Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 97 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 9

 

Fazendo beicinhos, fazendo beicinhos, tudo está desmoronando, diziam as palavras na antiga cantiga de ninar. E foi o que começou a acontecer, naturalmente, quando o resto da Ponte desapareceu, tombando o Escudo do Sol e os sonhadores no céu vazio e implacável.

Ao mesmo tempo a nuvem de sombra deu um estremecimento sísmico, vomitando os Vanir no ar como sementes num furacão. Loki mudou para a forma de pássaro e disparou por sobre Asgard, carregando Sigyn entre suas garras como uma bolota dourada. Os Vanir se dispersaram, alguns atônitos com a explosão, outros varridos pela turbulência. O Caos havia finalmente entendido o perigo que seus sonhos representavam e havia batido suas portas contra eles com todas as forças que podia reunir.

Maddy deu um gemido de desolação e ergueu os olhos para o Berço. Não mais efêmero, ele brilhava como uma geleira ao sol, erguendo-se glamoroso das nuvens com mil torreões e agulhas de vidro. Era de longe a coisa mais maravilhosa que ela havia visto ou sonhado: uma cidade no Firmamento, toda circundada por auroras boreais. Mas a coisa ainda não havia acabado, ela sentiu, quando Jormungand se movimentou, entrou e saiu do Sonho, de modo que se ela parasse para salvar seus amigos, toda a estrutura delicada e intricada poderia se dissolver igual à Ponte do Arco-Íris, deixando nada a que se agarrar senão vapores e nuvens.

Ela ergueu os olhos para onde Perth e Sleipnir se posicionavam nas ameias da cidade. O Aspecto do General era muito pálido, sua força magnética reduzida a nada. Através da runa Bjarkán ela viu que ele mal estava consciente. Nan também dera uma parada; o Sonho era um devorador de força magnética, e a energia requerida para construir já havia consumido a maior parte dela. A própria força magnética de Maddy estava reduzida a uma faísca; mas ela havia chegado atrasada à batalha e, com sorte, ainda restara um pouco. Suficiente para só mais uma tentativa – um último e desesperado voo da fantasia…

Tempo! Eu preciso de mais tempo!, ela pensou. Um segundo, nem que seja só mais um segundo…

Ela viu a sombra do pássaro negro surgir. Açúcar estava montado em Fenris. Ela soltou um grito quando a sombra caiu, e Açúcar olhou-a de relance, os olhos dourados iluminados, a mão estendida em direção à nuvem de sombra. Seu braço dotado de força magnética reapareceu assim que ele tocou o tecido do Sonho, e por um segundo – talvez menos – seu Aspecto foi aquele do Corajoso Tyr, sua assinatura flamejando em vermelho brilhante, montado sobre um lobo-demônio com peles que crepitavam com luz de runas.

Fenris escancarou as mandíbulas. O Devorador encarou o Destruidor. Por um segundo a sombra vacilou, e Maddy mergulhou mais uma vez no Sonho…

Ela sentiu a ponta da asa do pássaro negro roçar seu ombro quando passou. Não houve dor, mas seu braço ficou entorpecido e sua força magnética desapareceu subitamente como uma chama que morria. Ela ignorou isso e se estendeu para a hora final no coração fervilhante do Sonho.

E então, por fim, Maddy sonhou com seus amigos. Ela sonhou com o Povo-Vidente e o Povo do Fogo; com o Astuto e seu sorriso tortuoso, o Vigilante e o Deus do Trovão, a Vidente e o General, o Curandeiro e o Poeta, a Caçadora e o Homem do Mar. Ela sonhou com a Sif de Cabelos Reluzentes, com Frey e Freya, com a Louca Nan Fey – e principalmente com o Corajoso Tyr, que uma vez fora Saco de Açúcar, um duende covarde que viera da Colina do Cavalo Vermelho e que havia destemidamente dado tudo de si para que ela ganhasse o último precioso segundo.

Esporeando Jorgi para sair da nuvem, ela sentiu a sombra do pássaro baixar novamente, tão próxima que prendeu seu calcanhar esquerdo. O entorpecimento engolfou-a; mas Maddy seguiu em frente rapidamente, tentando não pensar em seus amigos despencando pelo ar, para suas mortes; invocando Aesk, a Cinza do Relâmpago, com toda faísca de força magnética que lhe restara.

Mas, em vez do clarão de luz de runa, o que veio foi o clique de um galhinho que se quebrou quando Aesk, a Cinza, oscilou como uma vela e se apagou.

A runa havia fracassado.

Tudo acabara.

Maddy olhou fixamente para a marca na palma da mão. Ela conhecia sua forma melhor que qualquer coisa; ela a tinha desde o dia em que nascera. Uma marca de runa enferrujada – um defeito, eles diriam – que havia lhe dado o poder dos deuses.

Mas agora ela mudara, e em sua fadiga e confusão levou-lhe um instante para entender por que ela parecia tão estranha e não familiar…

 

Ela estava invertida.

– Não, por favor – disse Maddy, numa compreensão repentina. – Não agora que estamos tão perto…

E então viu uma asa de pássaro negro emergindo da nuvem de sombra fervilhante. Surt, o Destruidor, em Aspecto, estava entrando nos Mundos Médios…

– Não! – falou Maddy mais uma vez, e esporeou Jormungand em direção à nuvem. Não importava que, com sua runa invertida, ela não tivesse nenhuma esperança de vitória. Tudo em que ela conseguia pensar era: Se eu não tentar alguma coisa, no mínimo, então Açúcar terá morrido em vão…

A coisa, que não era na realidade um pássaro, sentiu sua aproximação e parou. Não tinha sentimentos de dor ou prazer – na verdade, aquela antiga inteligência não tinha sentimento algum do tipo que Maddy poderia ter identificado –, mas possuía uma fria curiosidade, até certo humor.

Examinando a garota e a serpente, a coisa concluiu que eles não representavam ameaça alguma, e começou a se mover para a frente outra vez, invocando seus vastos recursos para aniquilar os últimos daqueles que procuravam resistir a ela.

Então Maddy ergueu a palma de sua mão direita com a marca enferrujada e apagada. Aesk, invertida, mal lançou um brilho. Ela pulou das costas de Jorgi e lhe sussurrou uma última instrução. Depois, com sua mão direita, ela invocou Bjarkán, e penetrou na boca do Caos.