Luz das Runas
Capítulo 6
Esperando junto à Ponte de Rhydian, Ethel estava se sentindo inquieta. Não havia qualquer razão aparente para isso. A Bjarkán não havia revelado surpresa alguma. A ponte, embora antiga, era apenas uma ponte. O espaço sob as pilastras era apenas um local conveniente para reuniões.
Então, qual era o problema se o Povo de Rhydian fosse um pouco distante? Se os degraus sob a ponte fossem velhos e um tanto pobremente cuidados? A Vidente tinha nervos mais fortes que isso e estava ligeiramente irritada por seu eu mais fraco – a mulher que uma vez fora Ethelberta Parson – parecer ter desenvolvido um inaceitável caso de nervosismo.
Ela havia esperado por quase uma hora quando a Mente e o Espírito de Odin baixaram num voo para juntar-se a ela ao lado da ponte. Nos últimos dias, Hughie e Mandy haviam sido visitantes ocasionais do Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo, mas o Astuto há muito parou de esperar que fizessem qualquer espécie de contribuição valiosa. Às vezes eles podiam ser atraídos com frutas, ou biscoitos, ou torrões de açúcar; mas na maior parte do tempo agiam como lhes dava na telha, desaparecendo pelo dia todo, e depois retornando como se nada houvesse acontecido, grasnando com suas vozes ásperas – Kaik. Kaik. Kaik.
Ethel gostava dos corvos. Eles eram tudo que lhe havia restado de seu marido. A parte Vidente dela recordava quando eles raramente saíam do lado dele, tão parte do Pai Supremo quando seu manto azul e seu chapéu de aba larga. O Ragnarók mudara isso, naturalmente, como havia mudado muitas coisas. Mas enquanto Hugin e Munin viajavam pelos céus, ela sentia que ainda havia esperança.
Ela enfiou a mão no bolso e retirou um punhado de passas. Espalhou-as no chão.
Ack-ack!
– Vocês estão aí, meus maltrapilhos. – Ela usou um dos nomes que Odin dava para eles e sentiu uma onda de nostalgia. Os corvos bicaram a oferenda, depois se bicaram um ao outro maldosamente.
Quando a comida acabou, eles adotaram de volta seus Aspectos humanos e se empoleiraram – Hughie à esquerda, Mandy à direita – em dois grandes abacaxis de ferro que adornavam os corrimões da ponte.
Ethel olhou-os com uma mistura de divertimento e irritação.
– Por onde vocês dois têm andado? – quis saber ela.
Hughie deu de ombros.
– Ah, aqui e ali. Fim de Mundo. Sonho. O de sempre.
– Alguma notícia dele?
– Talvez. Saberemos mais daqui a um tempinho.
– E o Cavaleiro da Carnificina? – Ethel tentou disfarçar a impaciência de sua voz.
– Estamos trabalhando nisso. Dê um tempo. – Hughie soltou um bocejo monumental. – Não é fácil, fêmea, você sabe. Não é como nos velhos dias. As coisas mudaram.
– Eu sei – disse a Vidente. – Mas o tempo é curto. E nós temos o pequeno problema de uma profecia a cumprir.
– Bem, você já levou em conta – falou Hughie – que a profecia pode bem ser cumprida façamos nós qualquer coisa ou não? Quero dizer, depende de você adotar o ponto de vista de que tudo é predeterminado, portanto não importa o que façamos; ou você concorda com a teoria de que todas as ações são governadas pelo livre-arbítrio cósmico?
Ele parou, notando uma passa que ele e Mandy não tinham percebido. Mudando para sua forma de corvo, pulou de seu poleiro e recolheu-a com o bico. Depois, mudou de Aspecto outra vez e foi ficar ao lado de Ethel.
– Eu sinto falta dele – disse ela.
– Eu sei que sim.
– A profecia não torna isso claro. Será que estamos fazendo a coisa certa?
Hughie pôs seu braço sobre o ombro dela. Seus anéis de prata reluziram à luz das lâmpadas.
– Só o tempo dirá, fêmea. Só o tempo dirá.
De repente Mandy, que ainda parecia estranhamente parecida a um pássaro, a despeito de seu Aspecto humano, crocitou.
– O que foi, Mandy?
Ack-ack-ack. Crawk.
Hughie, que parecia entender a linguagem de Mandy não importando o que ela falasse, escutou, com a cabeça empinada para um lado. Ele franziu o cenho em concentração.
Mandy falou novamente. Crawk. Sua voz era áspera e urgente. Crawk. Ack-ack. Crawk. Ack-ack.
Hughie voltou a olhar para Ethel.
– Mandy diz que é a hora – falou ele.
Ethel fez que sim com relutância.
– Parece um risco tão grande! – falou ela. – E nós ainda podemos perder tudo…
Ele deu de ombros.
– Quando estamos jogando tudo, você tem o risco de perder tudo.
Ela sorriu.
– Você até soa como ele agora. Ele tem certeza disso? Ele está em segurança, ao menos?
Hughie deu de ombros.
– Esteja certa disso: onde quer que ele esteja, o Velho Homem está onde quer estar.
E, dizendo isso, ele retomou seu disfarce de corvo, e os dois pássaros de Odin partiram num alvoroço de asas para dentro da névoa que se erguia por debaixo da ponte de Rhydian.