Luz das Runas
Capítulo 9
Enquanto tudo isso acontecia, o Fogo Selvagem em pessoa estava pensando muito. A despeito do que ele dissera ao Capitão Caos, não tinha qualquer intenção de penhorar lealdade a mais um artefato renegado.
Mas o Escudo do Sol era uma poderosa força magnética, que – se ele pudesse controlar – lhe daria o tipo de liberdade com que sempre sonhara: independência de Asgard; segurança física; proteção contra seus inimigos, fossem eles a Ordem ou o Caos. Era uma perspectiva tentadora, e Loki sempre estava disposto a especular para acumular.
Mas o Capitão Caos havia se provado mais perigoso do que o Astuto pudesse ter previsto. Agora, erguendo-se de ponta-cabeça, noventa metros acima do Rio Vimur, de uma viga mestra enferrujada sob uma ponte que estava pronta a desmoronar a qualquer instante, Loki estava começando a perceber que seu plano era mais arriscado do que pensara.
O Escudo do Sol estava posicionado entre os primeiros dois pilonos da Ponte de Rhydian, num ângulo que dava para o chão. Era convexo, o que significava que refletia uma boa parte da própria cidade, bem como da margem do rio, e embora os anos o tivessem embaçado, as runas sobre ele eram bastante claras; Bjarkán; Sól; Thúris; Fé; Raedo; Úr; Kaen; Ár – poderosas runas de proteção e luz para defender a carruagem do sol.
No Ragnarók, o sol havia desaparecido devido aos Devoradores – Skól e Haiti, agora Caveira e Grande H – e seus apetites insaciáveis. Mas o Escudo era indestrutível, e, como o Mjolnir, havia encontrado sua saída do Mundo Inferior, através do sonho, passando pelos Mundos Médios.
Ao menos, era assim que Loki teorizava; o Capitão estava ocupado demais para conversar, e Loki achou mais prudente guardar suas reflexões para si mesmo. Agora, depois de uma longa e dificultosa escalada, ele estava pendurado de cabeça para baixo em frente ao espelho solar, enquanto sua imagem, observando desde o chão, o guiava através do que se transformava rapidamente numa operação muito complicada.
Uma grande rede de pescar estava espalhada entre as pilastras, preparada para apanhar o Escudo assim que ele caísse. O plano era que Loki o puxasse, usando sua força magnética se necessário, o deixasse cair na rede, depois assumisse o disfarce de falcão e descesse voando da ponte para voltar a se reunir aos seus companheiros.
– Se você pudesse me dar uma mão… – disse ele. – O que foi? Tem medo de altura?
Loki não tinha medo de alturas – ao menos não em circunstâncias normais. Mas ao escalar por debaixo de uma ponte de metal que tinha quase quinhentos anos de idade, se pendurar de ponta-cabeça em frente a um espelho magnético com um feitiço de runa de Tyr em uma das mãos, e depois quebrar pedacinhos da estrutura de metal que mantinha o artefato no lugar, com a ferrugem e a fuligem caindo nos olhos e a ponte perdendo estabilidade a cada minuto que se passava, Loki estava começando a sentir que talvez ele estivesse nervoso, afinal de contas.
– Acabe logo com isso – disse o Capitão Caos. – E lembre-se: nada de truques.
– Sem truques. – Loki estava desconfortavelmente consciente do quão vulnerável se encontrava na atual posição. Com a Kaen nivelada do chão até sua altura, ele dificilmente estaria propenso a tentar alguma coisa ardilosa, ou assim ele pensava que o Capitão pensaria; ao menos até que fosse tarde demais. Inteligente da parte do Capitão, ele pensou, manter a vantagem assim; usar Loki para libertar o Escudo significava que ele próprio poderia observar de uma posição de segurança, e que tão logo Loki deixasse cair o Escudo, ele poderia recuperá-lo e usá-lo tão rapidamente quanto sua força magnética emprestada lhe permitiria.
Mas Loki tinha um plano diferente. Ele não tinha intenção de deixar o Escudo cair. Seu duplo era cauteloso e esperto o suficiente para prever alguma espécie de ardil – mas Loki também era cauteloso e esperto, e ele tinha uma desconfiança de que, assim que o Capitão tivesse o Escudo, ele teria força magnética mais que suficiente para dispensar Loki permanentemente.
Era, afinal, o que ele teria feito se as situações houvessem sido invertidas, e Loki ficou consciente de uma pontada – não, não de remorso, mas do ressentimento por ser tão previsível.
