Luz das Runas
LIVRO OITO – Bif-Rost
LIVRO OITO
Bif-Rost
Quando o arco se quebrar, o Berço cairá…
Cantiga infantil das Terras do Norte
1
Mais de quinhentos anos haviam se passado desde a criação da Cidade Universal. O homem que a planejara havia desaparecido há muito tempo; e as habilidades que haviam sido aplicadas em sua construção haviam sido esquecidas por séculos. Mas nada nunca está perdido, como se diz, e se Maggie Rede tivesse prestado mais atenção aos conteúdos daquelas velhas áridas histórias, em vez de estudar contos de aventura, ela podia ter se lembrado do nome de certo arquiteto, que uma vez fora um Professor de Matemática na Universidade das Verdades Imutáveis, que, ao fim da Guerra de Inverno, começando com uma simples pedra da desmoronada Cidadela, e, coroando-a finalmente com torres agulhadas e cúpulas, rebatizara-a de Cidade Universal.
O nome daquele homem era Jonathan Gift, e depois de sua morte havia sido sepultado na catedral da cidade, cuja cúpula gigante de cristal havia sido sua realização mais ambiciosa. Mas quando a Ordem emergiu, o nome de Jonathan Gift ficou esquecido, e apenas seu legado permaneceu. Seu sepulcro – a Pedra Fundamental – se tornou um lugar de reverência por todo o Fim de Mundo e as Terras do Sul.
Entalhada com runas e cânticos que ninguém lembrava, a Pedra Fundamental de Fim de Mundo – ou a Pedra do Beijo, como logo ficou conhecida – havia adquirido uma reputação mítica. O Povo ia ali para se casar, ou ser abençoado, para beijar a Pedra a fim de obter boa sorte; e havia relatos de milagres, histórias de curas inesperadas – de vozes e visões de Mundos Além.
Essas histórias haviam sido tão disseminadas que por fim a Ordem declarou Gift como santo – Santo Sepulcro, do Fogo Sagrado –, e no Bom Livro contava a história de como ele, com o auxílio do Insondável, havia reconstruído a cidade em sete dias, com nada senão jejum e cânticos.
Odin podia ter contado muito mais. Mas no momento ele tinha seus próprios problemas – sua morte sendo apenas um deles. Loki também sabia a verdade, embora naquele momento ele tivesse preocupações mais urgentes que preencher as lacunas da história de Fim de Mundo. No sexto dia de sua viagem, com as torres da cidade quase à vista, o Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo fizera uma parada frustrante.
Aquela manhã havia trazido uma névoa terrestre que rolara sobre eles enquanto se aproximavam. A princípio ela não lhes causara preocupação; a estrada era larga e bem trilhada, e embora mal pudessem ver a beirada, todos sabiam para onde estavam se dirigindo.
Mas a névoa era fria e persistente; ela privou-os de sua energia. Hughie e Mandy, em forma de corvos que até então haviam estado no ar, pousaram no topo do vagão, com penas intumescidas contra o frio. Angie juntou-se a eles, em Aspecto de pássaro, as cores brilhantes esmaecidas no nevoeiro. Os lobos-demônios correram para mais perto e gemiam; até Jolly perdeu um pouco de sua agressividade natural e foi tropeçando atrás de seu mestre, murmurando sombriamente para si mesmo.
– Mais nevoeiro – resmungou Heimdall, lançando a runa Sól. – Eu pensei que havíamos deixado isso em Rhydian.
Loki lançou-lhe um olhar truculento.
– Como se eu precisasse ser lembrado disso!
Heimdall não viu o olhar, escondido pela névoa. Na verdade, além da área de abrangência da Sól, não havia nada para ser visto, até mesmo através da runa Bjarkán, senão um labirinto de assinaturas embaralhadas e a névoa que umedecia tudo.
– Tudo bem – disse o Astuto. – Vamos ver como isso fica ao ser visto lá de cima.
