Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 31 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 3

 

O temor de Loki não era sem razão. Na última vez que ele havia enfrentado a Serpente do Mundo – também conhecida como Jormungand –, as circunstâncias haviam sido menos que amigáveis. Mas ao menos ele estava então em pleno Aspecto, com Maddy ao seu lado, e com o (um tanto relutante) apoio de Hel, a Guardiã do Mundo Subterrâneo.

Desta vez ele estava sozinho, gelando de frio e, pior ainda – uma das desvantagens de mudar para o Aspecto de pássaro era que ele tinha que deixar suas roupas para trás –, vestido com nada exceto a própria pele. Não era desse jeito que ele havia vislumbrado o reencontro deles – na verdade, pensou Loki, o único jeito a que ele teria se submetido de boa vontade a esse reencontro seria com um grande exército postado entre ele e a Serpente (que estaria seguramente presa por runas – Loki não via mérito algum em obter trunfos pessoalmente).

Ele olhou para as mandíbulas abertas do monstro, arreganhou os dentes num sorriso sem graça e disse:

– Jorgi. Faz tempo que a gente não se vê…

Heimdall, enquanto isso, ao reconhecer a tentativa de fuga de sua presa, havia feito um rápido mergulho no lago de névoa branca. A primeira coisa que viu ao chegar foi Loki, completamente nu, recuado o mais longe possível contra uma saliência de rocha branca, e tal era a ânsia do Vigilante de liquidar finalmente seu inimigo que demorou vários segundos para que notasse a monumental, escura e inegável cabeça da Serpente do Mundo olhando de soslaio por baixo da geleira, seus intermináveis rolos perdidos na névoa, suas mandíbulas semiabertas e chuviscando veneno sobre a neve.

– Heimdall! – disse Loki com gratidão.

O Vigilante retomou seu Aspecto.

Jormungand soltou um bocejo monstruoso e deslizou para frente mais uns quatro metros. Heimdall lançou um olhar maligno sobre Loki e invocou um punhado de runas de fogo – embora não pudesse se definir facilmente se estas seriam usadas como armas ou simplesmente destinadas a combater o amargo frio.

– Fugindo de nós, Loki? – perguntou ele. – Eu sempre soube que você faria isso algum dia. E agora eu encontro você aqui: com isso, e todo o Inferno o seguindo…

– Dê-me um tempo – disse o Astuto. – Pareço ter um desejo de morte? Se você se lembra, Jorgi e eu não nos separamos no que você chamaria de termos amigáveis.

– É mesmo? – falou Heimdall com sarcasmo. – E isso depois de você também libertá-la do Mundo Inferior. Você deve achar que ela deveria lhe demonstrar um pouco de gratidão. – Ele baixou a força total de seu olhar azul-gélido sobre o Astuto acocorado. – Então, eu tenho que engolir que você não teve nada a ver com o que está acontecendo neste exato momento sob a Colina? Que você não abriu uma passagem para liberar as hordas do Mundo Inferior e que você não está agora planejando executar sua fuga com a ajuda de sua filha monstruosa, a Serpente do Mundo?

– Bem, realmente… – balbuciou Loki.

Mas o que ele estava prestes a dizer se perdeu na súbita agitação de asas quando outro pássaro – um pássaro estranho, com plumagem roxa e escarlate – adejou através do véu de névoa e pousou sobre a saliência de rocha. Loki mal teve tempo para reagir antes que o pássaro se tornasse Angrboda, vestida da cabeça aos pés num longo manto encapuzado de pele escarlate e botas de neve com saltos ousados, sentando-se na rocha elevada e observando-o com desaprovação.

– Estou muito desapontada – disse ela.

– Angie, por favor. Eu posso explicar…

– Você está me dizendo que não estava fugindo?

– É mais do que certo que eu não estava – afirmou Loki. – Caso você não tenha reparado, há uma pequena crise se desenrolando. Eu estava cobrindo a retaguarda, assegurando que o desfiladeiro ficasse seguro, enquanto Goldie e a turma cuidavam dos Adormecidos, e Thor e os outros lidavam com a Colina. A propósito, agradeço pelo Martelo. Grande carinha. Eu já estou sentindo falta dele.

Angie sorriu.