Pois, se o Astuto estava vulnerável, o Capitão Caos estava longe de estar seguro. Contanto que a imagem de Loki aparecesse na superfície polida do Escudo, seu duplo teria a vantagem; mas se ele pudesse deslizar por trás do Escudo e usá-lo antes que o Capitão o fizesse, então o Capitão Caos não existiria mais e Loki estaria livre…
Tais ideias perigosas estavam passando pela cabeça do Astuto enquanto ele quebrava em pedacinhos o Escudo do Sol. Era um tanto grande para um escudo – quase um metro e meio de extensão, perfeitamente redondo e repleto de runas inscritas em suas bordas. O resto dele era liso como vidro, embora o tempo houvesse dado à sua superfície uma espécie de pátina esfumaçada. Se o espelho fosse removido, a cidade voltaria à vida? Milhares de almas sob a ponte, que haviam sido capturadas pelo reflexo, se libertariam, ou apenas desapareceriam? E quanto à própria ponte? Ela ainda ficaria em pé quando o Escudo do Sol desaparecesse? E – talvez o mais importante – Loki teria tempo para usá-la?
– Está ponte está se quebrando – disse ele. – Eu não acho que ela vá aguentar muito mais.
Certamente a ponte parecia saber que o Escudo estava sendo atacado. As vigas mestras gemiam, os rebites saltavam fora, séculos de ferrugem pulverulenta começaram a cair do metal. Ela caía sobre as roupas e os cabelos de Loki; ela enchia a sua boca com o gosto de sangue.
– Depressa! – rugiu o Capitão Caos.
Loki soltou um suspiro profundo. Ele estava começando a se sentir absolutamente inquieto. O Escudo do Sol era mais que um artefato; ele já vira prova disso. O Capitão Caos também havia se provado mais que um simples reflexo. O que aconteceria quando o Escudo do Sol fosse libertado? O Capitão Caos teria finalmente uma vida própria? E o que aconteceria com ele quando não fosse mais necessário?
De repente, através da ferrugem que caía, Loki pensou ter visto alguma coisa sob a ponte. Um vulto escuro – um pássaro talvez – estava pousado sobre uma das vigas. Mesmo sem posição para lançar a Bjarkán, Loki reconheceu um dos pássaros de Odin – aqueles corvos irritantes que Ethel parecia haver adotado.
Ele esperava que eles não estivessem tentando ajudá-lo. A última coisa que queria, naquele estágio, era a interferência de alguém. Estendeu a mão em torno do Escudo do Sol à procura de alguma coisa a que se agarrar. A bolota que pendia de seu pulso esquerdo estava agora escondida na palma de sua mão. Ele a deixou cair por trás do Escudo do Sol e começou a sussurrar um feitiço.
O corvo soltou um crauk agudo e pulou um pouco mais para perto, trazendo para baixo uma dispersão de pó de ferrugem sobre o Astuto invertido. Loki viu que ele tinha uma cabeça branca, o que o identificava como Mandy.
– Jogue-o no… Crauk! – disse ela.
– O quê?
– Jogue-o no rio. Dê o fora. Ack-ack! – A voz de Mandy era premente e áspera; mesmo admitindo as limitações vocais do corpo que a hospedava, a mensagem era inconfundível. Jogue o Escudo do Sol no rio. Dê o fora o quanto antes você puder.
Loki não ousou erguer a voz para que o Capitão Caos não o ouvisse. Em vez disso, falou num sussurro, mal movimentando seus lábios cicatrizados: “Por favor! Deixe-me em paz!”
Mandy bicou a viga. Crauk! Outro punhado de pó de ferrugem caiu beliscando nos olhos do Astuto.
– Ai! – Ele afastou o detrito de seus olhos com uma esfregada, transferindo a Tyr para a mão direita. O Escudo do Sol estava quase livre agora; ele se mexia ligeiramente sob suas mãos, e Loki sentiu a ponte se mexer no mesmo ritmo.
– Suba depressa! – ordenou o Capitão Caos.
– Eu peguei, acho – disse o Astuto. Ele deu uma olhada de novo para o Corvo e viu que a ele se juntara o seu companheiro. Dois pares de olhos circundados pela cor dourada o fixavam na escuridão. – Ouçam, eu não preciso da ajuda de vocês – assegurou Loki com o mesmo sussurro cauteloso. Ele sabia que a audição do Capitão Caos seria no mínimo tão aguçada quanto a sua, e ele já vira o quanto sua imagem-reflexo estava desconfiada dele. Mais uma vez ele silvou para os corvos: – Sumam! Eu posso dar conta disso!
Hughie assumiu sua forma humana de pernas cruzadas sobre a viga. Escondido entre as sombras, era quase invisível se visto do chão, suas joias prateadas escondidas sob o manto de plumas que o cobria.
– Nós sabemos o que você está pensando – disse ele.
