Luz das Runas
Capítulo 4
Maggie encarou fixamente o pedaço de pedra. Então, era este o Velho Homem de quem tanto ouvira falar; a coisa que Adam valorizava tanto. Olhando-o de mais perto agora através do círculo de indicador e polegar, podia ver claramente suas feições, confusamente iluminadas dentro do vidro vulcânico, e se ela se concentrasse com força, julgava até poder ouvir sua voz…
Eles haviam levado o objeto para a suíte onde Maggie e Adam tinham seus quartos. Agora, com as cortinas prudentemente baixadas, os dois jovens examinavam seu prêmio.
– Está vivo? – quis saber Maggie.
O Murmurador riu com a voz de Adam.
– Vivo, e à Minha mercê. Sim.
– O que é isso? Quem é isso?
– Não se importe. O que importa é seu valor para nós. Com seu poder e Meu conhecimento, não há nada que não possamos conquistar.
Mais uma vez Maggie olhou fixamente para a pedra. O ser que parecia estar preso ali dentro articulou frases frenéticas e silenciosas. Dentro do abrigo de runas, ele brilhava com uma débil luminescência, e um brilho mais luminoso se estendia em seu núcleo, como um pedaço de uma estrela caída.
– Uma estrela caída? – disse o Murmurador. – Sim, suponho que você possa chamá-lo assim. Caída do Firmamento nas profundezas do Mundo Subterrâneo; resgatada do reino do Sonho; e agora, depois de muito tempo, finalmente Minha prisioneira, presa pelas suas próprias forças magnéticas no Aspecto no qual eu fiquei preso por tanto tempo… – Mais uma vez Adam deu a risada do Murmurador. – Como é, General, sentir-se tão desamparado como eu estava?
– Você quer dizer que ele é do Povo do Fogo? – comentou Maggie, incrédula. – É um demônio que está preso aí?
– Um demônio, ou um deus. Quem se importa? Quase não há diferença. Faça-o falar – pediu ele. – Você pode fazer isso. Você tem a força magnética. Você pode fazê-lo profetizar. Você pode fazer com que ele lhe dê as runas do Manuscrito Mais Novo, aquelas que vão reconstruir Asgard e fazer-nos senhores dos Nove Mundos.
– Eu posso? – perguntou Maggie, duvidando. Ela pôs as mãos sobre o pedaço de pedra. A luz em seu âmago brilhou impacientemente. Ela seguiu os contornos de seu rosto, traçando suas feições na pedra. – O que é preciso para levá-lo a fazer alguma coisa? É uma pedra, pelo amor dos deuses!…
Com um esforço, o Murmurador tentou conter sua impaciência.
– Você tem o Bom Livro. Use-o!
Maggie lançou para Adam um olhar duvidoso. Aquela nota áspera em sua voz não era dele, ela sabia, mas da voz de seu passageiro. Ela odiava o fato de que seu amigo pudesse ser manipulado dessa maneira, como uma marionete num espetáculo de feira; e ela não ligou muito para a maneira brusca com a qual o Mestre falou com ela.
– Você prometeu que soltaria Adam – disse ela. – Eu mantive minha parte da barganha…
– Barganha? – questionou o Murmurador. A nota áspera estava mais ríspida do que nunca. – Devemos falar de barganhas quando o Fim dos Mundos se aproxima de nós? Temos o Velho Homem em nosso poder, e você está regateando com isso como se fosse uma fatia de pão numa padaria de aldeia?
Maggie abriu a sua boca para responder, mas Adam interrompeu.
– Está tudo certo, Maggie – disse ele, falando agora com sua própria voz. – Os modos de meu mestre podem ser abruptos. Mas se queremos salvar os Mundos, estas novas runas são tudo de que precisamos.
Maggie pareceu insegura.
– Quantas novas runas?
– Ninguém sabe ao certo – falou Adam. – Sabemos que o Povo do Fogo tem pelo menos duas. – Ele deu um olhar de relance para o Velho Homem, que agora brilhava com mais intensidade ainda. – Maggie, esta é nossa chance – disse ele. – Esta coisa é uma espécie de oráculo. Pode nos revelar sobre o Povo do Fogo. Sobre seus planos. Seus poderes. Seus números. Com as runas, podemos detê-los. Podemos ganhar esta guerra antes que ela sequer tenha início.
Maggie olhou para o Bom Livro que se estendia aberto ao seu lado. Um texto, todo em runas, parecia emitir um brilho da página onde Raedo cintilava num azul-martim-pescador.
– É este o texto?
Adam fez que sim.
