelo menos uns cento e sessenta quilômetros antes de ter que se abastecer novamente, o que os colocaria a um voo de corvo de seu destino.

Em todo caso, os viajantes não tinham outra escolha além de cruzar o Vimur pela Ponte de Rhydian. O desvio para o próximo ponto de travessia significaria mais de um dia extra de jornada, toda ela através de estradas menores, e Loki não podia se dar ao luxo de perder nem meio dia no intrincado itinerário que havia planejado. Já estavam no terceiro dia de viagem para Fim de Mundo. Havia jurado que os conduziria através dos portões da cidade na manhã do sétimo dia – o que significava que tinham que se mover rapidamente se quisessem chegar lá a tempo.

Ele não estava esperando problemas. Por três dias os deuses haviam se provado mais que capazes de lidar com os poucos contratempos com que haviam se deparado: um par de bandos de foras da lei, rapidamente despachados por Thor; uma ou duas patrulhas oficiosas de fronteira, que haviam se provado incapazes de resistir ao encanto de Freya; estradas obstruídas por montes de lama ou neve – em resumo, nada fora do comum, e as coisas iam tão perfeitamente bem que o Astuto havia até se permitido ficar um pouquinho complacente.

Agora, com Rhydian à vista e, além dela, as amplamente fáceis estradas das Terras Baixas, ele se permitiu baixar a guarda…

Foi seu único erro.

A princípio a coisa parecia muito promissora! As primeiras impressões contam, e com isso em mente, o Astuto havia tomado grande cuidado com os três vagões que compunham sua comitiva, cada um deles puxado por um par de cavalos e com estas palavras, em dourado, sobre um fundo escarlate:

O PEQUENO CIRCO PANDEMÔNIO DO FELIZARDO!

UM PARADIGMA DE EXCELÊNCIA!

MONSTROS E PRODÍGIOS!

CURAS DA NOVA ERA!

MISTÉRIOS DOS DIAS ANTIGOS!

VENHA UM, E VENHAM TODOS!

Esta propaganda um tanto cabotina havia funcionado muito bem em outras cidades, e o Astuto estava satisfeito com o efeito. Os artistas em pessoa flanqueavam os vagões – Thor, nu até a cintura para exibir seus músculos; Sif cavalgando ao seu lado, no Aspecto de Porca, em gorro e túnica. A seguir vinham Idun e Bragi – Idun lançando pétalas de flores sobre a multidão (além de suas habilidades de cura, ela parece ter a habilidade de produzir flores e frutas de qualquer espécie, sem esforço, fora ou dentro da estação); Bragi tocando sua guitarra.

Na retaguarda vinham Angrboda com Fenris e os Garotos Lobos, todos os três em Aspectos, com coleiras e correntes, trotando obedientemente em seus calcanhares, embora um pouco à frente do comboio, Jolly e Açúcar – rebatizados de Resmungão e Toquinho por Loki, para a sua grande indignação – seguiam em seu carrinho puxado por perus, jogando folhetos e punhados de doces sobre as multidões que se enfileiravam nas ruas…

Pelo menos até chegarem a Rhydian.

Mas em Rhydian não havia multidões. Ninguém saiu para ver o show. Nenhuma criança correu atrás dos cavalos; ninguém riu dos anões no carrinho. Loki, que geralmente conduzia a procissão, ficou a princípio intrigado, depois confuso, e por último ferido.

O que pelos Mundos havia de errado com esse Povo? Não era excesso de zelo Ordeiro que mantinha os empurradores de barcos longe do show; não havia em Rhydian qualquer lei contra o circo itinerante. Não podia ser falta de interesse; a menos que esse Povo fosse uma raça diferente de todas as outras que Loki havia conhecido, devia haver uma porção de apreciadores de monstros e prodígios e curas milagrosas.

Finalmente, quando já estavam em Rhydian havia cerca de uma hora e ninguém, exceto alguns cães, um andarilho e uma velha com um bergha negro, havia aparecido para ver o show, Loki fez a pergunta.

– O que é há com este lugar? – indagou ele, dirigindo-se à anciã, que estava sentada no meio-fio bebendo uma garrafa de cerveja das Divisões. – Não tem ninguém aqui que aprecie as artes?

A velha senhora deu de ombros e sorriu para ele, expondo uma série de finos dentes de madeira.

– Claro que tem, rapaz – falou ela. – Mas teremos que esperar até o sol se por. É quando a cidade fica viva, entende? É quando o povo sai para se divertir.

– Ah – disse Loki.

A anciã sorriu novamente.

– Mas não vá contando com os ovos da galinha ainda. Nós temos um circo próprio. Lá no alto da Ponte Meridiana. – Ela usava o termo mais arcaico para a ponte, o que a tornava uma das poucas sobreviventes que se lembrava do verdadeiro nome da Rhydian. – Oferece um show danado de bom também. Todo dia quando o sol se põe. Aposto que eles poderiam ensinar uma ou duas coisinhas para vocês.

– Você acha? – perguntou Loki.

– Acho sim – respondeu a anciã. – Acho que vocês terão que comer muito arroz e feijão até encontrar coisa melhor que o Carnaval do Capitão Caos. Mas não precisam levar em conta minhas palavras. Vejam por vocês mesmos. Estejam na ponte ao pôr do sol. Vai ser um Inferno de show…

E, dito isso, a idosa lançou-lhes um sorriso que exibia cada um de seus dentes de madeira, então voltou a beber sua cerveja das Divisões.