– Não, vocês não sabem – silvou Loki. – Por favor. Vocês querem que eu seja morto?
– Você está planejando roubar o Escudo do Sol e ficar com ele para você – disse Hughie.
Os lábios cicatrizados de Loki se apertaram:
– E daí?
– Daí que é muito perigoso. E quanto à sua promessa, hein? E como ficará o Fim dos Mundos?
– Os Mundos podem acabar sem mim – disse Loki, baixando os olhos sobre o abismo. – Eu já vi esse espetáculo e, creiam em mim, não tenho pressa de vê-lo novamente.
– Mas você é necessário – falou Hughie. – Você é uma parte da profecia. Apenas jogue o Escudo no rio e caia fora o mais depressa que puder. Faça qualquer outra coisa e se meterá numa fria.
– Quem foi que disse isso? – resmungou o Astuto.
Hughie crocitou em frustração.
– Você nunca faz o que lhe mandam fazer? A sobrevivência do Povo dos Deuses depende do que você fará a seguir!
Loki deu de ombros (coisa nada fácil de fazer quando se está dependurado de ponta-cabeça numa ponte). A duzentos pés da rede, ele supôs. Podia levar três ou quatro segundos para despencar. Três ou quatro segundos exposto, no meio do ar, para girar o Escudo e usá-lo antes que o Capitão Caos pudesse interferir. Três ou quatro segundos de risco terrível; e mesmo que ele não tentasse assumir o controle do Escudo do Sol, o que impediria o Capitão de jogar Loki para fora do céu no momento em que o artefato fosse dele?
Ele silvou:
– Porque o Povo dos Deuses se importa tão pouco com a minha sobrevivência…
– O que você está sussurrando aí em cima? – A voz do Capitão Caos soou penetrante.
– Eu peguei – gritou Loki. – Está se soltando…
De fato, o Escudo do Sol estava finalmente saindo das amarrações. Com um estalo de luz de runa, o disco solar descolou-se da pilastra, e imediatamente a ponte começou a balançar como uma carroça com um eixo quebrado.
– Jogue-me o Escudo – disse o Capitão.
– Jogue-o no rio – sugeriu Hughie. – Isso vai distraí-lo, e enquanto isso você poderá fugir. Do contrário, ele vai derrubá-lo…
Mas o Astuto tinha outro plano. Ignorando Hughie e Mandy, ele sussurrou um pequeno feitiço. Por trás do Escudo, o talismã da bolota de carvalho retomou seu Aspecto de Sigyn. Tolhida, confusa e desorientada, ela abriu a boca para gritar…
– Shh, Sigyn, por favor… – pediu ele.
Por trás do Escudo do Sol, os olhos de Sigyn se arregalaram em estupefação.
– O que estamos fazendo aqui? – perguntou ela. – Onde estão os outros? O que você fez?
– Eu? Nada. – Loki silvou. – Apenas salvei a vida de todos e arrisquei minha pele na barganha. Agora faça como eu digo, e tudo vai ficar cer…
Uma bola de fogo purpúrea atingiu a ponte a pouco mais de um metro acima da cabeça de Loki. As vigas mestras de ferro se espalharam como palhas da estrutura que se desintegrava.
– Esse foi um disparo de advertência, Astuto! – gritou o Capitão Caos lá do chão. – Eu quero esse Escudo, e quero agora!
– Espere um minuto! – disse Loki. Acima dele, rachaduras estavam aparecendo na ponte. Pedaços de pedra estavam caindo no rio lá embaixo.
– Sigyn, agora! Vire o Escudo…
– Ack-ack! – disseram os corvos, levantando voo quando seu poleiro despencou.
– Vire o quêêê…?! – gritou Sigyn quando a viga mestra na qual Loki estava dependurado começou a se romper por sua vez. Mais três segundos e eles cairiam em direção ao Vimur.
O segundo raio mental não foi uma advertência. Passou a três centímetros da cabeça de Loki, incendiando o Escudo do Sol e desaparecendo no ar acima de Rhydian. Um jorro de faíscas violetas, cada uma tão letal quanto um disparo de besta, derrapou através da ponte danificada e caiu dentro da água.
Loki teve tempo para agarrar-se ao Escudo antes que ele e Sigyn começassem a cair. Ligados com aperto pelo Matrimônio, eles se retorceram e reviraram no meio do ar; Loki tentando sacudir o Escudo, Sigyn lutando pela vida, com a luz de runas emitindo clarões a partir de suas mãos. Alvenaria e metal retorcido encheram o ar em torno deles; Hugin e Munin batiam as asas e crocitavam, tentando distrair o Capitão; enquanto o duplo de Loki, na margem, vociferava e berrava com fúria.