E assim os corvos de Odin foram devidamente despachados para inspecionar o terreno lá do alto. Horas depois, não haviam retornado, e a névoa não demonstrava nenhum sinal de se afastar.
Os deuses viajavam lentamente. As horas passavam. A névoa, se possível fosse, havia se adensado.
Finalmente a noite começou a cair.
– Estamos perto? – perguntou Jolly, cujo estômago vinha lhe falando que a hora de jantar havia passado há muito tempo.
– Sim, pela nona vez – disse Loki.
Ethel lançou-lhe um olhar de esguelha.
– Alguma coisa errada? – perguntou ela.
Loki deu de ombros.
– Não, de modo algum. O que poderia estar errado?
Na verdade, ele estava se sentindo desconfortável. A ausência de estrelas tornava difícil ter certeza, mas Loki estava quase certo de que já deviam ter chegado à cidade. Naquela manhã eles a tinham visto – suas torres, suas docas; até o oceano, em nome dos deuses – erguendo-se da névoa diante deles como uma das ilhotas pedregosas do Sonho – e agora…
Nada. Apenas a estrada interminável.
Alguma coisa estava errada, Loki disse a si mesmo; e enquanto avançavam através do nevoeiro (que não dava sinal de se afastar), ele começou a sentir uma crescente inquietação entre suas clavículas. Ele a atribuiu aos seus nervos em frangalhos, com a noite, com a fadiga, e depois com a fome; mas quando o Vigilante gritou, ordenando uma parada três ou quatro horas depois, Loki foi finalmente forçado a admitir que, na única estrada para Fim de Mundo, os deuses de alguma maneira haviam se extraviado.
Todos o culparam, naturalmente.
– Isso é ridículo – disse Freya. – Estamos andando em círculos por horas e horas!
– Não em círculos – argumentou Loki. – Há apenas uma estrada. Nós estamos sobre ela.
– Então, por que diabos não chegamos ainda? – indagou Jolly, que queria seu jantar.
Loki deu de ombros.
– Não olhe para mim. Eu não estava guiando. Talvez o Baixinho tenha ido dormir.
Açúcar lançou-lhe um olhar truculento.
– Eu não fui dormir – retrucou ele. – E não me chame de Baixinho.
– Bem, eu digo que nós apenas precisamos acampar aqui – sugeriu Njörd sensatamente. – De manhã o nevoeiro terá desaparecido, e poderemos achar nosso caminho outra vez.
– De manhã? – exasperou-se Loki.
Heimdall arreganhou seus dentes dourados.
– Não podemos estar a mais que poucos quilômetros – disse Frey.
– Então, por que não seguir em frente? – argumentou Loki.
– Por que não fazemos uma votação? – sugeriu Njörd. – Para ver o que o resto pensa?
Loki baixou os olhos para o chão arenoso e refletiu sobre sua situação. Ele já tinha uma boa ideia do que todos os outros iriam dizer. Por seis dias ele desempenhara seu papel com completa e desavergonhada vantagem, forçando todos a dançar conforme sua música, na compreensão de que, se ele falhasse em levá-los a Fim de Mundo dentro do prazo combinado, então a proteção relutante de Heimdall cessaria. Esperar até de manhã seria admitir uma derrota da qual as consequências, ele adivinhava, poderiam não ser agradáveis.
Mas então outra possibilidade brotou espontaneamente na mente do Astuto. Ele se ajoelhou para inspecionar o terreno; arrancou com um golpe uma amostra do solo. A estrada à frente era arenosa, salpicada de mica e pedaços de quartzo. Nenhuma vegetação crescia nas proximidades; tampouco havia algo que sugerisse como eles podiam ter se extraviado da estrada para Fim de Mundo.
Escondendo sua crescente ansiedade, Loki se levantou e se dirigiu ao Vigilante, que sorria maliciosamente.
– Nosso pequeno acordo seguirá até amanhã cedo. Isso significa que oficialmente eu ainda estou no comando.
Heimdall ergueu uma sobrancelha.
– E…?
