Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 93 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 5

 

A primeira onda atingiu-os na transversal, sacudindo a Ponte até suas fundações. O Escudo do Sol estremeceu, o arco duplo balançou e uma onda de efêmeras irrompeu da nuvem como um enxame gigantesco de abelhas assassinas. As criaturas ferroaram incansavelmente, desafiando as runas de proteção; espadas e martelos foram inúteis contra suas agulhas envenenadas.

Thor soltou um rugido de fúria e debateu-se com Jolly sobre a nuvem de efêmeras; Frey foi ferroado no tornozelo e caiu, o entorpecimento o dominando. Bragi pegou sua guitarra e arrancou dela uma série de pequenas notas rápidas, lançando-as em giros sobre o enxame. As abelhas convergiram para o executante então, dois braços de efêmeras puxando-o para um abraço mortal; mas a música de Bragi continuou tocando – mais doce e melódica agora, de modo que as abelhas ficaram sonolentas e afrouxadas, fugindo da Ponte do Arco-Íris como se tivessem sido atingidas por fumaça.

Idun deu pedaços de maçã para todos que haviam sido ferroados. Os deuses se prepararam para mais um ataque. Nan Fey se posicionou ao lado de Ethel e Perth para esperar pela chegada de Maddy.

Enquanto isso, Maddy e Jormungand estavam se movendo violenta e rapidamente para Bif-rost. A nuvem de sombra pairava sobre a Ponte, monstruosa, inescapável. Discerníveis apenas por suas assinaturas, que ardiam como tochas contra a noite, os deuses continuaram lutando em Aspecto com toda a energia de sua força magnética recuperada. Acima de suas cabeças, o Escudo do Sol brilhava ardentemente; abaixo deles, a coluna de luz de runas que se erguera da catedral arruinada se juntava como lã numa roca de fiar, virando, girando, refletindo.

Era uma visão estranhamente comovente – os Æsir e os Vanir lutando lado a lado, exatamente como haviam feito no Ragnarók, e lutando agora junto a eles estavam os mesmos seres que haviam causado sua queda: o Lobo Fenris, a Serpente do Mundo, a Tentadora, os Devoradores.

Seria isso suficiente?, perguntou-se. Seus aliados no Caos seriam suficientes para reverter a maré do Sonho? Seria a promessa de uma sala em Asgard realmente suficiente para comprar a sua lealdade? E se o Caos conseguisse superioridade, Angie não poderia virar a casaca outra vez e rejuntar-se ao inimigo?

Mas o Caos não era dado a perdoar: Loki era prova disso. O Caos não tinha nenhum sentimento, nenhuma compreensão, nenhuma clemência. Sua imaginação é sem limites, suas penalidades, extremas. O Caos não oferece segunda chance alguma; Angrboda sabia disso. Ela e sua prole demoníaca, como os deuses, estavam nisso até as últimas consequências.

Maddy escoiceou os flancos de Jorgi, pressionando-a em direção à Ponte.

O segundo ataque estava a caminho. Desta vez, as abelhas haviam sido substituídas por uma onda de predadores quadrúpedes: cães selvagens, ursos polares, lobos negros de tamanho enorme com mandíbulas que estalavam furiosamente mesmo quando suas cabeças eram cortadas e seus corpos lançados a prumo sobre Fim de Mundo.

Com grandes golpes de martelo, Thor manteve Bif-rost livre das criaturas, enquanto Freya e Angie, em forma de Carniceiras, voavam lado a lado pela Ponte para repelir os invasores com asas que queimavam e garras que dilaceravam.

O deus da guerra, contudo, estava sofrendo de um conflito de personalidades. Seu braço dotado de força magnética parecia ter ideias próprias sobre como lidar com uma batalha, enquanto o instinto primário de Saco de Açúcar sempre fora correr para esconder-se ao primeiro sinal de problemas. Ele estava também achando difícil ajustar seu estilo à sua nova estatura: as modestas habilidades de luta de Açúcar haviam sempre sido talhadas para se ajustarem ao seu tamanho (que era mais ou menos o de um cachorro pequeno), e ele achava um tanto assustador estar agora numa posição de golpear até cabeças, quando anteriormente se dava por feliz quando chegava a atingir joelhos.

