Luz das Runas
Capítulo 3
Fazia muito tempo que a meia-noite havia passado quando as luzes na cobertura finalmente se apagaram. Alguém estava achando difícil dormir, e Perth não queria fazer sua aproximação antes de ter certeza de que não era observado. Estava frio no alto do topo de telhado; até a túnica de couro que ele usava não era suficiente para impedir os arrepios. Perth tremia; seus dedos doíam, então ele os enfiou sob as axilas.
Até aí o plano vinha se cumprindo com tranquilidade suficiente. Assim que tivesse certeza de que Maggie e seu jovem estavam dormindo, subiria até a cobertura. Usando uma corda e grampos de ferro, se atiraria balançando sobre o terraço; abriria a janela em silêncio; rastejaria em direção ao plinto; enfiaria o Velho Homem numa sacola pendurada em suas costas; e empreenderia sua fuga do modo como viera.
Mas até onde dizia respeito a Perth, roubar o Velho Homem sem ser apanhado era apenas o estágio inicial do plano. A segunda parte, um tanto mais perigosa, era fugir de Maddy; sobre os topos dos telhados parecia a melhor aposta, embora Perth não tivesse certeza de quanto tempo teria antes que ela ficasse impaciente e percebesse o logro.
Finalmente as luzes se apagaram. Ele esperou mais uma hora. Depois subiu no terraço, abriu a janela (estava trancada, mas Perth havia trazido suas ferramentas) e entrou sem fazer ruído no quarto. Seus olhos levaram um momento para se ajustar à escuridão. Lá fora, a lua estava cheia. Uma respiração lenta e regular vinha da vasta cama abobadada. Ele deu um passo em direção ao plinto, onde havia visto a bola de luz azul…
E parou, congelado. Uma figura de branco estava em pé ao lado da cama. Uma garota de cabelo tosado e olhos grandes e negros, segurando uma lasca de fogo na palma da mão.
Seu primeiro pensamento foi de assombro pela semelhança da garota com Maddy. Ele sabia que elas eram irmãs, claro, mas mesmo assim, achou-se despreparado. Mas exceto pelo cabelo, cortado muito curto, ela era a própria Maddy: a mesma boca teimosa, o mesmo rosto vívido, a mesma expressão de concentração feroz…
Ela girou a coisa flamejante em direção a Perth. Ele se abaixou; bateu no chão. A arma – uma espécie de raio mental, ele pensou – passou por sobre sua cabeça e atingiu a parede. Houve um estrondo e um clarão de luz; Perth pulou em direção ao plinto, bifurcando a Yr para proteger-se. Sua mão estava na verdade tocando a coisa que Maddy chamava de Velho Homem – então alguma coisa atingiu-o nas costas com força atordoante e espetacular, e ele caiu, vendo estrelas, sobre o piso da cobertura.
O Velho Homem caiu com ele, e por pouco não atingiu seu crânio ao bater no chão. Por causa disso, roçou seu ombro e rolou até fazer uma parada ao lado dele.
Perth praguejou e se revolveu de dor; sobre seu braço a marca de runa Perth acendeu um ameaçador rosa-vermelho. Ele viu a garota erguer-se diante dele, uma mão estendida, segurando a força magnética, a outra apertada sobre a barriga.
– Abaixe isso – ordenou a garota.
Os olhos de Perth baixaram sobre a runa na mão dela. Era Hagall, a Destruidora. Não havia tempo para lançar uma força magnética protetora; se ela o atingisse, ele estaria assado. Naturalmente, isso era verdade para a garota também: se ele disparasse um raio mental agora, ela não teria tempo de proteger-se. Sua força magnética poderia derrubá-la, mas a dela provavelmente o pulverizaria.
A questão era: ela sabia disso?
Ele se levantou muito lentamente, ainda segurando a runa na palma da mão. Perth e Hagall se encararam mutuamente cabeça a cabeça, como martelos.
– Solte a força magnética – exigiu a garota.
– Por que você não solta a sua? – retrucou Perth.
– Porque esta é Hagall, a destruidora – contou ela. – Se eu resolver atingi-lo com ela, você terá mais do que uma dor de cabeça.
– Bem, esta é Perth – retorquiu Perth, com um tanto mais de confiança do que sentia. – Perth, a, er, Todo-Poderosa. E se eu acertá-la com ela, então…
Maggie pareceu cética.
– E então? – perguntou ela.
– Bem, não será bonito – disse Perth, encolhendo-se em direção à janela.
Os olhos de Maggie vacilaram. A mão sobre sua barriga se moveu protetoramente para baixo.
– Você se parece bastante com sua irmã – disse Perth.
– Sim, já me disseram isso – retrucou Maggie. – Foi ela que o mandou aqui?
Perth fez que sim.
– Para me matar?
– Não.
