Luz das Runas
Capítulo 11
– Como você sabia meu nome? – perguntou ela. – Você é um sonho, um demônio, um fantasma?
Existiam fantasmas nessas catacumbas, embora até agora Maggie nunca houvesse se deparado com algum. Mas o belo jovem com os olhos azuis penetrantes não tinha nada da aparência de um fantasma.
Na verdade, Maggie Rede nunca havia visto alguém tão cheio de vida. Ele reluzia de saúde; seus cabelos brilhavam, ele se movia com a graça fácil e sem esforço de alguém completamente à vontade com cada músculo e fibra de seu corpo. Era um desconhecido e, no entanto, havia alguma coisa nele que parecia estranhamente familiar. Será que ela o teria visto num dos mercados? Na taverna?
– Um sonho? – indagou Adam. – Longe disso. Na verdade, se houver algum sonho, ele é você. O sonho que venho perseguindo minha vida toda.
Era uma boa frase, pensou ele. A Voz lhe dava montes de boas frases, e ele havia se tornado muito devotado a dizê-las. Além do mais, ele conhecia garotas e supunha que esta não fosse diferente do resto delas. Algumas boas frases, um ou dois beijos, e ela seria sua, para que ele perguntasse o que quisesse.
Mas Maggie não pareceu impressionada. Na verdade, ele achou que ela parecia furiosa. Por um momento ela pareceu lutar para falar; depois, afastou-se dele, puxando seu lenço para perto de si de forma protetora.
– Quem quer que seja você, não devia estar aqui. Você me despertou. Eu estava dormindo.
– Eu sei. Lamento ter sido um intruso – disse Adam numa voz humilde. – Mas agora que estou aqui, você não está nem um pouquinho curiosa sobre o que eu vim lhe dizer?
– Não – respondeu Maggie. – Você não devia estar aqui. Não é… certo você estar aqui.
Adam Scattergood apertou os punhos. A garota iria lhe dar problemas. Sabendo quem ela era, ele, naturalmente, devia ter esperado por isso.
Ele engoliu a impaciência.
– O que não está certo? – perguntou ele.
– Você e eu, sozinhos deste jeito. Aqui. Sozinhos. Juntos.
Adam virou seu rosto, não querendo que sua expressão transparecesse. Obviamente a garota era alguma espécie de puritana. Ele devia ter imaginado. O bergha que ela usava lhe revelava isso; e, naturalmente, nenhuma respeitável filha da Ordem gostaria de estar sozinha à noite, com um homem, num lugar como aquele.
– Confie em mim. Eu não tenho nenhum interesse. Tudo o que quero é conversar com você.
Ele achou que ela se controlou ao ouvir isso e, então, sorriu para si mesmo em segredo. Não há nada como uma demonstração de indiferença para atrair a atenção de uma garota. Do canto de olho ele ficou observando enquanto ela lutava com a curiosidade, com a pequena chave dourada que pendia do cordão em torno de seu pescoço.
Por fim, ela pareceu relaxar um pouco.
– Sobre o que você queria conversar? E como você sabia que eu estaria aqui embaixo?
Adam deu de ombros.
– Eu sei um monte de coisas. Desses sonhos que você vem tendo, por exemplo.
Ela balançou a cabeça.
– Eu não sonho.
– Claro que sonha – disse Adam.
Maggie estreitou seus olhos.
– Você sonha também?
– Ah, sim – afirmou Adam. – Eu sonhei com você. Eu sonhei com você todas as noites por anos a fio. E você sonhou comigo. Você sabe que sonhou. Você realmente acha que pode mentir para mim?
Maggie sentiu todo o ar de seu corpo subitamente abandoná-lo, como se houvesse sido socada no estômago. Então olhou diretamente para o rosto de Adam pela primeira vez e soube por que ele parecera tão familiar.
Este era o rosto que ela vira nos sonhos – nos sonhos com a Adversidade. O azul de seus olhos. A linha de seu queixo. Ela sentiu uma onda de pânico. Como esse homem podia ter vindo de seus sonhos? Como ela podia ter conhecido seu rosto?
