Luz das Runas
Capítulo 2
Depois de deixar a Praça do Santo Sepulcro, Maddy se encaminhou para Ratos D’Água. Lá ela encontrou Jormungand sob o píer, parecendo ainda mais lerda que o habitual. O Aspecto de Serpente, que ela parecia preferir, era menos indiscreto ali, de modo que ela podia satisfazer seu gosto por mariscos sem atrair atenção indevida.
Maddy deduziu, por sua postura, que ela estivera caçando focas o dia todo, o que explicava sua aparência intumescida e sua visível desinclinação por fazer qualquer coisa senão abrir a boca e se refestelar (e deixar escapar um ocasional arroto de peixe).
Não adiantava, Maddy sabia, apelar para seu senso de vergonha. Jorgi não tinha ética de trabalho de que falar, e se ela não quisesse se mexer, não havia muito que Maddy pudesse fazer para forçá-la. No entanto, podia tentar.
– Jorgi, preciso de sua ajuda – começou ela.
Jorgi deu uma vomitada monumental que sacudiu o passadouro de madeira todo.
Maddy firmou os ombros.
– Sério, Jorgi – disse ela. – Eu realmente, realmente preciso de sua ajuda.
A exibição de indiferença de Jorgi foi quase esmagadora.
– Vamos lá – pediu Maddy, em reforço. – Você é o Cavalo Negro da Traição, pelo amor dos deuses! Você é um dos arautos dos Últimos Dias. Você não pode simplesmente se esconder sob o píer e ficar se consumindo tolamente o tempo todo…
Jorgi sacudiu os ombros relutantemente.
– Por favor – insistiu Maddy. – Temos que encontrar o General. Para isso, temos que resgatar Perth. E Perth está na cadeia. O que significa que eu preciso de sua ajuda para entrar. Porque obviamente em não vou simplesmente marchar para lá e exigir sua libertação, vou? Ao passo que, se você me conduzir através do Sonho… Jorgi, você está me ouvindo?
Jorgi abriu um olho.
– Assim é melhor. Eu lhe prometo que, quando nós tivermos acabado, você poderá comer todo peixe que quiser. Mas agora temos que procurar Perth. Entendeu?
Jorgi retomou seu Aspecto de Cavalo Negro, parecendo ainda mais desgrenhado que nunca. Cheirava muito fortemente a peixe também, embora, comparado ao Aspecto da Serpente, estivesse positivamente perfumado. Sua longa crina negra estava engordurada – provavelmente com gordura de foca, Maddy pensou –, mas parecia dócil o bastante quando partiram num trote lento em direção à cadeia da cidade.
Ela era situada a alguns quarteirões de distância da Praça do Santo Sepulcro, num complexo conhecido como os Arsenais. A Ordem o tinha usado como um centro de treinamento para jovens aprendizes, longe das distrações da Universidade. Agora era uma prisão, uma caserna, um depósito de armas e um local de execução.
Era também o local de uma passagem que conduzia no subterrâneo dos Arsenais para o Pátio Magisterial, que corria paralela à Biblioteca da Universidade. Mesmo nos dias da Ordem, muito poucas pessoas sabiam disso; agora, apenas uma pessoa sabia – a pessoa responsável pela cena que agora se desenrolava diante de Maddy e Jorgi à medida que eles foram se aproximando.
Maddy viu a luz de runa até antes de ver o fogo. A assinatura de sua irmã no céu era como uma gigantesca letra à mão – enorme, malformada, inconfundível. Ela iluminava o céu acima dos Arsenais como um segundo pôr do sol – salpicos assombrosos de luz de runa que se estendiam sobre os topos dos telhados, manchando os edifícios de ocre e vermelho, borrando a visão das estrelas.
Tinha havido uma batalha ali, Maddy sentiu; e recentemente. A distância, um cheiro de fumaça e o brilho vermelho-escuro de um edifício incendiado. Ela pressionou Jorgi a avançar através das ruas estreitas até que chegou ao centro dos Arsenais, a cadeia da cidade na Praça da Capital, onde parou para contemplar uma cena da mais pura carnificina.