Ela deu uma olhada para ele através da runa Bjarkán. Por um longo tempo não disse nada. A Bjarkán iluminou o seu rosto com uma clara luz azul; em sua mão a runa Hagall brilhava com seu letal brilho prateado. Finalmente, ela baniu as runas ergueu seu olhar de granito dourado para Perth.
– Volte para a minha irmã – disse ela – e diga a ela que eu não vou à guerra. Diga a ela que, quando a Adversidade vier, eles estarão desprovidos de um dos Cavaleiros.
– Você está me deixando ir embora? – perguntou Perth.
Maggie fez que sim.
– Assim, sem mais nem menos?
Ela deu um sorrisinho implacável.
– Teria preferido que eu o tivesse nocauteado um pouquinho a princípio?
– Er… não particularmente – disse Perth.
– Então, apenas entregue a mensagem – disse ela. – E se eu lhe vir outra vez, vou matá-lo. Ok?
Deve ser alguma espécie de armadilha, Perth pensou. A garota devia saber que ele estava blefando. Com seu ombro ainda entorpecido do golpe que recebera, ele supôs que houvera um estrondo em sua força magnética, depois do qual ele ficara sob domínio dela. E mesmo assim ela havia escolhido deixá-lo ir embora…
– Por quê? – indagou ele.
Maggie pareceu prestes a responder. Então, ouviu-se um som vindo da cama de quatro colunas. Maggie se encolheu. Perth invocou sua força magnética. Adam havia finalmente despertado.
– O que está acontecendo? – quis saber ele.
Perth se virou para fugir.
– Maddy, detenha-o! Ele está fugindo!
O pé de Perth tropeçou sobre a cabeça do Velho Homem. Rapidamente ele se curvou para puxá-lo…
E, com isso, Adam agarrou a primeira coisa que lhe surgiu à mão – que aconteceu, ironicamente, de ser um candelabro de prata – e jogou-o com a maior força que pôde no intruso. Ele atingiu Perth no lado da cabeça. Um golpe que apenas o roçou, mas foi dolorido. Ele cambaleou; instintivamente, descarregou seu raio mental contra a parede.
A luz de runa explodiu no cenário; através de uma névoa de dor, Perth reconheceu o jovem elegante da feira. Ele arremessou outro raio mental – o instinto se sobrepondo ao medo – e um borrifo de faíscas vermelhas como bombinhas se espalhou pelo quarto.
Adam protegeu seu rosto com seu braço; Maggie lançou a Yr para proteger os dois; e, jogando o Velho Homem dentro da sacola que estava pendurada em seu ombro, Perth fechou os olhos e correu a toda velocidade sobre o pequeno terraço.
Ele não usou a corda, mas simplesmente se arremessou dentro da noite, os braços girando, as pernas bombeando; sessenta metros até os paralelepípedos lá embaixo e nada a que se agarrar senão a lua.
Mas Perth não caiu; a cinco metros abaixo, ele agarrou um pedaço solto de calha, e, a despeito da dor em seus ombros e suas costas, conseguiu içar-se até uma vala feita por encanamento de água; dali foi para um telhado pontiagudo, depois para um declive, circundou um cano de chaminé, e atravessou topos de telhados como um gato, o Velho Homem na sacola, balançando contra sua cintura conforme corria, até que por fim não conseguiu mais correr, e escorregou, caindo num cano de escoamento nos fundos do beco que seguia paralelo ao canal de drenagem.
Ali ele parou para recuperar o fôlego. Dessa vez fora por um triz, ele pensou. Se soubesse como a garota podia lançar sua força magnética, teria pensado duas vezes antes de entrar. Levando isso em conta, até que tivera sorte, disse a si mesmo. Escapara com nada senão arranhões; conseguira roubar o Velho Homem e se livrar de Maddy ao mesmo tempo.
Estava se sentindo um tanto satisfeito consigo mesmo, e decidira até celebrar em uma das tavernas locais, quando uma voz em suas costas disse: “Pare em nome da Lei!” e uma mão caiu sobre seu ombro.
Perth congelou. Sua força magnética desaparecera totalmente; ele não tinha força para fugir ou lutar. Virou-se: dois homens da lei, com porretes pesados, se erguiam na entrada do beco. O terceiro, com uma mão sobre o ombro de Perth, olhou para a sacola com desconfiança. Teriam-no visto sobre o telhado? Se tinham, ele estava encrencado. Se não – e isso parecia mais provável –, então talvez ele pudesse livrar-se sendo descarado. Tentou dar um sorriso.
– Oficiais. Como posso ajudar?
O homem da lei mais próximo dele grunhiu:
– O que há dentro do saco?
– O quê? Isso? – disse Perth. Ele abriu a sacola que escondia o Velho Homem, tomando cuidado para não se mover depressa demais. Alguns homens da lei eram conhecidos por serem zelosos demais com seus cassetetes, e Perth não tinha intenção alguma de dar a eles a menor desculpa para usá-los. O Velho Homem dentro da sacola parecia-se com um torrão de pedra, um pedaço de vidro vulcânico, talvez, ou um bloco de cinza.