Maggie tocou a runa do Viajante. Mesmo para suas mãos destreinadas, ela pareceu anormalmente poderosa. Ela a apontou para a pedra Cabeça, fazendo seu abrigo de runas emitir um clarão, e começou a fazer uma leitura do Bom Livro:
Eu te nomeio Odin, filho de Bór.
Seria aquilo um pequenino lampejo de resposta, no mais profundo do âmago da pedra? Seria apenas um reflexo da luz do sol vindo através das cortinas? Ou podia ser uma piscadela, ela pensou, de um único olho cintilante?
– Tenha cuidado – advertiu Adam. – É perigoso.
Maggie fez que sim e prosseguiu: Eu te nomeio Grim e Ganglari, Herian, Hialmberi…
A Cabeça estava reluzindo ferozmente agora, como se o ser dentro da pedra soubesse que ela estava sob ataque. A própria cabeça de Maggie começou a doer, e ela percebeu que isso era parte da defesa da coisa; este demônio, com sua força magnética quebrada, era muito mais forte que o Murmurador. Ela já estava a meio caminho do verso quando uma voz falou alto dentro de sua voz – uma voz que era, para um demônio, ao mesmo tempo surpreendentemente culta e vagamente divertida. Ela vacilou e parou no meio da sentença.
– Maggie Rede. Até que enfim… – falou a voz. – Posso dizer quão orgulhoso estou?
– O quê? – disse Maggie.
– Não seja modesta. Para uma torturadora em sua primeira tentativa, eu acho que você está se saindo muito bem. Embora tenha que trabalhar mais em sua entonação.
– Quem disse que eu ia torturá-lo?
– A julgar pela companhia em que está, pareceu uma suposição lógica.
– Você não sabe nada sobre mim – disse Maggie, voltando-se para o Livro.
– Você está enganada. Eu sei tudo sobre você. Eu sempre soube tudo sobre você em toda a sua vida. Você achou que estava sozinha, sob a velha Universidade? O que você achava que estava fazendo lá? Nunca lhe ocorreu que toda vez que você lia aqueles livros estava declamando no mais alto que podia para qualquer um que pudesse ouvi-la?
Maggie olhou de volta para o Bom Livro.
– Você está tentando me distrair – disse ela.
– De modo algum – garantiu o Velho Homem. – Sem dúvida, sinta-se livre para prosseguir. Você é muito poderosa, diga-se de passagem. Você na certa fez com que meu irmão Loki se escondesse da luz do sol. A serpente foi um detalhe inteligente, eu achei. Fico pensando no que você sonhará para mim.
Maggie lançou um olhar para o Velho Homem e voltou ao cântico.
– Eu te nomeio Bolverk – continuou ela. – Grimnir, Blindi, Har-Harbárd…
– Harbard – corrigiu o Velho Homem. – O acento na primeira sílaba, por favor. E tente não gaguejar. Uma pessoa suscetível poderia tomar isso por zombaria.
– Eu não preciso de sua ajuda – disse Maggie.
– Não? Estou propenso a pensar que sim.
– Apenas me deixe ler o cântico. Depois poderá me ajudar no que quiser. – Ela prosseguiu com o antigo texto, lendo o Bom Livro, e, conforme lia, as runas na página iluminavam-se, uma por uma, com uma luz febril.
– Eu te nomeio Omi, Elevadíssimo.
– Eu te nomeio Sann e Sanngetal.
O cântico estava funcionando. Quando ela falou, a rede de runas fez um clarão, cada runa se iluminando por sua vez. Ao fazer isso, Maggie sentiu o poder do Velho Homem recuar e falhar; sua força magnética não era páreo para a dela.
– Maggie, por favor. Isso dói.
Ela se encolheu. A coisa incorpórea podia sentir. Sua angústia fez com que ela ficasse muito nervosa, como se caminhasse sobre vidro quebrado. Ela tentou se enrijecer para seguir em frente, mas de repente sua boca ficou seca. O Velho Homem estava certo, ela disse a si mesma. Ela realmente era uma torturadora.
– Maggie, você tem que me ouvir. O Povo do Fogo está a caminho. Você não pode detê-los, faça o que fizer. Mesmo que você me mate agora…
Maggie apertou os dentes.
– Eu te nomeio Vili, e Wotan, e Ve…
– Maggie! Por favor! Ouça-me só um pouquinho! É esta a Ordem com a qual você sonhou?
Maggie vacilou, depois parou.