A cadeia se fora. Duas paredes ainda se erguiam, mas o prédio em si havia sido partido ao meio. Maddy ouvira falar de terremotos – geralmente no distante Norte – que tinham tido este mesmo efeito: profundas fissuras na terra, construções reduzidas a pilhas de pedra. Vigas se espalhavam como lascas de madeira; fogo; o ar ainda denso de poeira. O que quer que tivesse ocorrido, ela disse a si mesma, devia ter sido há apenas algumas horas; os incêndios estavam sob controle agora, o cenário ainda cercado por homens da lei.
Um deles viu-a se aproximar.
– Afaste-se – ordenou ele. – Alguns destes prédios podem cair.
– O que aconteceu? – perguntou Maddy.
O homem da lei deu de ombros.
– Nós não sabemos. Talvez um terremoto.
Ele não mencionou luz de runa, ou força magnética, o que Maddy achou fora do comum; a maioria desses homens da lei havia servido à Ordem em uma ou outra ocasião, e devia estar mais familiarizada com os sinais de magia. Maddy interpretou isso como se o homem estivesse evitando deliberadamente contar-lhe a verdade – e por que devia agir assim? Ela não era ninguém. Só uma garota das Terras do Norte.
Ainda assim, ela tinha que se informar sobre Perth. Ele estava na cadeia quando o ataque acontecera? E se fosse assim, como podia ter sobrevivido? Deuses, o lugar era só ruína! Tudo que ela podia esperar era que ele estivesse em trânsito para alguma outra locação na ocasião, ou pelo menos que seu fim tivesse sido rápido.
– Alguém escapou? – indagou ela. – Algum dos prisioneiros…?
Mas o homem da lei pareceu não estar ouvindo. Jorgi havia atraído sua atenção. O cheiro, talvez; ou os olhos de peixe; ou o modo desajeitado com que se movia. Maddy de repente percebeu que este não era lugar para ser notada. Devia haver ali pessoas que ainda reconhecessem encantamentos em ação; um núcleo interno de homens da lei que ainda se lembrasse da Ordem.
– Esse é um cavalo muito diferente. – A voz do homem da lei era fria e afável.
– Sim. Ele pertence a um parente.
– O que é, alguma espécie de raça estrangeira?
Maddy fez um sinal de positivo.
– Eu acho que sim. – Ela começou a girar o Cavalo para ir embora, mas a mão do homem da lei se estendeu repentinamente e agarrou a rédea de Jorgi.
– Eu acho que é melhor vir comigo, senhorita – disse ele, e foi quando Maddy notou que ela simplesmente não iria escapar: havia uma expressão no rosto do homem da lei que lhe revelava tudo que ela precisava saber.
– Há algum problema? – perguntou ela, tocando a Isa por trás das costas.
– Tivemos relatos de um fugitivo, senhorita. Uma jovem que corresponde à sua descrição, e cavalgando um cavalo muito diferente. Temos motivo para crer que essa jovem pode ter sido responsável pelo, er, dano à propriedade pública.
– É verdade? – indagou Maddy. – Que terrível!
Ela deu uma olhada de relance para ver mais três homens da lei se encaminhando em direção a ela. Mais um momento e estaria cercada. Ela sabia que devia ter ido embora. Mas Maddy estava dividida entre o instinto de fugir e a necessidade de saber mais:
– O que ela fez?
– Você realmente não sabe? – perguntou o homem da lei. Era um homem de meia-idade, alto e de ombros largos em seu uniforme. Seu cabelo grisalho estava cuidadosamente amarrado por trás. Seus olhos eram de um azul frio e penetrante.
Ele se parecia com um Inspetor.
Naturalmente, isso não era possível, Maddy disse a si mesma de imediato. Os Inspetores todos haviam desaparecido. Mas a Ordem realmente tinha guardas, ela pensou; uma rede de espiões e executores. Quem sabia quantos ainda restavam? Quem sabia os segredos que eles possuíam?
– Foi um cavalo vermelho – contou o homem da lei (embora Maddy não mais acreditasse realmente que este era um homem da lei). – Um cavalo vermelho, e agora um negro…
Sua mão apertou em torno do pulso de Maddy. Seus olhos se fixaram nos dela.