Os homens da lei inspecionaram-no atentamente, com idênticas expressões de suspeita.
Por fim:
– O que é isto? – perguntou um deles.
Perth pareceu magoado.
– É uma escultura. Não podem ver? É uma cabeça de pedra. Eu quero dizer, não está terminada, mas vocês certamente podem ver a arte. A nobreza de suas feições. A altivez da testa. A escarpada sabedoria do nariz…
– E estas coisas? – O homem da lei apontou as ferramentas que Perth trouxera consigo: a faca de cortar vidro; o pé-de-cabra curto; o pequeno martelo para arrombar e penetrar.
– São as ferramentas de meu trabalho – disse Perth. – Vocês não veem que sou um artista? – E tal foi seu ar de indignação que mesmo a Lei ficou convencida, quando os três oficiais olharam solenemente para a Cabeça de pedra e reconheceram que, sim, ela tinha alguma coisa, e que Perth estava livre para ir embora.
E então, bem quando eles estavam prestes a ir embora, um dos homens da lei – o mais velho, com olhos azuis frios sob o chapéu – baixou o olhar e se enrijeceu. Perth havia enrolado as mangas de seu casaco quando entrara na cobertura. Agora, num facho de luar, a marca de runa apareceu sobre sua pele tão clara quanto um salpico de tinta.
– O que é isso? – perguntou o homem da lei.
– É uma tatuagem de estrangeiro – disse Perth.
– Parece com uma marca de ferro em brasa – falou o homem da lei. – Uma marca de escravo que foi adulterada.
Perth viu sua posição se enfraquecer rapidamente. Os homens da lei, já desconfiados, agora tinham descoberto sua marca de runa. Em um momento um deles iria sugerir que ele os acompanhasse até a cadeia…
Ele se virou para fugir. Parecia o melhor plano. Podia já ter feito isso, sem o Velho Homem e a sacola. Mas a mão do homem da lei pegou a tira da sacola, e no segundo que ele levou para soltá-la, os outros dois haviam se aproximado. Antes que Perth pudesse invocar sua força magnética, ou mesmo pensar numa mentira plausível, um daqueles pesados porretes havia atingido o lado de sua cabeça, e em segundos suas mãos estavam algemadas, e ele e os conteúdos da sacola foram carregados para a cadeia.
Dez minutos depois, despido de suas ferramentas e de qualquer coisa que o pudesse ajudar a escapar, Perth estava sentado numa cela sob a cadeia do Portão do Santo Sepulcro. Sua cabeça doía, suas mãos estavam algemadas, e através do alçapão que levava à cela – um escuro buraco desprovido de janelas no chão –, o oficial de prisão leu-lhe seus direitos tais como estabelecidos pelo Livro da Lei.
Naturalmente, como ele ressaltou, se Perth era um fugitivo – um fato que breve se revelaria depois de um Exame –, então não tinha direito algum, e, a menos que fosse reclamado por seu proprietário, acabaria nas minas, ou nas galés, ou, mais provavelmente, na forca, que sem dúvida alguma era onde merecia estar.
Perth não disse nada. Ele aprendera que nestas circunstâncias o silêncio era sempre a melhor resposta. Até aí havia se recusado a revelar aos homens da lei qualquer coisa – nem mesmo seu nome –, o que podia lhe valer respeito por um dia, ele esperava, antes que a gigantesca máquina da Lei retornasse com toda força para esmagá-lo. A esta altura, ele esperava ter elaborado um plano. Não era a primeira vez que estivera numa cela e entendia plenamente a necessidade de jogar leve e cuidadosamente.
– Perdeu a língua, hein, malandro? – disse o homem da lei. – Terá sorte se for só isso que perder assim que a Corte houver decidido sobre você.
Ainda assim, Perth não disse nada.
– Claro que você não quer nos revelar seu nome. Nós vamos arrancá-lo de você de qualquer modo, portanto você bem que nos podia poupar o trabalho.
Perth fingiu ir dormir.
– Tudo bem, então – disse o homem da lei. – Mas se quiser comer, ou beber, ou dormir debaixo de um cobertor, e eu lhe aviso, aqui embaixo fica muito frio, você terá que nos revelar seu nome.
Mais uma vez Perth não disse nada.
Irritado pela falta de resposta do prisioneiro, o homem da lei concluiu o pequeno discurso lançando um objeto pesado pelo alçapão. Ele quase atingiu Perth, a intenção fora esta, mas ele viu-o chegando e desviou, e a coisa atingiu o chão com um baque surdo.
No escuro era difícil determinar o que o objeto realmente era; mas assim que o homem da lei fechou o alçapão, ele parou para fazer seu disparo final e, agindo assim, resolveu o mistério:
– Ah, e a propósito – disse ele –, aí está sua preciosa escultura.