Ela pensou em Adam, um prisioneiro do ser que se autodenominava Mestre. Pensou em seus pais, mortos na epidemia, e nos irmãos, mortos na Glória. Pensou na Cidade Universal, infestada de cortadores de garganta e ladrões. E depois pensou em si mesma, sonhando com a morte e a destruição, extraindo alegria na perspectiva de ver seus inimigos sofrerem e sangrarem…
O Velho Homem estava certo, Maggie pensou. Não havia Ordem em tudo isso. Por três anos sua vida não havia sido nada exceto Caos, angústia e solidão. Poderia o Velho Homem lhe dar alguma coisa diferente?
Adam estava parecendo impaciente.
– O que você está fazendo, Maggie? – chiou ele.
Boa pergunta, Maggie pensou. O Velho Homem estava à mercê dela agora. Uma sentença a mais quebraria sua vontade. Mas alguma coisa dentro dela se recusava a prosseguir. Ela havia tocado a mente da criatura. Ela conhecia a angústia que a Palavra provocava. E torturar um ser reflexivo, racional – mesmo sendo alguém do Povo do Fogo –, era a esse ponto que ela chegara? Era esse o preço da Ordem?
As resistências do Velho Homem estavam se enfraquecendo agora. Falar as derradeiras palavras de um cântico, aniquilar este antigo ser enquanto ele ainda estivesse em seu poder, agora parecia tão desnecessário quanto cruel.
Maggie fechou o Bom Livro. As últimas duas linhas do cântico – o encantamento final que iria prender o Velho Homem à sua vontade – permaneceram impronunciáveis.
A criatura no pedaço de pedra deu uma espécie de suspiro mental.
– Obrigado, Maggie. Fico te devendo.
Na mente de Adam, o Murmurador deu um uivo de frustração.
– Não pare! Não pare! O que há de ERRADO com ela? Diga a ela para terminar… terminar isso AGORA!
Mas a mente de Maggie estava focada em outra parte. Em sua mente a presença do Velho Homem estava se abrindo como uma flor. O que ela falhara em tomar pela força estava se oferecendo por vontade própria, página após página, como um livro aberto – texto, iluminuras, mapas – espalhados ali em gloriosa profusão.
– O que é isso? – perguntou ela.
– Você queria me conhecer. Aqui estou.
E então veio uma cascata de imagens, algumas estranhas, outras perturbadoramente familiares. Histórias da Velha Era; rostos e lugares e sigils e forças magnéticas; batalhas e banquetes e fragmentos de sonho; heróis e monstros e amigos há muito perdidos; velhas traições, amores perdidos; e, por baixo de tudo isso, uma dor tão profunda, um mundo tão grande de aflição e perda que Maggie, nada inexperiente em matéria de perda, mal conseguia suportar pensar nele.
O Velho Homem era velho, ela percebeu. Mais velho que a Ordem; mais velho até que a Cidade Universal. Odin, filho de Bór, tinha visto a Árvore do Mundo crescer a partir de um broto novo; tinha visto um império se erguer e cair; tinha visto os filhos crescerem e morrerem; tinha visto a dança da Ordem e do Caos conforme moviam-se através dos séculos. Tinha tapeado a Morte; sobrevivido no Sonho; tinha escapado até da Danação.
E tudo para quê? Estava sozinho. Seu povo estava disperso, sem rumo, em conflito. Dois de seus filhos estavam mortos; o terceiro ainda vagueava, enfraquecido, entre os integrantes do Povo do Fogo. De todo o seu povo, apenas seus netos, apenas as gêmeas importavam agora; Modi e Magni, filhas de Thor, o Carvalho e a Cinza que iriam reconstruir os mundos…
Maggie abriu os olhos em choque.
– Não, eu não acredito nisso!
A voz do Velho Homem em sua mente era seca.
– Acredite ou não. Você viu o que viu.
– Você está mentindo!
– Acho que nós dois sabemos que não.
Por um momento Maggie ficou atônita demais para pensar. A paisagem da mente do Velho Homem continuou se abrindo ao redor dela, mas ela era incapaz de olhá-la; esmagada por aquela verdade simples, monumental…
Se ela era irmã de Maddy, então…
O Velho Homem era seu avô.
Com um feitiço, ela repeliu o laço que prendia a mente do Velho Homem a ela. O alívio a inundou, um alívio tão forte que seus joelhos cederam e ela caiu no chão. Começou a tremer.
– O que houve? – perguntou Adam.
Maggie descobriu que mal podia falar. Uma massa de emoções lutava dentro dela – emoções que mal podia reconhecer. Finalmente ela se agarrou a uma que ela podia realmente entender; uma que ela havia experimentado ao longo de toda a sua curta e problemática vida.
Raiva.
– Por que você não me contou? – indagou ela, e sua voz foi suficiente para fazer Adam se encolher. O ar estalou com força fugaz magnética, eriçando os pelos de seus braços.