Seu terceiro raio mental atingiu Loki direto entre os ombros, e se Sigyn não estivesse protegendo os dois – não com o Escudo do Sol, mas com Yr – poderia ter sido muito pior para ele. Mesmo assim, ele caiu, uivando, em chamas, atravessando diretamente a rede e despencando no rio.
A água era veloz e muito fria. Por um momento o Astuto perdeu a consciência. Arrastado para o fundo pelo Escudo do Sol e pelo peso do Matrimônio, ele sentiu a terrível força do rio esmagá-lo e puxá-lo para baixo; abriu a boca e a água entrou imediatamente, enchendo seus pulmões, consumindo-o…
Em circunstâncias diferentes teria sido um truque fácil para ele assumir algum Aspecto diferente – o de um peixe, talvez, ou de uma cobra aquática – e nadar para a margem em segurança. Mas o raio mental o havia aturdido a ponto de ficar meio sem sentidos, sua força magnética estava quase esgotada; além do que, lá estava a corrente de ouro ainda apertada em torno de seu pulso esquerdo, e Sigyn, agora um peso morto, puxando-o ainda mais para o fundo da água.
O Escudo do Sol! Mesmo agora, a ideia era prioritária na mente do Astuto. Ele devia ter caído através da rede; a ressaca o tinha levado. Ele abriu os olhos, mas a escuridão era tão completa que não faria diferença se estivesse cego. Ele estava se movendo rapidamente também, arrastado para baixo pela ressaca, aspirando água, vendo estrelas, colidindo com força tremenda contra uma pilha de madeira flutuante…
Mais estrelas.
Estrelas? Ai!
Certa mão em seus cabelos, puxando-o para fora. Mais mãos sobre seu corpo. Ele se sentiu sendo carregado, depois atirado de costas sobre a margem do rio. A boca de alguém estava presa na sua; o ar em seus pulmões era como fogo frio. Seu cabelo estava chamuscado; sua camisa era um farrapo carbonizado; suas costas estavam ardendo como se tivessem sido marcadas com ferro em brasa.
Então, conseguiu ouvir vozes; vozes que pareciam vir de longe; vozes que ele reconheceu…
– Loki, fale comigo…
– Ele está vivo?
– Ele está, que azar. Rápido, deixe-me bater nele antes que desperte…
Rapidamente Loki abriu os olhos. À luz das estrelas, um círculo de rostos, borrados a princípio, entrou sem sua visão: Heimdall, Freya, Ethel, Thor. Idun, cuja voz ele reconhecera a princípio, estava segurando uma fatia de maçã. Como sempre, ela parecia doce e bondosa; ajoelhando-se ao lado dela, a Vidente também estava observando-o com uma expressão de preocupação.
Depois ela esbofeteou seu rosto, com força.
– Ai! – disse ele. – Eu estou consciente.
Ethel falou:
– Estava só verificando, querido.
Loki levantou-se um pouco.
– O Escudo do Sol…
Ethel lhe lançou um de seus olhares.
– Sigyn está bem – disse ela em voz alta. – Só um pouquinho abalada, é tudo. Mas eu lhe direi que você perguntou. Você deve a ela a sua vida, espero que saiba disso. Foi ela quem o puxou até à margem. Foi ela quem…
– O que houve com o Escudo do Sol? – Loki repetiu desesperadamente.
– Virou isca de peixe. Não há tempo para recuperá-lo. Pode estar a meio caminho do Inferno agora. – Ethel baixou a voz novamente. – Meus corvos me contaram tudo.
– Ah – disse Loki. – Eu posso explicar.
– Não se preocupe com explicar – falou Ethel, e voltou para ficar esperando junto aos vagões.
Eles partiram novamente dentro de uma hora; e o Astuto, que havia esperado que Ethel revelasse a todos sobre sua fracassada deserção, estava inclinado a pensar que ela o libertara facilmente. Talvez ela pensasse que ele tivesse sido punido o suficiente – afinal, ele perdera o Escudo –, embora, ao olhar para seu rosto impassível enquanto ela cavalgava ao seu lado pela estrada abaixo, Loki não pudesse ver ali qualquer sinal de complacência ou afeição.
Ele reparou que ela agora só falava com ele por necessidade; o resto do tempo ela passava lendo um livro ou murmurando para seus corvos, e mais de uma vez ele se flagrou pensando com inquietação sobre como ela podia odiá-lo tanto, enquanto ao mesmo tempo o protegia.
Ainda assim, quem realmente sabe o que um oráculo pensa? O Astuto pensou enquanto eles trotavam pelo caminho. E logo sua mente se voltou para outras coisas enquanto o Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo deixava a ponte arruinada para trás e começava a caminhada final de sua viagem ao longo da estrada para Fim de Mundo.