– E se você retirar minha autoridade – disse Loki com seu sorriso retorcido –, então, lamentavelmente, todas as apostas estarão canceladas, incluindo quaisquer, hum, penalidades pelo fracasso no cumprimento do trato.
Angie sorriu.
– Eu disse que ele era esperto.
Loki deu de ombros.
– É apenas justo.
– Isso quer dizer que eu já posso dar uma martelada nele? – quis saber Thor.
Heimdall fez uma carranca.
– Ainda não – disse ele.
– Quando eu vou poder martelá-lo, por favor? – perguntou Thor.
– Na manhã do sétimo dia, é claro – respondeu Angie, abrindo um sorriso.
– O que significa que você agirá como eu digo – falou Loki –, a menos que declare nosso trato cancelado. Portanto, eu digo que continuaremos caminhando.
Por um momento Heimdall olhou ameaçadoramente para ele. Loki teria realmente um plano, ele pensou, ou isso seria apenas para ganhar tempo? Ele rapidamente tocou a runa Bjarkán e foi recompensado com um vislumbre de segundos das cores desguarnecidas de Loki – um lampejo de inquietação; um clarão de engano; uma fumaça prateada de fanfarronice – antes que ele conseguisse se escudar, usando uma forma da runa Yr; o suficiente para Heimdall concluir que Loki estava blefando, afinal de contas.
Não havia plano algum. O Astuto estava perdido – tão perdido quanto o resto deles. Em alguma hora durante a noite, Loki provavelmente tentaria fugir – na forma de pássaro, ou em seu Aspecto de Fogo Selvagem – e Heimdall estaria esperando por ele. A perspectiva era tão prazerosa que ele na verdade sorriu, mostrando seus dentes dourados com total superioridade ao dizer:
– Tudo bem. Você venceu.
– Venci? – indagou Loki, ligeiramente perplexo.
– Sim. Estamos em suas mãos. Ao menos até amanhã.
Loki parecia desconfortável agora.
– Tem certeza? Quero dizer, poderíamos todos dormir um pouco…
– Não, eu nem sonharia com isso – disse Heimdall com sua voz mais doce. – Quero dizer, você nos conduziu até aqui; é apenas justo que se permita que você conclua o que iniciou. A menos que você queira reconhecer que está perdido…
– Eu sei exatamente onde estamos.
– Ótimo. Não há problema, então.
Loki sorriu entre dentes cerrados. Sua mente estava correndo em disparada furiosa. Ele conseguira ganhar um pouco de tempo, embora para qual vantagem ele não soubesse. Por um lado, dispunha de horas até a madrugada. Por outro, se estivesse certo, então isso poderia ser horas longas de serem atravessadas.
Sozinho – com exceção de Sigyn, naturalmente –, Loki avaliou suas opções. Qualquer tentativa de fugir, ele supôs, resultaria em rápida punição. Ainda assim, se suas suspeitas estivessem corretas, eles podiam ter se extraviado para tão longe de sua trilha que a fuga era carta fora do baralho. Pois Loki havia reconhecido aquela estrada – seu solo arenoso, sua cintilação fugidia, o frio que tudo recobria.
– Por que eu? – uivou o Astuto, enterrando o rosto em suas mãos. – Por que essas coisas sempre acontecem comigo?
– Vamos, vamos – disse Sigyn, pondo uma mão carinhosa sobre sua cabeça; e foi por causa da aflição de Loki que, nesse momento de angústia, até mesmo a simpatia da mulher mais irritante dos Nove Mundos não foi totalmente mal recebida. Porque, se ele estivesse certo, disse a si mesmo, sabia realmente para onde estavam se dirigindo. De algum modo, no caminho para Fim de Mundo, a trilha deles fora desviada. Ela levava a um lugar onde a aurora nunca rompia, uma estrada na qual eles poderiam viajar por anos a fio sem chegar nunca a lugar algum.
Aquela não era a estrada para Fim de Mundo de modo algum.
Aquela era a estrada para o Inferno.