No fundo de sua mente, seu passageiro sussurrou palavras de advertência:
– Não mexa com isso, garoto.
Mas Adam não precisava de aviso. Ele já vira Maggie furiosa, e sabia que ela podia ser perigosa.
– O que ele lhe contou, Maggie? – perguntou ele. – Ele lhe ensinou o Novo Manuscrito?
Ela balançou a cabeça. Sabia que sua raiva não era propriamente contra Adam, mas ainda assim não confiava em si mesma. Tomou um fôlego profundo, sentiu-se zonza e agarrou-se à coluna da cama para se apoiar.
– Aquela coisa – disse ela. – O Velho Homem. Você sabia que ele era meu avô?
Adam sabia sim, e havia temido a hora em que Maggie pudesse descobrir a verdade. Uma mentira seria desastrosa – ela a veria em seu rosto imediatamente – e então ele simplesmente fez que sim com a cabeça e disse:
– Eu sabia. Ah, Maggie. Sinto muito.
Maggie sentiu sua raiva regredir, deixando-a muito próxima às lágrimas.
– Por que você não me contou? – perguntou ela.
– Eu queria protegê-la. – Adam se ajoelhou ao lado dela. – Pensei que você nunca teria que descobrir… – Ele posicionou seus braços em torno dela. Por um momento ela se enrijeceu; depois, depôs sua cabeça na curva do ombro dele e soluçou.
– Não chore, Maggie – disse Adam. – Você não é a primeira a ser tapeada. Meu mestre, sua irmã, até eu…
– Minha irmã?
Adam beijou seus cabelos.
– Ela tem sido um peão no jogo dele o tempo todo. Ele a usou para se aproximar do meu mestre, depois a usou novamente para chegar até você. Agora ele quer se apropriar de você também. É por isso que temos que dar um jeito nele rapidamente. E nos outros do Povo do Fogo.
Maggie fez que sim. Tudo isso fazia sentido. O Velho Homem a tinha desorientado; fingindo cooperar, descobrira sua fraqueza e depois aplicara nela seu golpe. Fora assim que ele se apropriara de Maddy Smith? Jogando com suas lealdades?
Ela voltou seu olhar para Adam.
– Ele me disse que eles estavam a caminho.
– Quem? – disse Adam.
– O Povo do Fogo.
Por um momento Adam não disse nada. Em sua mente, seu passageiro ficara muito imóvel e muito alerta. Ele se preparou para a raiva da criatura, mas quando o Murmurador finalmente falou, sua voz foi calma e sedosa.
– O Povo do Fogo está vindo? – perguntou ele. – Tudo bem. Deixe-o vir.
– Você não parece muito preocupado, disse Adam.
– Não estou – respondeu o Murmurador. – O caminho para Fim de Mundo não é fácil, especialmente para os membros daquele povo. Mesmo que consigam de algum modo resolver suas diferenças pessoais, ainda têm o Povo com que lidar. Homens da lei, possessões, patrulhas da fronteira; tudo isso vai diminuir sua marcha; testar suas forças; drenar sua força magnética. E se precisarmos intervir, bem, temos nossa sonhadora.
– Maggie – disse ele com a voz de Adam. – Tudo isso exauriu você. Por enquanto você devia descansar um pouco. Amanhã podemos tentar novamente.
Maggie olhou para ele com gratidão.
– Da próxima vez farei certo – falou ela. – Prometo que não vou desapontá-lo.
E, então, mais uma vez, o Murmurador falou silenciosamente com Adam, interrompendo ocasionalmente suas instruções para verificar se o rapaz havia entendido. Adam ouviu atentamente, e se estava surpreso por algumas das coisas que seu mestre requeria, sensatamente evitou comentários.
Um garoto das Terras do Norte, disse a si mesmo, nunca devia ter se envolvido naquela batalha pelos Mundos, e ele há muito tempo havia desistido de qualquer anseio de poder. Estava chegando a hora em que seria livre, a Voz em sua mente lhe assegurou. Tudo o que precisava fazer era obedecer, e muito em breve Adam poderia fazer o que quisesse – ir para casa, se fosse de sua escolha; ou ficar em Fim de Mundo e obter sua recompensa final.
– Faça exatamente o que eu disser, e eu lhe darei tudo que você sempre desejou. Tudo com que você sempre sonhou…
– Não quero mais sonhos – pensou Adam. – Se eu tivesse poder de realizar um desejo, seria este.
Dentro de sua cabeça, o Murmurador deu uma risada.
– Garantido – disse ele. – Agora faça o que eu digo.
Adam Scattergood obedeceu.