Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 88 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 9

 

– O que pelos Infernos está acontecendo? – gritou Loki, pendurando-se na Ponte, enquanto tentava desalojar Njörd de suas costas. – Eu aprecio o gesto, Njörd, mas se você pudesse apenas tirar suas garras de mim…

Mas, enquanto ele falava, o Homem do Mar rapidamente recobrou seu Aspecto. Seu verdadeiro Aspecto, a marca de runa intacta, e vestido com o traje tradicional – túnica azul escamada e arpão – com o qual o Povo sempre o pintara.

– Isso vai deixar uma marca – disse Loki, perscrutando em seu ombro; depois, baixando os olhos para si mesmo e voltando-se para seus colegas do outro lado, ele sorriu. – Ah – fez ele. – Ah, sim.

O Sonho, naturalmente, não tinha qualquer lei física. Tudo é possível. No Sonho os estragos do Tempo, e mesmo os da Morte, podem ser revertidos. E Bif-rost era uma fabricação dos sonhos, nascida da brecha na Colina do Cavalo Vermelho, trazendo o grupo de demônios e deuses em velocidade fenomenal para fora dos domínios de Hel.

Agora todos estavam como Njörd: com as runas não revertidas, imaculados, jovens. Envoltos em seus Aspectos antigos mais uma vez – o Ceifador com sua espada cintilante; Thor com o Mjolnir em sua mão; Freya brilhando como o sol. Ethel não era mais desleixada. Nan Fey não era mais velha. Sif, que não estava mais avantajada, estava radiante de felicidade; a guitarra de Bragi estava afinada novamente; até Idun, que não era geralmente mobilizada por eventos banais, parecia mais atenta que habitualmente, atirando punhados de flores no rastro do veloz Arco-Íris.

Tyr, em seu Aspecto como deus da guerra, estava totalmente blindado em vermelho e ouro, e a mão que Fenris havia arrancado a mordidas, nos dias passados da Velha Era, era agora uma arma mental por seu próprio direito, uma manopla magnética de poder rúnico que silvava e chiava com energia.

Angrboda, cuja natureza de filha do Caos permitia-lhe assumir qualquer forma que escolhesse, era bem a mesma que sempre fora; mas Fenris, Caveira e Grande H haviam assumido suas formas de lobo. Maiores e mais malvados do que haviam sido no Sonho, não havia nada de desajeitado neles agora; nada de remotamente divertido. Seus dentes eram tão longos como um antebraço de um homem, suas peles eletrificadas pela luz de runa. Tyr, que, embora mais alto que o usual, ainda tinha o modo cauteloso de se aproximar de Açúcar, deu vários passos para trás ao vê-los e quase caiu da Ponte do Arco-Íris.

A melhor parte, do ponto de vista de Loki, era que ele não era mais um prisioneiro. A fina corrente de ouro que prendia seu pulso havia desaparecido, embora o Anel de Matrimônio houvesse permanecido, agora na forma de um simples anel de ouro que brilhava a partir de seu dedo médio, e que nenhuma quantidade de retorcimento conseguia retirar.

Sigyn estava erguida ao seu lado, vestida num sensato manto verde e cinzento, a marca de runa Eh brilhando a partir da testa. Naquele Aspecto ela era bela, e Loki descobriu-se vagamente surpreso por nunca ter nunca reparado nisso.

Ele tentou um feitiço simples. Sua marca de runa lançou uma explosão de força magnética, e um raio de luz correspondente disparou como uma labareda no rastro deles.

– Gosto disso! – disse ele, sorrindo outra vez. – Se vou morrer hoje, o mínimo que posso fazer é parecer maravilhoso quando estiver morrendo.

Ethel lhe deu um olhar tranquilizador.

– Poupe sua força magnética. – Ela o advertiu. – Nós vamos precisar de cada faísca.

Loki deu um olhar apertado para a nuvem negra que ainda os seguia pelo lado de fora do Inferno.

– Certo. Entendi o recado – falou ele. – Então, para onde estamos indo, exatamente?

– Nós vamos cumprir minha profecia. Até aqui acho que isso havia ficado razoavelmente claro…

– Claro? – perguntou Loki. – Claro como?

Ethel lhe deu um sorriso malicioso.

– Que tal ficar na escuridão?

Loki fez um gesto grosseiro.

– Seja simpático e ela lhe contará – disse Sigyn.

– Tudo bem, tudo bem.

Mais uma vez Ethel sorriu.

– Eu vejo um poderoso Cinza que se ergue ao lado de um Poderoso carvalho. Nós já sabemos quem o Cinza é, naturalmente, e muito em breve nós vamos conhecer o Carvalho. Ambos são fundamentais na reconstrução de Asgard. Vejo um Arco-Íris erguendo-se no alto; o legado da Morte Enganosa. Essa parte, como tenho certeza de que vocês sabem, se refere aos recentes acontecimentos no Inferno.

Loki zombou.

– Essa parte, no mínimo, ficou muito clara – falou ele num tom de polidez exagerada. – Eu fui a isca com a qual você planejou atrair Hel a quebrar seu juramento, que por sua vez lançaria o Sonho para dentro dos Mundos com toda a força com que eu suponho que você, presumivelmente, com a ajuda do General, propõe reconstruir Asgard. Ótimo – ele lançou sobre ela um olhar sombrio – embora um pouquinho… arriscado.

Loki silenciosamente prometeu a si mesmo que se algum dia visse o General outra vez, Odin levaria uma enorme bronca. Esta era a segunda vez que o General havia conspirado num estratagema que envolvia entregá-lo aos seus inimigos bem antes do Ragnarók. Nenhuma das duas ocasiões havia sido agradável. E se a história passada fosse uma coisa a se levar em conta, as próximas vinte e quatro horas provavelmente terminariam com a morte dos deuses, o Fim dos Mundos e uma grande quantidade de tumulto desnecessário. Neste exato momento o Impostor sentia que o que ele realmente mais precisava era de uma dose de paz e harmonia, de preferência em alguma ilha em outra parte, com redes e montes de garotas bonitas.

Ethel prosseguiu com a profecia: Mas a Traição e a Carnificina cavalgam com a Loucura pelo céu. E quando o arco quebrar, o Berço cairá…

– Coisa cujo som não me agrada de modo algum – disse Loki. – Assim, se você puder me deixar de fora antes que toda a traição e carnificina comecem…

– Tarde mais – afirmou Ethel, não sem compaixão. – A Adversidade já começou. Não temos escolha senão tomar posição e lutar, e esperar que o plano do General funcione.

– O plano do General… foi o que pensei.

Houve uma longa e ameaçadora pausa enquanto o Astuto reavaliava os acontecimentos. Ele devia ter sabido, disse a si mesmo, que não escaparia tão facilmente. Ele esperava que quando o General finalmente fizesse sua aparição, seu Aspecto atual fosse pelo menos alguma coisa menos apelativa – um porco, uma Cabeça sem corpo, ou talvez uma velha desdentada. Isso seria o troco, Loki pensou. Isso poderia fazer com os que dois ficassem quites.

Em torno deles, o cenário se borrou, girou e finalmente parou de se mover quando a Ponte no Firmamento, que abrangia todos os Mundos na velocidade do Sonho, se assentou em posição no céu acima da catedral, um dia conhecida como o Berço dos deuses, e agora o local do Fim dos Mundos, ou como o Povo o chamava, Apocalipse.

– Apocalipse – disse Loki por fim. – Que espécie de palavra é essa, afinal de contas?