– Eu conheço você – disse ele. – Há alguma coisa com você. Alguma coisa secreta. Igual havia naquele sujeito que eu trouxe para cá hoje. Aquele que não quis me revelar seu nome…
Maddy de repente percebeu que ele estava tentando enfeitiçá-la. Não com a Palavra, mas com a força pura de sua personalidade. Por trás dela, os três outros homens da lei estavam um pouco mais que a um metro e meio de distância. Em um momento estariam em cima dela.
Ela invocou Isa, a Gelada, e lançou-a sobre o homem da lei. Imediatamente, o homem ficou congelado no lugar. Seus camaradas recuaram, assustados, e no momento que levou para que reagissem, Maddy agarrou a rédea de Jorgi, e escoiceando em suas laterais, gritou:
– Jorgi! Tire-nos daqui!
Seguiu-se uma confusão momentânea. As sombras obscureceram; a luz de runa emitiu clarões; o ar ficou de repente cheio de poeira. A escuridão caiu – uma escuridão tão densa que Maddy quase podia tocá-la. Ela parecia pulverulenta, como ferrugem; até cheirava a fumaça de coisa velha.
Jorgi mais uma vez mudara de Aspecto para o da Serpente do Mundo. Maddy podia sentir sua crina nas mãos; era como segurar a franja de uma lula morta.
Então ela parou, e Maddy deslizou de seu lombo para a pedra fria.
– Onde é isso? No Sonho?
Ela ainda estava cega. Lançando a Sól, ela se flagrou num corredor enfileirado de tijolos, coberto de teias de aranha, liso de poeira.
– Nós já não estivemos aqui?
A voz de Maddy ecoou contra as pedras, e ela começou a entender. Aquilo não era o Sonho. Eles estavam debaixo da terra. Jorgi devia tê-los levado para debaixo da cidade, bem como no dia em que chegaram. Esta era uma das passagens que conduziam à Universidade, não usadas desde o fim da Ordem, enclausurada no pó dos séculos.
– Muito bem, Jorgi!
Ela percebeu que eles estavam sob os Arsenais. Uma ala da passagem havia parcialmente caído à frente deles, espalhando pedra, tijolos e detritos na catacumba abaixo. E então, olhando através da runa Bjarkán, Maddy viu uma coisa que a fez gritar. Uma assinatura, recente – débil, mas reconhecível – percorrendo a pilha de pedras e conduzindo à escuridão.
Perth?
E havia ali mais uma coisa: um traço prateado da runa Ác que cortava por meio das sombras como uma lâmina, e, com ele, um rabisco de azul martim-pescador que podia pertencer apenas ao General.
Então fora assim que Maggie havia feito, ela pensou. Primeiro através do Sonho, sobre o Sleipnir, e depois cruzando o labirinto subterrâneo para atacar onde era menos esperado.
– Jorgi, eu poderia beijá-la! Se você não cheirasse tão mal…
Jorgi arrotou e expandiu seu Aspecto para preencher o total da passagem. Agora ela se parecia com uma lesma gigante – viscosa e muito satisfeita consigo mesma.
– Pode me levar até onde isso vai dar? – Maddy apontou a trilha.
Jorgi encolheu os ombros novamente para atravessar a passagem. Maddy segurou-se nela tão firme quanto pôde, pressionando-se nas costas de Jorgi enquanto ela passava fluente por vários obstáculos. O avanço de ambas foi lento e escorregadio, mas a Serpente do Mundo era ágil e surpreendentemente boa em se espremer para cruzar pequenos espaços. Em pouco tempo elas haviam saído dos Arsenais e abriam seu caminho descendo por um túnel que era amplamente livre de assinaturas – exceto por aquele rastro triplo que levava à escuridão.
Agora Maddy seguia a trilha a pé. A força magnética de Perth estava muito fraca. Os traços que a recobriam eram ofuscantes em comparação, a cobertura de luz de runa sobre as paredes como o sinal de uma violenta erupção. Devia ter havido uma luta ali, ela pensou. Mas quem fora o vencedor?
