Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 30 de 103

Páginas do PDF

Luz das Runas

Capítulo 2

 

Loki não duvidou por um segundo que era ele quem eles procuravam. Ele deduzira automaticamente desde o início que seu trato com Angrboda e seu povo devia ter chamado a atenção do Caos e que aquele ataque era o resultado.

Com certeza, isso fazia sentido. Uma aliança entre os demônios e os deuses podia ameaçar o domínio de Surt, especialmente se a Cidadela do Céu estivesse de fato por ser reconstruída, e o Primeiro Mundo restabelecido como deles. Naturalmente, isso não explicava o que ele havia visto no céu antes da erupção. A assinatura de Maddy era difícil de ignorar, e ele estava mais que familiarizado com as cores do Cavalo do General, que haviam lampejado momentos antes que a Colina começasse a entrar em erupção, emitindo tantas assinaturas que todos os traços de Sleipnir e Maddy haviam sido rapidamente obscurecidos.

Loki, naturalmente, sabia tudo sobre a criatura adormecida sob a Colina. Tecnicamente, no Aspecto de Cavalo, ele era o pai de Sleipnir – uma relação que ele preferia esquecer –, e como tal poderia ter despertado o Cavalo muito facilmente; mas não tinha interesse em fazê-lo. Muito à parte do fato de que Odin o haveria despedaçado membro por membro se ele tentasse alguma coisa desse tipo, o Astuto não gostava muito de cavalos, preferindo seu Aspecto de pássaro a qualquer coisa de quatro ou oito patas. Maddy, ao que parecia, não tinha esses escrúpulos. A presença de sua assinatura tão próxima à fonte da erupção sugeria que ela havia levado o Cavalo. Talvez ela houvesse suposto que o resultado lhe daria camuflagem adequada para fazê-la escapar antes que alguém estabelecesse a ligação. Talvez, agora que Odin estava morto, pensou ele, seu poder tivesse sido demasiado para ela resistir.

Razão a mais, Loki pensou, para que ele empreendesse sua fuga enquanto pudesse. Maddy não poderia ajudá-lo agora, mesmo que quisesse. Se ele pudesse chegar ao Hindarfell, poderia ter uma chance de encontrar abrigo fora do vale e depois disso abrir caminho em direção ao sul, penetrando na Cidade Universal e mais além, onde, pensava, poderia encontrar oportunidades melhores, mais seguras e mais confortáveis para desenvolver suas habilidades.

Mas Heimdall de Olho de Falcão, em seu posto nos Adormecidos, havia esperado por um movimento assim, e seus olhos penetrantes foram rápidos em notar o pequeno pássaro marrom voando em direção ao Hindarfell. Ignorando o caos abaixo dele, assumiu seu próprio Aspecto alado – aquele de uma águia do mar – e partiu em perseguição ao pássaro, cujo rastro de assinatura violeta-brilhante o definia conclusivamente como o Astuto fugitivo.

Por alguns momentos pareceu que o pássaro menor poderia quase fugir de seu perseguidor. Mas Loki estava cansado, Heimdall era mais forte e as muitas erupções do Mundo Abaixo haviam conspirado para criar uma turbulência no ar rarefeito da montanha que golpeou e sacudiu o Astuto até que, por fim, ele foi forçado a baixar ao chão bem quando chegava aos Adormecidos.

Com a branca águia do mar em seus calcanhares, Loki rumou para um espaço entre dois picos, onde, a meio caminho da descida da montanha, um lago de névoa branca se espalhava por baixo de uma geleira, obscurecendo parcialmente o cenário lá embaixo. Se ele apenas pudesse alcançá-lo, pensou, então poderia talvez encontrar algum lugar para se esconder…

A névoa era espessa e cremosa, como a espuma em um copo de cerveja. Ele mergulhou nela, sentindo a queda na temperatura tão logo atravessou a camada de nuvens. Assim que pousou numa saliência de rocha, Loki teve um momento para apreciar a espessura incomum do nevoeiro – sua palidez fantasmagórica; seu frio nauseante; o mau cheiro que envolvia tudo em seu alcance –, antes que alguma coisa acontecesse para fazê-lo esquecer seu perseguidor, sua fuga; aquilo o levou, assustado, a sair de sua forma de pássaro e retornar ao Aspecto humano, fazendo-o estatelar-se desajeitado sobre a neve em sua pressa de fugir.

A águia branca do mar baixou investindo ao vê-lo, mas Loki mal via o caminho. Ele simplesmente se deitou tremendo onde tinha caído, os olhos se arregalando em incredulidade quando uma coisa veio saindo da névoa à sombra da geleira. Uma coisa grande. Uma coisa escura. Uma coisa monstruosamente familiar…

Loki engoliu em seco, penosamente.

– Jorgi? É você? – perguntou ele.