– Eu achei que você sentiria.

– Com licença? – Heimdall arreganhou seus dentes. – Posso perguntar que Inferno está acontecendo?

– Fique frio, Douradinho. Ela está do nosso lado. Nós fizemos um trato, lembra?

– Com isso, nós não fizemos – disse Heimdall, com um olhar de esguelha para a Serpente do Mundo.

– Bem, é aí que você se engana – retrucou Angie, descendo num pulo do poleiro congelado. – Jormungand vai nos ajudar. Vocês, deuses, pensam que são muito inteligentes, com suas forças magnéticas e seus raios mentais, mas a Jormungand ali pode abocanhar efêmeras do mesmo modo que um urso polar abocanha um peixe. Vocês precisarão dela e do resto de nós, se quiserem ter alguma chance contra o que vai acontecer.

– E, segundo você, o que vai acontecer? – Os olhos de Heimdall estavam muito brilhantes.

– A guerra, é claro – disse Angrboda. – A batalha pela Cidadela do Céu.

– Perdemos essa batalha há muito tempo. Como podemos ter esperança de vencê-la agora? Isso é uma artimanha… – Ele se virou mais uma vez para Loki, com a runa Hagall tremulando na palma de sua mão.

Loki elaborou Yr, a runa Protetora, com dedos entorpecidos de frio.

– Jogue limpo – falou Angrboda. – Ou levarei seus brinquedos embora. – Ela fez um gesto com a mão, e alguma coisa brotou das pontas de seus dedos: uma chuva de faíscas roxas que derrubou a Hagall da mão de Heimdall e banhou Loki de saraivadas.

Loki lembrou-se da runa que vira anteriormente em seu braço, e então se perguntou silenciosamente como Angie poderia ter obtido uma força magnética tão poderosa. As runas haviam sido presentes dos deuses havia muito tempo, do próprio Pai Supremo Odin – quebradas ou invertidas na derrota no Ragnarók; com o General desaparecido, ele pensou, certamente não podia existir mais nenhuma.

E, no entanto, ela o atingira com alguma coisa, ele pensou; alguma coisa muito diferente das forças magnéticas vistosas e desgovernadas de sua espécie. Loki sentiu-se muito inquieto.

– Ora, vamos, Angie. Estou com frio – disse ele. – Se você está aqui para ajudar, então acabe com isso.

Angie deu-lhe um olhar apaziguador.

– Estamos aqui para provar aos seus amigos arrogantes que eles vão precisar da gente ao lado deles. E para garantir que vocês não desistam de fazer sua parte e se disponham a ter ideias, como voar para o sul e buscar climas mais ensolarados…

Heimdall apertou seus dentes dourados.

– Não haverá qualquer recusa ao trato – garantiu ele.

– Ótimo – disse Angrboda. – Podemos discutir isso depois, quando Jormungand esclarecer a confusão.

– Esclarecer a confusão? – disse Heimdall. – Você está dizendo que ele não é o responsável?

– Claro que não. Você não estava ouvindo? Alguma coisa aconteceu na Colina. Alguma coisa que abriu a brecha no Sonho e liberou todos esses bichos daninhos. Mas não há nada que indique que nós éramos na verdade seu objetivo. Na verdade, é possível que isso não tenha sido feito em absoluto contra nós.

– Quem era, então? – perguntou Heimdall.

– Isso será apurado – respondeu a Tentadora, com um olhar de esguelha para Loki. – Mas seja lá o que for, quem quer que seja o responsável, eles nos deixaram com um monte de provas.

– Como assim? – indagou o Vigilante, com os olhos apertados.

A Tentadora ergueu uma sobrancelha.

– Eles vieram a nós através do Sonho – explicou ela. – Como saberemos melhor sobre eles senão através de seus próprios sonhos? – Dito isso, ela rumou em direção a Jormungand e pulou sobre seu pescoço escamoso, segurando-se no lugar com a ajuda de uma correia colocada sob as mandíbulas da Serpente. – Verei vocês novamente lá na aldeia – continuou. – Há alguém lá que precisa de nossa ajuda. – Depois, virando-se com um sorriso: – Ah, e pelo amor dos deuses, rapazes, vistam algumas malditas roupas!