Ela encontrou Perth noventa metros abaixo, num lugar onde o telhado havia parcialmente caído, encolhido, quase escondido por trás de uma pilha de detrito e pó; por um momento Maddy teve certeza de que ele estava morto.
Ela soltou um grito e começou a retirar os detritos; sob eles, seu amigo jazia imóvel. Sua força magnética estava tão baixa que ela mal pôde vê-la, mesmo através da runa Bjarkán. Ele mal estava consciente; estava manchado de pó; dilacerado, ferido e sangrando. E, no entanto, respirava, ele estava vivo.
Perth tossiu.
– Água. Por favor.
Rapidamente Maddy encontrou um lugar onde a água vazava através do teto. Parecia limpa; ela recolheu um pouco entre suas mãos em concha e deu para ele beber. Isso pareceu revivê-lo; ele tossiu outra vez e se ergueu com um esforço.
– Com que o escravo sonha?
Maddy franziu o cenho para ele, intrigada.
– O quê?
– É uma velha charada que usávamos, quando eu estava nas galés. Com que é que o escravo sonha? O escravo sonha em ser o amo. Eu pensei nisso há apenas um minuto atrás, pela primeira vez em anos e anos. – Ele levou uma das mãos sobre a cabeça. – Dói. Deve ter atingido em algum ponto.
– Sem brincadeiras – disse Maddy. – O que aconteceu? Você está com uma aparência terrível.
– Houve uma discussão. – Perth ergueu os olhos para Maddy e sorriu. – Num minuto eu estava em minha cela, tentando um descanso muito necessário, e no outro, bum! Eu lhe digo, se eu soubesse que seria tão problemático, eu não teria roubado aquela Cabeça para os Mundos.
Maddy estava tremendo de alívio.
– Eu devia ter lhe falado a verdade – disse ela. – Você podia ter sido morto. Se você tivesse…
Perth deu de ombros.
– Se desejos fossem cavalos, mendigos cavalgariam.
Maddy sentiu seu coração se apertar.
– Eu tinha um amigo que costumava dizer isso.
– É mesmo? O que aconteceu?
Ela balançou a cabeça.
– Não importa. Agora está acabado. E se minha irmã pegou a Cabeça…
Perth pareceu surpreso.
– Mas ela não pegou – falou ele.
Maddy arregalou os olhos para ele.
– O quê?
Ele sorriu.
– Eu lhe disse. Houve uma discussão. E eu devo dizer que estou decepcionado por sua suposição de que, numa luta entre mim e uma garotinha, a garotinha fosse vencer…
A cabeça de Maddy estava girando.
– Por favor, Perth. Pelo amor dos deuses, pare de falar!
Perth assumiu um ar ofendido.
– Você quer dizer que ainda o tem? – perguntou ela.
Mais uma vez Perth sorriu. Estendendo a mão por trás da pilha de detritos, ele retirou um pedaço de pedra vulcânica do qual Maddy se lembrava bem demais. Ela o vira pela última vez nas planícies do Inferno, quando Açúcar o havia lançado para dentro do Sonho…
Por um momento seu coração ficou repleto demais para falar. Ela estendeu a mão para pegar a Cabeça de Pedra. Seria ela realmente o General? Poderia ele dizer o que fazer para impedir o Apocalipse iminente?
Com as mãos trêmulas, ela a pegou. Depois, invocando a runa Bjarkán, ela olhou para seu âmago de pedra.
– Odin? Um Olho? Você está aí?
Nenhuma resposta. Nenhum traço de força magnética.
– É Maddy. Odin, você está aí?
Nenhum brilho de resposta surgiu.
Ela tentou novamente, com toda a sua força magnética, mas a Bjarkán não revelou nenhum sinal de vida. Nenhum feitiço o despertou; Maddy ficou rouca de tanto tentar.
Finalmente, quando havia tentado todas as runas, todos os feitiços que havia aprendido, Maddy entendeu. A Cabeça era uma casca vazia. Nem mesmo a mais débil das cintilações restava. A pedra era uma pedra e nada mais.
O que quer que ela tenha guardado em seu interior um dia havia desaparecido.