Luz das Runas
Capítulo 8
– Não ouse dizer uma única palavra – rosnou o Vigilante ao entrar na caverna. Ele tivera tempo para ensaiar a cena em sua cabeça ao descer voando do Hindarfell, e não estava ansiando por ela. Era sempre irritante pedir ajuda a Loki. E chegar até ele como um penitente, vestido apenas com a pele arrepiada, era mais do que uma humilhação. Heimdall já havia jurado a si mesmo que se Loki soltasse uma única piada, pelos Infernos, se ele esboçasse um mero sorriso, ele quebraria seus dois braços e se preocuparia depois com as consequências.
Loki leu os sinais, naturalmente, e cuidadosamente assumiu uma expressão neutra. Um pequeno e polido gesto para Sigyn valeu a Heimdall um conjunto de roupas – sim, elas eram efêmeras, como o poder magnético de Sigyn, e por isso pouco faziam para protegê-lo do frio, mas ao menos a dignidade do Vigilante ficava salvaguardada; e foi portanto com beligerância ligeiramente menor que ele se dirigiu ao Astuto deste modo:
– Agora preste atenção, Estrela do Cão. Eu vim lhe oferecer um trato. – Ele então continuou explicando a situação por completo no Lua e Estrelas, simultaneamente observando Loki à procura de qualquer sinal de humor impróprio.
– Então, basicamente – concluiu Loki, ainda sensatamente mantendo uma expressão neutra –, você está dizendo que precisam de mim.
– Rrr… – disse Heimdall, entre os dentes.
– Sou um mentiroso e um traidor e mereço morrer, mas… – os lábios cicatrizados de Loki se retorceram irrepreensivelmente – mesmo assim, vocês precisam de mim.
Heimdall começou a calcular exatamente quantos dos ossos de Loki ele podia se permitir quebrar antes que ele perdesse sua validade. Loki o viu pensando nisso e resistiu à tentação posterior de demonstrar uma satisfação maldosa.
– Tudo bem. Conte comigo – disse ele. – Quero dizer, tudo pela família. Tem só uma coisinha… – Ele sorriu. – Se eu vou ajudá-los a chegar a Fim de Mundo a tempo, precisarei de uma coisa em troca.
– Não estou aqui para barganhar – retrucou Heimdall. – Nós lhe daremos sua liberdade de volta, o que já é mais do que você merece.
– É claro. – O sorriso de Loki se ampliou. – Estou apenas dizendo que posso precisar de algum apoio, até de proteção talvez, se meu plano para salvar o dia não receber total aprovação dos deuses.
Heimdall franziu o cenho.
– Então… você tem um plano?
– Ah, não – disse o Astuto. – Não é assim que funciona. Você quer minha ajuda? Leve-me com você. Faça os outros fazerem como eu digo. Eu prometo que, se você fizer isso, estarei com todos vocês em Fim de Mundo na manhã do sétimo dia.
– Impossível! – exclamou Heimdall. – A viagem dura uma quinzena.
– Confie em mim, não vai durar. Você tem minha palavra. Contanto que jure fazer o que eu digo.
Heimdall apertou seus olhos sobre Loki, agora a encarnação da inocência.
– Estou pedindo menos que uma semana – disse Loki. – Depois da qual você estará livre para dar qualquer retribuição que julgar apropriada, desde que eu não tenha cumprido minha palavra.
Houve uma longa pausa, durante a qual Heimdall repassou em sua mente todos os casos em que os deuses haviam sido obrigados a levar adiante – embora com muita relutância – um ou outro dos planos de Loki. Foram muitos; mas, em cada um deles, até Heimdall tinha que admitir, o Astuto havia sempre achado uma solução.
– Você é tão bom assim? – perguntou ele por fim.
Loki deu de ombros.
– Eu sou Loki.
Dez minutos depois, o falcão teve ao seu lado uma companhia – um falcãozinho marrom veloz com um anel de ouro em torno de seu pé do qual pendia uma corrente fina. Era Eh, o Matrimônio, com a presença de Sigyn agora habitando um pequeno talismã dourado em formato de bolota na ponta da pequena corrente. Tanto Loki quanto Heimdall haviam tentado inutilmente persuadi-la a cortar o talismã de runa e ficar onde estava, mas Sigyn fora irredutível. Fim de Mundo era um lugar perigoso. Qualquer coisa podia acontecer lá. E se Loki se metesse em alguma encrenca? E se fosse ferido?
Heimdall achava que isso era provável demais, mas sensatamente guardou o pensamento para si mesmo. Sigyn era bem-vinda, ele disse, desde que não se intrometesse. Loki concordou, um tanto tristonhamente – mas uma bolota num bracelete era melhor do que uma bola e uma corrente de presidiário, e, além do mais, disse a si mesmo quando voava, quem podia saber que inspiração alguns dias nas Estradas poderiam trazer?
No momento, contudo, ele simplesmente tentava se concentrar no problema imediato: o de transportar sete deuses, cinco deusas, três lobos, uma pessoa de origem Caótica, dois corvos e um martelo através de quatro municípios em menos de uma semana sem gastar força magnética demais ou atrair qualquer atenção indevida. Não era a mais fácil das tarefas, ele sabia; mas realmente tinha um plano, e com a ajuda de Heimdall…
Sorriu para si mesmo, e suas cores se iluminaram enquanto voava. Quer o plano funcionasse ou não, prometia ser muito divertido.
E se ele fracassasse?
Expulsou o pensamento. Preocuparia-se com isso quando chegasse a hora.