– Você é um demônio – disse Maggie.
Adam sorriu.
– Pelo contrário. Eu sou um caçador de demônios. Eu sei tudo sobre você, Maggie Rede. Filha de Donal, sobrinha de Elias, conhecido dentro da Ordem como o Inspetor Número 4421974.
Os olhos de Maggie se arregalaram ainda mais.
– Ninguém sabe os nomes secretos – disse ela numa voz que tremia um pouco.
– Eu sei muito mais que isso – garantiu Adam. – Eu sei o que você tem feito aqui, Maggie, aprofundando-se em livros proibidos. Eu sei quais sonhos eles lhes proporcionaram.
Cheia de culpa, Maggie ergueu sua mão para a chave dourada que pendia de seu pescoço.
– Está tudo certo – disse Adam. – Eu não vou tentar tomar isso de você.
Mas eu sei que você perdeu sua família e seus irmãos quando a Ordem caiu, seus pais na calamidade que veio a seguir. Eu sei até como seu tio morreu.
Maggie ficou pálida.
– A Glória… – balbuciou ela.
– Não houve Glória. Essa história foi inventada para esconder a verdade.
– A verdade?
Adam suspirou.
– Eu sei que é difícil. Mas a Glória foi só um conto de fadas inventado pelo inimigo. Essas pessoas, a Ordem, sua família, eles não ressuscitaram para a Glória celestial. Não havia Inominável algum esperando por eles nas margens do Primeiro Mundo. O Primeiro Mundo caíra havia muito tempo, nos dias da Guerra de Inverno. A Ordem estava tentando construí-lo novamente quando tudo isso aconteceu… este massacre, que seu povo chama de Glória.
Maggie olhou-o fixamente.
– Não – disse ela. – Eu não sei por que você está me contando isso. A Ordem estava lutando com o Caos. Trazendo perfeição aos Mundos. E quando sua missão foi finalmente cumprida, então o Inominável chamou-os à sua morada…
– Maggie – disse Adam. – Abra seus olhos. Este mundo parece perfeito para você? – Ele fez uma pausa para deixar as palavras penetrarem nela. – Olhe para ele: milhares de pessoas mortas com a praga. A Cidade Universal reduzida a um poço de corrupção e vício. Negociantes estrangeiros em cada praça, fazendo o lugar feder com sua comida, seus animais, seus modos pagãos. Escravos sendo traficados em lugares onde se erguiam bibliotecas. Covis de ópio e contrabandistas de bebida nos degraus da própria catedral. O Caos onde a Ordem costumava estar. Era por isso que a Ordem estava lutando? É isso que você chama de perfeição?
Lentamente Maggie balançou a cabeça. Agora que ela começara a pensar nisso, as histórias realmente não faziam sentido. Almas arrebatadas pela Glória celestial; corpos deixados para apodrecer na terra. E a epidemia – certamente aquilo não havia sido parte do plano…
– Mas se você estiver certo – perguntou ela, por fim –, então, o que aconteceu com a Ordem? Como dez mil pessoas puderam morrer, todas de uma vez, numa fração de segundo?
Agora Adam sorria para si mesmo.
– É o que eu vim lhe contar – disse ele. – Este é o motivo de minha missão me trazer até aqui. Seus pais, seus irmãos, seu tio Elias, todos os outros Mestres, Professores e Inspetores da Ordem, toda essa boa gente que deu a vida para manter os Mundos livres da corrupção e do Caos… – Neste momento os olhos azuis do jovem cintilaram, e seu rosto se iluminou com um brilho fervoroso. Ele se virou mais uma vez para Maggie e lançou-lhe seu olhar mais honesto.
E então pôs sua mão nas dela, e Maggie sentiu um tremor de alguma coisa passando por seu corpo, uma súbita onda de calor misterioso quando ele olhou para ela e sussurrou:
– Eles não morreram com a Glória, longe disso. Eles foram assassinados, Maggie.