Fenris, em forma de lobo, rosnava para ele. Ele e os outros dois lobos-demônios haviam se posicionado sobre a Ponte, preparados para assumir o lugar de Thor se ele tombasse.

– Que deus de guerra você se saiu! – grunhiu ele quando o braço cheio de força magnética de Açúcar malhou furiosamente sobre um urso polar que avançou.

– Bem, eu não estou acostumado a lidar com lobos – disse Açúcar, despachando a criatura (na maior parte por acaso) com uma varredura de sua espada mental.

Fenris deu uma risadinha abafada.

– E aí, cara? Ragnarók?

Açúcar lançou-lhe uma expressão nervosa.

– Sim, cãozinho. Você arrancou meu braço com uma mordida. Mas eu era outro naquela época. Agora temos que ser aliados.

– Sim. Certo. Aliados – falou Fenny. – Como se um novatinho como você pudesse sequer combater ao meu lado! – Ele parou para morder as cabeças de três glutões, como um cão arrancando cabeças de cravos-de-defunto.

– Eu não sou um novato – disse Açúcar. – E você foi morto no Ragnarók. Todas as histórias dizem isso.

O lobo-demônio sorriu e exibiu seus dentes.

– Aqui está uma coisa que as histórias não disseram…

– O que é? – perguntou Açúcar.

– Você era saboroso.

Açúcar rangeu os dentes e tentou concentrar-se na luta em andamento. Ele não estava de todo à vontade com Fenris posicionado às suas costas. Até onde ele sabia, um lobo-demônio era muito parecido a outro, e o fato de que tinham que estar do mesmo lado dificilmente era reconfortador. Ele não confiava em Fenris, nunca confiara, e se afastou cuidadosamente, avançando para o extremo oposto da Ponte, onde Loki estava arremessando runas de fogo e mantendo um comentário contínuo sobre a batalha, a que ninguém, exceto ele mesmo, estava ouvindo.

– E Thor se coloca atrás de Frey e Wham! Bum! Isso deve ter doído. E Loki acerta mais uma! Este garoto está pegando fogo! – E Loki fez uma pequena dança sobre o parapeito da Ponte, disparando runas no ar como um espocar de fogos de artifício.

– Acalme-se e poupe sua força magnética – avisou Perth. – Maddy está aqui.

Loki baixou os olhos.

– Quase em cima da maldita hora.

A segunda havia passado. As criaturas recuaram para dentro da nuvem para se reagrupar e tomar outra forma. Idun acorreu com suas maçãs. Skadi, que, lutando em forma de lobo, havia passado por um bom número de cutiladas e mordidas, pegou dois pedaços.

Com sua luneta, Heimdall estava tentando ver o que poderia vir a seguir. Ele apertou os olhos por vários segundos, e depois os ergueu para Loki.

– Esta é para você – disse ele com um sorriso.

– Deixe-me adivinhar – falou Loki. – Serpentes.

De fato – dez mil delas, se erguendo e retorcendo ao saírem da nuvem. Serpentes de todas as cores, serpentes venenosas, constritoras, serpentes tão grandes quanto uma dúzia de homens. Elas deslizaram para dentro da Ponte do Arco-Íris com um indescritível som ressecado, as cabeças erguidas, as presas expostas…

– Detenham-nas! – disse Perth. – Façam-nas recuar!

Loki mudou para seu Aspecto de Fogo Selvagem. O cheiro de serpentes queimando ergueu-se do parapeito da Ponte. Perth sorriu. Loki podia ser um problema, ele pensou, mas sempre ajudava numa crise. Virou-se para Maddy, que havia acabado de chegar com Jormungand ao fim da Ponte. Em Aspecto, ela parecia preparada para enfrentar qualquer coisa.

Nan pegou a rédea de Jormungand.

Maddy olhou-a com assombro.

– A Louca Nan?

– É uma longa história – começou Perth. – Não temos tempo para ela agora.

Nan e eu precisamos de sua ajuda.

– É claro! – disse Maddy, sacando sua espada mental.

Perth balançou a cabeça.

– Não dessa ajuda. Os outros podem lidar com a nuvem de sombra. O que temos que fazer, e rapidamente, é construir.

– Construir? – perguntou Maddy. – Com o quê?