Luz das Runas
Capítulo 4
Perth sentou-se no chão da cela e analisou a situação. Em tudo e por tudo, não parecia boa. A cela tinha um metro quadrado e meio, era de terra batida, sem janelas, escura e cheirava como se alguma coisa tivesse morrido nela. Mais provavelmente o ocupante anterior, Perth disse a si mesmo amargamente; e até aí as chances da sobrevivência contínua de seu inquilino atual não pareciam promissoras de modo algum.
Ele lançou a runa Bjarkán e deu uma olhada no cenário. Por um ou dois momentos a Bjarkán revelou pouco além daquilo que o nariz de Perth já lhe tinha contado, mas agora ele via o Velho Homem, o objeto misterioso que havia caído sobre ele neste ponto a princípio, cintilando com luz de runas e runas de aprisionamento, seu coração azul brilhando como um novelo de fios tecidos com de luz das estrelas.
Ele estendeu os braços com as mãos presas. A Cabeça pareceu quente, como se tocada pelo sol. Ela se iluminou ao contato, um brilho róseo aparecendo quando seus dedos pressionaram a pedra. Ele retirou suas mãos; o brilho diminuiu. Ele tocou a pedra; o brilho retornou.
– Perth. Perth.
Aquela voz. A voz sussurrante. Ele pensou que podia tê-la imaginado. O que, pelos Mundos, ele teria roubado?
Mais uma vez ele perscrutou o Velho Homem através do círculo de polegar e indicador. Ele se parecia com uma pedra preciosa que nunca vira, embora os corvos tivessem-no chamado de tesouro. Mas eles também o haviam chamado de escravo, e agora Perth entendia o que queriam dizer: havia uma consciência presa no interior da pedra, alguma coisa que sussurrava em sua mente:
– PERTH! NÓS NÃO TEMOS TEMPO PARA ISSO!
Ele retirou suas mãos como se elas houvessem se queimado. A voz em sua mente ficava mais alta – muito mais alta – assim que ele punha suas mãos sobre a pedra; quando ele retirava, a voz voltava a ser um zumbido confortável.
– Perth. Ouça-me, Perth.
Cautelosamente, ele estendeu as mãos. Tocou a pedra com a ponta dos dedos. Mais uma vez o coração azul aprisionado pulsou em sua teia de luz de runas.
– Agradeça aos céus por isso – disse a voz com um traço de irritação. – Caso você não tenha percebido, nenhum de nós dois tem muito tempo. Agora quero que você ouça…
– Espere – disse Perth. – E o que eu ganharei com isso?
Uma risada veio da pedra.
– Ganhará a chance de me ouvir. O que você queria? Três desejos?
– Bem…
– Estamos falando do Ragnarók. A guerra entre a Ordem e o Caos. A chance de fazer Mundos melhores…
– Ótimo – disse Perth. – Mas que vantagem levo nisso?
– Deuses, você soa como meu irmão. – O Velho Homem suspirou. – Muito bem – falou ele. – Faça como eu digo e eu lhe darei o que quer que seu coração mais deseje. Tudo bem? É o suficiente para tentar sua pequena alma gananciosa?
Perth deu de ombros.
– Serve. Mas eu estou lhe avisando: minha alma pode ser pequena, mas meu preço…
– Entendido – disse o Velho Homem. – Riqueza ilimitada. Poder máximo. Runas para enfeitiçar qualquer mulher… ou homem. Aventura. Excitação. Liberdade…
– Liberdade? – perguntou Perth.
O Velho Homem brilhou.
– É claro – disse ele. Aproxime-se, Perth, e ouça…